
por
Vera Albers
Mamãe
deixou-me de herança um apartamento que ocupa o andar térreo
de um pequeno prédio que, como sói acontecer entre jardim
avarandado e trepadeiras das construções antigas, mais
parece propriamente uma casa. Resolvi passar alguns dias lá,
para ver se me acostumava, por vários motivos. Tendo me separado
há pouco, sentia-me desamparada e acreditava que uma casa familiar
que ainda parecia habitada (mamãe também morrera há
pouco) haveria de me fazer sentir menos só, e também para
me afastar de um fulano que tinha estado atrás de mim por causa
de uma tradução e cuja insistência suspeita me oprimia.
Uma cisma minha, claro, mas respiraria sabendo que ele tinha perdido
meu rastro.
Vivo envolvida por cismas, por que será? Já superei os
búzios, horóscopo nem leio mais, mas a ambiência
tem o condão de mudar meu estado de espírito. Agora, por
exemplo. Ando pelos cômodos (são bem mais do que eu lembrava)
imaginando coisas. No fundo, o quarto de hóspedes, aqui no meio
a sala de jogos - só que o verde não combina com estas
paredes creme -, e a luz central é forte demais. Mania que os
homens têm de luz central. Papai, que Deus o tenha, também
odiava os abajures. Depois, um corredor que leva de volta ao hall de
entrada e aos serviços, outro corredor, em L, e a suíte.
A janela do quarto é curiosa, como a dos conventos. Depois do
caixilho, um entrevidros grande, tão branco que parece caiado.
Reparei que mamãe o havia transformado num reposteiro de objetos
esquecidos: minha bolsinha colorida de sisal de praia, uma blusa laranja
da Ju, outras coisinhas.Toca a campainha. É minha irmã.
Fico alegre com a surpresa, mas, ao mesmo tempo, incomoda-me essa intrusão
em minha nova intimidade. Não falei? Ela vai direto à
janela e começa a mexer nas coisas que estão lá.
"Não!", digo com voz tão forte que ela pára,
perplexa. "São coisas da mamãe", continuo, fechando
o vidro. Ela não pede explicações. Deve achar que
estou estressada, com a separação e tudo. Não quer
café, só veio dar uma passadinha para ver como estava.
Estou bem, estou bem, tranqüilizo-a e acompanho-a até a
porta.
Ao abri-la, bato os olhos no chalé do lado, que está à
venda. É, tantas coisas acontecem perto da gente que a gente
nem imaginaria. O chalé de uns conhecidos de papai, Susana e
o marido, não lembro o nome. O marido morreu, vítima de
assalto. Quando fui ao velório, estranhei a mulher não
estar lá. "E a Susana? E a Susana? E o menino?", perguntei
meio afoita a um casal a meu lado. "A Susana foi intimada pela
polícia a prestar depoimento", diz-me a moça, tudo
de uma vez, afogueada, como se lhe tivesse custado dizer o que guardava
comprimido dentro de si.
Compreendo que há alguma coisa errada nessa história.
De repente, lembro mamãe me contando ter visto a Susana dar beliscões
no menino. "Mas beliscões fortes", dizia mamãe.
Eu não relevei. Com é possível não gostar
do próprio filho? Mas a gente vê cada uma nesse mundo!
E se engana demais com as pessoas. A Susana, tão bonita, falando
tantas línguas, e não querendo trabalhar. Tinha estudado
na Suíça, nesses colégios para moças finas.
Foi ali que aprendeu o francês, e a costurar aquelas cortinas
que botou na cozinha, depois que deu um jeito de casar. Mas ficava em
casa fumando, lendo aqueles livros americanos de meio quilo e - dizem
- bebendo. Eu nunca a vi assim, mas é verdade que também
não a via muito. Cada um com a sua vida.
É, realmente, às vezes não sei dizer não.Como
daquela vez que traduzi um livro tão estapafúrdio que
até o meu velho amigo Rato, que não conseguiu passar da
primeira página, falou: "Você não deveria traduzir
livros assim".
Como
a dizer "isso pode até prejudicar seu nome", tanto
que tirei o livro do currículo. Mas aquilo foi um caso excepcional,
num momento excepcional. E o autor do livro, o escrevinhador estapafúrdio,
o gênio incompreendido, prometia tanto, prometia tudo. E eu, que
não sou supersticiosa, havia me deixado fazer a cabeça
por um... livro. Não sei o que é que faz a cabeça
da juventude de hoje, mas da minha, mais do que tudo, eram os livros.
