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A difícil arte de fazer (e vender) vinho

por Miguel Nítolo

É preciso dar a mão à palmatória: o vinho brasileiro vem, pouco a pouco, mesmo que vagarosamente, ocupando espaços num mercado tradicionalmente liderado pelo produto estrangeiro. É uma briga de Davi contra Golias, em que a indústria local, com apenas uma centena de anos ou um pouco mais, terça galhardamente armas contra culturas vinícolas que chegam a contar mais de 2 mil anos, como no caso da França e da Itália, tradicionais produtores. A maior concorrência, porém, não está além-mar, mas aqui ao lado: os vinhos do Chile e da Argentina, que frequentam as gôndolas dos supermercados e a mesa dos brasileiros com tamanha naturalidade que, ao menos avisado, passam a impressão de que se trata de artigo made in Brazil. Além desses quatro fornecedores, o país ainda se abastece, por exemplo, em Portugal, na Espanha, no Uruguai, na África do Sul, na Austrália, nos Estados Unidos, na Alemanha, na Nova Zelândia, na Grécia e na Hungria, só para citar os mais importantes.

Nos primeiros três meses deste ano, a importação de vinhos cravou em 9,9 milhões de litros, 1,2 milhão a menos que em igual período do ano passado. É sabido que a compra do Uruguai despencou 66%, da África do Sul, 50%, da Nova Zelândia, 34%, do Chile, 26,7%, da Argentina, 22,9% e de Portugal, 4%. Nada de anormal, considerando a corrida ao mercado internacional registrada no ano passado devido à anunciada obrigatoriedade do selo de controle fiscal para vinhos nacionais e importados pela Receita Federal. Isso gerou um crescimento atípico no volume das importações, uma demanda inflada que sempre acaba se refletindo nos resultados posteriores.

O Brasil ocupa somente a 16ª posição no ranking dos produtores, mas responde pelo quinto lugar na lista dos maiores consumidores de vinho, um dado que serve para mostrar o potencial do setor e o tamanho do mercado ainda a ser conquistado pelas vinícolas nacionais. Em 2010, de cada cem garrafas de vinho consumidas no país, 75,6 eram importadas, em contraste com os números dos espumantes, categoria em que, naquele ano, assim como em exercícios anteriores, os brasileiros sobrepujaram os similares estrangeiros: foram 77,8 litros produzidos localmente contra apenas 22,2 vindos de fora.

A oferta das vinícolas nacionais sofre altos e baixos, um comportamento que não é salutar, mas que não implica, aqui, nenhum demérito ou sinal de fraqueza, refletindo as contingências de um ramo empresarial em processo de “amadurecimento e fortalecimento”, conforme afirma Oscar Ló, diretor-presidente da Cooperativa Vinícola Garibaldi. De acordo com o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) – que utiliza os números das vinícolas gaúchas, representantes de 90% do setor –, a produção de vinhos alcançou, no ano passado, a marca de 321,4 milhões de litros, 20 milhões a menos que em 2009. Em relação a 2008, a queda foi ainda mais acentuada: 106 milhões de litros, porém a oferta praticamente repetiu os números de 2005 e superou em 45 milhões os de 2006.

Apesar desses recuos, segundo Antônio Miolo, diretor do Miolo Wine Group, o setor vitivinícola nacional está em plena expansão. “Além disso, podemos projetar um bom crescimento também nos próximos anos.” Miolo destaca que o mercado de vinhos no Brasil se ampliou mais de 60% nos últimos cinco anos. “Contudo, o país tem um consumo per capita de apenas 2 litros – uma evidência clara de oportunidade de crescimento para as próximas décadas –, contra 30 litros do Uruguai, 20 da Argentina e outro tanto do Chile”, ele diz.

Esnobismo ou inibição?

A verdade, segundo Luciana Salton, gerente de marketing da Vinícola Salton, é que o ato de beber vinho ainda não faz parte da cultura do brasileiro, ao contrário do que se vê entre europeus, argentinos e chilenos. “No exterior, os filhos crescem vendo os pais tomarem uma taça de vinho no almoço e outra no jantar; já aqui, infelizmente, esse costume é, por muitos, considerado puro esnobismo.” Luciana também debita ao desconhecimento do produto o fato de parcela apreciável da população ainda se sentir inibida para consumi-lo.

