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Era uma vez...

Ilustração: Marcos Garuti
Ilustração: Marcos Garuti


Se a literatura é uma janela para compreender o espírito de cada época, a literatura infantil pode fornecer uma visão privilegiada do momento em que vivemos. Quem são os heróis e heroínas que povoam o imaginário dos jovens leitores de hoje? A especialista em educação infantil Maria Júlia de Oliveira Dias e o escritor Tadeu Costa analisam o assunto.


Minha infância
por Tadeu Costa

Na década de 1960, achava o rádio o maior (e melhor) veículo de comunicação. Gostava de ouvir Omar Cardoso, Heron Domingues, jogos do Flamengo, Santos e Atlético; imaginava os dribles, e no dia seguinte ia correndo à banca ver nas fotos as jogadas dos meus times. Passei boa parte da minha infância escutando rádio. Isso foi até os 13 anos, enquanto ajudava meu pai a chulear calças, fazer arremates e pregar botões. A entrega das peças era o momento mais especial, pois pegava a bicicleta e saía com a missão de levar a calça. Via a satisfação do cliente ao receber uma roupa bem-feita, e que eu havia ajudado a fazer... Realmente, me sentia muito importante.

Minha mãe, no primeiro dia de aula, passou um grande susto. Até hoje deve se perguntar como aquilo tudo aconteceu. Ela me levou à porta da sala, entregou-me à professora e foi embora. Mas, quando vi a sala cheia de gente e a professora ali na minha frente, não hesitei: pulei uma janela de quase 2 metros de altura e fui correndo para casa. Claro que minha mãe ficou muito, mas muito brava. No dia seguinte me levou de novo, certamente temendo que a cena se repetisse. Mas não. Era aula de desenho, e a professora contava histórias enquanto os meninos e as meninas faziam o exercício.

Daí para a frente, ir à escola tornou-se uma grande aventura. O desenho foi, portanto, a chave para ficar em sala.
Na minha casa, tínhamos o hábito de ouvir o meu avô Sebastião, que gostava de contar os causos de quando morava na roça. Quase todos envolviam a precariedade da falta de luz, plantação de milho e pescaria nos rios próximos à cidade de Laranjal. Ele foi meu primeiro grande herói, especialmente por suas diversas habilidades: fazia telhados, janelas, portas, mesas e até pontes para a famosa estrada Rio/Bahia. Era incrível, batia o prego com o dedo maior da mão!

Conheci as histórias dos Irmãos Grimm na escola primária, mas não as levei para casa. Não sei o motivo, mas achava João e Maria, Branca de Neve, Rapunzel e Chapeuzinho Vermelho muito distantes da minha realidade. Gostava de ler o Sítio do Pica-pau Amarelo e transferir as aventuras dos personagens para diversas brincadeiras, reproduzir os desenhos nos meus trabalhos. A professora e os amigos admiravam aquele meu jeito com lápis e tintas. Alguns até queriam comprar os trabalhos, pagando com um lanche, balas ou em dinheiro mesmo.

Um dia, eu e o João Batista, meu irmão mais novo, resolvemos começar a engraxar sapatos nos sábados à tarde. Havíamos percebido que os rapazes mais velhos iam para a praça central namorar e paquerar. Como vinham a pé dos bairros ligados ao centro por estrada de terra, os sapatos ficavam sujos. Ganhei o meu primeiro dinheiro e descobri como comprar picolé ou revista em quadrinhos.

Na banca de jornais identifiquei um novo mundo. Descobri heróis que solucionavam vários problemas e nunca se machucavam. Sofriam um pouco, mas nada grave, rapidamente estavam de volta às atividades.

Gostava muito de ler as aventuras do Mandrake, Zorro e Tarzan, e transportava as histórias para o endereço em que morava: Vila Domingos Lopes, Beco do Pires. Mergulhava no Rio Meia Pataca para lutar com “jacarés” imaginários, criava um cipó na folha do coqueiro e andava de cavalo de pau. Os heróis migravam para a realidade tosca, mas verdadeira do meu dia a dia.

Da infância à pré-adolescência pressentia que vivia em um grande livro e tinha que escrever uma aventura. Os desafios do dia eram ser um herói, inventar carrinho de rolimã, soltar pipa, andar na cabrita, ir pegar boi no pasto, auxiliar a lavar o caminhão do açougue e ajudar o meu pai. Mas “heróis” só conhecia os da pátria: Tiradentes, Duque de Caxias, Marechal Deodoro.

