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Dois generais em trincheiras opostas

por Herbert Carvalho

Por mais de um século, da proclamação da República, em 1889, à criação, na década de 1990, do Ministério da Defesa, subordinado a um ministro civil, os militares exerceram grande influência na política brasileira. Governaram diretamente, como os dois primeiros presidentes – Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto – e os cinco generais que se sucederam na presidência durante a ditadura militar (1964-85), além dos dois únicos eleitos pelo voto direto, Hermes da Fonseca (1910-14) e Eurico Gaspar Dutra (1946-51). Outras vezes respaldaram presidentes civis, caso de Góis Monteiro e do próprio Dutra durante o Estado Novo (1937-45) implantado por Getúlio Vargas, e do marechal Henrique Teixeira Lott, autor de um contragolpe para assegurar a posse de Juscelino Kubitschek, em 1955. Todos esses personagens, porém, eram homens de mais ação e menos reflexão. De cultura mediana, em geral restrita ao universo castrense, pouco afeitos às disciplinas típicas da vida civil – como literatura, filosofia, economia ou sociologia –, seus atos foram pautados por ideólogos ora da esquerda, ora da direita, progressistas ou reacionários, mas invariavelmente situados fora da caserna, com duas notáveis exceções, cujos centenários de nascimento se comemoram neste ano: os eruditos pensadores fardados Nelson Werneck Sodré (1911-99) e Golbery do Couto e Silva (1911-87), que nada tiveram em comum com o estereótipo de militar que os anos de chumbo ajudaram a plasmar.

Caso raro de general escritor, Sodré deixou uma obra com mais de 50 livros e 3 mil artigos, não apenas de história do Brasil, sua especialidade, mas também sobre os diferentes aspectos econômicos e culturais que fizeram e ainda fazem do Brasil um país atrasado, dependente e desigual. Já Golbery superou em muito seus dois livros mais conhecidos, notabilizando-se como o articulador de bastidores que ajudou a instaurar – e a superar – um período autoritário que ainda hoje projeta sua sombra sobre nossas instituições.

Antípodas

De longe os militares brasileiros do século 20 com formação cultural mais sólida, ambos tiveram muito em comum, além de viver na mesma época e participar de forma destacada dos episódios político-militares que a marcaram. Autodidatas e leitores vorazes desde a infância (deixaram após a morte bibliotecas com dezenas de milhares de livros), seguiram a carreira militar em razão das vicissitudes econômicas de suas famílias. Oficiais de Estado-Maior, passaram à reserva no mesmo ano de 1961, quando ocupavam o posto idêntico de coronel e foram então promovidos a “generais de pijama” – jargão militar usado para designar os que não atingem a patente máxima da carreira no serviço ativo.

As semelhanças, porém, param por aí. Próximos em aspectos cronológicos e profissionais, foram antípodas no modo de pensar e agir. Colocaram-se sempre em campos opostos e em conflito aberto nas muitas situações em que se defrontaram no período histórico conhecido como Guerra Fria, quando em países periféricos como o nosso quem não se alinhava com os Estados Unidos era automaticamente considerado partidário da então União Soviética, e vice-versa.

Na estrutura interna do exército pertenceram a armas distintas e a turmas de aspirantes saídas da Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, com quatro anos de diferença: Golbery, da Infantaria, em 1930; Sodré, da Artilharia, em 1934. Na Escola de Estado-Maior do Exército (Eeme), posteriormente renomeada Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Golbery faz o curso entre 1941 e 1943, enquanto Sodré, admitido nesse ano, o conclui em 1946, quando de aluno torna-se instrutor de história militar, posto que ocupará até 1950. Paralelamente, Golbery, que aprendera inglês lendo a revista “Time” e ouvindo a BBC de Londres, embarca em 1944 para um estágio na escola militar americana de Fort Leavenworth, de onde segue para Nápoles, em fevereiro de 1945, como oficial de inteligência estratégica e informações da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

A partir da década de 1950, ambos travarão, dentro e fora do exército, diversos rounds do combate ideológico que atingirá o auge em 1964. O primeiro deles foi a disputa pela presidência do Clube Militar, transformado em campo de batalha onde se digladiavam, de um lado, os nacionalistas, partidários do monopólio estatal do petróleo, e de outro os favoráveis à participação do capital estrangeiro na economia do país e ao alinhamento com os Estados Unidos, nação líder da “civilização cristã ocidental” contra as hostes do “comunismo internacional”.

