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Trilha da cidadania

Por meio de três projetos em parceria com a comunidade, o Sesc demonstra a eficiência de ações destinadas a amenizar a exclusão social

Uma pergunta insistente habita nosso cotidiano: que atitude tomar diante de um contexto de desigualdade social tão agudo? Como interferir de maneira efetiva no quadro de exclusão vivido por parte da população brasileira e revertê-lo para a cidadania? Como não se limitar ao assistencialismo?

A premência de atitudes concretas tomou o lugar da retórica. É esse veio de "materialização de um discurso" que aparece nos diversos projetos desenvolvidos pelo Sesc em parceria com outras entidades da sociedade civil. Nessa empreitada, coube às unidades do Sesc o papel difusor, levando ao conhecimento de um maior número de pessoas os projetos desenvolvidos em conjunto com outros institutos, os quais trouxeram à entidade experiências bem-sucedidas na tentativa da inclusão social. São programas fundamentais nas comunidades em que atuam.

Desde julho deste ano, o Sesc São Caetano dedica um dia de sua programação para apresentar trabalhos de interesse social por meio do projeto Atitude Cidadã. Nessas ocasiões, o usuário não apenas toma contato com o produto final, mas discute com os coordenadores o processo todo, das etapas intermediárias até sua conclusão. É justamente quando difunde uma iniciativa isolada para outras comunidades e apresenta resultados positivos a líderes sociais, pais ou a um adolescente, que o Atitude Cidadã cumpre seu principal objetivo.

O projeto, até agora, apresentou o trabalho de cinco entidades: "Por meio de expressões artísticas, bate-papos ou qualquer experiência desenvolvida por uma instituição ou líder comunitário, incentivamos as pessoas a dedicar uma parte de seu tempo, trabalho e talento para a viabilização de conquistas coletivas", explica Gilson Packer, técnico da unidade.

Muitas são as formas de fazer com que mais e mais pessoas se interessem e participem desses encontros. Um filme, uma apresentação de capoeira ou um espetáculo musical acabam se tornando uma espécie de resumo do trabalho desenvolvido pelas diversas comunidades participantes, além de mostrar de uma maneira mais promissora o árduo percurso para atingir os conceitos de cidadania.

Nessas ocasiões, o processo de criação desperta o maior interesse. "Notamos que o processo de desenvolvimento é o maior ponto de atração entre os participantes. 'Como é feito? Como foi? Como posso fazer também?', é a síntese das expressões", observa Gilson. Renato Ribeiro, coordenador de cinema da Oficina Cultural Alfredo Volpi, entidade que participou do Atitude Cidadã no mês de setembro, também notou a empolgação do público durante a apresentação do filme que produziu com seus alunos, o curta-metragem Albergue: "A platéia estava quieta, apenas assistindo a fita que produzimos e ouvindo o que estávamos falando. Mas, quando apresentamos o making off, que mostra os bastidores do filme, a curiosidade pelo trabalho foi geral". Resultado: além de possibilitar o acesso de jovens à produção cinematográfica, a parceria do Sesc com a oficina Alfredo Volpi também permitiu que a experiência desenvolvida dentro de um estúdio fosse muito útil.

Outro bom exemplo que comprova a importância e a eficiência do trabalho em conjunto vem da Casa do Zezinho. Graças a uma rede de parcerias, a entidade consegue desenvolver um trabalho de suma importância na vida de 200 crianças que vivem no extremo sul da cidade, região que, segundo dados do IBGE, registra o maior índice de violência da capital paulista . "Como resultado das oficinas culturais que desenvolvemos num projeto em parceria com a Xerox do Brasil, montamos a mostra Cidadão Zezinho, com pinturas, instalações e painéis trabalhados a partir do tema dos Direitos da Criança. Expusemos na estação Brás do metrô. Nosso trabalho foi visto por técnicos do Sesc que nos convidaram para participar do Atitude Cidadã. Agora estamos negociando uma parceria permanente com o Metrô para expormos cada mês em uma estação", explica Saulo Garroux, um dos fundadores do projeto. Nesse caso, foi o itinerário Casa do Zezinho, Xerox, Metrô e Sesc que fez com que o trabalho da entidade alcançasse um número maior de pessoas.

Em Itaquera

No Sesc Itaquera, o projeto Sintonizar vem formando agentes multiplicadores da cidadania desde o começo do ano. Durante três vezes por semana, sessenta adolescentes entre 12 e 18 anos que vivem na região vão à unidade aprender percussão, fotografia e grafite.

