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Em Pauta

Postado em 18/07/2007

REVISTA E - PORTAL SESCSP

 

 


 

Quando vemos um atleta desafiar os limites do possível sendo o mais ágil, o mais veloz ou o mais forte é fácil associar sua imagem à perfeição. No que diz respeito à estética, é inegável o que algumas modalidades esportivas fazem pelo corpo. Mas e a saúde? Será que o organismo do esportista também bate recordes de bom funcionamento? A seção Em Pauta deste mês discute riscos associados à superação de marcas na prática de esportes por meio de artigos exclusivos do chefe da disciplina neurofisiologia e fisiologia do exercício na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Antonio Carlos da Silva, e do doutor em ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Benedito Sérgio Denadai.

 

Possíveis riscos associados aos esportes de alto rendimento

por Antonio Carlos da Silva

 

Já é fato que a prática regular de atividade física contribui para a melhora da qualidade de vida das pessoas, reduzindo o risco de mortalidade precoce, doença coronariana, hipertensão, câncer de cólon, obesidade, diabetes mellitus, entre outras doenças. Fica claro que incentivar tal prática é dever de todo profissional ligado à área da saúde e comprometido com o bem-estar do cidadão. Contudo, a prática de esportes também poderá acarretar um considerável risco de lesão, tanto para atletas de elite quanto para os tidos como "recreativos", à medida que suas metas vão se aproximando das exigências da alta competitividade (Bahr e Krosshaug, 2005).
A exposição sistemática a movimentos vigorosos e, muitas vezes, ao contato físico aumenta em muito a probabilidade de atletas serem assombrados pelo fantasma da contusão. Quando comparados aos recreativos, os atletas de elite estão sujeitos a maior probabilidade de lesões agudas (traumas, cortes etc.) ou crônicas (tendinites, artrites etc.) devido à maior quantidade de tempo a que são submetidos à execução de movimentos repetitivos e à prática da modalidade em si. Para se ter melhor noção disso, Bompa [Tudor O. Bompa, principal especialista mundial em periodização nos esportes] apresenta alguns números corriqueiros da rotina de desportistas de nível mundial: são de oito a 12 sessões de treinamento por semana e mais de 1.000 horas anuais só com treinamentos. Para que o leitor tenha uma visão mais clara da enorme dificuldade em que a busca por recordes se revela, vejamos um exemplo da história recente da maratona (corrida por um percurso de 42.195 metros): em 1981, o cubano naturalizado americano Alberto Salazar batia o recorde mundial da prova percorrendo a distância em 2h08min13seg. Vinte e dois anos após o feito do americano, em 28 de setembro de 2003, o queniano Paul Tergat bateu o até então recorde mundial do marroquino naturalizado americano Khalid Khannouchi (2h05min38min, conseguido em 2002) com a marca de 2h04min55seg. Note que foram necessárias mais de duas décadas para uma redução do tempo de prova em pouco menos de quatro minutos do que conseguira Salazar.
Superar limites é a pretensão de quase todos os desportistas (sejam esses limites os recordes mundiais, sejam as marcas pessoais), portanto, não é incomum encontrar incidência de lesões específicas em cada modalidade esportiva. Na Tabela 1, são apresentadas algumas das lesões mais freqüentes em esportes populares.
Muito importante é ressaltar que o maior aparecimento de lesões possui relação não apenas com o nível competitivo do atleta, mas também com a quantidade de horas praticadas por dia. Numa revisão de diversos artigos sobre lesões em tenistas, Pluim [Babette Pluim, médico especialista em medicina do esporte] et al. (2006) observaram que o aparecimento do chamado "cotovelo de tenista" é significativamente maior em tenistas que praticam o esporte por mais de duas horas por dia, sendo eles de alta competitividade ou não.