Em maio de 1950 o primeiro time, liderado pelo general Newton Estillac Leal, impõe acachapante derrota ao segundo, capitaneado pelo também general Osvaldo Cordeiro de Farias – comandante da recém-criada Escola Superior de Guerra (ESG) – e composto por muitos dos que liderarão o golpe contra o poder civil uma década e meia depois (inclusive o primeiro presidente do ciclo militar, Humberto de Alencar Castello Branco).

Já então brindado com o reconhecimento intelectual, autor de vários livros e colaborador de muitas publicações, Sodré figura como diretor cultural na chapa vencedora, mas não dura muito tempo no cargo, em decorrência de um artigo não assinado publicado na “Revista do Clube Militar”, sob sua responsabilidade.

O texto, “Considerações sobre a Guerra da Coreia”, provoca furiosa campanha anticomunista da grande imprensa da época, ao responsabilizar os EUA pelo conflito, posicionando-se ao mesmo tempo contra o envio de tropas brasileiras para atuar ao lado das americanas – o que não aconteceria naquele momento, mas 15 anos depois, em 1965, na invasão ianque da República Dominicana.

O incidente, que vinha coroar a aberta afronta que o resultado da eleição no Clube Militar representava, levou o governo Dutra, já nos dias derradeiros, a deslocar seus diretores para pontos remotos do território nacional, como represália. Mesmo após a eleição de Getúlio Vargas e a nomeação de Estillac Leal para o Ministério da Guerra, o novo governo não assume o ônus político de anular as transferências de oficiais tidos como esquerdistas. Afastado da diretoria e confinado a um exílio interno de quatro anos na cidade gaúcha de Cruz Alta, Sodré também perde o posto de instrutor na Eeme. Vinculado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde a década de 1940, ele passa a pagar com o bloqueio à carreira militar o preço por sua opção ideológica, num exército cada vez mais enredado nos descaminhos do golpe.

A ESG e o futuro SNI

Essa mesma maré, entretanto, impulsiona o ascenso de Golbery, designado para a seção de informações do Estado-Maior do Exército em 1950. Promovido em 1951 a tenente-coronel por merecimento – critério que na época refletia principalmente as afinidades ideológicas do oficial com a cúpula militar e que também prevaleceu em sua promoção a coronel, em contraste com a trajetória de Sodré, que só galgou esses postos por antiguidade –, no ano seguinte ele chega ao Departamento de Estudos da ESG.

Nessa cópia do National War College americano (transplantada para os trópicos com o objetivo de integrar fardados e civis, sobretudo empresários, em um único complexo industrial militar), aqui transformada no núcleo duro do anticomunismo e da Doutrina de Segurança Nacional, Golbery “sai da casca”, conforme expressão do jornalista Elio Gaspari, autor de seu perfil no livro A Ditadura Derrotada e guardião do arquivo pessoal do general após sua morte, em 1987. Entre 1952 e 1954, ele profere uma série de conferências que, posteriormente reunidas no livro Planejamento Estratégico, apontam para uma meta que só será atingida após o golpe de 1964: a criação do Serviço Nacional de Informações (SNI).

Golbery não se limita, porém, aos conceitos teóricos transmitidos entre quatro paredes a ouvintes cuidadosamente selecionados que caracterizam a ESG: em 1954 redige o Memorial dos Coronéis e o Manifesto dos Generais – mais tarde seria também o escriba oculto por trás do documento com o qual os ministros militares tentaram impedir a posse de João Goulart, em 1961. O primeiro desses dois textos, considerado por Gaspari como “único protesto de assalariados contra um aumento do salário mínimo”, derruba os ministros da Guerra e do Trabalho de Vargas; o segundo, divulgado às vésperas do suicídio do presidente, apertara-o contra a parede, exigindo sua renúncia.

