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Um educador nato

 

Anísio: vida dedicada ao ensino / Foto: Arquivo/AE

Há cem anos nascia Anísio Teixeira, nosso maior mestre

CECÍLIA PRADA

Naquela manhã de quinta-feira, 11 de março de 1971, o professor Anísio Teixeira deixou a Fundação Getúlio Vargas para fazer a última visita que lhe faltava para completar os pedidos de apoio à sua candidatura à Academia Brasileira de Letras – dirigia-se ao apartamento do amigo Aurélio Buarque de Holanda, na Praia de Botafogo. Quis o destino, entretanto, que essa visita não se concretizasse. Aqueles foram os últimos momentos em que foi visto vivo. Inquieta com o seu inexplicável desaparecimento, a família mobilizou parentes e amigos, e depois a polícia, e uma intensa e infrutífera busca se realizou por toda a cidade – inclusive pelos presídios da ditadura militar. Somente às 17:40 horas do dia 14 de março, o corpo do professor foi encontrado – jazia no poço do elevador do edifício de número 48 da Praia de Botafogo.

Tragédia sem testemunhas, até hoje envolta em mistério. A hipótese de homicídio foi levantada, juntamente com a de acidente. Abalada, a cidade do Rio de Janeiro se encheu de murmúrios e suspeitas – para a morte de um homem tão conhecido por sua ideologia e pela luta sem trégua por um ensino democrático, teria por acaso contribuído de alguma forma a sinistra máquina da repressão?

Não seria o primeiro a assim desaparecer, nem o último. Alguns casos bem conhecidos, como o do deputado Rubens Paiva, o de Stuart Angel, e mais tarde o de sua mãe, Zuzu Angel, marcam a história daqueles tempos terríveis. E circunstâncias até hoje não suficientemente esclarecidas continuam a envolver a estranha morte de Anísio – por exemplo, por que, ao se precipitar por acidente num poço de elevador, alguém teria antes a preocupação de tirar os sapatos? Pois foi assim que seu corpo foi achado, vestido de terno e com gravata, mas sem sapatos e com um grande hematoma no lado direito da face.

Em seus 71 anos de vida, Anísio Teixeira dedicou-se totalmente à educação, renunciando mais de uma vez a outros objetivos – como ficar rico explorando uma mina de manganês – para entregar-se ao que considerava a sua missão. Celebrar neste momento o seu centenário de nascimento é mais que prestar-lhe uma homenagem merecida. É tentar inserir, no caótico e vergonhoso quadro do ensino público brasileiro, a lembrança de uma geração que nos anos 30 e 40 irmanava um punhado de homens, de formação e ideologia diversas, no ambicioso projeto da Escola Nova e da reformulação geral do ensino brasileiro. O "Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova", subscrito em 1932 por mais de 26 educadores e intelectuais, trazia para o primeiro plano, em âmbito nacional, nomes como os de Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira, Lourenço Filho, atestando o espírito revolucionário dos que viam a necessidade de fazer da educação a pedra fundamental da nacionalidade.

Um profeta do saber

O que surpreende na biografia de Anísio Spínola Teixeira é a precocidade da vocação e o brilho da inteligência, bem como o preparo intelectual que lhe tornou possível iniciar de maneira extraordinária – aos 24 anos – a sua carreira pública como educador. Nascido em pleno sertão baiano, em Caetité, em 12 de julho de 1900, ele encontrou na família, de cunho aristocrático e culto, um ambiente propício para os estudos. Os colégios jesuítas que freqüentou – o de São Luís em Caetité e o Antônio Vieira em Salvador – deram-lhe a sólida base da formação humanística. A princípio quis ser religioso, mas foi dissuadido pelos pais. Optou então pelo direito, bacharelando-se na Universidade do Rio de Janeiro em 1922.

