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Ficção
Noche Sucia

Marçal Aquino

Maldonado

Acho que foi o velho Nicanor Mendez o primeiro que chegou. Veio para trabalhar no frigorífico e já trouxe a família. Depois foi a vez de um cunhado dele, o Quique. Em seguida, uns primos vindos de Luque, mais uns conhecidos, que arrumaram serviço na construção de um prédio e não tinham onde ficar no começo. E não parou mais de chegar gente. De todo lugar: de Pozo Colorado, de Coronel Oviedo, de Villarrica, até de Assunção. Era comum aparecerem famílias inteiras, que tinham ouvido falar do barrio e acabavam se ajeitando por aqui. O nome pegou: Vila dos Paraguaios.

Está certo que as pessoas falam com desprezo, torcendo o beiço. Mas aqui ninguém liga pra isso. Todo mundo trabalha, cada um cuida da sua vida, ninguém se mete com ninguém. Já apareceu até candidato a vereador atrás de voto por aqui, falando que era importante a gente ficar unido, que ia lutar pelos direitos da nossa comunidade. Conversa. Deixamos ele falar à vontade, o bobão. Ninguém aqui da Vila dos Paraguaios pode votar no Brasil.

Quer saber? Vila dos Paraguaios até que é bem melhor do que o nome que a Prefeitura deu: Jardim Flor-de-Lis. Daqui do alto a gente consegue ver o bairro direitinho. Dá uma olhada: é só um amontoado de casas pobres. Diga a verdade: parece com alguma flor?

Juan Díaz

Pra mim, a maior prova de que um lugar é bom pra se viver é quando não tem mendigo. Repare: aqui não tem. Não tem mendigo, não tem ladrão, não tem drogado, não tem malandro.

Minto, teve um malandro, sim. Juan Díaz. Andava por aí com panca de valentão. Bebia e aprontava. Um dia brigou no bar e passou do limite: puxou uma faca. Daí os homens mais velhos do bairro resolveram que era hora de tomar uma providência. Eu, Nicanor Mendez, Manoel Nuñez e Anacleto Suárez.

Chamamos o Juan Díaz pra uma conversa. Demos um aperto nele. Mas só na palavra, sem encostar a mão. Juan viu que a gente estava falando sério e foi embora. Correu por aí que nós eliminamos o Juan, mas é besteira. Eu pergunto: cadê o corpo? Juan entendeu que a gente não estava brincando e se mandou. Acho que ele voltou pro Paraguai. Você vai ver: qualquer dia alguém cruza com ele e ficamos sabendo que ele está bem. Não endireitou, mas está bem. Você vai ver.

Às vezes nós temos que agir pra consertar alguma coisa que está errada aqui. É nossa responsabilidade. Não é um Conselho de Bairro, nada disso. É que somos os mais antigos e temos que dar bom exemplo para os mais novos. Só isso. Veja o caso daquele rapaz da Rua 5. Nós achamos que era nossa obrigação interferir pra corrigir uma coisa que não estava certa. E deu resultado.

A Princesa

Coincidiu de o rapaz levantar do sofá da sala, de onde assistia televisão ao lado da mãe quase cochilando, bem na hora em que Nicanor e Manoel Nuñez se aproximavam do portão da casa. O rapaz não gastou mais do que um segundo para perceber o que iria acontecer. Voou pelo corredor, entrou no quarto e ergueu a vidraça para sair pela janela, rumo ao quintal nos fundos da casa. Daí ganharia o muro e. Mas deu de cara com Anacleto Suárez, que o empurrou de volta para dentro do quarto e perguntou se ele não achava que era falta de educação usar a janela para sair de uma casa.

O rapaz: nenhuma palavra. Só espanto. E medo. Então Anacleto disse que, como o rapaz não achava aquilo falta de educação, também usaria a janela para entrar na casa. E fez isso. Nesse instante, os outros dois velhos já estavam na sala.
No começo, o rapaz negou. Disse que nem conhecia a moça. Não disse que a chamava de princesa. Que achava uma glória ouvir ela gemendo embaixo dele. Disso nada disse. Apenas negou. Negou tudo.

O velho Nicanor lembrou que muita gente tinha visto os dois juntos. O rapaz: e daí? Amizade. Não pode?
Anacleto Suárez, que mantinha a mão enrugada no braço do rapaz, falou perto de seu ouvido, com hálito de velho: a menina diz que era virgem até te conhecer.