Uma das grandes preocupações e também um dos aspectos mais polêmicos dentro do tema deste artigo é a chamada morte súbita no exercício e no esporte (MSEE). Uma revisão publicada recentemente (2006) pela Sociedade Européia de Cardiologia nos apresenta dados preocupantes quanto ao assunto. A incidência de MSEE em jovens atletas (12 a 35 anos) é 2,5 vezes maior do que em indivíduos não atletas. Porém, a prática de esportes não é exatamente a causa, mas sim um dos possíveis estopins que desencadeariam a MSEE em atletas portadores de doenças cardíacas congênitas e assintomáticas. Em boa parte dos esportes, o aumento da demanda cardíaca é significativo, potencializando os efeitos de uma doença subjacente, até então não percebida pelo praticante. As modalidades esportivas nas quais a MSEE aparece com maior freqüência são: futebol (30%), basquetebol (25%) e corrida (15%). É importante ressaltar que esses são dados absolutos, sem levar em consideração o número de praticantes de cada modalidade.
Há um ditado no esporte dizendo que "lesão é parte do jogo", pois seu aparecimento é inevitável. Porém, o avançar da ciência esportiva nos permite especular que a frase "prevenção de lesão é parte do jogo" seja uma nova corrente de pensamento cada vez mais presente no cotidiano de equipes, técnicos e atletas, pois, quanto menor for a incidência de lesões, maior será a vida útil do atleta.
Parte significativa das lesões pode ser minimizada quando os desportistas, desde cedo, se submetem a avaliações diagnósticas. Uma futura lesão muscular pode ser detectada pela avaliação do equilíbrio da força muscular em equipamentos isocinéticos, pela análise do nível do desgaste muscular, dosando-se a quantidade de alguns hormônios e enzimas no sangue, pelo grau de flexibilidade das articulações específicas ou ainda pela utilização de questionários que apontam os sinais e sintomas característicos do overtraining (irritabilidade freqüente, insônia, perturbações gastrintestinais, entre outros). Já quanto à MSEE, a Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, SBME (2005), informa em suas diretrizes que de uma avaliação clínica pré-participação deve constar: uma anamnese precisa [anamnese é um histórico realizado com base nas lembranças do paciente e que vai desde os sintomas iniciais até o momento da observação clínica], valorizando a história patológica pregressa, história familiar de cardiopatias e/ou morte súbita prematura, a história social e os hábitos de vida, além de um exame físico minucioso com ênfase no aparelho cardiovascular.
A proposta deste artigo foi evidenciar que os cuidados para a participação em atividades físico-esportivas não devem ser encarados apenas como uma mera formalidade, resumindo-se a um atestado, mas como uma condição sine qua non para se poder desfrutar de todos os benefícios que a prática de exercícios pode proporcionar ao ser humano. Não tem o intuito de gerar medo, nem mesmo quanto à morte súbita no exercício e no esporte, já que esta é rara e não existem evidências de que sua freqüência esteja aumentando (SBME, 2005), mas, sim, servir de instrumento informativo, de maneira que praticantes, pais, profissionais de educação física e médicos possam estar mais integrados e voltados para um objetivo comum que é o de uma sociedade cada vez mais saudável e feliz.
De modo geral, o risco associado à prática esportiva aumenta com a necessidade de superação de marcas ou performances individuais, com a idéia de "quanto mais sofrido o treinamento melhor o rendimento" e com a negligência nos sinais e sintomas de uma sobrecarga, aguda ou crônica, acima dos próprios limites. Se você falhou na etapa preventiva, respeite as manifestações de seu corpo para não precisar de uma etapa terapêutica.

 

"Superar limites é a pretensão de quase todos os desportistas (sejam esses ?limites os recordes mundiais, sejam as marcas pessoais), portanto, não é incomum encontrar incidência de lesões específicas em cada modalidade esportiva"


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Antonio Carlos da Silva é professor, doutor e chefe da disciplina neurofisiologia e
fisiologia do exercício ?na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Colaboração: Rafael Fachina, aluno de mestrado da mesma disciplina na Unifesp

 

 

Rendimento esportivo e a saúde de atletas: é possível conciliá-los?

