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Ficção Inédita

Postado em 16/07/2007

REVISTA E - PORTAL SESCSP

 


 

por Vera Albers

 

Mamãe deixou-me de herança um apartamento que ocupa o andar térreo de um pequeno prédio que, como sói acontecer entre jardim avarandado e trepadeiras das construções antigas, mais parece propriamente uma casa. Resolvi passar alguns dias lá, para ver se me acostumava, por vários motivos. Tendo me separado há pouco, sentia-me desamparada e acreditava que uma casa familiar que ainda parecia habitada (mamãe também morrera há pouco) haveria de me fazer sentir menos só, e também para me afastar de um fulano que tinha estado atrás de mim por causa de uma tradução e cuja insistência suspeita me oprimia. Uma cisma minha, claro, mas respiraria sabendo que ele tinha perdido meu rastro.
Vivo envolvida por cismas, por que será? Já superei os búzios, horóscopo nem leio mais, mas a ambiência tem o condão de mudar meu estado de espírito. Agora, por exemplo. Ando pelos cômodos (são bem mais do que eu lembrava) imaginando coisas. No fundo, o quarto de hóspedes, aqui no meio a sala de jogos - só que o verde não combina com estas paredes creme -, e a luz central é forte demais. Mania que os homens têm de luz central. Papai, que Deus o tenha, também odiava os abajures. Depois, um corredor que leva de volta ao hall de entrada e aos serviços, outro corredor, em L, e a suíte. A janela do quarto é curiosa, como a dos conventos. Depois do caixilho, um entrevidros grande, tão branco que parece caiado. Reparei que mamãe o havia transformado num reposteiro de objetos esquecidos: minha bolsinha colorida de sisal de praia, uma blusa laranja da Ju, outras coisinhas.Toca a campainha. É minha irmã. Fico alegre com a surpresa, mas, ao mesmo tempo, incomoda-me essa intrusão em minha nova intimidade. Não falei? Ela vai direto à janela e começa a mexer nas coisas que estão lá. "Não!", digo com voz tão forte que ela pára, perplexa. "São coisas da mamãe", continuo, fechando o vidro. Ela não pede explicações. Deve achar que estou estressada, com a separação e tudo. Não quer café, só veio dar uma passadinha para ver como estava. Estou bem, estou bem, tranqüilizo-a e acompanho-a até a porta.
Ao abri-la, bato os olhos no chalé do lado, que está à venda. É, tantas coisas acontecem perto da gente que a gente nem imaginaria. O chalé de uns conhecidos de papai, Susana e o marido, não lembro o nome. O marido morreu, vítima de assalto. Quando fui ao velório, estranhei a mulher não estar lá. "E a Susana? E a Susana? E o menino?", perguntei meio afoita a um casal a meu lado. "A Susana foi intimada pela polícia a prestar depoimento", diz-me a moça, tudo de uma vez, afogueada, como se lhe tivesse custado dizer o que guardava comprimido dentro de si.
Compreendo que há alguma coisa errada nessa história. De repente, lembro mamãe me contando ter visto a Susana dar beliscões no menino. "Mas beliscões fortes", dizia mamãe. Eu não relevei. Com é possível não gostar do próprio filho? Mas a gente vê cada uma nesse mundo! E se engana demais com as pessoas. A Susana, tão bonita, falando tantas línguas, e não querendo trabalhar. Tinha estudado na Suíça, nesses colégios para moças finas. Foi ali que aprendeu o francês, e a costurar aquelas cortinas que botou na cozinha, depois que deu um jeito de casar. Mas ficava em casa fumando, lendo aqueles livros americanos de meio quilo e - dizem - bebendo. Eu nunca a vi assim, mas é verdade que também não a via muito. Cada um com a sua vida.
É, realmente, às vezes não sei dizer não.Como daquela vez que traduzi um livro tão estapafúrdio que até o meu velho amigo Rato, que não conseguiu passar da primeira página, falou: "Você não deveria traduzir livros assim". Como a dizer "isso pode até prejudicar seu nome", tanto que tirei o livro do currículo. Mas aquilo foi um caso excepcional, num momento excepcional. E o autor do livro, o escrevinhador estapafúrdio, o gênio incompreendido, prometia tanto, prometia tudo. E eu, que não sou supersticiosa, havia me deixado fazer a cabeça por um... livro. Não sei o que é que faz a cabeça da juventude de hoje, mas da minha, mais do que tudo, eram os livros.
