
Quando vemos
um atleta desafiar os limites do possível sendo o mais ágil,
o mais veloz ou o mais forte é fácil associar sua imagem
à perfeição. No que diz respeito à estética,
é inegável o que algumas modalidades esportivas fazem
pelo corpo. Mas e a saúde? Será que o organismo do esportista
também bate recordes de bom funcionamento? A seção
Em Pauta deste mês discute riscos associados à superação
de marcas na prática de esportes por meio de artigos exclusivos
do chefe da disciplina neurofisiologia e fisiologia do exercício
na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Antonio Carlos
da Silva, e do doutor em ciências pela Universidade Federal de
São Paulo (Unifesp) Benedito Sérgio Denadai.
Possíveis riscos associados aos esportes de alto rendimento
por
Antonio Carlos da Silva
Já
é fato que a prática regular de atividade física
contribui para a melhora da qualidade de vida das pessoas, reduzindo
o risco de mortalidade precoce, doença coronariana, hipertensão,
câncer de cólon, obesidade, diabetes mellitus, entre outras
doenças. Fica claro que incentivar tal prática é
dever de todo profissional ligado à área da saúde
e comprometido com o bem-estar do cidadão. Contudo, a prática
de esportes também poderá acarretar um considerável
risco de lesão, tanto para atletas de elite quanto para os tidos
como "recreativos", à medida que suas metas vão
se aproximando das exigências da alta competitividade (Bahr e
Krosshaug, 2005).
A exposição sistemática a movimentos vigorosos
e, muitas vezes, ao contato físico aumenta em muito a probabilidade
de atletas serem assombrados pelo fantasma da contusão. Quando
comparados aos recreativos, os atletas de elite estão sujeitos
a maior probabilidade de lesões agudas (traumas, cortes etc.)
ou crônicas (tendinites, artrites etc.) devido à maior
quantidade de tempo a que são submetidos à execução
de movimentos repetitivos e à prática da modalidade em
si. Para se ter melhor noção disso, Bompa [Tudor O. Bompa,
principal especialista mundial em periodização nos esportes]
apresenta alguns números corriqueiros da rotina de desportistas
de nível mundial: são de oito a 12 sessões de treinamento
por semana e mais de 1.000 horas anuais só com treinamentos.
Para que o leitor tenha uma visão mais clara da enorme dificuldade
em que a busca por recordes se revela, vejamos um exemplo da história
recente da maratona (corrida por um percurso de 42.195 metros): em 1981,
o cubano naturalizado americano Alberto Salazar batia o recorde mundial
da prova percorrendo a distância em 2h08min13seg. Vinte e dois
anos após o feito do americano, em 28 de setembro de 2003, o
queniano Paul Tergat bateu o até então recorde mundial
do marroquino naturalizado americano Khalid Khannouchi (2h05min38min,
conseguido em 2002) com a marca de 2h04min55seg. Note que foram necessárias
mais de duas décadas para uma redução do tempo
de prova em pouco menos de quatro minutos do que conseguira Salazar.
Superar limites é a pretensão de quase todos os desportistas
(sejam esses limites os recordes mundiais, sejam as marcas pessoais),
portanto, não é incomum encontrar incidência de
lesões específicas em cada modalidade esportiva. Na Tabela
1, são apresentadas algumas das lesões mais freqüentes
em esportes populares.
Muito importante é ressaltar que o maior aparecimento de lesões
possui relação não apenas com o nível competitivo
do atleta, mas também com a quantidade de horas praticadas por
dia. Numa revisão de diversos artigos sobre lesões em
tenistas, Pluim [Babette Pluim, médico especialista em medicina
do esporte] et al. (2006) observaram que o aparecimento do chamado "cotovelo
de tenista" é significativamente maior em tenistas que praticam
o esporte por mais de duas horas por dia, sendo eles de alta competitividade
ou não.
