Considerado um dos maiores compositores eruditos do século 20,
o italiano Luciano Berio teve papel de destaque na formação
de toda uma geração musical brasileira
Ao
longo do século 20, a inovação na música
erudita foi a grande premissa para os compositores de vanguarda, músicos
que buscavam experimentar linguagens e caminhos estruturais trilhando
uma via paralela ao que era considerado clássico e intocável.
O marco zero dessa revolução musical surgiu com a Segunda
Escola de Viena, movimento da década de 1920 que tinha como principais
representantes o compositor austríaco Arnold Schoenberg e seus
principais alunos: Anton Webern e Alban Berg. Schoenberg queria uma
música que se diferenciasse estruturalmente das composições
de até então. O que, de fato, ele conseguiu. Exemplo mencionado
por dez entre dez especialistas é o dodecafonismo, técnica
de composição na qual as 12 notas musicais da escala cromática
- as notas-padrão acrescidas dos cinco tons intermediários
- são tratadas como equivalentes, ou seja, sujeitas a uma relação
ordenada e não hierárquica.
Na escalação do time dos vanguardistas, um dos maiores
nomes veio da Itália: Luciano Berio. Nascido na cidade Oneglia,
em 1925, o compositor recebeu suas primeiras instruções
musicais do pai e do avô, e, embora tivesse se mudado para Milão
após a Segunda Guerra Mundial para estudar direito, a música
falou mais alto e Berio acabou mesmo se tornando pupilo do músico
também italiano Giorgio Federico Ghedini, conhecido por explorar
diversos estilos. No início dos anos 50, o jovem músico
já começava a mostrar interesse pelos experimentalismos
de Schoenberg. Ainda nessa década, iria para Darmstadt, na Alemanha,
onde o alemão Karlheinz Stockhausen e o francês Pierre
Boulez propunham inovações na linguagem musical. Foi lá
que Berio entrou em contato com a música eletroacústica
- junção da música concreta [produzida a partir
de edição do áudio misturada a fragmentos de som
ambiente, tanto da natureza quanto até mesmo de indústrias],
criada pelos franceses Pierre Schaeffer e Pierre Henry (veja boxe De
Olho no Contemporâneo) no final da década de 40, com a
música eletrônica [criada por meio de equipamentos e/ou
instrumentos eletrônicos, como o sintetizador] de Stockhausen,
surgida dez anos depois. De volta à Itália, em 1955, fundou
com Bruno Maderna o Studio di Fonologia. Foi a partir de então
que as experimentações de Berio o levaram à utilização
de aparelhos emissores de ondas eletromagnéticas, gravações
em fitas magnéticas de rolo e sons sintéticos para compor
sua música eletroacústica. "Berio foi um dos principais
responsáveis por esse sincretismo da música concreta com
a eletrônica", afirma o também compositor e diretor
do Studio PANaroma de Música Eletroacústica da Universidade
Estadual Paulista (Unesp), Flo Menezes, um dos principais estudiosos
da obra do italiano
Consciência
da voz
Autor de livros e outros trabalhos sobre Berio publicados na Europa
- entre eles a tese, defendida na França, Un Essai sur la Composition
Verbale/Electronic "Visage", de Luciano Berio [Um ensaio sobre
a composição verbal-eletrônica "Visage",
de Luciano Berio, em francês] -, Menezes foi o grande premiado
no Primeiro Concurso Internacional de Musicologia na Itália,
em 1990, pela análise da música Visage, de autoria do
italiano. "Considero essa obra, de 1961, umas das peças
fundamentais da música eletroacústica", diz. Berio,
que foi casado com uma das principais cantoras do século 20,
a norte-americana meio-soprano Cathy Berberian, acabou se tornando um
mestre na utilização da voz em composições
de música contemporânea - como também ficaram conhecidas
as músicas eruditas de vanguarda. "Ele cobriu praticamente
todos os gêneros vocais com uma maestria absurda, desde a música
eletroacústica até o coro", explica Flo Menezes.
"Tinha uma consciência total da voz em todas as suas acepções:
a questão fonética, a acústica e a semântica."
Berio, morto em 2003, ainda se destacou nas adaptações
de músicas folclóricas que recolheu mundo afora, conhecidas
como as Folk Songs de Berio, adaptando-as e rearranjando-as, em 1964,
com roupagem erudita. "São canções que exigem
bastante versatilidade do intérprete, com o uso da voz extremamente
grave até a bem suave", revela Céline Imbert, que
interpreta as Folk Songs no CD Berio+, lançado pelo Selo Sesc
(veja boxe Música Folclórica). "Os sentimentos que
estão expressos nas letras foram mostrados por meio do trabalho
instrumental de Berio. Ele traduziu muito bem o espírito dessas
canções." Outra característica do músico
era sua predileção por piano, flauta e percussão
em suas composições. "Ele também foi um mestre
na música instrumental pura", ressalta Menezes. "Por
tudo isso, juntamente com Stockhausen, Berio foi o maior gênio
da música contemporânea da segunda metade do século
20."
