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Do mato ao prato

Peter Webb durante o curso
Peter Webb durante o curso "Introdução aos Sistemas Agroflorestais". Foto: Rejane Pereira

Nos dias 7 e 8 de novembro, o Sesc Interlagos realizou a terceira edição do curso "Introdução aos Sistemas Agroflorestais", como parte da programação socioambiental da unidade. No curso foram abordados, de forma teórica e prática, os princípios deste sistema que representa uma interessante alternativa à produção de alimentos. Um Sistema Agroflorestal (SAF) consiste em conciliar o manejo de áreas florestais com a agricultura e é capaz de restaurar o ecossistema onde for produzido.

A primeira edição do curso, realizada em 2014, contou com a implementação de um SAF em uma área degradada do Sesc Interlagos. Foi feito o plantio de diversas espécies nativas da Mata Atlântica associada a espécies da roça (como abóbora, mandioca, batata-doce e feijão), espécies de adubação verde e espécies ornamentais.

Na segunda edição, em 2015, foi realizada manutenção do sistema, novos plantios e colheitas dos alimentos produzidos.

A terceira e mais recente edição, realizou o manejo e expansão da área do SAF e também a colheita e preparo das batatas-doces plantadas nas edições anteriores. Ao final das atividades, as batatas-doces foram consumidas em um piquenique coletivo, proporcionando ao público vivenciar todo o processo de produção dos alimentos agroecológicos.

O curso contou com a presença de especialistas do tema: Simone Bazarian, Paulo Fonseca e Peter Webb, importante referência na prática e no ensino da Permacultura e da Agrofloresta.

Logo após as atividades, Peter conversou com a EOnline sobre os sistemas agroflorestais:

Pode começar se apresentando.
Eu sou Pete ou Peter Webb. Sou australiano, moro no Brasil há mais de 30 anos. Sou agrônomo por profissão e trabalho dando cursos de permacultura, agrofloresta, horta urbana e telhado verde. Tudo o que é vegetal eu “sou metido”. Nos primeiros 14 anos no Brasil eu morei na roça, isolado. Mas agora eu trabalho com pessoas, grupos e a natureza.

Essa é a terceira edição do curso de agrofloresta aqui no Sesc. Você participou de todas as edições?
Sim. E tem sido incrível. Primeiro ver a resposta das pessoas querendo aprender. Ver a diversidade dos grupos de pessoas também. É incrível, sempre muito gratificante, ver gente que está estudando, pessoas que já estão trabalhando a terra, outras que pensam em comprar terra. Essa mistura de pessoas que o Sesc tem agregado aqui vale ouro porque as pessoas acabam tendo contato com várias [outras] pessoas diferentes. É muito jóia isso.

E você consegue resumir pra gente o que é agrofloresta?
Agrofloresta pra mim é um jardim grande. Eu sou basicamente um jardineiro. Mas é uma floresta. Um jardim que tem cara de floresta e que produz comida. Parece fácil de falar. Mas na verdade, o manejo da agrofloresta é o segredo. Porque tudo começa tomar uma própria vida. Quando você planta uma coisa nem imagina o que vai acontecer. E tem toda a parte do crescimento das pessoas também, que é uma coisa incrível.

E como surgiu esse conceito de agrofloresta?
Bom, na verdade os povos indígenas do mundo que fizeram. Eles não precisaram [nomear essa atividade], eles viviam desse jeito e não deram nome. O nome agrofloresta é relativamente recente, pra tentar enquadrar no conhecimento do ser humano, que conhece a palavra floresta e conhece a palavra agricultura. Então, agrofloresta é uma mistura delas. É uma ciência relativamente nova que traz esse conceito de produzir alimentos enquanto você está produzindo uma floresta.

Então é um termo novo, uma ciência nova, mas de uma prática já antiga.
Muito antiga. Na verdade, a Amazônia foi plantada e cultivada pelos índios, tanto quanto as florestas do mundo inteiro. Na Europa, na África, na Austrália. Todas elas foram cultivadas pelos povos indígenas. Só que elas não tinham razão para colocar nome neste trabalho porque era a vida. Elas chamavam de vida.