O rapaz: mentira. Ela andou com meio mundo. Com o Carlito, o Pancho, o Solano. Podem perguntar por aí.
A mão de Anacleto se tornou menos enrugada por causa do aperto que deu no braço do rapaz: não fale mal da moça que vai ser sua esposa.

O rapaz deu uma olhada ligeira para a mãe, que tinha se levantado do sofá, mas apenas acompanhava a cena, sem falar: não vou casar com ela nem a pau.

Menos rugas na mão de Anacleto. Mais aperto no braço do rapaz.

O velho Nicanor disse: a menina está esperando um filho seu.

O rapaz esperneou tanto que Manoel Nuñez teve que dar uma ajuda a Anacleto para segurá-lo: o filho não é meu. Todo mundo sabe que ela andava até com o Maldonado.

O velho Nicanor colou seu rosto no do rapaz: ainda bem que o Maldonado não está aqui. Já pensou se ele ouve esse disparate? Você já esqueceu do que ele fez com o Juan Díaz? Esqueceu, é?

O rapaz chorou e olhou para a mãe, que continuava sem dizer nada. Ela não tinha opinião nenhuma para oferecer naquele momento.

Anacleto deu a palavra final - ou o que ele pensava que era a palavra final: você engravidou a moça e vai casar com ela para reparar isso.

O rapaz parou de se debater. Estava corado. Ficou valente. Deu até uma risada nervosa: não vou casar com aquela vagabunda. (Mas que ele chamava de princesa em certas noites.)

Os velhos se entreolharam. Anacleto e Nuñez o subjugaram e o obrigaram a deitar-se no chão. E apoiaram seus joelhos sobre as pernas abertas do rapaz, que nesse instante viu a faca comprida na mão de Nicanor.

A mãe juntou as mãos e olhou para Nicanor, como se aquele gesto fosse um pedido de piedade. O velho a ignorou e se ajoelhou, num movimento ágil, entre as pernas abertas do rapaz. Com um golpe preciso, cortou o botão na cintura da calça e forçou o zíper, expondo uma cueca de cor clara. Disse: está certo, você pode até não casar com a menina. Mas nós vamos garantir que você não vai mais fazer besteira por aí.

Nicanor puxou a calça até o meio das coxas do rapaz. Depois, fez o mesmo com a cueca. O rapaz tentou debater-se, porém os dois homens o imobilizaram, aumentando a pressão sobre seu corpo. O rapaz sentiu as costas empapadas de suor. Quando a faca saiu de seu campo de visão, ele tentou levantar a cabeça e pensou em gritar.

Como se tivesse adivinhado, Anacleto colocou a mão sobre sua boca e pressionou sua cabeça de encontro ao chão. A mão era grossa, calejada. E tinha um cheiro esquisito - cigarro, sabonete, suor, tudo misturado. Um cheiro que o rapaz nunca mais conseguiu esquecer.

Os Casamentos, na visão de Maldonado

A menina veio falar comigo, pediu conselho. Ela é uma menina direita, conheço o pai e a mãe dela. Gente boa. Eu conversei com o Nicanor e ele foi até a casa do rapaz. Com o Anacleto e o Nuñez.

Eles mostraram para o rapaz que ele precisava tomar uma providência. Caso contrário ia ter que deixar o bairro. Parece que, no começo, ele ficou meio rebelde, falou até umas bobagens sobre a menina. Mas depois viu que os velhos estavam com a razão.
Os dois se casaram - inclusive eu fui padrinho da menina. Ela está morando com o rapaz e com a mãe dele lá na rua 5. Já me disseram que ele dorme no sofá da sala e não fala com a menina. Mas isso passa, você vai ver. Quando a criança nascer, muda tudo. Eu sei como são essas coisas.

Vi um caso parecido uma vez: o cara chegava a maltratar a mulher, batia nela, não respeitava nem o barrigão dela. Daí nasceu o filho e ele não sabia mais o que fazer para agradar a mulher. Virou um marido 100%.
Com esse rapaz vai ser a mesma coisa. Deixa nascer a criança. Ele vai se derreter inteiro, você vai ve.

Marçal Aquino é jornalista, escritor e roteirista, autor do livro de contos
O amor e outros objetos pontiagudos, entre outros.