Em 1924 foi convidado pelo governador da Bahia a assumir o cargo de inspetor-geral de ensino, e nos cinco anos seguintes realizou uma ampla reforma educacional naquele estado. Nesse período, viajou à Europa em 1925, e em 1927 e 1928 aos Estados Unidos, onde pôde observar diversos sistemas escolares, deixando-se influenciar pelas idéias do pedagogo e filósofo John Dewey (1859-1952), cuja obra comentou extensivamente nos vários livros que escreveu. Em 1929 recebeu o título de Master in Arts pela Universidade de Colúmbia. Em 1931, após a morte do pai, e uma tentativa frustrada de se eleger deputado federal pela Bahia, mudou-se para o Rio de Janeiro, assumindo logo depois o cargo de diretor da Instrução Pública do Distrito Federal. À semelhança do que fizera antes na Bahia, teve então oportunidade de realizar uma ampla reforma do ensino, em todos os níveis – da escola primária à secundária e ao ensino de adultos –, culminando em 1935 com a criação da Universidade do Distrito Federal (UDF).

Para Anísio, a estrutura básica da transformação social estava assentada em um tópico: a formação do docente. Tanto a criação da efêmera Universidade do Distrito Federal como a da Universidade de Brasília, já em 1961, tinham como objetivo primordial dotar o docente do instrumental necessário à sua grande missão. Como diz a professora Clarice Nunes, autora de tese de doutorado sobre a figura de Anísio: "A grande novidade na concepção da UDF é que ela se apresentava como locus de aglutinação de professores. Pela primeira vez no país, através da Escola de Educação, que se situava ao lado dos institutos de Filosofia e Letras, de Ciências, de Economia e Direito, além do Instituto de Artes, o magistério alcançava uma formação em nível superior".

Mas o projeto da UDF não servia aos propósitos do governo federal. Para o ministro da Educação de Vargas, Gustavo Capanema, a orientação essencialmente democrática colidia com o preparo das massas para a aceitação passiva do autoritarismo. E, assim, em 1939 a UDF foi incorporada à Universidade do Brasil, e seu projeto inicial sufocado.

Não aceitando compactuar com a ditadura Vargas, Anísio demitiu-se em 1935 de seu cargo. Passou os anos de 1937 a 1945 no interior da Bahia, vendendo automóveis, explorando e exportando minérios, traduzindo livros, para criar a sua "tribo de quatro teixeirinhas", como costumava chamar seus filhos. Mas em 1946 abandonaria suas atividades comerciais, renunciando à concessão de exploração das jazidas de manganês da serra do Navio – que mais tarde seriam consideradas as maiores do mundo. E voltaria à sua vocação imperiosa – aceitou, mas por pouco tempo, assumir o cargo de conselheiro de ensino superior na Unesco, em Paris. Logo depois, preferiu regressar ao Brasil, pois fora convidado pelo governo de Otávio Mangabeira para o cargo de secretário de Educação e Saúde do estado da Bahia.

A Escola-Parque

Nesse novo posto, Anísio concebeu a criação dos Centros de Educação Popular e implantou, no bairro operário da Liberdade, em Salvador, um projeto ousado, a Escola-Parque ou Centro Educacional Carneiro Ribeiro. Um modelo que, se tivesse tido condições de ser implantado em todo o país, certamente faria com que a história do menor carente fosse bem diferente da apresentada hoje no cotidiano de nossas Febens rebeladas. Esse projeto previa um curso primário de seis anos, em tempo integral, com uma divisão básica em dois setores: um dedicado à instrução, e outro à educação. No primeiro, a escola-classe, os alunos recebiam aulas regulares, durante parte do dia; como o regime era de semi-internato, no resto do dia seria o turno da escola-parque, que compreendia atividades socializantes e formativas, de trabalho, de educação física e de arte, realizadas em pavilhões construídos expressamente para tais fins. Havia ainda acomodações para alunos internos, órfãos e abandonados, numa proporção de 5% das vagas totais.

Muito mais tarde, isto é, no período em que Darcy Ribeiro foi secretário de Educação no Rio de Janeiro, de 1983 a 1986, o exemplo da escola-parque foi copiado, na criação dos Cieps, depois rebatizados como Ciaps.

Mas a própria rapidez de sua carreira como educador, projetado internacionalmente pela criação da Escola-Parque, impeliu Anísio, já no ano seguinte (1951), para outro lugar, e outros projetos. Convidado pelo ministro da Educação Ernesto Simões Filho, assumiu a secretaria-geral do que é hoje a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), que seria logo por ele transformada em órgão. No ano seguinte ocuparia também o cargo de diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep), no qual permaneceria até 1964.