 

por Benedito Sérgio Denadai

 


Baseados em um grande número de evidências que mostram uma relação positiva entre o aumento do nível de atividade física e a melhora da saúde, muitos organismos que ditam as políticas públicas de saúde no Brasil e no mundo têm procurado estimular a prática orientada de exercícios físicos, estabelecendo recomendações sobre a quantidade e qualidade dessa atividade. Essas recomendações são norteadas pelo aumento contínuo do volume de informações oriundas da literatura científica, que demonstra a relação entre o estilo de vida sedentário e a morbidade ou mortalidade advindas de um grande número de doenças crônicas (por exemplo, diabetes, hipertensão e dislipidemias). No outro extremo do estilo de vida sedentário, estão os atletas (amadores ou profissionais), que buscam, eventualmente a qualquer custo, a melhora do rendimento. Embora o conhecimento teórico-prático na área das ciências do esporte tenha aumentado exponencialmente em todo o mundo, incluindo o Brasil, tem sido cada vez mais comum a incidência de problemas de saúde relacionados ao excesso de treinamento em atletas de elite. Não se pode ignorar que, além da necessária motivação pessoal e profissional que o atleta possui, temos também os interesses dos clubes, organizações esportivas, patrocinadores, entre outros. Com isso, nem sempre o planejamento das avaliações clínica e física, do treinamento e das competições pode ser baseado nas ações que otimizem a melhora do rendimento, ao mesmo tempo em que se minimize o risco de o atleta adquirir um problema de saúde.
Um dos pilares básicos do treinamento esportivo é o princípio da especificidade, o qual determina que a carga de treino, composta principalmente pela intensidade (velocidade de execução do movimento) e volume de treino (número de execuções do movimento) e os grupos musculares/movimentos empregados nas sessões de treinamento devem ser os mais próximos da condição de competição. Isso impõe, por exemplo, que determinados gestos esportivos, e conseqüentemente grupos musculares e articulações, sejam empregados de forma exaustiva durante todo um ciclo de treinamento. Importante também é o princípio da sobrecarga, que, em linhas gerais, estabelece que a carga de treino deva ser periodicamente modificada (freqüentemente pelo aumento do volume e/ou intensidade), fazendo com que o atleta apresente inicialmente diminuição de seu rendimento, o que tem sido definido como overreaching. Essa diminuição planejada do rendimento é seguida de um período de diminuição da carga (normalmente do volume), gerando um processo de supercompensação e conseqüentemente melhora do rendimento do atleta. Entretanto, os processos de intensificação do treinamento, acompanhados ou não de problemas psicológicos, podem levar à síndrome do overtraining, que se caracteriza por uma diminuição persistente do rendimento, freqüentemente acompanhada de distúrbios nos estados de humor (ansiedade e depressão). A recuperação do estado de overreaching se dá em aproximadamente duas semanas, podendo ser considerada uma condição normal dentro do processo de treinamento. Já a recuperação do estado de overtraining leva várias semanas ou até mesmo meses, comprometendo a saúde e a carreira do atleta.
Mesmo com os avanços no entendimento da síndrome de overtraining, ainda existe muita dificuldade para se estabelecer seu diagnóstico precoce, podendo ser facilmente confundida apenas com um estado agudo de fadiga ou o próprio overreaching. A incidência da síndrome de overtraining entre os atletas tem variado bastante nos diversos estudos sobre o tema, em parte porque há discordância na sua caracterização, existindo relatos que de 15% a 50% dos atletas podem apresentar alguns sintomas que indiquem sua presença durante uma temporada de competição. Embora os mecanismos que desencadeiam a síndrome de overtraining possam ser dependentes do esporte praticado, ela pode acometer atletas envolvidos em treinamentos aeróbios como também aqueles engajados em programas nos quais a força e a velocidade são mais solicitadas. Como já apontado anteriormente, atletas em overtraining, além da diminuição persistente do rendimento, podem apresentar importantes alterações da saúde, como depressão, apatia, dores musculares e articulares, alterações no padrão de sono, infecções (principalmente no sistema respiratório), diminuição do apetite, dentre outras.