Este ano, 120 alunos já freqüentaram as oficinas do projeto: sessenta a cada semestre. Ao mesmo tempo em que entram em contato com atividades que, no futuro, podem passar a exercer profissionalmente, aprendem sobre cidadania e sobre o importante papel que lhes cabe em casa, na comunidade e na sociedade como um todo. Tornam-se agentes multiplicadores ao levar o conhecimento adquirido para suas comunidades, com a possibilidade de desenvolver projetos com outros adolescentes de lá. "Esse é o nosso maior objetivo", explica Roberta Lobo, técnica da unidade. "A comunidade de Itaquera é muito rica em movimentos sociais, como associações de mulheres e de moradores. Foi através delas que conseguimos buscar esses adolescentes."

No entanto, apesar da notoriedade dos movimentos comunitários, devido à falta de cooperação entre setores da sociedade, os adolescentes do bairro estão enfrentando problemas estruturais para freqüentar o Sesc. Por exemplo: os alunos têm dificuldades para arcar com o custo da condução até a unidade e por isso muitos abandonaram as oficinas antes da metade do semestre. "O nosso maior objetivo para o próximo ano é conseguir uma parceria que coopere com o transporte dos alunos", avisa Roberta.
No caso de Luana de Carvalho, 15 anos, moradora do bairro Barro Branco, região de Guaianazes, o contratempo com o transporte causou o abandono das oficinas neste semestre. "Não dava. Ao todo são seis passagens por semana. Fica caro para o meu pai", conta.

Apesar das dificuldades, ela concluiu o primeiro período do Sintonizar e agora aplica nas aulas de catecismo os conceitos que aprendeu sobre cidadania: "Explico aos alunos a importância de não jogar papel na rua". Além das aulas de catequese, Luana toca percussão nas missas aos domingos. "O padre gosta muito do nosso som nas missas."

O transporte se transformou num problema até mesmo para quem pode pagar. Muitas vezes, o motorista do ônibus não pára no ponto com receio de que o pessoal passe por baixo da roleta e não pague a passagem. "Desse jeito eles acabam perdendo a aula", lamenta Elza Davanço, coordenadora da comunidade Winnie Mandela, também do Barro Branco. Esse foi o caso de Roger Davanço, filho de Elza, que mesmo com o dinheiro da passagem não conseguiu concluir os cursos. "É uma pena, pois a oportunidade de freqüentar o Sintonizar é uma chance para desfrutar alguns momentos de lazer, que não temos aqui. Os meninos acabam passando o dia inteiro na rua sem fazer nada."

A falta de cooperação dentro da própria comunidade também dificulta a ação de Elza. "A escola, às vezes, atrapalha. Não adianta darmos oficinas de capoeira se a direção não deixa utilizar o espaço das quadras para os treinos. Meu último pedido para o diretor foi para que fosse permitido aos alunos grafitarem em algumas áreas da escola", reivindica.

Na Baixada Santista


No litoral paulista é o Sesc Santos que vem realizando, desde outubro deste ano, um projeto para despertar a importância da cidadania. Inaugurando uma parceria com a emissora local, a Santa Cecília TV, dois eventos marcaram o início do EducaTV. Uma vez por mês, um verdadeiro estúdio de televisão é montado no bar da unidade para servir de cenário para as gravações de debates entre alunos de escolas particulares e públicas da cidade e profissionais de diversas áreas.

Temas como sexualidade, drogas, alcoolismo e ética são as pautas desses encontros. "Parceiros como o Sesc, que desenvolvem e promovem eventos com caráter educativo, cultural e esportivo são do interesse da TV, à medida que levam ao público telespectador uma programação de qualidade, diferente das demais emissoras. Os programas serão esporádicos, gravados ou mesmo transmitidos ao vivo, e colocados na grade com programação", explica Eunice Tomé, do Departamento de Promoções e Marketing da Santa Cecília TV.

No debate do mês de outubro, cerca de 350 adolescentes participaram do EducaTV, que foi mediado por Luciano Oreggia, apresentador da rede. Além da gravação do debate, também faz parte da programação do projeto a Gincana Cultural, realizada mensalmente pela unidade com adolescentes de diversas escolas de Santos. Esse evento faz parte da programação da emissora através de flashes que vão ao ar durante todo o dia. Em outubro, o debate coincidiu com o dia da Gincana Cultural. "Com muito barulho, música, animação e torcidas foi prazeroso verificar como os jovens participam de boas ações quando estimulados", observa Eunice.

Nessa ocasião, mais de 600 jovens ouviram e falaram sobre temas pertinentes à cidadania. "Esse projeto é excelente porque estimula a sociabilização por meio da cooperação e, até mesmo, da competitividade. Meus alunos quase não desfrutam de lazer. Essa é também uma forma de proporcionar-lhes outras atividades, de colocá-los em contato com outras pessoas e situações. Mas, acima de tudo, esse projeto do Sesc contribui para a auto-estima", observa Celina Lima, professora de educação física da Escola Estadual de 1º Grau Dr. Paulo Figueiras.