Uma das grandes preocupações e também um dos aspectos
mais polêmicos dentro do tema deste artigo é a chamada
morte súbita no exercício e no esporte (MSEE). Uma revisão
publicada recentemente (2006) pela Sociedade Européia de Cardiologia
nos apresenta dados preocupantes quanto ao assunto. A incidência
de MSEE em jovens atletas (12 a 35 anos) é 2,5 vezes maior do
que em indivíduos não atletas. Porém, a prática
de esportes não é exatamente a causa, mas sim um dos possíveis
estopins que desencadeariam a MSEE em atletas portadores de doenças
cardíacas congênitas e assintomáticas. Em boa parte
dos esportes, o aumento da demanda cardíaca é significativo,
potencializando os efeitos de uma doença subjacente, até
então não percebida pelo praticante. As modalidades esportivas
nas quais a MSEE aparece com maior freqüência são:
futebol (30%), basquetebol (25%) e corrida (15%). É importante
ressaltar que esses são dados absolutos, sem levar em consideração
o número de praticantes de cada modalidade.
Há um ditado no esporte dizendo que "lesão é
parte do jogo", pois seu aparecimento é inevitável.
Porém, o avançar da ciência esportiva nos permite
especular que a frase "prevenção de lesão
é parte do jogo" seja uma nova corrente de pensamento cada
vez mais presente no cotidiano de equipes, técnicos e atletas,
pois, quanto menor for a incidência de lesões, maior será
a vida útil do atleta.
Parte significativa das lesões pode ser minimizada quando os
desportistas, desde cedo, se submetem a avaliações diagnósticas.
Uma futura lesão muscular pode ser detectada pela avaliação
do equilíbrio da força muscular em equipamentos isocinéticos,
pela análise do nível do desgaste muscular, dosando-se
a quantidade de alguns hormônios e enzimas no sangue, pelo grau
de flexibilidade das articulações específicas ou
ainda pela utilização de questionários que apontam
os sinais e sintomas característicos do overtraining (irritabilidade
freqüente, insônia, perturbações gastrintestinais,
entre outros). Já quanto à MSEE, a Sociedade Brasileira
de Medicina do Esporte, SBME (2005), informa em suas diretrizes que
de uma avaliação clínica pré-participação
deve constar: uma anamnese precisa [anamnese é um histórico
realizado com base nas lembranças do paciente e que vai desde
os sintomas iniciais até o momento da observação
clínica], valorizando a história patológica pregressa,
história familiar de cardiopatias e/ou morte súbita prematura,
a história social e os hábitos de vida, além de
um exame físico minucioso com ênfase no aparelho cardiovascular.
A proposta deste artigo foi evidenciar que os cuidados para a participação
em atividades físico-esportivas não devem ser encarados
apenas como uma mera formalidade, resumindo-se a um atestado, mas como
uma condição sine qua non para se poder desfrutar de todos
os benefícios que a prática de exercícios pode
proporcionar ao ser humano. Não tem o intuito de gerar medo,
nem mesmo quanto à morte súbita no exercício e
no esporte, já que esta é rara e não existem evidências
de que sua freqüência esteja aumentando (SBME, 2005), mas,
sim, servir de instrumento informativo, de maneira que praticantes,
pais, profissionais de educação física e médicos
possam estar mais integrados e voltados para um objetivo comum que é
o de uma sociedade cada vez mais saudável e feliz.
De modo geral, o risco associado à prática esportiva aumenta
com a necessidade de superação de marcas ou performances
individuais, com a idéia de "quanto mais sofrido o treinamento
melhor o rendimento" e com a negligência nos sinais e sintomas
de uma sobrecarga, aguda ou crônica, acima dos próprios
limites. Se você falhou na etapa preventiva, respeite as manifestações
de seu corpo para não precisar de uma etapa terapêutica.