O desenho foi uma das ferramentas que utilizei para me comunicar com o mercado de trabalho e com as pessoas, e até ganhar uma namorada. Nessa época entendi um pouco a divisão entre herói da pátria e super-herói, ao ler jornais proibidos, como Movimento, Opinião e Pasquim. Não fiz parte dos protestos estudantis, mas estive presente em várias manifestações culturais, como teatro, artes e poesia. Na minha cabeça os jovens que lutavam por causas públicas, como melhorias na educação, saúde e trabalho, eram sacrificados, extintos da sociedade. Tudo isso acontecia longe da minha cidade, o medo não morava em mim. Isso é o que eu achava.


Adulto

O desenho virou profissão, veio a primeira filha e retomei o universo das histórias, heróis e super-heróis infantis. Na época, início dos anos 1980, havia uma presença forte da Xuxa e, de novo, o Sítio do Pica-pau Amarelo na TV Globo. No mercado editorial, algo novo estava acontecendo com a produção literária: agora o texto vinha acompanhado de ilustrações narrativas. Eliardo e Mary França conseguiram demonstrar esse viés com muito sucesso na coleção Gato e Rato. O Menino Maluquinho, do Ziraldo, mostrou o herói infantil. A Mariana ficava surpresa com as peraltices do personagem, que agia como um super-herói.

João e Maria, A Bela Adormecida, Rapunzel e Branca de Neve faziam parte das nossas leituras. Sempre procurávamos o novo na literatura infantil e nessa época prestei mais atenção às histórias dos Irmãos Grimm.

Em 1999, nasceu minha segunda filha, que proporcionou um retorno ao universo das histórias infantis e infantojuvenis, como se retomassem seu lugar em meu cotidiano. Sempre gostei de ler, desenhar e tentar escrever alguma coisa para crianças; o livro como ferramenta para auxiliar a formação de base com argumentos lúdicos, poéticos e questionadores começou a fazer parte do meu repertório. Outro aspecto era o livro digital, que estava à venda nos sites: como ficaria a orientação dos livros para a escola e a comercialização?

O livro físico ganhou status, e as histórias clássicas rapidamente mudaram de plataforma, migrando para os digitais. Os projetos gráficos começaram a explorar e transformar as linguagens da escrita e da ilustração; elas se inverteram e chegava-se, naquele momento, a sugerir que o interlocutor fosse o autor da narrativa ou da ilustração. O objeto-livro existe, “faça você o conteúdo, escreva e desenhe à vontade”. Os super-heróis se aproximam da realidade: afinal, fomos surpreendidos com o anúncio da morte do Superman. Os clássicos infantis alteraram o cenário e o contexto familiar e social, para sair do imaginário e quase impossível mundo das fadas. Não atirei o pau no gato... essa foi uma das formas para que parte do folclore, considerado nosso bem maior, fosse aceito no universo pedagógico. O clássico Disney Zé Carioca e outros foram empurrados para debaixo do tapete, pois há personagens que fumam, bebem, roubam...

Os personagens que moram nas histórias contemporâneas enfrentam trânsito, falta de dinheiro, discriminação, problemas de moradia. Até mesmo a morte deixou de ser um desfecho trágico e já há abordagens plásticas, lúdicas, explorando apelos gráficos da ilustração em que o texto acompanha como um leve fio condutor.

João e Maria cresceram e vivem aventuras clássicas com tecnologia, armas e lutas, que encantam mais aos adultos, agora seus verdadeiros fãs. Mas o enredo fica preso à trama original e leva os personagens ao passado. Em vários momentos da minha vida conheci a história do João e da Maria, o visível recalque na relação dos irmãos Hansel e Gretel com os pais: há uma crise social profunda do século 19, ao mesmo tempo contemporânea. Não procuramos novos heróis para refletir nossas energias; queremos ser o “herói”.

Minha neta, Maria Eduarda, de 4 anos, demonstra naturalmente habilidade vendo um livro no tablet ou celular. Ficamos satisfeitos, felizes, impressionados...

Quando comparamos essa realidade às épocas remotas do carrinho de rolimã, andar a cavalo, nadar no rio, subir nas pedras e correr, isso vira um “estudo de caso”. Para a criança, segue a vida.


