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Cidades de Atitude - Territórios Sonoros do ABC

Banda Giant JellyFish | Arquivo | Fotografia: Rafael Melo
Banda Giant JellyFish | Arquivo | Fotografia: Rafael Melo

* Por Vinícius Castelli

Descobrir sobre como as cidades da região do Grande ABC paulista colaboraram para a formação do cenário musical brasileiro nas últimas décadas. É disso que trata o projeto Territórios Sonoros do ABC, uma série de documentários idealizada pelo Sesc Santo André e Sesc São Caetano.

No primeiro episódio, intitulado Cidades de Atitude, conhecemos, por meio de depoimentos dos artistas locais, como um grande movimento, que se iniciou nos anos 80 com ritmos pesados, como rock, heavy metal e thrash, gerou uma cena musical pulsante e de grande importância na região que se desdobrou posteriormente no surgimento de diversas bandas dos mais variados gêneros musicais.

Mergulhar neste trabalho, falar com pessoas e desbravar memórias, permitiu diversas descobertas incríveis. Para mim, morador da região e envolvido com arte, sobretudo com música desde o fim da infância, é uma grande honra contar um pouco de como este território construiu artistas, movimentos e fez com que diversas carreiras surgissem.

Ao longo da pesquisa foi possível observar como uma ação, realizada por um engenheiro recém-formado, disposto a largar a carreira para se dedicar à paixão pela música e discos de vinil, fomentou e fomenta até hoje tantas outras possibilidades. Os gêneros heavy e thrash metal (ritmos surgidos na Europa e Estados Unidos, respectivamente, e que têm como característica guitarras distorcidas, músicas velozes e clima de rebeldia nas canções) chegaram ao ABC no início dos anos 1980, sobretudo com a passagem de bandas estrangeiras como Queen, Van Halen e Kiss pela capital paulista, em meados da mesma década, e quando estas linguagens ganhavam força pelo mundo. 

Em 1985 aconteceu a primeira edição do Rock in Rio. O festival, realizado no Rio de Janeiro, televisionado e esperado por todos os roqueiros brasileiros, contou com shows de artistas internacionais como Whitesnake, Iron Maiden e Ozzy Osbourne, todos no auge de suas carreiras, o que fez com que uma "febre" destes gêneros musicais se espalhasse por São Paulo e ABC. 

Pouco antes disso, a região já estava sendo tomada pela cena punk. Bandas locais como DZK (@bandaDZK), Garotos Podres (@garotospodresoficial) e Grinders foram algumas das responsáveis pelos primeiros passos. Os grupos, pelas sete cidades do ABC (Santo André, São Bernardo, São Caetano, Mauá, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra), surgiam aos montes, em todas as linguagens.

Banda DZK na década de 90 | Fotografia: Reprodução Territórios Sonoros do ABC | Acervo pessoal

 

Incrível saber como esses grupos, tanto punks quanto de outros gêneros, muitas vezes formados por amigos, foram responsáveis, ainda que sem saber, por pavimentar tudo o que veio depois. Na época, sem internet e celular, a caça pelo conhecimento musical era na “raça”, como se costumava dizer. Não havia tantas lojas de instrumentos como se vê hoje e o acesso às informações era limitado. Ao mesmo tempo em que essas linguagens sonoras estavam chegando por aqui, os estúdios de gravação, muitas vezes, não sabiam como fazer o registro destes tipos de música conforme as bandas precisavam, como nos conta Alexandre da Cunha - baterista, cantor e criador da banda andreense MX (nome que surgiu por conta do míssil norte-americano LGM - 118 Peacekeeper, conhecido como MX, criado na segunda metade da década de 1980 e conhecido por ser o mais potente do mundo, à época).

Banda MX na década de 80 | Fotografia: Reprodução Territórios Sonoros do ABC | Acervo pessoal

 

Quando o assunto é som “pesado” a região do ABC sempre foi e ainda é referência, tanto que conseguiu ter um registro em disco de vinil com quatro bandas locais tocando ao vivo em 27 de janeiro de 1987, no Teatro Municipal de Santo André. O LP foi lançado pelo extinto selo andreense Fucker (também loja de discos). Batizado com o nome Headthrashers, este LP reunia os grupos locais MX, Necromancia, Blasphemer e Cova. “A gente tinha noção que se tratava de algo importante” - nos conta Alexandre Cunha, da banda MX (@mx_thrashmetal_official).

Os que começaram a trilhar o caminho nos anos 1980 e 1990 são motivo de orgulho para os que surgiram décadas depois. No ABC, os integrantes das bandas fazem questão de dizer que todos se ajudam e realizam juntos eventos entre veteranos e novatos, entre punks, grupos de metal e outras vertentes. 