Apesar dos avanços obtidos pelas vinícolas brasileiras, ainda há muita desinformação sobre esse ramo empresarial. No segmento de vinhos finos, por exemplo, isso tem levado a um descabido preconceito em relação ao produto nacional. De acordo com José Fernando da Silva Protas, pesquisador da unidade Uva e Vinho da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a explicação pode estar na história da vitivinicultura do Brasil, que, em função das condições ambientais das tradicionais regiões produtoras, firmou-se por meio do cultivo de uvas americanas e híbridas, matérias-primas do vinho de mesa, popularmente chamado de “comum”. “Esse tipo de bebida, que ainda representa cerca de 80% da produção de vinhos do país, tem características totalmente diferentes da que se faz no resto do mundo, onde se utilizam como referência os vinhos europeus.”

Coordenador do Programa de Desenvolvimento Estratégico da Vitivinicultura do Rio Grande do Sul e da rede de Centros de Inovação em Vitivinicultura do Sistema Brasileiro de Tecnologia (Sibratec), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Protas observa, porém, que a boa aceitação do espumante nacional pelo consumidor brasileiro permite antever uma mudança de comportamento do mercado em relação aos vinhos finos fabricados localmente.

O sonho da vitivinicultura brasileira, todos sabem, é liderar o mercado interno. “Todas as nações reconhecidas como produtoras de vinho têm o domínio das vendas domésticas”, argumenta Franco Perini, gerente comercial da Vinícola Perini (vinho, licor e espumante). “A oferta na Itália é comandada pelo vinho italiano, no Chile pelo chileno, na Austrália pelo australiano, e assim por diante.” Perini bate na tecla da criação de sobretaxas e limites de importação com vistas a fortalecer a competitividade do país nessa área. “O produto estrangeiro não é onerado pelo ‘custo Brasil’”, ele lembra.

Ainda assim, os ventos estão soprando a favor, e isso merece um brinde. A safra de uva esperada para 2011 é a maior já ocorrida. A previsão do Ibravin (focada nos parreirais do Rio Grande do Sul) mostra que deverão ser colhidos 650 milhões de quilos, 25 milhões a mais que no ano passado e 12 milhões acima do resultado de 2008, que vinha sendo comemorado até agora como o período da maior safra. “Além da alta produção, que vai gerar um aumento considerável na elaboração de vinho, espumante e suco de uva, ainda vamos poder comemorar a boa qualidade da fruta colhida, especialmente a precoce e a tardia”, afirma Júlio Fante, presidente do Conselho Deliberativo do Ibravin.

A Vinícola Salton, uma das gigantes do setor, recebeu cerca de 150 toneladas de uvas por dia na primeira semana da safra 2011, que começou na segunda quinzena de janeiro. Na semana seguinte, o processamento diário alcançou 180 toneladas. “Para esta safra, espera-se um total entre 23 milhões e 24 milhões de quilos, sendo 10 milhões de uvas brancas viníferas para a elaboração de vinhos e espumantes”, conta Lucindo Copat, enólogo e diretor técnico da Salton.

Renovação

À medida que o tempo passa, a atual indústria brasileira de vinho vai ficando menos parecida com a de ontem. “Nos últimos cinco anos, o investimento das vinícolas aumentou e se diversificou”, afirma Hortência Ayub, proprietária da vinícola-butique Campos de Cima, de Itaqui, no Rio Grande do Sul. “Só recentemente a atuação comercial e de marketing das empresas do setor começou a apresentar maior agressividade.” A Miolo, por exemplo, desembolsou mais de R$ 120 milhões na década passada. “Além de adquirir novas áreas, importar mudas e investir em pesquisas, fizemos no período a reconversão total dos vinhedos do sistema latada para espaldeira, reduzindo a produtividade de 15 a 20 toneladas por hectare para 8 a 10”, revela Antônio Miolo. Ele informa que a empresa escolheu as melhores parcelas das uvas para fazer vinhos top, como o Sesmarias, o Lote 43 e o Merlot Terroir, e alterou o desenho das cantinas para instalar um novo sistema que opera com conceito enológico mais racional.