“Os clássicos infantis alteraram o contexto familiar e social, para sair do imaginário e quase impossível mundo das fadas. ‘Não atirei o pau no gato’ foi uma das formas para que parte do folclore, considerado nosso bem maior, fosse aceito no universo pedagógico”

Tadeu Costa é designer gráfico, ilustrador, mestre em Comunicação e Marketing e docente da disciplina Tipografia na Universidade Anhembi Morumbi. É autor do livro infantil Eu Não Sei de Qual África Veio o Meu Avô (Companhia Editora Nacional, 2001)



Mundo Novo para Alice
por Maria Júlia de Oliveira Dias

Se eu soubesse contar uma boa história, contaria. Como não sei, vou falar das melhores que me contaram.

(Savater apud PRADO)


Se me perguntassem sobre como elaborar um itinerário de leitura para crianças pequenas nos tempos de hoje, eu responderia que escolher ou selecioná-lo não seria o problema.

Penso que o desafio mais recente é definir quais títulos merecem ocupar o tempo das crianças, já que, atualmente, elas são mais atraídas por games, animações, vídeos, aplicativos, entre outras formas de entretenimento digital. Conforme explica David Elkind em Sem Tempo para ser Criança – A Infância Estressada (Artmed, 2004, p. 138-140), a internet é fonte educacional e de informação fantástica, mas também fica em evidência a importância do bom senso das famílias em relação ao tempo desse uso por parte dos filhos, estabelecendo regras razoáveis, que devem levar em conta também a exposição à televisão e outras interações ou telas, como celulares, tablets, entre outros.

As crianças, bem antes de aprenderem a falar, cantar, expressar seu imaginário e suas representações acerca do mundo, já consomem muitas horas de mídia diariamente.

Lembramos aqui quando Neil Postman, em O Desaparecimento da Infância (Graphia, 1999, p. 88), cita o psicólogo alemão Rudolf Arnheim, que, já em 1935, de acordo com suas ideias, disse que a revolução gráfica contribuiria para uma mudança radical no estatuto da criança, prevendo a manifestação massiva da televisão como algo que paralisaria, adormecendo a mente. Estudioso da arte, Arnheim, em outras palavras, nos quis dizer que as palavras e não as imagens são os primeiros apontamentos do pensamento e a linguagem antecede a percepção. No passado, segundo ele, “a incapacidade de transportar a experiência imediata e transmiti-la a outros tornou necessário o uso da linguagem e assim forçou a mente humana a elaborar conceitos. Pois, para descrevermos coisas, devemos extrair o geral do específico; devemos selecionar, comparar, pensar. Quando, porém, é possível realizar a comunicação apontando com o dedo, a boca, por sua vez, fica silenciosa, a mão que escreve para e a mente encolhe, não devemos esquecer”.

Aproximando-nos de bebês, aqueles que ainda nem andam e muitas vezes só imitam vocalizes, observamos deslizarem seus dedos numa tela touch, destravando o mundo para desbravar o universo tecnológico, ou ainda, num clique, acionar o mundo televisivo. O pesquisador Neil Postman, em O Desaparecimento da Infância (p. 93), polariza: “Ver televisão não só não requer habilidade alguma como também não aprimora habilidade alguma”.

Nós temos aqui um paradigma do mundo atual! Em todos os tempos, em casa ou na escola, as crianças têm o direito e a oportunidade de brincar, seja o brincar natural, aquela brincadeira de casinha, o brincar por brincar, seja o brincar dirigido, como os jogos de regras, trilhas, aquela brincadeira que, segundo Piaget, citado por Elkind em Sem Tempo para ser Criança – A Infância Estressada (p. 236), envolve a transformação da realidade, exercendo o jogo simbólico a serviço da necessidade pessoal. Basicamente, precisamos resgatar os velhos hábitos das brincadeiras infantis, das conversas em família após o jantar, da roda de histórias. A sociedade atual nos assegura conforto, acessibilidade às informações e velocidade, tecnologia de última geração. Estamos procurando fazer as coisas mais depressa e imediatamente? Ao acelerar o percurso histórico das crianças, oportunizamos uma rotina condizente às necessidades delas? E por que será que as crianças não conseguem esperar? Por acaso nós gerenciamos nossas “esperas”?

Quem irá regular a expectativa social, a pressão familiar, a antecipação das crianças à vida adulta? Apressamos ou não indevidamente a rotina das crianças?