Porque você acha importante essa discussão aqui no Brasil?
Primeiro porque o Brasil é uma floresta ou era uma floresta toda. Aqui tem um clima que é muito propício. A gente tem um povo que é a imagem da diversidade do país. E agrofloresta trabalha com muita diversidade. Então, a gente consegue no Brasil fazer agrofloresta com uma facilidade que em outros países é muito mais complicado. Aqui é muito fácil.

Existe uma proposta política para sistemas de agroflorestas?
Tem. O que é ótimo. As leis ambientais no estado de São Paulo e pelo que eu li dos últimos decretos do código florestal de Dilma, agrofloresta está aceito no Brasil inteiro como técnica para reflorestar e produzir comida. Declarado em lei! São Paulo, por muito tempo, foi o único estado da União que se podia usar agrofloresta para recuperação do ambiente. Isso é muito importante. Há leis e publicações do governo a respeito de agrofloresta. Há uma galera que anda “trabalhando infiltrada” em secretarias do verde e do meio ambiente, no Sesc, em vários espaços, e que acha [esse sistema] interessante como metodologia.

A agrofloresta pode ser implementada em qualquer lugar, inclusive espaço urbano?
Sim. Eu trabalho muito na área urbana atualmente. O que é interessante no espaço urbano é que quem faz a interligação mais importante são as pessoas andando nas ruas, os pássaros e, por baixo da terra, as minhocas. Então a gente pode ter agrofloresta com cada árvore na rua. Com flores, frutas, verduras e ervas plantadas junto com essas árvores. É um conceito um pouco diferente, mas já tem em vários bairros. Pessoas que querem ervas, plantam o manjericão ou boldo junto com as árvores. Uma agrofloresta não precisa ser uma área enorme. Ela pode ser um quadriculado onde tem uma árvore plantada. E tem flores, ervas, verduras, uma orquídea ou bromélia pendurada nesta árvore. Pode ser diferente.

Qual é o seu principal público nesse tipo de curso?
Talvez metade sejam alunos ou alunas que fizeram alguma coisa de meio ambiente, alguma coisa ligada. Há pessoas que têm um sítio ou pessoas que estão sonhando em construir sua casa e morar na roça, fora cidade, fora dessa loucura. Então são pessoas variadas. O que é interessante é que todos os cursos tiveram pessoas jovens, geralmente há mais jovens do que pessoas mais velhas. Mas todos os cursos tiveram pessoas com os “cabelinhos brancos”, que estão aqui compartilhando a sua sabedoria também. É ótimo.

E qual o impacto de se implementar uma agrofloresta aqui no Sesc Interlagos?
Olha, pra gente é um presente. Porque é espaço público, trabalhando pelo público, aberto para qualquer um entrar. É uma raridade. Essa é uma inovação. Tem um movimento no mundo inteiro para resgatar espaços públicos como sendo público. Aqui, o Sesc Interlagos está a anos-luz na frente. Porque as pessoas vêm prá cá, experimentam, participam dos cursos relacionados à natureza e criatividade. O Sesc faz uma coisa muito especial e importante para a sociedade. E outros grupos podem fazer. Cooperações podem fazer a mesma coisa. Governos podem fazer mais. Mas o Sesc está abrindo fronteiras, e a gente fica muito feliz de participar disso.

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Peter Webb é formado em Ciências da Horticultura na Austrália, em Agricultura Biodinâmica em Londres, além de ter se formado como Permacultor com Bill Mollison. Foi responsável pelo Banco de Sementes do Jardim Botânico de Melbourne (Austrália) por três anos e trabalhou como cirurgião de árvores na Inglaterra. Tem mais de 30 anos de experiência com trabalhos de Agrofloresta e Agricultura Sustentável, e ministrar cursos nesse contexto há mais de 10 anos. Também atua com Paisagismo Sustentável, Agroecologia, Recuperação e Reflorestamento de Áreas Degradadas e Consultoria Ambiental. Atualmente, é responsável pela recuperação de mais de 50 ha em uma Pedreira (próxima a São Paulo) e em Itapevi e desenvolve um trabalho pioneiro em eco-psicologia em um sítio em Itapevi.