"Superar
limites é a pretensão de quase todos os desportistas (sejam
esses ?limites os recordes mundiais, sejam as marcas pessoais), portanto,
não é incomum encontrar incidência de lesões
específicas em cada modalidade esportiva"
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Antonio
Carlos da Silva é professor, doutor e chefe da disciplina neurofisiologia
e
fisiologia
do exercício ?na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Colaboração: Rafael Fachina, aluno de mestrado da mesma
disciplina na Unifesp
Rendimento esportivo e a saúde de atletas: é possível conciliá-los?
por
Benedito Sérgio Denadai
Baseados
em um grande número de evidências que mostram uma relação
positiva entre o aumento do nível de atividade física
e a melhora da saúde, muitos organismos que ditam as políticas
públicas de saúde no Brasil e no mundo têm procurado
estimular a prática orientada de exercícios físicos,
estabelecendo recomendações sobre a quantidade e qualidade
dessa atividade. Essas recomendações são norteadas
pelo aumento contínuo do volume de informações
oriundas da literatura científica, que demonstra a relação
entre o estilo de vida sedentário e a morbidade ou mortalidade
advindas de um grande número de doenças crônicas
(por exemplo, diabetes, hipertensão e dislipidemias). No outro
extremo do estilo de vida sedentário, estão os atletas
(amadores ou profissionais), que buscam, eventualmente a qualquer custo,
a melhora do rendimento. Embora o conhecimento teórico-prático
na área das ciências do esporte tenha aumentado exponencialmente
em todo o mundo, incluindo o Brasil, tem sido cada vez mais comum a
incidência de problemas de saúde relacionados ao excesso
de treinamento em atletas de elite. Não se pode ignorar que,
além da necessária motivação pessoal e profissional
que o atleta possui, temos também os interesses dos clubes, organizações
esportivas, patrocinadores, entre outros. Com isso, nem sempre o planejamento
das avaliações clínica e física, do treinamento
e das competições pode ser baseado nas ações
que otimizem a melhora do rendimento, ao mesmo tempo em que se minimize
o risco de o atleta adquirir um problema de saúde.
Um dos pilares básicos do treinamento esportivo é o princípio
da especificidade, o qual determina que a carga de treino, composta
principalmente pela intensidade (velocidade de execução
do movimento) e volume de treino (número de execuções
do movimento) e os grupos musculares/movimentos empregados nas sessões
de treinamento devem ser os mais próximos da condição
de competição. Isso impõe, por exemplo, que determinados
gestos esportivos, e conseqüentemente grupos musculares e articulações,
sejam empregados de forma exaustiva durante todo um ciclo de treinamento.
Importante também é o princípio da sobrecarga,
que, em linhas gerais, estabelece que a carga de treino deva ser periodicamente
modificada (freqüentemente pelo aumento do volume e/ou intensidade),
fazendo com que o atleta apresente inicialmente diminuição
de seu rendimento, o que tem sido definido como overreaching. Essa diminuição
planejada do rendimento é seguida de um período de diminuição
da carga (normalmente do volume), gerando um processo de supercompensação
e conseqüentemente melhora do rendimento do atleta. Entretanto,
os processos de intensificação do treinamento, acompanhados
ou não de problemas psicológicos, podem levar à
síndrome do overtraining, que se caracteriza por uma diminuição
persistente do rendimento, freqüentemente acompanhada de distúrbios
nos estados de humor (ansiedade e depressão). A recuperação
do estado de overreaching se dá em aproximadamente duas semanas,
podendo ser considerada uma condição normal dentro do
processo de treinamento. Já a recuperação do estado
de overtraining leva várias semanas ou até mesmo meses,
comprometendo a saúde e a carreira do atleta.
Mesmo com os avanços no entendimento da síndrome de overtraining,
ainda existe muita dificuldade para se estabelecer seu diagnóstico
precoce, podendo ser facilmente confundida apenas com um estado agudo
de fadiga ou o próprio overreaching. A incidência da síndrome
de overtraining entre os atletas tem variado bastante nos diversos estudos
sobre o tema, em parte porque há discordância na sua caracterização,
existindo relatos que de 15% a 50% dos atletas podem apresentar alguns
sintomas que indiquem sua presença durante uma temporada de competição.
Embora os mecanismos que desencadeiam a síndrome de overtraining
possam ser dependentes do esporte praticado, ela pode acometer atletas
envolvidos em treinamentos aeróbios como também aqueles
engajados em programas nos quais a força e a velocidade são
mais solicitadas. Como já apontado anteriormente, atletas em
overtraining, além da diminuição persistente do
rendimento, podem apresentar importantes alterações da
saúde, como depressão, apatia, dores musculares e articulares,
alterações no padrão de sono, infecções
(principalmente no sistema respiratório), diminuição
do apetite, dentre outras.
