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Além do céu da boca

Ilustração: Thiago Lopes / Estúdio Kiwi
Ilustração: Thiago Lopes / Estúdio Kiwi

ZELAR POR DENTES E GENGIVA TAMBÉM AJUDA NA COMPREENSÃO DE SINTOMAS E NECESSIDADES DO CORPO DE FORMA INTEGRAL

 

Somos apresentados ao mundo pela boca. Da amamentação – nosso primeiro contato com o alimento – a uma jornada de descoberta de sabores, texturas e sensações quando levamos à boca mãos, pés ou objetos. Com ela, aprendemos a elaborar sons e palavras e, dessa forma, outras portas de expressão e conhecimento abrem-se a partir deste espaço habitado por língua, dentes e gengiva. No entanto, a crença de que essa cavidade oral e os cuidados a ela direcionados estão separados do restante do corpo prejudica a preservação da saúde bucal.

“Boca é corpo. E essa boca, como corporeidade, é central na vida. Ela é a parte mais social do nosso corpo. Ela está em centralidade na nossa existência, desde o nascimento”, explicou o odontologista Carlos Botazzo, professor associado do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), no bate-papo Boca e Suas Conexões com a Vida: A Saúde Bucal para Além do Cuidado com os Dentes, realizado pelo Sesc Ideias (leia Porta de entrada).

Botazzo é criador do conceito de bucalidade, “entendido como a capacidade da boca em ser boca, isto é, exercer, sem limitação ou deficiência, as funções [manducação (consumo do mundo), linguagem e erótica] para as quais anatomicamente acha-se apta”. Ele defende que, ao falar de boca, estamos falando do ser humano como um todo. Por isso, para os profissionais de saúde da área, uma lesão de cárie, por exemplo, não deveria ser vista apenas como resultado da ingestão excessiva de açúcar e falta de limpeza correta dos dentes. Há mais razões por trás desse processo de adoecimento e elas dizem respeito ao que está acontecendo com o indivíduo e o meio onde ele vive.

 

Dos pés à cabeça

Sob essa perspectiva da boca como parte e não à parte do corpo, a professora Fabiana Schneider Pires, do Departamento de Odontologia Preventiva e Social da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que é preciso pensar na saúde bucal para além de gengivas e de dentes: “É pensar na saúde bucal em diálogo com o contexto em que a gente vive. Ela sai da doença e vai para o sujeito, seus hábitos, suas relações familiares, seu tecido cultural, para, então, pensarmos em mais ofertas de cuidado”.

Nesta pandemia, bruxismo, apertamento dos dentes, dores de cabeça e zumbido no ouvido são exemplos de problemas relatados pela população. “Mas o que isso tem a ver com a boca? Esses sintomas podem ser provocados por uma contratura muscular de face e de pescoço, seja porque a pessoa fica horas no computador, seja porque está ansiosa ou tensa. Uma insônia pode levar a uma contratura muscular. Tudo o que você faz, não só o que come, vai provocar efeitos na saúde bucal”, explica a professora.

Por isso, cuidar de si, literalmente dos pés à cabeça, é essencial, tanto quanto a higienização bucal. “Precisamos de um autocuidado que saia do clichê (usar fio dental, visitar o dentista regularmente etc.) e, também, perceber que, se há tensão e medo, podemos adotar outras práticas de cuidado com a saúde, a exemplo de um alongamento, de uma meditação”, recomenda. Por fim, Fabiana aponta o surgimento de uma nova postura da população diante da atualidade.

“Neste momento tão delicado em que estamos vivendo, a pandemia com seus efeitos, suas inseguranças, inquietações e preocupações precisa ser vista pelos profissionais como uma possibilidade de redesenhar nossos conhecimentos sobre o adoecimento. Fazer análises dos contextos de vida das pessoas e olhar para as singularidades do sujeito que adoece e não para a doença, e assim pensar em um cuidado ampliado e qualificado”, conclui.

 

Porta de entrada

Programação promove discussão sobre saúde, cultura e educação no meio digital

Neste ano, a terceira edição do Boca, pra que Te Quero? – ação que discute as diversas funções da boca e sua relação com a saúde, a cultura e a educação – foi realizada em setembro nas plataformas digitais do Sesc São Paulo, tendo em vista as medidas de restrição social para contenção da Covid-19. “Para promover saúde bucal é preciso ampliar os cuidados para além da boca. É preciso, por exemplo, cuidar do estresse que causa apertamento e fratura dos dentes, da ansiedade de morder objetos ou roer unhas, das funções sociais da boca, da fala, dos afetos, da capacidade de mastigar e engolir”, explica Fábia L. Uccelli Santos, assistente técnica da Gerência de Saúde e Odontologia do Sesc São Paulo.

 

Teatro em Cartum | Toni D´Agostinho

 

Na programação, a live A Boca e Suas Conexões com a Vida: Saúde Bucal para Além do Cuidado com os Dentes, reuniu Carlos Botazzo, professor associado do Departamento de Política, Gestão e Saúde, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), Samuel Jorge Moysés, professor titular da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), e Elizabethe Cristina Fagundes de Souza (Betinha), professora titular aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), numa conversa sobre a relação entre os conceitos transversais de saúde, as relações humanas, os marcadores sociais e a saúde bucal da população.

Outra ação do projeto, também disponível no meio digital, é uma série de três pequenos vídeos com a estética de xilogravura e de cordel. De maneira lúdica, conhecemos as histórias de Rosa Maria de Abreu Conceição da Ladainha, uma viajante que anda pelo Brasil e se depara com as infinitas possibilidades da boca.

 

Dentro das escolas

O Sesc São Paulo também realiza até novembro o projeto Sorriso é Coisa Séria, uma ação educativa de saúde bucal que contempla orientações de higiene e atividades artísticas para as crianças entre 6 e 11 anos da rede pública de ensino. Com início em 1998, no Sesc Taubaté, em uma parceria da unidade com a Universidade de Taubaté (Unitau), o projeto foi ampliado, ao longo dos anos, para outras unidades do Sesc no estado de São Paulo, estabelecendo parcerias com as secretarias municipais de Saúde e Educação.

Atualmente, a ação é realizada de forma sistemática e consistente nas unidades de Rio Preto e de Catanduva. Em ambas, foram atendidas pela ação, no ano passado, aproximadamente 23 mil alunos da rede pública. Neste ano, desde setembro, Sorriso é Coisa Séria leva aos estudantes conteúdos digitais sobre saúde bucal e cuidados, que serão distribuídos pelos professores nas plataformas utilizadas para aula. “Promover saúde bucal é cuidar de pessoas, respeitando e aprendendo com as singularidades de cada um”, complementa Fábia Ucelli. 

Confira os três episódios de cordel do Boca, pra que Te Quero?  

Assista ao bate-papo Boca e Suas Conexões com a Vida: A Saúde Bucal para Além do Cuidado com os Dentes, realizado pelo Sesc Ideias e exibido no canal do YouTube do Sesc São Paulo.

 

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