Na verdade, as grandes do setor estão se mexendo. “Completamos um século de fundação em 2010, faturamos no ano R$ 238 milhões e planejamos um crescimento de 15% em 2011 com vendas de R$ 280 milhões e comercialização de 18 milhões de litros”, relata Luciana Salton, referindo-se aos números e conquistas da Vinícola Salton. Ela expõe que, além dos planos de modernização e de investimentos na elaboração dos vinhos e espumantes, a empresa projeta o lançamento de novas linhas e mudanças no mix de produtos, como renovação de embalagens e incremento nos segmentos atuais. Além disso, está sendo preparado o lançamento de uma linha de vinhos finos especialmente para as redes de supermercados. Será uma categoria acima da linha Salton Classic, no segmento Reserva. “Líder na produção e comercialização de espumantes nacionais, a Salton prevê para este ano um crescimento de 20% nas vendas nesse segmento em relação a 2010, podendo fechar o ano com 6,4 milhões de garrafas comercializadas”, informa Luciana.

O pesquisador Protas assinala que, certamente, a abertura do mercado brasileiro, que patrocinou o ingresso de vinhos de outras origens, impôs à indústria nacional mudanças de postura e de organização como pré-requisito à sobrevivência. Ele salienta também que o processo ainda se encontra em fase de implementação e ajustes, e que há falta de uma política setorial mais adequada. “Por exemplo, a carga tributária é uma das mais pesadas do mundo”, ilustra. Protas afirma que, por conta dos tributos, no caso de certos tipos de vinhos produzidos no Brasil o imposto chega a representar 45% do preço pago pelo consumidor.

Concorrência

O enólogo Sérgio Donizeti da Silva, professor do Centro Universitário Senac, diz que os impostos e o alto custo de produção são o calcanhar de Aquiles da indústria brasileira de vinho. “Em contrapartida, os produtos importados chegam ao país com preços mais baixos, o que acaba dando margem a uma concorrência desleal.” Segundo ele, para conseguir o retorno financeiro almejado, os produtores se veem forçados a elevar os preços ou investir no aumento dos volumes produzidos. “No primeiro caso há o risco de o consumidor final se decidir pela compra de vinhos de outras nacionalidades; no segundo, será difícil aumentar a quantidade produzida sem afetar o nível da qualidade”, diz.

Por conta dessas divergências, “nossos tintos e brancos sofrem muita concorrência, principalmente dos vizinhos da América do Sul, que oferecem vinhos com melhor relação qualidade/preço”, ressalta o engenheiro José Ivan Santos, especialista em vinho com curso pela Wine & Spirit Education Trust, de Londres. Além da questão tributária, a vitivinicultura brasileira ainda apresenta desvantagem no aspecto geográfico. “As áreas vinícolas importantes do Chile e da Argentina têm clima temperado e recebem chuva na época certa. Já em nossos vinhedos o clima é tropical bastante úmido, no paralelo 29 sul, portanto, bem mais próximo do equador que a Europa. Bordeaux, por exemplo, fica no paralelo 45 norte, o que implica uma grande diferença em relação à influência do sol no amadurecimento da uva”, explica.

Autor de vários títulos sobre vinhos, Santos observa que na serra Gaúcha há nuvens em profusão, o que impede a livre incidência do sol e implica em mais chuva. “E chove no verão, justamente a época de maturação, quando as uvas precisam de sol e tempo seco.”

O clima pouco favorável à produção de tintos e brancos, todavia, é ótimo para espumantes. “Geralmente elaborados de chardonnay e pinot noir, os espumantes não precisam de uvas tão maduras para exprimir suas características de frescor com equilíbrio”, afirma. Santos mostra que, a despeito de tomarem a região de Champagne, na França, como modelo, “nossos espumantes são diferentes, porque a fruta é diferente”.