Embora a síndrome de overtraining apareça com a mesma
freqüência entre homens e mulheres, a intensificação
do treinamento pode afetar mais decisivamente as mulheres, desenvolvendo
outro conjunto de sintomas, conhecido como a tríade da mulher
atleta. Nessa síndrome, estão presentes a amenorréia
(suspensão do ciclo menstrual), desordens alimentares (bulimia
e anorexia) e osteoporose (perda da densidade mineral óssea).
Nesse quadro, causa bastante preocupação a amenorréia,
pois a perda da densidade mineral óssea é diretamente
relacionada à duração da amenorréia, existindo
evidências que essa perda é irreversível.
Outro problema de saúde que foi mais recentemente detectado é
a possibilidade de a prática excessiva de exercício desencadear
comportamento compulsivo, podendo os indivíduos apresentarem
síndrome de abstinência após a interrupção
das sessões de treinamento. Como parece existir uma relação
positiva entre o grau de dependência e o número de anos
de prática de exercícios, grande atenção
deveria ser dada aos atletas com maior experiência, pois esses
estariam mais suscetíveis a desenvolver a "dependência
de exercício". Além dos eventuais problemas de saúde
que podem estar presentes no overtraining e na tríade da mulher
atleta, deve-se destacar que a "dependência de exercício"
pode interferir nos relacionamentos com o companheiro, familiares, amigos
e no próprio trabalho, quando esse está presente na vida
do atleta.
Em todas essas situações, importantes medidas preventivas
e/ou curativas podem e devem ser implementadas. Sem necessariamente
colocá-las em ordem de prioridade, poderíamos citar: exames
clínicos e laboratoriais com periodicidade mínima anual
(normalmente no início da temporada de competição),
para que se avaliem as condições de saúde dos atletas
em todas as suas dimensões (física, mental e social);
testes físicos que permitirão a prescrição
individualizada das cargas de treinamento, minimizando os eventuais
efeitos adversos do treinamento em longo prazo; melhor planejamento
do calendário de competições por parte das organizações
esportivas e dos técnicos; e maior e melhor suporte nutricional,
buscando principalmente a mais rápida recuperação
dos atletas após os treinos mais exaustivos e/ou competições,
entre outras. Importante poderia ser também a aplicação
periódica de questionários que pudessem identificar mais
precocemente a existência do overtraining, da "dependência
de exercício", das desordens alimentares, e, particularmente
nas mulheres, a amenorréia.
Por último e não menos relevante - e que não se
pode atribuir ao esporte em si - estão os importantes e reais
problemas de saúde que advêm da prática competitiva
em alto nível. Isso poderia desencadear conclusões apressadas,
que rapidamente levariam à negação e/ou restrição
da prática esportiva em nível competitivo e também
em outros espaços sociais (escolas e clubes). A nosso ver, o
esporte, além de ser uma das mais importantes manifestações
culturais de nossa sociedade, não pode ser reduzido a sua versão
profissional e comercial, visto sob a perspectiva de prática
de uma elite, e com toda a aversão, condenação
e rejeição que isso suscita. É nele que o indivíduo
pode melhorar seu repertório motor, que pode ter um corpo ágil
e hábil, culto e civilizado, que desenvolva relações
com os outros e com eles construa seu autoconceito e sua auto-estima.
"O esporte, além de ser uma das
mais importantes manifestações culturais ?de nossa sociedade,
não pode ser reduzido a sua versão profissional ?e comercial,
visto sob a perspectiva de prática de uma elite, ?e com toda
a aversão, condenação e rejeição
que isso suscita"
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Benedito Sérgio
Denadai é doutor em ciências pela Universidade Federal
de
São Paulo (Unifesp) e professor ?titular de treinamento esportivo
na Universidade Estadual Paulista (Unesp)
A
partir desta edição, a seção Em Pauta
abre espaço para a sua opinião.
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