Embora a síndrome de overtraining apareça com a mesma freqüência entre homens e mulheres, a intensificação do treinamento pode afetar mais decisivamente as mulheres, desenvolvendo outro conjunto de sintomas, conhecido como a tríade da mulher atleta. Nessa síndrome, estão presentes a amenorréia (suspensão do ciclo menstrual), desordens alimentares (bulimia e anorexia) e osteoporose (perda da densidade mineral óssea). Nesse quadro, causa bastante preocupação a amenorréia, pois a perda da densidade mineral óssea é diretamente relacionada à duração da amenorréia, existindo evidências que essa perda é irreversível.
Outro problema de saúde que foi mais recentemente detectado é a possibilidade de a prática excessiva de exercício desencadear comportamento compulsivo, podendo os indivíduos apresentarem síndrome de abstinência após a interrupção das sessões de treinamento. Como parece existir uma relação positiva entre o grau de dependência e o número de anos de prática de exercícios, grande atenção deveria ser dada aos atletas com maior experiência, pois esses estariam mais suscetíveis a desenvolver a "dependência de exercício". Além dos eventuais problemas de saúde que podem estar presentes no overtraining e na tríade da mulher atleta, deve-se destacar que a "dependência de exercício" pode interferir nos relacionamentos com o companheiro, familiares, amigos e no próprio trabalho, quando esse está presente na vida do atleta.
Em todas essas situações, importantes medidas preventivas e/ou curativas podem e devem ser implementadas. Sem necessariamente colocá-las em ordem de prioridade, poderíamos citar: exames clínicos e laboratoriais com periodicidade mínima anual (normalmente no início da temporada de competição), para que se avaliem as condições de saúde dos atletas em todas as suas dimensões (física, mental e social); testes físicos que permitirão a prescrição individualizada das cargas de treinamento, minimizando os eventuais efeitos adversos do treinamento em longo prazo; melhor planejamento do calendário de competições por parte das organizações esportivas e dos técnicos; e maior e melhor suporte nutricional, buscando principalmente a mais rápida recuperação dos atletas após os treinos mais exaustivos e/ou competições, entre outras. Importante poderia ser também a aplicação periódica de questionários que pudessem identificar mais precocemente a existência do overtraining, da "dependência de exercício", das desordens alimentares, e, particularmente nas mulheres, a amenorréia.
Por último e não menos relevante - e que não se pode atribuir ao esporte em si - estão os importantes e reais problemas de saúde que advêm da prática competitiva em alto nível. Isso poderia desencadear conclusões apressadas, que rapidamente levariam à negação e/ou restrição da prática esportiva em nível competitivo e também em outros espaços sociais (escolas e clubes). A nosso ver, o esporte, além de ser uma das mais importantes manifestações culturais de nossa sociedade, não pode ser reduzido a sua versão profissional e comercial, visto sob a perspectiva de prática de uma elite, e com toda a aversão, condenação e rejeição que isso suscita. É nele que o indivíduo pode melhorar seu repertório motor, que pode ter um corpo ágil e hábil, culto e civilizado, que desenvolva relações com os outros e com eles construa seu autoconceito e sua auto-estima.

 


"O esporte, além de ser uma das mais importantes manifestações culturais ?de nossa sociedade, não pode ser reduzido a sua versão profissional ?e comercial, visto sob a perspectiva de prática de uma elite, ?e com toda a aversão, condenação e rejeição que isso suscita"


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Benedito Sérgio Denadai é doutor em ciências pela Universidade Federal de
São Paulo (Unifesp) e professor ?titular de treinamento esportivo na Universidade Estadual Paulista (Unesp)

 


 

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