Sesc SP

Matérias da edição

Postado em

Em pauta
Papai, o que eu vou ser quando crescer?

Aziz Ab'Saber

Os caminhos pelos quais os adolescentes escolhem um campo do saber ou uma área técnica para um dia se inserir na sociedade variam ao extremo. No começo do século era uma simples decomposição de forças entre o talento para algumas matérias do ensino secundário e os conselhos repetidos pelos pais ou alguns familiares. Não existia a televisão nem informática. O universo disponível para interessar os estudantes das últimas séries ginasiais era relativamente acanhada, forçando os jovens a uma escolha baseada quase sempre na proficiência de alguma matéria ministrada por professores competentes ou brilhantes. Existia, porém, casos em que orientação paterna, iniciada precocemente, acabava por definir o destino para um ramo profissionalizante, de garantida inserção socioeconômica. Entretanto, a porcentagem dos que tinham a possibilidade de ingressar em uma universidade era ainda muito pequena e quase ridícula. As moças preferiam a Escola Normal mais próxima. Enquanto para os rapazes, mais favorecidos pela coragem, era imprescindível ir para a capital, morar em pensões e, muitas vezes, enfrentar problemas inimagináveis.

Evidentemente tudo mudou com o desdobramento de unidades universitárias, influências da televisão e popularização da informática. O Estado de São Paulo, por exemplo, possui três grandes universidades públicas - USP, Unicamp e Unesp - duas delas possuindo campus em diversas cidades médias ou capitais regionais. Além disso, um grande número de instituições privadas constituídas por faculdades isoladas ou verdadeiras universidades, que oferecem um grande leque de cursos, destacando-se entre elas a PUC de São Paulo, o Mackenzie, a PUC de Campinas, entre outras.

A televisão desperta um mundo de fantasias e direcionamentos na mente de jovens. Ninguém mais escolhe as Escolas Normais. Relativamente cedo escolhe-se um campo do saber para estudos acadêmicos ou profissionais. As classe mais abastadas e de maior poder social fazem a cabeça de seus filhos para três profissões consideradas mais garantidas e rendosas: Economia, Medicina e Engenharia. Já não impera uma preferência maciça pelo Direito, ainda que muitas faculdades privadas de estudos jurídicos tenham se desdobrado ao extremo.

A preferência de muitos por Arquitetura e Urbanismo, campo em que existe poucas unidades universitárias, marcou época no terceiro quartel do século. O Brasil assistiu a uma fase brilhante de formação de arquitetos diferenciados, gabaritados internacionalmente. O número de verdadeiros urbanistas infelizmente foi menor. A vocação para planejamento regional ou setorial chegou a atingir um nível ótimo. Hoje, esse setor tão importante para um país como o Brasil decaiu muito em termos de oportunidades, já que os políticos brasileiros assumiram incompetentemente todas as iniciativas de propostas de projetos, ora faraônicos, ora pontuais, marginalizando a universidade para garantir apenas o sucesso de suas proposições e interesses de seus feudos eleitorais. E, assim, os arquitetos e urbanistas dedicados aos projetos ou ao planejamento viram minguar seu importante campo de aplicação.

Por último, vêm as Ciências Humanas, que ganharam um espaço sofrido entre as velhas profissões que sempre maravilharam patriarcas do mundo rural ou empresários e pessoas bem aquinhoadas do mundo urbano. Entre as ciências do homem, inseridas em boa hora na estrutura expandida das unidades acadêmicas, destacaram-se as Ciências Sociais, a Filosofia, a História, a Antropologia e a Arqueologia, a Geografia, a Psicologia e a Ecologia Humana. E as universidades brasileiras se completaram abrindo campos nas Ciências do Universo, nas Ciências da Terra, dos Climas e das Águas, nas Ciências da Sociedade, nas Ciências da Mente e nas Ciências Médicas e Econômicas. Continua existindo uma grande pressão pelo ingresso nas faculdades de Medicina, Economia e Administração e Escolas Politécnicas, nas quais o número de alunos é relativamente pequeno. As escolas de Jornalismo têm sido procuradas por um grande número de jovens. Elas ainda são poucas, tal como acontece com as Escolas de Artes, Música e Educação Física. A informática cresceu nas grandes universidades, mas desdobrou-se em cursos empíricos, de pequenas escolas.

Nessa profusão de cursos e profissões, tornou-se difícil optar por um certo e determinado campo de estudo. Tornou-se maior a decomposição das forças incentivadoras. Após a entrada em faculdades ou universidades, têm ocorrido decepções entre os jovens mais exigentes. Muitos desistem dos primeiros cursos escolhidos, lutando para entrar em um ramo mais condizente com seu talento ou buscando maior garantia para a vida prática e para a sobrevivência.

