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Encontros

Postado em 16/07/2007

REVISTA E - PORTAL SESCSP

 

RETRATO DE UM FOTÓGRAFO

por Penna Prearo

 

Nascido, em 1949, no município de Maylasky - região de São Roque, no estado de São Paulo -, o fotógrafo Penna Prearo mudou-se para São Paulo, capital, aos 17 anos. "Já correndo atrás da fotografia." Balconista de farmácia até então - começou aos 11 anos na função -, Prearo tinha claro que sua vocação era outra. O desejo de criar, e as influências culturais da adolescência e juventude ajudaram a montar o repertório que até hoje sustenta suas imagens. As capas dos discos do compositor norte-americano Bob Dylan, da banda britânica Beatles e a capa do disco Prelude do maestro arranjador brasileiro Eumir Deodato foram as primeiras "pequenas revoluções" que lhe moldaram o olhar fotográfico. "As coisas se encaixaram, pensei que esse era meu álibi", disse. O envolvimento com as câmeras e filmes deu-se logo de início ligado à música. Entre 1970 e 1972 fez seu aprendizado convivendo com outros fotógrafos (Sérgio Silva, Carlos Ebert, Errol Sasse). Entre 1972 e 1980 construiu um currículo que incluiu trabalhos com Tim Maia e Elis Regina. "Fiz a capa do disco da Elis, na qual ela está grávida da Maria Rita", lembra. A tônica de seu trabalho, no entanto, está na fotografia autoral. Trabalhos que ele expõe em mostras coletivas e individuais. A mais recente ocupou parte de um restaurante no bairro da Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo: Delírios Passageiros entre Deleites Sacramentados, com cenas de "coisas que fotografo nas estradas agora" e uma reunião de imagens anteriores de seu acervo. A seguir, trechos da conversa com o Conselho Editorial da Revista E, na qual o fotógrafo, que também tem uma extensa lista de colaborações para revistas como a Bravo! e a Vogue RG, falou do trabalho e de suas influências.



Diálogo artístico
A interlocução é fundamental para mim, e cada vez mais preciso encontrar e falar com outras pessoas de criação. Então, vou atrás do músico, do pintor, do escultor e do fotógrafo. Não fico só na fotografia, senão vira samba de uma nota só, e isso é uma coisa que me aterroriza. A música é o que mais me permeia, penso os meus trabalhos como se tivesse fazendo um disco. Penso em séries, não faço a foto única e isolada. Já li muito sobre a existência de uma grande foto única, e concordo, mas sinto que não funciono bem dessa maneira, então desenvolvo séries. São coisas que vou elaborando por conta dessa interlocução, raramente faço uma exposição que não tenha trilha musical. Há pouco tempo, em 2005, Renato Suzuki e Camila Garcia fizeram uma série de documentários em parceria com a Pinacoteca do Estado, sobre seis fotógrafos de produção autoral, eu fui um deles. Então, convidei Lívio Tragtenberg para fazer a trilha sonora e o trabalho só cresceu com isso. Depois surgiu um grupo de estudantes de comunicação e publicidade da Cásper Líbero que começou a produzir outro documentário sobre meu trabalho. Dessa vez fiz a ponte, apresentei o Lívio a eles e ele novamente topou fazer a trilha.
Esse dois casos exemplificam bem a necessidade dessa parceria que comentei; preciso encontrar outras figuras de outras áreas.


Digital ou analógica?
Meu trabalho comercial é digital, não dá para não ser. Se for uma coisa específica, aí tem de conversar, porque muda tudo. Essa coisa de que o custo digital é mais barato não é verdade, é um novo investimento que se faz, e a cada dois anos muda tudo, o paradigma foi transformado completamente. Você tem de criar um norte e não se desviar muito. Conheço gente que sofre por não conseguir isso. A digital teve uma grande vantagem para mim, faço um estudo das coisas que penso, um rascunho, nesse ponto a digital é espetacular. Mas ela não resolve tudo, quer dizer, criou novos problemas. Tenho muito material gerado em película, continuo trabalhando em negativo, para mim não tem problema trabalhar em negativo ou digital, a minha linguagem está adequada aos dois formatos; o que quero criar independe, na essência, da forma como vou trabalhar. Produzir mais em digital não quer dizer que se produza com mais qualidade. Ou você afina o olhar, errando e acertando, ou você não vinga, não segue adiante.


Ser andante
Ando com a moçada, eles me procuram, é um sangue novo fundamental. Sem medo de parecer presunçoso, tenho certeza de que eles precisam da experiência de quem é mais velho - assim como eu preciso da vivência e da força deles. Meus trabalhos autorais são fruto do que está perto de mim. Não fico planejando coisas que tenho de fazer longe. Ou seja, não fico criando dificuldades para mim, trabalho com o que está perto. Não lembro qual foi o escritor que disse: "Fale de sua aldeia e estará falando do mundo". Não faço apologia do "não se mover", mas tenho de trabalhar com o que está perto. Comecei a desenvolver trabalhos em função de ser andante. Não é pedestre, é andante - porque tem dias que bato perna pra caramba em função dessas idéias. Agora mesmo, estou envolvido em três projetos que são frutos do fato de ser andante. Faz oito anos, comecei a partir da convivência com meus netos - alguns desses trabalhos têm a ver com coisas que encontro no caminho que percorro com o mais velho, de 8 anos, da casa dele até a minha, até o parque, até a escola.

Cinema de breque
Concentração e estímulo são coisas que mantenho perto de mim sempre. Fotografo todos os dias, como fez o músico Hermeto Pascoal, que compôs 365 músicas em um ano. Ou seja, fez uma música por dia. O compositor Ennio Morricone deu uma entrevista à Folha de S.Paulo certa vez e disse algo exatamente nesse sentido. Ele disse que, se você lembrar que o Bach [Johann Sebastian Bach, 1685-1750, compositor alemão] fazia uma cantata por semana, para ele [Morricone] fazer 40 anos de trilhas de filmes não era grande tarefa. Além disso, ele falou também que a paixão se desfaz, mas a disciplina transforma a paixão em amor. Relaciono muito tudo isso a minha forma de trabalhar. Tudo vai se ligando. Textos que vou compilando e que vão para a próxima oficina, encontros etc. E tenho uma ligação muito forte com o cinema. Tanto que às vezes chamo meus trabalhos de cinema de breque, porque envolve a música e tem movimento.


Imagem preservada
Na abertura do 8º Mês Internacional da Fotografia, foi feito um encontro na Caixa Cultural Sé, onde foi levantada a questão de como preservar a memória do que já foi feito e do que está sendo produzido agora em termos de imagem fotográfica. Foi abordado o fato de que existe uma grande mudança por parte de quem está investindo em "colecionismo", estão comprando e colecionando fotografia - e não é só um movimento institucional, mas particular também. Além disso, há uma série de outras transformações que aqui no Brasil ainda não estão sendo discutidas pra valer. Foi pensando nisso que comecei a levantar o meu material - que é pequeno, é a ponta da ponta do iceberg, mas ainda assim tenho sérios problemas para preservá-lo. Quando comecei a procurar fotos antigas minhas, percebi que precisava organizá-las - para que alguém, quando for necessário, possa pegar meu trabalho e mostrá-lo sem dificuldades. Daí de novo o tripé: concentração, estímulo, disciplina, coisas que são buscadas por mim o tempo todo.

"Ando com a moçada, eles me procuram, é um sangue novo fundamental. Sem ter medo de parecer presunçoso, tenho certeza de que eles precisam ?da experiência de quem é mais velho"

 

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