
por
Lilia Ladislau
Minha mãe
tinha 40 anos quando nasci e, na época, as pessoas eram consideradas
idosas já aos 45. Além da idade cronológica, nada
dessas relações e de tantas outras que estabeleci com
idosos da família condiziam com os estereótipos de uma
velhice estigmatizada na doença, na dependência, na intransigência
ou no comodismo.
Reconheci nos velhos, desde criança, a promessa de transformação
de sua condição, a partir da conscientização
de seu papel e força na sociedade, como agentes de transformação
de sua própria história.
Esses antecedentes contribuíram para meu trabalho no Sesc com
essa população. No decorrer destes meus 20 anos como trabalhadora
social com o público idoso, essa foi minha postura: ouvi-lo.
Isso me permitiu perceber a velhice e o envelhecimento como processo
individual e singular. É o contato com essas velhices que nos
orienta. A convivência e a integração evitam o risco
da segregação etária - um tênue limite entre
inclusão dos excluídos ou exclusão dos incluídos.
Nesse processo de ouvir os velhos (no começo do trabalho, a idade
era 45 anos), detectei em suas falas, muito mais do que a preocupação
com a morte, um rol de necessidades para melhorar suas vidas. O aumento
da longevidade, estabelecido nos avanços da ciência, intensificava
os desafios para instrumentalizá-los para viver mais e melhor.
Estudos que investigam as causas responsáveis pelo aumento da
expectativa de vida reconhecem a importância das estruturas sociocultural,
política e econômica; dessa forma, viver mais requer comprometimento
de todos.
Esse entendimento se constitui o eixo da filosofia do Trabalho Social
com Idosos (TSI) desenvolvido pelo Sesc São Paulo, que, por meio
de um processo de educação permanente, desenvolve há
44 anos atividades na área de lazer, para aquisição
de informação e conhecimento, para um posicionamento de
independência e conquista de direitos.
O velho como agente de transformação da própria
história é o conceito que fundamentou, e deve ainda fundamentar,
todos os que atuam e refletem sobre o velho e o envelhecimento. Uma
das idéias básicas, que permeiam esse processo, é
a da alteridade, isto é, ser capaz de apreender o outro na plenitude
de sua dignidade, seus direitos e, sobretudo, sua diferença.
Essa atitude facilita a desconstrução do estereótipo
da velhice padronizada e enriquece o conteúdo das ações
e das relações interpessoais.
Os resultados da pesquisa Idosos no Brasil - Vivências, Desafios
e Expectativas (Departamento Nacional do Sesc, Sesc São Paulo
e Fundação Perseu Abramo) expressam as alterações
ocorridas no cenário do envelhecimento. Se há 44 anos
eram consideradas idosas pessoas na faixa dos 45 anos, hoje, quando
questionado com relação à percepção
que tem da velhice, o público-alvo da pesquisa - ainda que seja
formado por pessoas de 60 anos ou mais - declara não se sentir
idoso e, mesmo atribuindo à velhice mais perdas do que ganhos,
menciona que é melhor ser idoso atualmente do que 20 ou 30 anos
atrás.
Ao lado de um idoso hoje já bem crítico, articulado, existe
outro que escancara níveis altos de analfabetismo, um elevado
grau de desinformação sobre direitos e deveres e que ainda
carece de serviços de saúde, seja por limitações
econômicas, seja por absoluta ausência de serviços
públicos.
A fala do idoso que orientou minha trajetória profissional e
o objetivo da citada pesquisa, que teve como diferencial ouvir o idoso,
reforça a importância do reconhecimento das individualidades.
E, ao mesmo interliga-se à criação de espaços
que tenham a capacidade tanto de acolher e abrigar os que se mantêm
como freqüentadores do Sesc por várias décadas, vivendo
novas experiências de vida e convivência, como de abrir
novos caminhos e possibilidades para os que estão chegando com
exigências diferenciadas.
Ao longo destes anos, são muitos os depoimentos de pessoas que
realizaram sonhos, recuperaram a identidade social e pessoal, e se permitiram
iniciar novos projetos de vida para sua velhice.
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Lilia Ladislau, socióloga,
é gerente-adjunta da Gerência de Estudos e Programas para
a Terceira Idade
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