As sugestões que podem ser feitas aos jovens são muito simples e pragmáticas. Há que se eliminar a idéia de escolher uma área do conhecimento para a qual não tenha uma vocação direta. Convém pensar no campo técnico, científico ou literário que dê alguma possibilidade de trabalho e renda no futuro. Convém tentar uma auto-avaliação prévia de suas potencialidades e possibilidades de sucesso em uma determinada carreira. Pedir à pessoas mais experientes ajuda, sugestões e informações. Revelar aos familiares mais esclarecidos suas preferências e hesitações. Aqueles que podem ter suporte educacional e financeiro por parte de seus pais devem tentar os cursos que melhor possam atender suas fantasias e preferências íntimas.

Num momento gravíssimo de falta de empregos, os jovens egressos de berço pobre ou apenas remediado devem meditar com muita propriedade e pragmatismo sobre as possibilidades da carreira escolhida. Mas do que todos os outros têm que se apurar nos estudos para poder competir, mais tarde, com maiores chances de inserção na sociedade urbano-industrial ou agrária. Os que tiverem posses econômicas e apoio da família - mesmo com dificuldades - poderão fazer dois cursos, municiando-se para a disputa de um lugar social pela conquista de saberes múltiplos, interdisciplinaridade e filosofia de vida. Em casos particulares, de desilusão aguda por um curso iniciado, é conveniente trancar a matrícula e disputar outra área do conhecimento, melhor pensada.

Convém saber sempre, porém, que competência não basta para disputar um lugar social. Antes se dizia que competência mais oportunidade bastaria para a trajetória de qualquer jovem na vida prática. Hoje, o problema é cruciante porque existe um desemprego concreto e uma grande falta de estratégias e alternativas na direção do "primeiro emprego". A única fórmula compensadora reside, portanto, em estudar muito, vivendo sempre na gostosa utopia de um ideário cultural predefinido.

Aziz Ab'Saber é geógrafo


Milu Vilela

Nesta época do ano nos deparamos com a angústia de grande parte dos jovens que buscam escolher uma carreira profissional: a proximidade do vestibular.A aprovação no vestibular sempre foi um grande desafio; afinal, a concorrência por uma vaga na faculdade é cada vez maior.

Isso acontece porque as vagas ofertadas não acompanham o aumento crescente do número de candidatos, estreitando cada vez mais o funil das opções de uma formação superior.

No vestibular não há segunda chance. A prova resume os conhecimentos de toda a vida estudantil numa única semana. Muitas vezes é um tipo de avaliação em que a agilidade conta mais que o conhecimento. Para complicar, o sistema obriga o jovem a optar por uma profissão num momento da vida em que seus valores ainda não atingiram a maturidade necessária para fazer esta escolha.

Temos observado que na virada do milênio o mundo está se transformando num grande e único mercado, e para as sociedades menos preparadas, fica difícil a manutenção de um sistema educacional eficiente que permita a formação profissional adequada nesses tempos de globalização.

Como então escolher uma atividade até certo ponto definitiva quando o panorama mundial nos apresenta avanços tecnológicos todos os dias? Como calcular quais funções serão eliminadas de um setor, ou quais serão criadas em outro? As certezas não existem.

Considerar os aspectos de custos para se habilitar a exercer determinada profissão; avaliação da flexibilidade e satisfação pessoal são fatores importantes que devem ser levados em conta no momento em que se decide por esta ou aquela atividade.

Apesar dos esforços governamentais, o Brasil possui ainda um sistema educacional ineficiente do ponto de vista econômico. Milhões de brasileiros desprovidos de educação não estão aptos ainda a ser empregados no número crescente de atividades. Sem a priorização da qualidade de ensino é muito difícil pretender uma economia de primeira classe e empresas competitivas.

Segundo o ministro Paulo Renato, o único caminho é a educação. "O nível básico de escolaridade garante a possibilidade de reciclagem e adaptação a essas mudanças. Numa economia globalizada, o país e suas empresas ou concorrem ou morrem. A concorrência implica a preparação do trabalhador para assimilar novas tecnologias".