À brasileira
O primeiro contato dessas vanguardas musicais européias com o
que estava sendo produzido de novo no Brasil em música erudita
teve início com os avanços da neue musik alemã
- música nova em português -, produzida pela Escola de
Darmstadt, liderada por Boulez e Stockhausen. Essa produção
chamou a atenção de alguns musicistas brasileiros que
buscavam atualizar o cenário nacional. A expressão alemã
tornou-se sinônimo de vanguarda e sua tradução foi
adotada por aqui. Os compositores Gilberto Mendes, Willy Corrêa
de Oliveira, Rogério Duprat e Damiano Cozzella uniram-se e lançaram
o Manifesto Música Nova na Revista Invenção, criada
nos anos 50, por poetas concretos. "O manifesto surgiu como conseqüência
de uma tentativa de salvar a música brasileira, já quase
no início da década de 60, daquele nacionalismo sem fim
da época e que tinha como figura central o Camargo Guarnieri",
lembra Gilberto Mendes. "Quer dizer, queríamos colocar a
música brasileira no mesmo nível do que já se fazia
na Europa e nos Estados Unidos."
Luciano Berio estava entre os compositores que influenciaram o movimento
brasileiro de música nova. Sobretudo após sua primeira
vinda ao Brasil, nos anos 60. "Nossas referências musicais
eram, antes de qualquer coisa, a Escola de Viena", explica Willy
Corrêa de Oliveira. "Depois os novos compositores: Stockhausen,
Boulez, Berio e Pousser". Willy conta que teve contato com o compositor
quando estudou na Europa, no início dos anos 60, e ambos se encontraram
na Alemanha. "Ele era uma pessoa muito simples e fácil de
conviver. Inclusive, cheguei a entrevistá-lo em uma das vezes
que ele veio ao Brasil", afirma. Segundo Gilberto Mendes, fatores
como seu próprio caráter autodidata, associado aos avanços
da indústria fonográfica, contribuíram para a total
interação a essa vanguarda. "A gente comprava as
peças do Luciano Berio, do Henry Pousser, do Pierre Boulez e
do Karlheinz Stockhausen, e como nessa época já havia
o LP, a gente estudava as partituras e escutava os discos", lembra
Mendes.
Embora Luciano Berio fosse um dos expoentes da música eletroacústica,
a adaptação do gênero europeu à realidade
brasileira falou mais alto. "Na época, não dispúnhamos
de meios para isso [tocar música eletroacústica], era
muito caro", conta Gilberto Mendes. "Mas essa estética
também influenciou nossa música, então fazíamos
uma música instrumental com um aspecto de música eletrônica."
Ver boxes:
De
olho no contemporâneo
Música folclórica
De olho
no contemporâneo
Festival
de Música Nova realiza sua 42ª edição
e tem as unidades
Consolação e Vila Mariana entre os locais de apresentação
Com
a proposta de desenvolver a linguagem musical erudita de vanguarda
e de assumir um compromisso com o mundo contemporâneo,
o compositor Gilberto Mendes criou, em 1962, o Festival de Música
Nova. Neste ano, o evento chega a sua 42ª edição
e ocorrerá, de 23 de agosto a 12 de setembro, nas cidades
de São Paulo e Santos. Dos locais escolhidos para sediar
o festival na capital, estão as unidades do Sesc Consolação
e Vila Mariana. Entre as atrações, nomes conhecidos
no gênero como Quarteto Arditti, da Inglaterra, uma das
mais prestigiadas formações de cordas da atualidade,
e o francês Ensemble L'Itinéraire (foto) - respectivamente,
na unidade Vila Mariana e Consolação. Destaque
especial para a apresentação do compositor francês
Pierre Henry, um dos fundadores da música concreta, que
neste ano festeja seu 80º aniversário. Ao longo
de sua existência, o festival tem procurado lançar
luz sobre a constante renovação pela qual passou
a música erudita contemporânea a partir dos anos
50, divulgando obras de compositores como Karlheinz Stockhausen,
Pierre Boulez, John Cage e Luciano Berio, entre outros - sem
deixar de acompanhar o trabalho das novas gerações
de compositores e intérpretes. "A avaliação
que faço desses mais de 40 anos de festival é
a mais positiva possível", afirma Gilberto Mendes.
"Foi a partir dele que mostramos nossa música. O
objetivo básico era apresentar minha música, a
do Rogério [Duprat], a do Willy [Corrêa de Oliveira],
enfim, a música do nosso grupo, porque ninguém
fazia isso. Depois a proposta foi se ampliando até se
tornar um evento internacional."
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Música folclórica
Selo
Sesc São Paulo lança seu primeiro título
erudito
Em
1964, o compositor italiano Luciano Berio escreveu as Folk Songs,
ou canções populares, especialmente para a meio-soprano
norte-americana Cathy Berberian, com quem foi casado por 14
anos. Quarenta e três anos depois, a obra é relançada
como parte do CD Berio+, que o Selo Sesc São Paulo lança
no dia 22 de julho, às 19 horas, no Teatro Sesc Anchieta,
na unidade Consolação. O álbum, que também
conta com composições dos brasileiros Eduardo
Guimarães Alves e Arrigo Barnabé (foto), tem interpretação
do grupo Percorso Ensemble e da cantora Céline Imbert,
e regência de Ricardo Bologna. O CD Berio+, primeiro de
música erudita a ser lançado pelo selo do Sesc,
está à venda nas unidades do Sesc e também
no site da loja: /loja/
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