Ideal e ideologia

Embora tenha sido durante toda a sua vida objeto de críticas e perseguições políticas – tido como "subversivo" e "comunista", principalmente por setores mais conservadores da Igreja, que enfrentou defendendo o ensino universal, gratuito e laico – não se pode dizer que como intelectual Anísio Teixeira tenha se enquadrado completamente nos ideais partidários e se deixado cegamente manipular, como tantos.

No final da década de 50 já se tornara alvo de acirrada polêmica, liderada por católicos e proprietários de escolas particulares. Em 1958, os bispos gaúchos tomaram posição contra ele através do documento conhecido como "Memorial dos Bispos", em que pediam sua demissão. Em resposta, Anísio distribuiu à imprensa um documento em que definia suas diretrizes como educador. Recebeu, em apoio, um manifesto assinado por 529 educadores de todo o país e foi mantido no cargo por Juscelino Kubitschek.

Muitas vezes, no entanto, foi também atacado pela esquerda, por ser "liberal", "eclético" e "incoerente", pois, além de se gabar de nunca ter lido Marx ou Lênin, nas reuniões de equipes mostrava-se capaz de adotar uma multiplicidade de posturas, para melhor poder se comunicar com seus auxiliares. Na prática política, agia segundo lógicas diversas, o que muitas vezes surpreendia e chocava os interlocutores. Manteve em toda a vida uma espécie de religiosidade laica, transformando em sacerdócio o seu papel de educador. Em carta a Fernando de Azevedo, poucos meses antes de morrer, dizia que até mesmo a sua candidatura à Academia era vista por ele como missão a cumprir, motivada pelo carinho dos amigos que o queriam ver eleito: "... guardei de minha formação religiosa o sentimento de que viver é servir e nada mais esperar que o conforto desse possível serviço".

Seu objetivo constante foi: "Elevar a educação à categoria de maior problema político brasileiro". Achava que sem a educação pública, universal e gratuita, a democracia não seria mais do que "uma mistificação inominável". Aos que o criticavam como "irrealista" e "visionário", costumava responder: "Não se pode fazer uma educação barata, assim como não se pode fazer uma guerra barata".

A fundação da UnB e o exílio

É evidente que a polarização esquerda-direita do início dos anos 60 só tornaria mais difícil a posição do educador, deixando-o na mira dos mantenedores do status quo e culminando com a sua demissão e exílio, após o golpe de 1964.

Em 1961 a criação da Universidade de Brasília (UnB), da qual Anísio foi, com Darcy Ribeiro, um dos idealizadores, tornou mais acirrada a disputa entre os vários setores da educação pública brasileira. Como explicam os historiadores Antonio Roberto dos Santos e Luciano Nogueira (da Universidade Federal de São Carlos): "A trajetória de criação dessa universidade conheceu a resistência daqueles que, como Israel Pinheiro, temiam a presença de estudantes, vistos, ao lado dos operários, como elementos de agitação, ou ainda dos que, como dom Hélder Câmara, pretendiam a construção de uma universidade católica sob a condução dos jesuítas".

Em 1963, assumiu Anísio a reitoria da UnB, quando Darcy Ribeiro a deixou para chefiar o gabinete civil da presidência da República. Mas com a instauração do governo militar em 1964, foi afastado do posto e aposentado compulsoriamente. Passou os dois anos seguintes nos Estados Unidos, como professor visitante nas universidades de Colúmbia, Nova York e Califórnia. Mas não conseguia manter-se durante muito tempo longe do país e assim, apesar dos numerosos convites para permanecer no exterior, preferiu voltar ao Brasil, para dedicar-se à reedição de seus livros e ao trabalho de consultor da Fundação Getúlio Vargas e da Companhia Editora Nacional – cargos em que se manteve até aquela trágica manhã de março de 1971.

Ao lado do seu cadáver, numa pasta preta, encontraram um último manuscrito intitulado Resistência e Receptividade à Mudança, em que Anísio aprofundava o estudo do sentimento pânico diante do novo, provado pelos conservadores. E perguntava como podiam eles "diante de mudanças tomarem-se de tamanho e tão emocional pânico, e logo depois mostrarem-se tão passivos, se não entusiastas, ante os absurdos e injustiças que se seguem aos golpes violentos da direita?" 

 

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