Mulheres Imortais, até hoje lembro do título. A história de uma moça tão obstinada, tão dedicada, tão não sei o quê, que tanto soube secundar o marido, que ele se tornou presidente dos Estados Unidos. E aquilo se incrustou tanto em mim que, quando conheci o escrevinhador, eu disse: "É ele!". Nem pensei muito, só pensei "não vou trair o meu sonho" - bem no estilo das Mulheres Imortais - e preferi deixar que o destino seguisse seu curso. Belo curso! Mas deixemos para lá. Aquilo já passou, já se acabou. Um sonho a menos, mas em boa hora, hein! Também, vamos e venhamos, estapafúrdio é delegar ao outro a própria realização. No fundo, é mais ou menos o que deve ter pensado a Susana querendo casar a todo custo, a mesma ideologia, quero dizer. Mas agora, já foi. E tarde. Arre! Lembro de uma frase que o ex-futuro presidente (do globo terrestre!) repetia sempre: "Não sei por que vocês mulheres se afanam tanto em procurar o Homem". E concluía: "Tratem de ter valores, que eles vêm pegá-los sozinhos". Bem da ideologia dele. Mas que Homens, hein? Quem é que pode vir me pegar, aqui, nesta vilinha? O negócio é estar no lugar certo na hora certa. Outro lugar-comum, sem tirar nem pôr. Mas estamos cercados por lugares-comuns. O negócio é se esgueirar por entre eles e ir em frente. Outra vez o destino? Mas não tem muito por onde escapar. O importante é... gostar de viver, simplesmente. Felizmente, tenho essa alegria natural, que deve ser genética. Obrigada, mamãe, obrigada, papai. E, no fundo, dou-me muito bem com meus livros, por enganadores que sejam. No fundo, no fundo, não preciso mesmo é de ninguém.
Se bem que sempre há algo que ameaça essa minha alegria. Se não é uma coisa, é outra. Agora, por exemplo, tenho um pressentimento, uma nuvem pesada, que fica pairando, pairando, quase me sufocando. Esse fulano que cismou comigo. Não, de minha parte, não. Nem poderia. O sujeito é careca, pesado, corpulento, tipo carniceiro, como se dizia antigamente.Telefonou-me na outra casa (felizmente), atrás de uma tradução para o inglês. Quer passar para o inglês um livro que ele escreveu (nem vou comentá-lo), aproveitando as sessões com seus pacientes. Agora está na moda. Eu, por vários motivos, felizmente, me esquivei. Encaminhei-o à Jafka, que por sinal engordou visivelmente. Espero que os dois tenham se entendido. Algo me diz, porém, que a coisa ainda vai dar flor, como se dizia antigamente. Não sei tratar mal as pessoas. Não sei dizer curto e grosso: não. E isso é um mal, um mal de que não consigo me livrar. Eles ficam achando que eu sou acanhada, que é só insistir, que é porque eu fiquei muito tempo sozinha.
Estou pensando nisso tudo muito rápido. Meu pensamento é até rápido demais. Pensa 50 coisas ao mesmo tempo. Acabei de acompanhar minha irmã à porta. Será que a fechei? Volto silenciosamente ao hall, a porta está fechada. Abro a porta que dá para a cozinha: nada. Vou andando devagarinho pelo corredor em L, que dá diretamente na sala de jogos. Ai, não é que ele está lá, de pé, atarracado, me olhando com aqueles olhos baços que dão nojo, em duas órbitas que parecem de tartaruga, de tão enrugadas, gaguejando que-que-que encontrou a minha irmã, que-que-que a porta estava aberta e que-que-que a tradução não sei o quê. Meu Deus, como é que eu vou me livrar disso, agora?
Olho para essa criatura inominável que não conseguiu resistir ao apelo primordial da natureza e que está aqui à minha frente se babando toda, se esvaindo em seiva, quero dizer, em sílabas, e o que acontece comigo? Por um fenômeno que, quero crer, seja de ressonância ou de contaminação, sinto as pernas bambas, sinto-me chamada de repente pela mesma voz da natureza do infeliz a ponto de ter de segurar o espaldar da cadeira para não me trair, enquanto lhe passo um braço às costas e murmuro, acompanhando-o de novo à porta: "Tudo bem, tudo bem, não se preocupe, logo, logo nós vamos conversar".

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Vera Albers é autora de, entre outros livros, Surtos Urbanos (Editora 34, 1998)

 

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