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Pautas Sociais - Racismo Ambiental no Vale do Ribeira

Foto: Karla Priscila
Foto: Karla Priscila

Com a intenção de criar um campo de circulação de saberes, práticas e performances sobre temas contemporâneos que impactam nas relações sociais, no contato com as lideranças comunitárias e com o público, o Departamento Nacional do Sesc apresentou o Pautas Sociais: Rota Sudeste, com ações realizadas durante o ano de 2019, em  Minas Gerais - Venda Nova; Rio de Janeiro - Madureira; Polo de Referência de Paraty e São Paulo - Registro.

Localizado no centro da cidade, às margens do rio e no Vale do Ribeira, o Sesc Registro foi o quarto destino a receber o Pautas Sociais: Rota Sudeste. O evento, que aconteceu nos dias 13 e 14 de dezembro, trouxe ações integradas com as comunidades quilombolas e teve como objetivo principal trazer visibilidade à questão do racismo ambiental e refletir sobre  o por quê de alguns conflitos que permeiam as relações sociais, além de valorizar e ressignificar a diversidade ecológica, o patrimônio ambiental e a diversidade cultural existente no Vale do Ribeira.

Para isso a programação contou com danças tradicionais, mostra de saberes junto às comunidades Abrobal, André Lopes, Ivaporunduva, Morro Seco, Nhunguara I e II, Pilões, Piririca, Porto Velho, Sapatu e São Pedro e com  roda de conversa sobre O Que É Racismo Ambiental?, com a Doutoranda e primeira  mestre quilombola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Maira Rodrigues da Silva;  Oriel Rodrigues, Bacharel em Direito e Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná, PPGMADE – UFPR; Osvaldo dos Santos, morador do Quilombo Porto Velho, produtor de mel, rapadura, arroz, taiada e Andrew Toshio Defensor Público do Estado de São Paulo com atuação em prol de comunidades tradicionais, especialmente quilombolas, na região do Vale do Ribeira, e mestrando em Direito Socioambiental pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná., trazendo reflexões sobre causas de impactos ambientais e socioculturais que vêm atingindo a região.

 

Pautas Sociais - Rota Sudeste

 

“As comunidades tradicionais andam na contramão do sistema capitalista, (no sentido de sistema individualista), elas andam de forma coletiva, o trabalho é coletivo, a terra é coletiva, a discussão é coletiva. Trazer esse tema para o Sesc, é pensar numa proposta política epistêmica de desenvolvimento de forma coletiva e participativa”. Marcia Cristina Américo, doutora em educação e aquilombada no Quilombo São Pedro

“Estamos numa região de mata atlântica continua, onde está localizada a maior área de vegetação preservada do país e essa preservação ambiental só se dá por causa da presença desses povos”. Luiz Marcos, professor e quilombola do Quilombo São Pedro

“Quando eu era criança eu vivia na mata, nadava nos rios, e hoje não. Você é mais privada dessas coisas. Não pode nadar no rio porque tá sujo, não pode ir na mata porque não pode... Meus pais, avós, tataravós nasceram e se criaram cultivando a terra, sem degradar o meio ambiente... Esse evento é importante pra gente porque as pessoas podem começar a entender porque a gente faz as manifestações... nas várias vezes que fizemos manifestações fomos taxados como preguiçosos, como pessoas que não tem o que fazer, quando o nosso objetivo é somente manter a terra para que possamos plantar”. Luzelda Pereira de Morais, quilombola do Quilombo André Lopes

“Para nós quilombolas um evento como este é importante porque podemos mostrar o que a gente produz: mel, farinha de mandioca, feijão, arroz; tudo o que produzimos para sobrevivência; conseguimos divulgar nosso trabalho, nossa luta e resistência... A questão da mineração é o que mais nos atinge diretamente, o foco das empresas mineradoras são os territórios quilombolas porque os estudos dizem que tem minério. Estamos preocupados, isso é realmente um racismo ambiental, eles não se preocupam com o nosso modo de vida”. Vandir dos Santos, agricultor familiar do Quilombo Porto Velho

Mas, afinal, o que é Racismo Ambiental?

Segundo o Geledés – Instituto da Mulher Negra, racismo é um conjunto de práticas de uma determinada raça/etnia que, estando em situação de favorecimento social, coloca outra(s) raça(s) em situação desfavorável, enquanto exaltam, direta ou indiretamente, a sua própria. Essas práticas podem ser conscientes ou não, propositais ou não.

