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Música

Postado em 16/07/2007

REVISTA E - PORTAL SESCSP

 

SONS DE VANGUARDA


Considerado um dos maiores compositores eruditos do século 20, o italiano Luciano Berio teve papel de destaque na formação de toda uma geração musical brasileira


Ao longo do século 20, a inovação na música erudita foi a grande premissa para os compositores de vanguarda, músicos que buscavam experimentar linguagens e caminhos estruturais trilhando uma via paralela ao que era considerado clássico e intocável. O marco zero dessa revolução musical surgiu com a Segunda Escola de Viena, movimento da década de 1920 que tinha como principais representantes o compositor austríaco Arnold Schoenberg e seus principais alunos: Anton Webern e Alban Berg. Schoenberg queria uma música que se diferenciasse estruturalmente das composições de até então. O que, de fato, ele conseguiu. Exemplo mencionado por dez entre dez especialistas é o dodecafonismo, técnica de composição na qual as 12 notas musicais da escala cromática - as notas-padrão acrescidas dos cinco tons intermediários - são tratadas como equivalentes, ou seja, sujeitas a uma relação ordenada e não hierárquica.
Na escalação do time dos vanguardistas, um dos maiores nomes veio da Itália: Luciano Berio. Nascido na cidade Oneglia, em 1925, o compositor recebeu suas primeiras instruções musicais do pai e do avô, e, embora tivesse se mudado para Milão após a Segunda Guerra Mundial para estudar direito, a música falou mais alto e Berio acabou mesmo se tornando pupilo do músico também italiano Giorgio Federico Ghedini, conhecido por explorar diversos estilos. No início dos anos 50, o jovem músico já começava a mostrar interesse pelos experimentalismos de Schoenberg. Ainda nessa década, iria para Darmstadt, na Alemanha, onde o alemão Karlheinz Stockhausen e o francês Pierre Boulez propunham inovações na linguagem musical. Foi lá que Berio entrou em contato com a música eletroacústica - junção da música concreta [produzida a partir de edição do áudio misturada a fragmentos de som ambiente, tanto da natureza quanto até mesmo de indústrias], criada pelos franceses Pierre Schaeffer e Pierre Henry (veja boxe De Olho no Contemporâneo) no final da década de 40, com a música eletrônica [criada por meio de equipamentos e/ou instrumentos eletrônicos, como o sintetizador] de Stockhausen, surgida dez anos depois. De volta à Itália, em 1955, fundou com Bruno Maderna o Studio di Fonologia. Foi a partir de então que as experimentações de Berio o levaram à utilização de aparelhos emissores de ondas eletromagnéticas, gravações em fitas magnéticas de rolo e sons sintéticos para compor sua música eletroacústica. "Berio foi um dos principais responsáveis por esse sincretismo da música concreta com a eletrônica", afirma o também compositor e diretor do Studio PANaroma de Música Eletroacústica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Flo Menezes, um dos principais estudiosos da obra do italiano

 

Consciência da voz
Autor de livros e outros trabalhos sobre Berio publicados na Europa - entre eles a tese, defendida na França, Un Essai sur la Composition Verbale/Electronic "Visage", de Luciano Berio [Um ensaio sobre a composição verbal-eletrônica "Visage", de Luciano Berio, em francês] -, Menezes foi o grande premiado no Primeiro Concurso Internacional de Musicologia na Itália, em 1990, pela análise da música Visage, de autoria do italiano. "Considero essa obra, de 1961, umas das peças fundamentais da música eletroacústica", diz. Berio, que foi casado com uma das principais cantoras do século 20, a norte-americana meio-soprano Cathy Berberian, acabou se tornando um mestre na utilização da voz em composições de música contemporânea - como também ficaram conhecidas as músicas eruditas de vanguarda. "Ele cobriu praticamente todos os gêneros vocais com uma maestria absurda, desde a música eletroacústica até o coro", explica Flo Menezes. "Tinha uma consciência total da voz em todas as suas acepções: a questão fonética, a acústica e a semântica."
Berio, morto em 2003, ainda se destacou nas adaptações de músicas folclóricas que recolheu mundo afora, conhecidas como as Folk Songs de Berio, adaptando-as e rearranjando-as, em 1964, com roupagem erudita. "São canções que exigem bastante versatilidade do intérprete, com o uso da voz extremamente grave até a bem suave", revela Céline Imbert, que interpreta as Folk Songs no CD Berio+, lançado pelo Selo Sesc (veja boxe Música Folclórica). "Os sentimentos que estão expressos nas letras foram mostrados por meio do trabalho instrumental de Berio. Ele traduziu muito bem o espírito dessas canções." Outra característica do músico era sua predileção por piano, flauta e percussão em suas composições. "Ele também foi um mestre na música instrumental pura", ressalta Menezes. "Por tudo isso, juntamente com Stockhausen, Berio foi o maior gênio da música contemporânea da segunda metade do século 20."