Ao viver uma pressão assim, Alice, de Alice no País das Maravilhas, do clássico de Lewis Carroll (Jorge Zahar, 2002), foge correndo e segue um coelho, que ela ouve dizer consigo mesmo que está com pressa. Mas a toca era muito, muito funda como um poço e Alice despenca afundando de repente… Lembram-se? Metaforicamente ela busca seu “eu”, sua paixão pela liberdade, pela vida e quer descobrir qual espaço ocupa no mundo. Quais são as nossas Alices de hoje? O que fazem numa rotina apressada e imposta a elas sem ao menos perguntar do que gostam, do que precisam ou o que querem de verdade?

Escutamos nossas Alices, damos “voz” às suas inquietações? Entediada, Alice comenta ao folhear o livro da irmã: “E de que serve um livro sem figuras nem diálogos?”. Por trás de uma expressão tão simples, Alice nos diz a maneira natural como as crianças conhecem o que há no mundo.

Bem, Alice está certa. As crianças elegem seus livros observando as potencialidades das imagens, porém sabemos que a qualidade literária não se refere apenas às experiências provocadas no leitor, mas à qualidade de escrita que enriquece seu universo e contribui para ampliá-lo. Nas livrarias de hoje, também encontramos os livros-brinquedos, os de efeitos visuais, como os pop-ups, que se apresentam como uma tendência artística para as crianças pequenas. Recorremos então ao critério justo analisando o que realmente contribui de forma criativa. Conforme comentam Rosangela Veliago e Rosa Maria Barros (PRADO, 2007, p. 290), “quem não teve a chance de conviver com leitores desde muito cedo em geral não pode se desenvolver como leitor”. Precisamos encontrar caminhos para aproximar as crianças da leitura por meio de frentes de projetos literários com aproximações de diferentes gêneros textuais: clássicos, modernos, poesias, histórias em quadrinhos, dominando as principais habilidades leitoras, como realizar inferências, propor hipóteses, verificação, antecipação, interpretar, concluir, relacionar e, dessa forma, melhorar sua competência leitora, a competência para desvendar o mundo.

Alice, quero te contar uma coisa: os livros servem para se divertir, para se emocionar, para descobrir e aprender, para conhecer o mundo, descobrir quem somos, para onde vamos… e muito mais.

A personagem Bastian Baltasar Bux, do livro de Michael Ende A História sem Fim (Martins Fontes, 2000, p. 10-11), ao olhar para o livro disse para si mesma: “o que se passa dentro de um livro (…) Lá dentro há pessoas que ainda não conheço, (…) há tempestades no mar (…) É preciso lê-lo para o saber, é claro!”.

Assim, as Alices da nova geração necessitam da presença dos livros em seus ambientes de casa, incentivadas a formar sua biblioteca pessoal, ouvir histórias contadas pelos irmãos e pelos pais. Na escola, projetos integrados a uma gestão do tempo didático que favoreça a leitura, como a roda que se forma para começar sem a pressa para terminar.

No contato com uma oferta generosa de títulos e coleções, o horário nobre da rotina escolar: A Roda de História. Todos prontos? Era uma vez…


“As crianças elegem seus livros observando as potencialidades das imagens, porém sabemos que a qualidade literária não se refere apenas às experiências provocadas no leitor, mas também ao poder da escrita de enriquecer seu universo e ampliá-lo”


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
CLETO, Ciley; CEREJA, William Roberto. Superdicas para Ler e Interpretar Textos no ENEM. São Paulo: Saraiva, 2011.
COLOMER, Teresa. Andar entre livros. São Paulo: Global, 2007.
ELKIND, David. Sem tempo para ser criança – a infância estressada. Trad. Magda França Lopes. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2004.
ENDE, Michael. A História sem Fim. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
POSTMAN, Neil. O Desaparecimento da Infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999.
PRADO, Guilherme do Val Toledo;
SOLIGO, Rosaura. (Org.). Porque escrever é fazer história. Campinas, SP: Editora Alínea, 2007.


Maria Júlia de Oliveira Dias é coordenadora pedagógica do Portinho Panamby (unidade infantil do Colégio Visconde de Porto Seguro). Possui especialização em Educação Infantil pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e em Relações Interpessoais na Escola e a Construção da Autonomia Moral pela Universidade de Franca (Unifran)