RETRATO
DE UM FOTÓGRAFO
por
Penna Prearo
Nascido,
em 1949, no município de Maylasky - região de São
Roque, no estado de São Paulo -, o fotógrafo Penna Prearo
mudou-se para São Paulo, capital, aos 17 anos. "Já
correndo atrás da fotografia." Balconista de farmácia
até então - começou aos 11 anos na função
-, Prearo tinha claro que sua vocação era outra. O desejo
de criar, e as influências culturais da adolescência e juventude
ajudaram a montar o repertório que até hoje sustenta suas
imagens. As capas dos discos do compositor norte-americano Bob Dylan,
da banda britânica Beatles e a capa do disco Prelude do maestro
arranjador brasileiro Eumir Deodato foram as primeiras "pequenas
revoluções" que lhe moldaram o olhar fotográfico.
"As coisas se encaixaram, pensei que esse era meu álibi",
disse. O envolvimento com as câmeras e filmes deu-se logo de início
ligado à música. Entre 1970 e 1972 fez seu aprendizado
convivendo com outros fotógrafos (Sérgio Silva, Carlos
Ebert, Errol Sasse). Entre 1972 e 1980 construiu um currículo
que incluiu trabalhos com Tim Maia e Elis Regina. "Fiz a capa do
disco da Elis, na qual ela está grávida da Maria Rita",
lembra. A tônica de seu trabalho, no entanto, está na fotografia
autoral. Trabalhos que ele expõe em mostras coletivas e individuais.
A mais recente ocupou parte de um restaurante no bairro da Vila Madalena,
Zona Oeste de São Paulo: Delírios Passageiros entre Deleites
Sacramentados, com cenas de "coisas que fotografo nas estradas
agora" e uma reunião de imagens anteriores de seu acervo.
A seguir, trechos da conversa com o Conselho Editorial da Revista E,
na qual o fotógrafo, que também tem uma extensa lista
de colaborações para revistas como a Bravo! e a Vogue
RG, falou do trabalho e de suas influências.
Diálogo artístico
A interlocução é fundamental para mim, e cada vez
mais preciso encontrar e falar com outras pessoas de criação.
Então, vou atrás do músico, do pintor, do escultor
e do fotógrafo. Não fico só na fotografia, senão
vira samba de uma nota só, e isso é uma coisa que me aterroriza.
A música é o que mais me permeia, penso os meus trabalhos
como se tivesse fazendo um disco. Penso em séries, não
faço a foto única e isolada. Já li muito sobre
a existência de uma grande foto única, e concordo, mas
sinto que não funciono bem dessa maneira, então desenvolvo
séries. São coisas que vou elaborando por conta dessa
interlocução, raramente faço uma exposição
que não tenha trilha musical. Há pouco tempo, em 2005,
Renato Suzuki e Camila Garcia fizeram uma série de documentários
em parceria com a Pinacoteca do Estado, sobre seis fotógrafos
de produção autoral, eu fui um deles. Então, convidei
Lívio Tragtenberg para fazer a trilha sonora e o trabalho só
cresceu com isso. Depois surgiu um grupo de estudantes de comunicação
e publicidade da Cásper Líbero que começou a produzir
outro documentário sobre meu trabalho. Dessa vez fiz a ponte,
apresentei o Lívio a eles e ele novamente topou fazer a trilha.
Esse dois casos exemplificam bem a necessidade dessa parceria que comentei;
preciso encontrar outras figuras de outras áreas.
Digital ou analógica?
Meu trabalho comercial é digital, não dá para não
ser. Se for uma coisa específica, aí tem de conversar,
porque muda tudo. Essa coisa de que o custo digital é mais barato
não é verdade, é um novo investimento que se faz,
e a cada dois anos muda tudo, o paradigma foi transformado completamente.
