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Um pouco além do show business

Nos dois últimos anos, segundo números fornecidos pela Folha de São Paulo, com a abertura do Credicard Hall, do Via Funchal e do Teatro Alfa Real, São Paulo ganhou cerca de 6.000 novos assentos. Todas essas casas têm capacidade de atendimento superior a mil pessoas. Até 1997, Palace, Olympia e Tom Brasil somavam pouco mais de 9000 lugares (considerando o tipo de configuração da pista), enquanto hoje os números superam 15.000 lugares.
Sendo São Paulo, um dos pilares econômicos da América Latina, a alicerçar o chamado turismo de negócios, é compreensível que a cidade comporte empreendimentos comerciais de vulto, ligados à prospera indústria do entretenimento. A visão mercadológica está apoiada no produto capaz de gerar um retorno lucrativo para o investimento feito. Essa é a concepção praticada nas programações desses espaços, geralmente uma previsível combinação de artistas e grupos consagrados pelas mídias que produzem um retorno financeiro líquido e certo. A lógica do capital está, como não poderia deixar de ser, devidamente instalada como referência também na produção artística.
Apresentações realizadas em espaços equipados com alta tecnologia de produção, capacitados a oferecer uma complexa rede de serviços para beneficiar o usuário, são absolutamente necessárias. Mas, o conhecido discurso de que ao atrairmos multidões estaríamos democratizando o acesso aos bens culturais não deve deixar de considerar que aumentar a oferta de equipamentos não significa que um maior número de pessoas tenha acesso ao sistema cultural mais abrangente (produção, distribuição, troca e consumo), seja como produtores ou consumidores efetivos.
Embora seja a cidade com maior renda per capita do país, São Paulo reflete copiosamente o desequilíbrio social vivido pelas demais cidades brasileiras: ilhas de prosperidade cercadas de territórios onde, para boa parte da população, a oferta de locais equipados para a realização de espetáculos é reduzida.
Iniciativas de menor impacto e visibilidade, em locais que necessitam ser revitalizados, sob o ponto de vista urbano, são fundamentais por considerarem o desenvolvimento da cidade na perspectiva de uma melhor distribuição de seus bens culturais. Os equipamentos criados ou restaurados para atender as necessidades da comunidade, sem a preocupação exclusiva de vender espetáculos, resultaram na recuperação de alguns espaços concebidos com um perfil diferenciado de programação, além de contribuir para a recuperação arquitetônica local, propiciando acesso fácil e revitalização urbana.
O histórico Theatro São Pedro, no bairro da Barra Funda, passou por reformas para reabrir suas portas. O prédio vizinho pintou sua fachada da mesma cor do teatro, o calçamento próximo foi refeito e um café foi aberto. Na zona central, uma das regiões mais deterioradas da cidade, a Estação Júlio Prestes foi reconvertida na belíssima Sala São Paulo, destinada à realização de concertos sinfônicos a preços populares. Segundo Marcos Caruso, presidente da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, o número de assaltos e a violência na região diminuíram consideravelmente. O legendário Teatro Brasileiro de Comédia ressurge de cara nova, com instalações voltadas a uma programação alternativa ao circuito comercial de música e um núcleo jovem de dramaturgia.
Grandes salas, localizadas em regiões privilegiadas, tendem a restringir o acesso de camadas expressivas da população. Já instalações que funcionam em regiões de semi- abandono, revitalizam a auto-estima de seus moradores e podem melhorar a vida da cidade, que nos dá tão poucos motivos para gostarmos dela.
Marcos Prado Luchesi é técnico da Gerência de Estudos e Desenvolvimento do Sesc