Em 1955 Sodré está de volta ao Rio de Janeiro, confinado a funções burocráticas na Inspetoria Geral do Exército, onde tem a oportunidade de fazer e servir um cafezinho aos colegas presos por terem tentado impedir a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek, entre eles Golbery – cavalheirismo que não seria retribuído quando as posições se inverteram, uma década depois.

O Iseb e o Ipes

Empossado, Juscelino estrutura o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), grupo multidisciplinar de intelectuais liderado pelo cientista político Hélio Jaguaribe com a missão de fornecer as bases do nacional-desenvolvimentismo, sintetizado pela fórmula “50 anos em 5”. Sodré responde pelos departamentos de História e de Formação Cultural do Brasil no organismo, que, ao fazer do desenvolvimento impulsionado pelo Estado sua pedra angular, contrapõe-se à ESG, erigida a partir do binômio segurança/empresa privada.

Nesse meio-tempo, Golbery, exonerado da ESG após o malogro do golpe de novembro de 1955, amarga o ostracismo até a eleição de Jânio Quadros, sob cuja efêmera presidência assume a secretaria-geral do Conselho de Segurança Nacional. Quando o país chega à beira da guerra civil na crise da renúncia, Sodré e Golbery ocupam novamente trincheiras opostas. O primeiro, na clandestinidade, luta para garantir a posse de Goulart. O segundo, na cúpula da conspiração contra o vice-presidente, comanda simultaneamente uma unidade de guerra psicológica, um serviço de censura e uma rede de escuta telefônica. Como o resultado do confronto é uma espécie de empate, consagrado pela solução provisória do parlamentarismo, os dois saem perdendo. Sodré chega a ser preso por 15 dias e ambos, ante a perspectiva de transferência para guarnições longínquas, escolhem passar à reserva.

Nos anos seguintes a batalha continua, na esfera civil. Além de trabalhar como professor de história no Iseb, Sodré atua na linha de frente para a concretização do programa de reformas de base do governo Goulart: participa da criação do Comando dos Trabalhadores Intelectuais e escreve Quem é o Povo no Brasil?, segundo título da coleção Cadernos do Povo Brasileiro, livros de bolso com grandes tiragens e linguagem acessível, editados com o objetivo de elevar a consciência popular e oferecer subsídios para orientar a intervenção no cenário político nacional. O primeiro título havia sido Que São as Ligas Camponesas?, de Francisco Julião, e o terceiro seria Quem Faz as Leis no Brasil?, de Osny Duarte Pereira.

Já Golbery integra o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), para onde levara um fichário subtraído ao Serviço Federal de Informações e Contrainformações e que servirá de base para o monitoramento de atividades políticas por meio de informes de circulação reservada, intitulados “Amostra da Infiltração Comunista no Brasil” e “Levantamento da Infiltração Comunista na Imprensa”, entre outros. Dinheiro para financiar estudos acadêmicos e operações clandestinas não faltava ao Ipes, que, bancado por grandes empresas, constituiu, segundo Gaspari, o “mais articulado e bem-sucedido episódio de mobilização da história da plutocracia nacional”.

Após a vitória do golpe, em abril de 1964, a sede do Iseb é invadida e seus documentos, arquivos e publicações queimados. Enquanto Sodré é afastado do magistério, tem seus direitos políticos cassados e passa dois meses preso, Golbery faz das fichas do Ipes, transferidas em caixas de papelão para o quarto andar do Palácio do Planalto, o núcleo do recém-criado SNI, por ele batizado de “ministério do silêncio”. Sob a égide do lema orientador de suas ações – “a vitória redime tudo” –, torna-se o primeiro chefe do órgão que, durante a ditadura, se encarregará de vigiar adversários e vasculhar a vida alheia.