Você tem de criar um norte e não se desviar muito. Conheço
gente que sofre por não conseguir isso. A digital teve uma grande
vantagem para mim, faço um estudo das coisas que penso, um rascunho,
nesse ponto a digital é espetacular. Mas ela não resolve
tudo, quer dizer, criou novos problemas. Tenho muito material gerado
em película, continuo trabalhando em negativo, para mim não
tem problema trabalhar em negativo ou digital, a minha linguagem está
adequada aos dois formatos; o que quero criar independe, na essência,
da forma como vou trabalhar. Produzir mais em digital não quer
dizer que se produza com mais qualidade. Ou você afina o olhar,
errando e acertando, ou você não vinga, não segue
adiante.
Ser andante
Ando com a moçada, eles me procuram, é um sangue novo
fundamental. Sem medo de parecer presunçoso, tenho certeza de
que eles precisam da experiência de quem é mais velho -
assim como eu preciso da vivência e da força deles. Meus
trabalhos autorais são fruto do que está perto de mim.
Não fico planejando coisas que tenho de fazer longe. Ou seja,
não fico criando dificuldades para mim, trabalho com o que está
perto. Não lembro qual foi o escritor que disse: "Fale de
sua aldeia e estará falando do mundo". Não faço
apologia do "não se mover", mas tenho de trabalhar
com o que está perto. Comecei a desenvolver trabalhos em função
de ser andante. Não é pedestre, é andante - porque
tem dias que bato perna pra caramba em função dessas idéias.
Agora mesmo, estou envolvido em três projetos que são frutos
do fato de ser andante. Faz oito anos, comecei a partir da convivência
com meus netos - alguns desses trabalhos têm a ver com coisas
que encontro no caminho que percorro com o mais velho, de 8 anos, da
casa dele até a minha, até o parque, até a escola.
Cinema de breque
Concentração e estímulo são coisas que mantenho
perto de mim sempre. Fotografo todos os dias, como fez o músico
Hermeto Pascoal, que compôs 365 músicas em um ano. Ou seja,
fez uma música por dia. O compositor Ennio Morricone deu uma
entrevista à Folha de S.Paulo certa vez e disse algo exatamente
nesse sentido. Ele disse que, se você lembrar que o Bach [Johann
Sebastian Bach, 1685-1750, compositor alemão] fazia uma cantata
por semana, para ele [Morricone] fazer 40 anos de trilhas de filmes
não era grande tarefa. Além disso, ele falou também
que a paixão se desfaz, mas a disciplina transforma a paixão
em amor. Relaciono muito tudo isso a minha forma de trabalhar. Tudo
vai se ligando. Textos que vou compilando e que vão para a próxima
oficina, encontros etc. E tenho uma ligação muito forte
com o cinema. Tanto que às vezes chamo meus trabalhos de cinema
de breque, porque envolve a música e tem movimento.
Imagem
preservada
Na abertura do 8º Mês Internacional da Fotografia, foi feito
um encontro na Caixa Cultural Sé, onde foi levantada a questão
de como preservar a memória do que já foi feito e do que
está sendo produzido agora em termos de imagem fotográfica.
Foi abordado o fato de que existe uma grande mudança por parte
de quem está investindo em "colecionismo", estão
comprando e colecionando fotografia - e não é só
um movimento institucional, mas particular também. Além
disso, há uma série de outras transformações
que aqui no Brasil ainda não estão sendo discutidas pra
valer. Foi pensando nisso que comecei a levantar o meu material - que
é pequeno, é a ponta da ponta do iceberg, mas ainda assim
tenho sérios problemas para preservá-lo. Quando comecei
a procurar fotos antigas minhas, percebi que precisava organizá-las
- para que alguém, quando for necessário, possa pegar
meu trabalho e mostrá-lo sem dificuldades. Daí de novo
o tripé: concentração, estímulo, disciplina,
coisas que são buscadas por mim o tempo todo.
"Ando
com a moçada, eles me procuram, é um sangue novo fundamental.
Sem ter medo de parecer presunçoso, tenho certeza de que eles
precisam ?da experiência de quem é mais velho"
Voltar