Milu Vilela é psicóloga educacional e presidente do Museu de Arte Moderna


Flavio Fava de Morais

Estamos vivendo um período de transição em que as opções profissionais estão consolidadas e disponíveis pelas universidades. A médio prazo, a alternativa universitária deverá sofrer uma modificação substancial. Essa modificação será basicamente estrutural. Não se deve esquecer que as primeira universidades não dispunham mais do que três ou quatro opções. Hoje a USP, por exemplo, concede aproximadamente 1700 diplomas. A interdisciplinaridade e a multidisciplinaridade tornaram-se tão importante que a formação básica do estudante não precisa ser tão detalhista, porque há a necessidade de que ela seja permanente. Nada mais desatualizado no mundo do que falar em período escolar. Isso não existe mais. A tendência atual visa realizar, no âmbito da universidade, dois anos do que os norte-americanos chamam de college: os estudantes ingressam na universidade e não em uma profissão. E durante esse tempo, eles fazem o preparo de toda a essência do conhecimento. Ou seja, a Biologia, a Matemática, o Português, a Física, a Química etc. De qualquer maneira, os estudantes têm a oportunidade de se submeter a um ensino de mais qualidade, de mais profundidade e de maior motivação.

Há 20 anos, 99% das moças entravam em Medicina querendo ser pediatras, mas apenas 5% das formandas seguiam essa especialização. Adiar um pouco a necessidade da escolha ajuda a pensar melhor sobre ela. Hoje, os jovens têm de optar por uma profissão em uma idade precoce com dificuldades de mudança, pois quando se ingressa numa universidade e surge o desejo de se trocar de profissão, o sistema é voltar, fazer outro vestibular para seguir em frente.

É necessário facilitar o encontro desse jovem com aquilo que ele pretende. Na situação atual, encontramos algumas soluções paliativas. A USP realiza um programa chamado Profissões, em que, ao longo do ano, estabelece-se calendários voluntários para que os estudantes das escolas públicas e privadas de segundo grau visitem a Universidade. Mas a essência da seleção ainda está em dois fatores muito relevantes para definir as opções. Um é o ambiente familiar, no qual você encontra comportamentos variados, do impositivo ao despreocupado. É um movimento pendular: um impõe, o outro aliena. Dependendo do comportamento, cabe muito bem a expressão usada pelos jovens, "quebrei a cara", isso porque não houve apoio. Outro é a presença da mídia. A prova disso é o aumento da procura de profissões vinculadas à popularidade: esporte, teatro, cinema, fotografia, jornalismo etc. Isso envolve o fato de que no Brasil também há uma cultura na qual criar é difícil, desmanchar é quase impossível. Ou seja, esse comportamento abriga a possibilidade de hipertrofia do sistema. Dizer que estão surgindo novas profissões e desaparecendo outras sugere uma eqüidade que não é real. A proporção entre profissões criadas e extintas pesa muito mais para o surgimento. As profissões, na verdade, não tendem a desaparecer, mas sim a perder hierarquia.

Os professores têm de ter sensibilidade para diferenciar casos. De modo geral, os professores entram na sala de aula, desempenham seu papel predeterminado, saem, e a relação acaba nesse momento. A interação ficou muito frágil. Só resta dizer que ,quase como um aviso, criar profissões novas em função do que está em moda no mercado profissional é mais mercantilista que pedagógico. Porque, na realidade, é necessário saber os fundamentos do conhecimento. Uma pessoa que tenha noções sólidas seja do que for, Matemática, línguas ou Biologia, é capaz de se adequar em qualquer profissão. O que houve foi uma evolução de técnicas e meios, mas a essência das profissões criadas pelo homem ao longo de sua história continua a mesma.

Flavio Fava de Morais é Secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo


Nicolau Tadeu Arcaro

Vivemos uma época de enormes mudanças. Qualquer coisa que aprendemos está sujeita a tornar-se rapidamente obsoleta. As tradições e os costumes já não podem mais nos guiar como antigamente, e também somos forçados a constantes reformulações profissionais.

A globalização põe-nos em contato não só com produtos industriais, mas com culturas e pessoas de todos os lugares, com as quais precisamos aprender a conviver. A revolução da informática altera o mercado profissional, a economia e mesmo o ambiente de nossas casas, pois se incorporou aos aparelhos eletrônicos de uso domiciliar.

Sem falar das mudanças como a abertura sexual, a igualdade entre os sexos e o relacionamento familiar mais aberto, que estão transformando profundamente a sociedade. Tais mudanças, embora positivas, deixam-nos inseguro e, muitas vezes, sem saber como agir no trabalho, no lar, e até mesmo em nossos relacionamento sexuais.

São tantas as situações novas que hoje dependemos mais de nossa criatividade, raciocínio e autonomia do que de conhecimentos anteriores e normas pré-estabelecidas. É tendo isso em mente que devemos pensar na formação de nossos jovens.

Precisamos, em primeiro lugar, incentivar sua iniciativa e espírito crítico. É fundamental transmitir-lhes valores éticos, mas através de argumentação e esclarecimento, não de autoritarismo. Da mesma forma, é preciso ampará-los em suas necessidades, mas estimulando-os a decidirem e fazerem as coisas por si próprios o máximo possível.