Gênio da raça

Eminência parda dos governos Castello Branco (1964-67), Ernesto Geisel (1974-79) e João Figueiredo (1979-85), Golbery devia o nome à francofilia do pai, Jacintho do Couto e Silva Júnior, que decidiu homenagear o juiz e arqueólogo francês Philippe Aimé de Golbéry (1786-1854). Nascido em Rio Grande (RS), neto de um português que fundara nessa cidade portuária um comércio de arreios de prata, decadente em 1927, o jovem é encaminhado nessa época para a carreira militar no Rio de Janeiro. Obteve notas excelentes na Escola Militar do Realengo, próximas das de Luís Carlos Prestes, o melhor aluno da história da instituição. Sua obra mais conhecida, Geopolítica do Brasil (1966), livro muito citado e pouco lido, pela aridez do tema e do estilo, caracteriza-se por frases e períodos longos ao extremo.

Entre 1968 e 1973, foi presidente da filial brasileira da empresa americana Dow Chemical, com salário de US$ 10 mil mensais. Conhecido nos bastidores do poder por apelidos como Bruxo ou Satã, foi chamado de “gênio da raça” pelo cineasta Glauber Rocha, por ter articulado a distensão do regime como chefe do Gabinete Civil dos governos Geisel e Figueiredo. Admitindo que o SNI se transformara num “monstro”, afasta-se do governo em 1981, após o episódio das bombas do Riocentro, vaticinando: “Vocês serão postos daqui para fora com um pé na bunda”. Em 1987, dois anos depois da restauração do poder civil, morre de câncer no pulmão.

O sabre e a pena

Nelson Werneck Sodré, morto em 1999, sobreviveu ao seu coetâneo por 12 anos. Filho de Heitor de Abreu Sodré, advogado formado na turma de 1907 da Faculdade de Direito de São Paulo, pertencia ao ramo carioca dessa tradicional família paulista. No Rio de Janeiro, aos 11 anos de idade, interno no Ginásio Brasileiro de Copacabana, teve seu primeiro contato com a carreira militar ao se assustar com os estrondos do canhoneio do Forte de Copacabana, na revolta que marcou o início do tenentismo. Em 1924 é matriculado no Colégio Militar, onde o professor de história, Isnard Dantas Barreto, de orientação marxista, o inicia no gosto por essa disciplina, à qual consagrará suas principais obras e que até o final da vida considerará fundamental à compreensão de todas as outras.

Devorador das obras clássicas da literatura brasileira e universal desde a infância – a ponto de ser punido pelos mestres e ter livros apreendidos –, publicou seus primeiros textos nas revistas do Colégio e da Escola Militar. Em 1929, aos 19 anos, teve um conto escolhido num concurso e publicado na revista “O Cruzeiro”. Na década de 1930, em paralelo aos deveres de tenente-artilheiro em quartéis no interior de São Paulo, estreia como crítico literário nas páginas do “Correio Paulistano” e publica seu primeiro livro, História da Literatura Brasileira – Seus Fundamentos Econômicos, que, revisto e ampliado em edições sucessivas, permanece como principal contribuição do pensamento marxista ao estudo de nossa formação literária.

A maior e mais importante parte de sua produção ocorre após deixar a farda. É quando escreve História Militar do Brasil e História da Imprensa no Brasil, Memórias de um Soldado (dois volumes), Memórias de um Escritor (quatro volumes) e uma série de ensaios dedicados aos fundamentos marxistas da estética e da economia, e ao materialismo histórico e dialético. Três anos antes de morrer, toma posição na grande controvérsia de nossos dias com o último livro, A Farsa do Neoliberalismo, prefaciado pelo escritor Luis Fernando Verissimo.

Após rejeições dos que a acusavam de “ortodoxia ideológica” e de “falta de rigor acadêmico”, sua obra se torna objeto de uma redescoberta pelas universidades. Em 2002, o curso de ciências sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências de Marília, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), promoveu uma Jornada de Ciências Sociais para discuti-la, como havia feito em anos anteriores com a de Florestan Fernandes e a de Caio Prado Júnior, entre outros. As conferências e trabalhos apresentados então foram reunidos no livro Entre o Sabre e a Pena. E, em 2008, a editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro lançou o Dicionário Crítico Nelson Werneck Sodré, composto de 83 verbetes alusivos a seus livros e artigos.