O Racismo ambiental refere-se às políticas e práticas que prejudicam predominantemente grupos étnicos vulneráveis. No modelo atual de desenvolvimento, as ações que promovem a destruição do ambiente e o desrespeito à cidadania afetam, de maneira direta, comunidades indígenas, pescadores, populações ribeirinhas e outros grupos tradicionais.

O racismo ambiental se manifesta na tomada de decisões e na prática de ações que beneficiam grupos e camadas mais altas da sociedade, que atuam dentro da lógica econômica vigente. Neste contexto, projetos de desenvolvimento são implantados em regiões onde vivem comunidades tradicionais, sem que haja a preocupação com os impactos ambientais e sociais para estes grupos.

Muitas vezes ligado aos impactos trazidos pela construção de cidades e grandes empreendimentos, construção de barragens, implantação de hidroelétricas, mineração, desmatamento, esgoto não tratado e uso de fertilizantes químicos próximos a territórios étnicos, o racismo ambiental está diretamente relacionado ao consumo e ao sistema capitalista.

Além de impactar o ambiente com a poluição e contaminação de solos e rios por meio de agentes patogênicos e substâncias tóxicas atos como estes afetam a saúde da população e acabam prejudicando o crescimento de uma comunidade em sua essência, quando, por exemplo, proíbe que pessoas que sempre viveram num determinado território não tenham mais acesso ao rio, pesquem, plantem ou façam suas roças (na maioria das vezes, elemento central e questão de sobrevivência para muitas comunidades).

Este tipo de racismo acontece quando os povos tradicionais e as populações periféricas não recebem o mesmo tratamento dado a moradores de áreas centrais e urbanas, quando ocorre desapropriações arbitrárias, perdas de direitos ou indiferenças e desrespeito a formas de vida de um determinado povo, sua cosmovisão, conhecimento ancestral e relação com natureza.

Para ajudar a evitar tudo isso, você pode começar olhando para os produtos que consome e procurar fazer uma simples reflexão: Qual a origem deles? Como são feitos? O quanto degrada o ambiente? Quanto você os consome? Sua produção afeta a sobrevivência de alguma comunidade?; além de procurar conhecer e entender um pouco mais sobre como vivem e sobrevivem os povos tradicionais.

Em forma de poesia o quilombola, poeta, musico e compositor Júlio Cesar da Costa nos contou um pouco mais sobre as belezas da região do Vale do Ribeira, veja só:

 

Vale Encantado

Um Vale onde as manhãs
Despencam entre neblinas,
E vão acordando as serras,
Que surgem entre cortinas,
Pintando um verde manto,
Posto em camadas finas.
Um Vale onde as águas
Brotam em todo o lugar,
E vão tecendo as curvas,
Para um novo navegar,
Aos braços da gravidade,
Vão descansar no mar!
Um Vale onde a história
Perpassa como um canto.
Desvendando mistérios,
Dores, sagas e acalanto.
Revelando em florestas,
Cada qual com seu canto.
Um Vale de Riquezas,
Das serras ao litoral.
De rios e cavernas,
Que nunca se viu igual,
Pintando toda a mata,
De flores sazonais.
Um Vale de tantas lendas,
Piratas e tesouro,
Fazenda Caiacanga;
Velho Morro do Ouro;
Rio no fundo da terra;
Águas do varadouro.
Vale de tantas serras,
Sonho que nunca acaba,
Serra do Alto Cadeado;
Linda Paranapiacaba;
Serras do Ariri;
Indo a Guaraqueçaba.
Vale e seus caminhos,
Da praia ao interior.
Rota de Peabiru;
Trilha do Imperador;
Caminho dos Jesuítas;
Trilha do Caçador.
Vale de suas guerreiras,
Senhora Maria Joana;
Forte Rita Galdino;
Negra Sebastiana;
Madres de Fortaleza;
Musa Francisca Julia;
Negra Chulês Princesa.
Vale de sons e ritmos,
Mão de pilão e Tutuca,
Viola branca fandangueira,
Mão esquerda e Inhá Maruca,
São Gonçalo meu padrinho,
Balanço de passadinho.
E deslizar de canoa.

Júlio Cesar da Costa