Mulheres Imortais, até hoje lembro do título. A história
de uma moça tão obstinada, tão dedicada, tão
não sei o quê, que tanto soube secundar o marido, que ele
se tornou presidente dos Estados Unidos. E aquilo se incrustou tanto
em mim que, quando conheci o escrevinhador, eu disse: "É
ele!". Nem pensei muito, só pensei "não vou
trair o meu sonho" - bem no estilo das Mulheres Imortais - e preferi
deixar que o destino seguisse seu curso. Belo curso! Mas deixemos para
lá. Aquilo já passou, já se acabou. Um sonho a
menos, mas em boa hora, hein! Também, vamos e venhamos, estapafúrdio
é delegar ao outro a própria realização.
No fundo, é mais ou menos o que deve ter pensado a Susana querendo
casar a todo custo, a mesma ideologia, quero dizer. Mas agora, já
foi. E tarde. Arre! Lembro de uma frase que o ex-futuro presidente (do
globo terrestre!) repetia sempre: "Não sei por que vocês
mulheres se afanam tanto em procurar o Homem". E concluía:
"Tratem de ter valores, que eles vêm pegá-los sozinhos".
Bem da ideologia dele. Mas que Homens, hein? Quem é que pode
vir me pegar, aqui, nesta vilinha? O negócio é estar no
lugar certo na hora certa. Outro lugar-comum, sem tirar nem pôr.
Mas estamos cercados por lugares-comuns. O negócio é se
esgueirar por entre eles e ir em frente. Outra vez o destino? Mas não
tem muito por onde escapar. O importante é... gostar de viver,
simplesmente. Felizmente, tenho essa alegria natural, que deve ser genética.
Obrigada, mamãe, obrigada, papai. E, no fundo, dou-me muito bem
com meus livros, por enganadores que sejam. No fundo, no fundo, não
preciso mesmo é de ninguém.
Se bem que sempre há algo que ameaça essa minha alegria.
Se não é uma coisa, é outra. Agora, por exemplo,
tenho um pressentimento, uma nuvem pesada, que fica pairando, pairando,
quase me sufocando. Esse fulano que cismou comigo. Não, de minha
parte, não. Nem poderia. O sujeito é careca, pesado, corpulento,
tipo carniceiro, como se dizia antigamente.Telefonou-me na outra casa
(felizmente), atrás de uma tradução para o inglês.
Quer passar para o inglês um livro que ele escreveu (nem vou comentá-lo),
aproveitando as sessões com seus pacientes. Agora está
na moda. Eu, por vários motivos, felizmente, me esquivei. Encaminhei-o
à Jafka, que por sinal engordou visivelmente. Espero que os dois
tenham se entendido. Algo me diz, porém, que a coisa ainda vai
dar flor, como se dizia antigamente. Não sei tratar mal as pessoas.
Não sei dizer curto e grosso: não. E isso é um
mal, um mal de que não consigo me livrar. Eles ficam achando
que eu sou acanhada, que é só insistir, que é porque
eu fiquei muito tempo sozinha.
Estou pensando nisso tudo muito rápido. Meu pensamento é
até rápido demais. Pensa 50 coisas ao mesmo tempo. Acabei
de acompanhar minha irmã à porta. Será que a fechei?
Volto silenciosamente ao hall, a porta está fechada. Abro a porta
que dá para a cozinha: nada. Vou andando devagarinho pelo corredor
em L, que dá diretamente na sala de jogos. Ai, não é
que ele está lá, de pé, atarracado, me olhando
com aqueles olhos baços que dão nojo, em duas órbitas
que parecem de tartaruga, de tão enrugadas, gaguejando que-que-que
encontrou a minha irmã, que-que-que a porta estava aberta e que-que-que
a tradução não sei o quê. Meu Deus, como
é que eu vou me livrar disso, agora?
Olho para essa criatura inominável que não conseguiu resistir
ao apelo primordial da natureza e que está aqui à minha
frente se babando toda, se esvaindo em seiva, quero dizer, em sílabas,
e o que acontece comigo? Por um fenômeno que, quero crer, seja
de ressonância ou de contaminação, sinto as pernas
bambas, sinto-me chamada de repente pela mesma voz da natureza do infeliz
a ponto de ter de segurar o espaldar da cadeira para não me trair,
enquanto lhe passo um braço às costas e murmuro, acompanhando-o
de novo à porta: "Tudo bem, tudo bem, não se preocupe,
logo, logo nós vamos conversar".
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Vera Albers é
autora de, entre outros livros, Surtos Urbanos (Editora 34, 1998)
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