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4 contos, 4 mundos, 4 mulheres, 4 universos

Anna Zêpa e Tânia Reis em cena<br>Foto: Maurício Pisani
Anna Zêpa e Tânia Reis em cena
Foto: Maurício Pisani

Primeira montagem da Cia. As de Fora traz adaptação coletiva de quatro contos do escritor moçambicano Mia Couto, extraídos de O Fio das Missangas. O espetáculo Ninguém no Plural, que estreia dia 5/agosto e fica em cartaz até 27/agosto no Sesc Consolação, aborda as relações humanas e seus desencontros com uma narrativa rica em objetos, cheiros e sons

A potiguar Anna Zêpa e a portuguesa Tânia Reis, que constroem em cena as figuras femininas presentes nos quatro contos adaptados de Mia Couto (O Cesto; Meia Culpa, Meia Própria Culpa; A Despedideira e Os Olhos dos Mortos, fundaram a Cia. As de Fora em 2012 e juntamente com Kuarahy Fellipe, que interpreta o antagonista dessas histórias, e a diretora Rita Grillo, desenvolveram a dramaturgia do espetáculo. Rita conversou com a EOnline e contou um pouco sobre este processo.

EOnline: Como foi construir o espetáculo juntos?
Rita Grillo: Na verdade foi muito bacana, foi realmente uma construção de grupo. Não dá para dizer de nenhuma ideia: isso é meu, pois tudo foi tão retrabalhado e pensado coletivamente, que pertence realmente a todos. E não só aos atores e à direção, mas a toda a equipe, todos estiveram presentes durante o processo, então muitas ideias surgiam de um comentário de alguém da equipe, e a partir daí se desenvolviam.

As propostas dos atores surgiam a partir de provocações da direção, e esta primeira “cena” se tornava o ponto inicial para as experimentações cênicas que foram construindo a dramaturgia do espetáculo. Foram tantas ideias, muita coisa ficou para trás, e o que temos agora realmente tem o dedo de todos os envolvidos.


EOnline: Onde os quatro contos (O Cesto; Meia Culpa, Meia Própria Culpa; A Despedideira e Os Olhos dos Mortos) extraídos de O Fio das Missangas e tão distintos entre si se encontram?
R. G.: Em primeiro lugar são narrativas femininas, na primeira pessoa, como monólogos. Todas as histórias giram de alguma forma em torno da relação da protagonista com um homem (o marido, o amante que a abandonou). Esteja ele presente ou não na história, sua ausência é fundamental para a dor dessas personagens. Em dois dos contos a mulher mata o marido, num terceiro ela deseja a sua morte. E no mais poético deles, A despedideira, ela vive na esperança de rever o homem que a abandonou há anos, vive de lembrança de um amor por alguém que não existe mais.

Durante nossas conversas pensamos muito sobre as relações de amor dessas personagens com seus homens, e sempre retornava a questão do desencontro, da impossibilidade do amor simplesmente pelo fato de as pessoas não conseguirem se ver, se falar. Isso, para nós, é muito claro no conto O Cesto, onde a mulher lamenta que o marido nunca a deixou viver, fazer o que queria, e por isso deseja a sua morte. Mas quando ele finalmente morre ela volta para o mesmo ponto, não realiza a transformação.

Durante o processo de criação do espetáculo, de tanto repetir o texto, começamos a encontrar cada vez mais pontos coincidentes. Nenhuma dessas mulheres se tornou mãe (duas sofreram abortos), todas de alguma forma responsabilizam o outro (o homem) pela sua infelicidade, todas desejam mudar, e a libertação (em três contos) passa pela morte do homem. A lembrança e a memória também surgem como um ponto coincidente.

EOnline: Recentemente outros núcleos teatrais, como A Outra Companhia de Teatro (BA), Grupo Matula Teatro (SP) e o Grupo Peleja (PE), fizeram montagens de textos de Mia Couto. Em sua opinião, a língua aproxima as histórias de nossa realidade? Há alguma outra obra do autor que você já imaginou representada nos palcos?
R. G.: Sim, acredito que a língua portuguesa nos aproxima das histórias de Mia, mas acho que é principalmente a universalidade de seus personagens que faz com que nos sintamos identificados com elas. Essas mulheres dos contos que tratamos são reconhecíveis para todos. Lembro de quando li os contos pela primeira vez: pensei imediatamente nas mulheres do Chico Buarque, nas mulheres do Bergman (Ernst Ingmar Bergman, dramaturgo e cineasta sueco), na minha mãe, na mãe sempre presente nos romances da Marguerite Duras (escritora e diretora de filmes vietnamita), na Mrs. Dalloway de Virginia Woolf ( escritora, ensaísta e editora britânica)... ou seja, em tantas personagens diferentes, criadas por artistas de épocas e nacionalidades diferentes, e ao mesmo tempo em mulheres reais, minha mãe, minha tia, a bisavó da Tânia Reis, a avó da Anna Zêpa... eu mesma! Isso porque as mulheres do Mia são mulheres, são pessoas. Suas dores, angústias, medos, são universais... não se trata da mulher moçambicana, ou da mulher brasileira.

Mesmo as questões sociais que aparecem (a violência doméstica, as questões raciais) são questões presentes em todos os lugares. Uma menina negra e pobre que se sente excluída e não ousa entrar no cinema infelizmente não é uma realidade desconhecida para nós. Uma mulher que apanha regularmente do marido também não. Estamos cercados por esses dramas, alguns tão próximos que parece que estamos falando de nós mesmos.

Neste trabalho pude me aprofundar melhor na literatura de Mia Couto, mais do que como leitora apenas, mas numa relação de criação que me fez sentir muito próxima, como que abraçada por ela. É um universo tão rico que com certeza pode motivar outros (lindos) projetos.

EOnline: A trilha sonora muitas vezes marca o espetáculo, a de Ninguém no Plural foi criada pelo músico paulistano Rômulo Froes. Como se dá essa relação de sentimento e música na peça?
R. G.:  O Romulo foi extremamente sensível no modo como capturou na trilha muito do sentimento de opressão e desamparo das personagens. Ele compôs um fado, cantado pela nossa atriz portuguesa, Tânia Reis, com frases extraídas do conto A despedideira, tão lindo que devia ser gravado! A peça se constrói em dois momentos, num primeiro os contos são apresentados de um modo mais cartesiano, contados um a um, separadamente, e a partir de um ponto as coisas se misturam, se confundem, se unificam.

Este segundo momento é inteiro musicado, todo regido pela trilha sonora. Os sons graves que ele propõe vão de encontro ao sentimento geral da peça, e ao mesmo tempo o Frank Sinatra se mistura a essa trilha, criando a confusão entre euforia e desespero que vai se instalando em cena. Os temas musicais, que reaparecem em diversos momentos, contribuem para essa construção de uma dramaturgia não linear e que se costura como uma teia, ligando os diversos contos entre si.  

A Cia. As de Fora preparou um teaser para você sentir um pouquinho do espetáculo:

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Cia. As de Fora

Escritor Mia Couto vence o Prêmio Camões 2013 (matéria no portal G1, publicada em 27/05/20130

Site de Rômulo Froes, que criou a trilha sonora do espetáculo

Sobre Ernst Ingmar Bergman

Sobre Marguerite Duras

Sobre Virginia Woolf