É ainda necessário ensinar-lhes diálogo e cooperação, pois a complexidade atual exige trabalho colaborativo nas mais diversas áreas. E para que os jovens aprendam a agir assim é preciso lhes darmos o exemplo, possibilitando-lhes participar das decisões que lhes dizem respeito e contribuir a sua maneira para a concretização das mesmas.

Além do mais, devemos ensinar-lhes uma atitude aberta, sem preconceitos. Eles precisarão, muitas vezes, se relacionar com pessaos de origens e atitudes bastante diferentes das de seu grupo social, e para fazê-lo deverão entendê-las, e não condená-las ou desmerecê-las.

Por fim, é importante dar-lhes uma formação pluralista. Não que devamos desestimulá-los a se aprofundarem em áreas de seu interesse. Mas é preciso, também, propiciar-lhes o aprendizado de diversas habilidades. Quanto mais variada sua formação, mais fácil será aprender novas coisas e saber enfrentar novas situações. Isso facilitará a adaptação ao mercado de trabalho altamente mutável, e ainda lhes permitirá uma visão mais ampla, que os ajudará a apreenderem a complexidade do mundo de hoje e a serem criativos.

Nicolau Tadeu Arcaro é psicoterapeuta e doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo


Marcos Prado Luchesi

O ingresso no mercado de trabalho significa para o jovem uma etapa importante na passagem da infância para a maturidade. Uma experiência que, quando conquistada, favorece o desenvolvimento do futuro profissional, possibilita o aprendizado de comportamentos como autonomia, responsabilidade e cooperação, características de personalidade atuantes na integração ao mundo adulto.

Atualmente, observamos importantes mudanças no mundo do trabalho, ditadas pela velocidade no uso de novas tecnologias aplicadas à produção. Assim, atividades e conteúdos profissionais estão sendo transformados, como a diminuição de postos tradicionais de trabalho e a mudança do perfil exigido pelo mercado para o profissional. Também novas perspectivas surgem no campo das oportunidades ocupacionais. Elas estão apontando para possibilidades crescentes nos setores de serviços, nas atividades temporárias e no vínculo informal com o mercado de trabalho.

Pensando no jovem e em sua necessidade de orientação na escolha da profissão, algumas dicas, embora simples, são importantes para a reflexão dos participantes desse processo. O fundamental por ocasião da escolha ocupacional é ter o máximo de informações que se possa coletar acerca do que se pretende fazer. É imprescindível procurar conhecer tanto a carreira quanto o curso escolhido. Se não houver por perto profissionais ligados à área pretendida, pode-se fazer um roteiro de visitas a faculdades e empresas para verificar a compatibilidade entre os avanços tecnológicos e o mercado de trabalho nesses locais. Deve-se verificar as condições atuais e as perspectivas da profissão, procurando avaliar os lugares em que há falta ou excesso do profissional que se deseja ser.

Qualquer opção feita, por mais corriqueira que seja, revela nossos interesses, parte de nossa trajetória pessoal. Por que quero esta profissão e não outra? Temos a tendência de simplificar ou exagerar a realidade. Às vezes, escolhemos em função da admiração de um profissional famoso e os símbolos de status a ele associados ou mesmo porque uma carreira é tradicional em nossa família. Por isso, necessitamos nos conhecer melhor para fazer escolhas mais conscientes. Se não estamos seguros o suficiente, devemos dar um tempo antes de iniciar um curso universitário, tendo em mente que nada na vida é tão definitivo que não possa ser mudado. Há sempre a possibilidade de redirecionarmos nossos projetos profissionais em qualquer momento da vida.

A escolha profissional deve congregar alguns elementos básicos: as habilidades (o que eu já sei fazer ou poderei aprender), os interesses (o que chama a minha atenção, o que eu imagino que gostaria de fazer) e as possibilidades reais (o que eu posso efetivamente fazer, o que está ao meu alcance). É importante não esquecer que não há vocações inatas em ninguém ou mesmo dons especiais. Não nascemos predestinados. Tendências necessariamente não significam destinos traçados. Ao contrário, construímos nosso mundo interno a partir das relações vividas em sociedade. O importante é vincular o trabalho a uma atividade prazerosa, uma forma de viver que acreditamos que valha a pena ser vivida.

Marcos Prado Luchesi é mestre em Psicologia Social e técnico do SESC


Errata: na edição de agosto, o filósofo Renato Janine Ribeiro foi qualificado de forma equivocada. Ele é professor titular do Departamento de Filosofia da USP e não do Departamento de História, como foi publicado.