Teka Almeida | Banda Giant Jellyfish | Fotografia: Billy Albuquerque/ Coletivo Rock ABC

 

Entre as artistas mais novas está a cantora Teka Almeida, do grupo Giant Jellyffish (@giantjellyfish_band), que destaca a importância da união e do respeito mútuo no meio artístico. Fala com orgulho de outras bandas locais que reúnem mulheres, como é o caso da Punho de Mahin (@punho_de_mahin), grupo que conta com pessoas negras (duas mulheres e dois homens) e que também está no documentário para falar de sua luta e das bandeiras que levanta. 

Banda Punho de Mahin - 2019 | Fotografia: Reprodução Territórios Sonoros do ABC


Ao longo da pesquisa e das entrevistas realizadas para a produção do documentário Territórios Sonoros do ABC, algo que chamou muito a atenção foi o fato de absolutamente todos os participantes destacarem que a região do ABC paulista é um dos berços desses movimentos musicais. As pessoas citam com orgulho o fato de haver casas na região que dão espaço à música autoral, como é o caso do 74 Club, Apostrophe, Rising Power e Metal Music
 

Banda Giallos - 2019 em apresentação no Sesc Belenzinho | Fotografia: Reprodução Territórios Sonoros do ABC

 

E por falar em Metal Music, a loja foi criada há 37 anos por Jean Gantinis e tem justa homenagem na região pelo pioneirismo e o fomento deste cenário musical no ABC. Também ganha destaque neste contexto o trabalho do Coletivo Rock ABC (grupo que soma músicos, ilustradores, jornalistas, fotógrafos, pequenos empreendedores, chefs e outros profissionais) que conseguiu a criação do Dia Municipal do Rock em Santo André, na data de 27 de setembro, justamente o dia da abertura da lendária loja de discos Metal Music.

Loja Metal Music em 1999 | Arquivo | Fotografia: Acervo pessoal

 

Quando feita com respeito e amor, além de divertir, a música tem outros poderes: o de libertar, colocar os demônios para fora, de apontar as mazelas, fazer críticas sociais e despertar novos olhares para as questões importantes. E a música realizada pelas bandas do ABC cumpre todos esses quesitos e, por vezes, consegue unir as pessoas, mesmo que seja com dificuldades.

Quando se fala em diversidade no meio musical, o punk se destaca como o gênero que apresenta maior presença de mulheres e pessoas negras, por exemplo, além de uma maior representatividade LGBTQIA+. Em outros gêneros musicais deste cenário sonoro do ABC, ainda é preciso maiores avanços nesta questão, mas já vemos passos realizados neste sentido.

Malka - artista, DJ, musicista, multi-instrumentista e produtora musical (@malkajulieta.b) | Fotografia: Reprodução Territórios Sonoros do ABC 

 

Já sobre a representatividade no cenário musical, as bandas da região do ABC paulista ganharam renome internacional, realizando turnês em países da Europa e América do Sul. Um dos exemplos é o grupo MX, com passagem por países como Peru, onde tocou em 2015 no Lima Metal Fest. O extinto Nitrominds, com diversas passagens pela Europa. Vale citar ainda o Statues On Fire (@statuesonfire), com seis turnês pelo continente Europeu. Isso sem contar em nomes como Andreas Kisser, guitarrista de São Bernardo que faz, há décadas, sucesso com a banda mineira Sepultura e com shows pelos quatro cantos do mundo.

Banda Statues On Fire -2019 | Fotografia: Reprodução Territórios Sonoros do ABC

 

Há quem tenha feito carreira apenas no ABC, quem tenha conquistado espaço em São Paulo e quem tenha feito incansáveis turnês pelos países estrangeiros. Mas encontramos uma nota em comum que ressoa no discurso emocionado de todas as pessoas que fizeram e fazem parte da história deste cenário musical na região: o orgulho de pertencer a esses Territórios Sonoros do ABC.

*Vinícius Castelli já foi colunista e repórter de cultura do Diário do Grande ABC, além de ter cuidado de uma coluna na Rádio Globo, é autor do blog Pilha na Vitrola e consultor para bandas independentes. 

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Na busca por um panorama sobre como as cidades do Grande ABC colaboraram para a formação do cenário musical brasileiro nas últimas décadas, o Sesc Santo André e o Sesc São Caetano realizam o projeto Territórios Sonoros do ABC, uma série de documentários que estreia no dia 22/10, às 19h nos canais youtube.com/sescsaocaetano e  youtube.com/santoandresesc.

Os documentários foram construídos por meio dos depoimentos dos artistas da região, que participaram ativamente na construção destes cenários musicais. Os convidados resgatam suas memórias e contam histórias vividas nos períodos, destacando como os espaços do Grande ABC foram, e ainda são, lugares de convivência que possibilitam momentos históricos, encontros, experiências de criação, inovação e articulação.

Para saber mais sobre o projeto acesse o artigo:

Territórios Sonoros do ABC 

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