 

À brasileira
O primeiro contato dessas vanguardas musicais européias com o que estava sendo produzido de novo no Brasil em música erudita teve início com os avanços da neue musik alemã - música nova em português -, produzida pela Escola de Darmstadt, liderada por Boulez e Stockhausen. Essa produção chamou a atenção de alguns musicistas brasileiros que buscavam atualizar o cenário nacional. A expressão alemã tornou-se sinônimo de vanguarda e sua tradução foi adotada por aqui. Os compositores Gilberto Mendes, Willy Corrêa de Oliveira, Rogério Duprat e Damiano Cozzella uniram-se e lançaram o Manifesto Música Nova na Revista Invenção, criada nos anos 50, por poetas concretos. "O manifesto surgiu como conseqüência de uma tentativa de salvar a música brasileira, já quase no início da década de 60, daquele nacionalismo sem fim da época e que tinha como figura central o Camargo Guarnieri", lembra Gilberto Mendes. "Quer dizer, queríamos colocar a música brasileira no mesmo nível do que já se fazia na Europa e nos Estados Unidos."
Luciano Berio estava entre os compositores que influenciaram o movimento brasileiro de música nova. Sobretudo após sua primeira vinda ao Brasil, nos anos 60. "Nossas referências musicais eram, antes de qualquer coisa, a Escola de Viena", explica Willy Corrêa de Oliveira. "Depois os novos compositores: Stockhausen, Boulez, Berio e Pousser". Willy conta que teve contato com o compositor quando estudou na Europa, no início dos anos 60, e ambos se encontraram na Alemanha. "Ele era uma pessoa muito simples e fácil de conviver. Inclusive, cheguei a entrevistá-lo em uma das vezes que ele veio ao Brasil", afirma. Segundo Gilberto Mendes, fatores como seu próprio caráter autodidata, associado aos avanços da indústria fonográfica, contribuíram para a total interação a essa vanguarda. "A gente comprava as peças do Luciano Berio, do Henry Pousser, do Pierre Boulez e do Karlheinz Stockhausen, e como nessa época já havia o LP, a gente estudava as partituras e escutava os discos", lembra Mendes.
Embora Luciano Berio fosse um dos expoentes da música eletroacústica, a adaptação do gênero europeu à realidade brasileira falou mais alto. "Na época, não dispúnhamos de meios para isso [tocar música eletroacústica], era muito caro", conta Gilberto Mendes. "Mas essa estética também influenciou nossa música, então fazíamos uma música instrumental com um aspecto de música eletrônica."

 

Ver boxes:

De olho no contemporâneo
Música folclórica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De olho no contemporâneo

Festival de Música Nova realiza sua 42ª edição e tem as unidades
Consolação e Vila Mariana entre os locais de apresentação

Com a proposta de desenvolver a linguagem musical erudita de vanguarda e de assumir um compromisso com o mundo contemporâneo, o compositor Gilberto Mendes criou, em 1962, o Festival de Música Nova. Neste ano, o evento chega a sua 42ª edição e ocorrerá, de 23 de agosto a 12 de setembro, nas cidades de São Paulo e Santos. Dos locais escolhidos para sediar o festival na capital, estão as unidades do Sesc Consolação e Vila Mariana. Entre as atrações, nomes conhecidos no gênero como Quarteto Arditti, da Inglaterra, uma das mais prestigiadas formações de cordas da atualidade, e o francês Ensemble L'Itinéraire (foto) - respectivamente, na unidade Vila Mariana e Consolação. Destaque especial para a apresentação do compositor francês Pierre Henry, um dos fundadores da música concreta, que neste ano festeja seu 80º aniversário. Ao longo de sua existência, o festival tem procurado lançar luz sobre a constante renovação pela qual passou a música erudita contemporânea a partir dos anos 50, divulgando obras de compositores como Karlheinz Stockhausen, Pierre Boulez, John Cage e Luciano Berio, entre outros - sem deixar de acompanhar o trabalho das novas gerações de compositores e intérpretes. "A avaliação que faço desses mais de 40 anos de festival é a mais positiva possível", afirma Gilberto Mendes. "Foi a partir dele que mostramos nossa música. O objetivo básico era apresentar minha música, a do Rogério [Duprat], a do Willy [Corrêa de Oliveira], enfim, a música do nosso grupo, porque ninguém fazia isso. Depois a proposta foi se ampliando até se tornar um evento internacional."

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Música folclórica

Selo Sesc São Paulo lança seu primeiro título erudito

Em 1964, o compositor italiano Luciano Berio escreveu as Folk Songs, ou canções populares, especialmente para a meio-soprano norte-americana Cathy Berberian, com quem foi casado por 14 anos. Quarenta e três anos depois, a obra é relançada como parte do CD Berio+, que o Selo Sesc São Paulo lança no dia 22 de julho, às 19 horas, no Teatro Sesc Anchieta, na unidade Consolação. O álbum, que também conta com composições dos brasileiros Eduardo Guimarães Alves e Arrigo Barnabé (foto), tem interpretação do grupo Percorso Ensemble e da cantora Céline Imbert, e regência de Ricardo Bologna. O CD Berio+, primeiro de música erudita a ser lançado pelo selo do Sesc, está à venda nas unidades do Sesc e também no site da loja: /loja/

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