A maioria das vinícolas brasileiras exibe um alto padrão de qualidade e tecnologia, podendo ser equiparada ao que de melhor existe lá fora, garante Antônio Miolo. Na realidade, o setor tem dado passos de sete léguas. “Se olharmos para trás, para a década de 1990, por exemplo, vamos notar que as técnicas de condução das videiras e a qualidade eram diferentes; o consumidor não era exigente e a qualidade dos importados tinha um nível inferior”, explica Luciana Salton. Ela diz que se fizermos uma comparação com os vinhos brasileiros de hoje, podemos dizer que o produto daquela época era ruim. “O setor pensava apenas em volume e não em agregar qualidade ao artigo final. Eram aceitas uvas de graduação baixa e as empresas não tinham a percepção de que, com alta produção de determinada variedade, a qualidade poderia ser severamente comprometida.”

A indústria do vinho no Brasil evoluiu enormemente, confirma José Antônio Peterle, da Dunamis Vinhos e Vinhedos, uma nova vinícola-butique do Rio Grande do Sul, com vinhas em Dom Pedrito, na Campanha Gaúcha, e em Cotiporã, na serra Gaúcha. “Não estarei sendo presunçoso se afirmar que a brasileira talvez tenha sido a indústria que experimentou a mais rápida transformação no mundo do vinho”, pontifica. O enólogo Ademir Brandelli, diretor-proprietário da Dom Laurindo, fabricante gaúcha de vinhos e espumantes, tem o mesmo entendimento. Ele diz que o setor está mais profissional. “O trabalho com a uva e a elaboração dos vinhos tiveram uma grande evolução qualitativa. Podemos concorrer de igual para igual com vinhos de qualquer parte do mundo”, declara.

De fato, junto com os passos dados no mercado interno, as vinícolas brasileiras abrem brechas no mercado internacional, num trabalho de fôlego que começa a render bons resultados. Andreia Gentilini Milan, gerente de Promoção Comercial do Wines of Brazil – iniciativa do Ibravin em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) –, informa que as empresas associadas ao projeto comercializaram no exterior, no ano passado, US$ 2,29 milhões, praticamente o mesmo valor de 2009. Andreia destaca que o valor médio exportado por elas cresceu 273% de janeiro a março deste ano em comparação com igual período de 2010. “Isso significa que estamos vendendo produtos de maior valor agregado para o exterior”, esclarece, revelando que o plano para 2011 é elevar as exportações para US$ 4,4 milhões ao ano. “Atualmente negociamos com 30 países”, conta, acrescentando que as vinícolas exportadoras só chegaram a esse estágio porque investiram na adequação dos produtos e embalagens e no entendimento do mercado internacional. “Visitamos entre dez e 15 países anualmente, com o propósito de participar de atividades que têm como finalidade a promoção do vinho brasileiro”, explica.

Iniciativas paulistas

A produção de vinho no Brasil, que tem seu braço mais forte no Rio Grande do Sul, marca presença, ainda, na Bahia, em Goiás, Minas Gerais, Pernambuco e Santa Catarina, além de São Paulo. Grandes consumidores de vinho, os paulistas se projetaram no mercado com as vinícolas de Jundiaí e São Roque, mas mais recentemente perderam participação nas vendas do setor. Agora, com vistas a recuperar o terreno perdido, o estado se movimenta, buscando revitalizar uma indústria que envelheceu, mas está disposta a se renovar. “Estamos investindo em pesquisas, um trabalho levado a efeito pela iniciativa privada com o apoio do governo paulista por meio da criação da Câmara Setorial da Uva e do Vinho e dos institutos de pesquisas econômicas e técnicas ligados à Secretaria de Agricultura e Abastecimento”, diz Cláudio Góes, presidente da Vinícola Góes, empresa fundada em 1963 e que funciona com três linhas de produção, duas em São Roque e uma em Flores da Cunha, no Rio Grande do Sul.

Paralelamente a essa investida, os paulistas exibem algumas iniciativas individuais que já mostram avanços, com o cultivo de variedades híbridas e vitiviníferas em escala produtiva de pequeno porte. Góes, que também responde pela presidência da Câmara Setorial da Uva e do Vinho, informa que, entre grandes e pequenos empreendimentos, somam em torno de cem as vinícolas em funcionamento em São Paulo. É o maior mercado consumidor de vinho se mexendo para voltar a ocupar seu lugar de destaque na vitivinicultura brasileira.