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Espetáculo
1ª Bienal Sesc de Dança
A Bienal reuniu grupo de todo o Brasil. "Chegaram projetos do interior, do litoral, do meio da Amazônia, de Santa Catarina, de Minas, do Paraná...", conta Juçara Amaral, técnica do Sesc, que coordenou o trabalho de seleção dos grupos inscritos.
A inserção de signos incomuns do universo da dança, a linguagem circense, a introdução de objetos que inovam a relação do corpo com o espaço e do som com a coreografia deram ao evento uma tônica promissora e pretensiosa (no bom sentido da palavra). Ao todo, 21 grupos de bailarinos apresentaram-se durante toda a Mostra. Destes, dez foram convidados e 11 passaram por um diversificada triagem.A seleção das coreografias durou oito dias. Nesse tempo, a função do júri era não só selecionar os trabalhos, mas também debater com os artistas questões e tendências que faziam parte da proposta central levantada pela Bienal. Ou seja, foi discutido de que maneira a dança se insere num mundo composto por culturas diferentes e por espaços diversificados que fogem do tradicional palco de um teatro. Daí a impotância de locais alternativos para as apresentações e a "pretensão" de escolher trabalhos que desenvolvessem uma nova linguagem e não apenas reutilizassem velhos vocabulários.
Para garantir o resultado desejado, ou seja, oferecer ao público espetáculos em que o corpo, na forma de dança, expressasse as transformações sociais, manifestações culturais e emoções que inundam a psique humana, o júri foi composto por pessoas que trabalham em diferentes áreas, fora a dança, como um arquiteto e um professor de comunicação. Muito mais do que simplesmente julgar, a Bienal cumpriu o papel de agente socializador de idéias que garantem à arte o cárater de "mais alta manifestação do espírito humano", nas palavras de Henrique Rodovalho, coreógrafo da Quasar Cia. de Dança, participante do júri. "Pessoalmente, espero ter dado alguma contribuição a estes trabalhos que me fizeram refletir até sobre o meu trabalho enquanto coreógrafo e sobre como minhas obras interferem na sociedade."
Se prentendiam primar pela criatividade, os jurados conseguiram. Os onze grupos selecionados apresentaram espetáculos criativos e irreverentes que expressavam os dilemas antagônicos que povoam o cotidiano das pessoas, como a submissão e a agressividade, os instintos e a razão, os desejos e as necessidades, o masculino e o feminino.
O ecletismo no palco nos cinco dias de evento não ficou só por conta dos grupos selecionados. Os convidados também foram escolhidos a dedo. Impecavelmente inaugurada pelo Grupo Corpo, a primeira noite da Bienal deu ao público a idéia do que viria pela frente. A estética minimalista do espetáculo Sete ou Oito Peças para um Ballet e o sedutor jogo de cintura esbanjado pela marcação rítmica do baião e do xaxado na exibição de Parabelo hipnotizaram o auditório do Sesc lotado.
Na estrada há dez anos
Para a Bienal nascer foram necessários dez anos de trabalho das mais diversas áreas de atuação do mundo da dança. Inicialmente, o evento incluía algumas atividades esportivas e restringia-se a mostrar o trabalho dos grupos de Santos. Há dois anos, a participação dos bailarinos se estendeu a todo Estado de São Paulo, e, agora a todo o mundo.
Além dos espetáculos, uma intensa programação de debates, workshops, vídeos, painéis e diversas atividades aconteceram paralelamente à Mostra de dança. Durante todos os encontros, debateu-se a política cultural que guia a dança brasileira e a falta de espaço e de incentivos para esta arte. No entanto, para não ficar só nas palavras, o projeto que culminou na Bienal deu aos bailarinos profissionais que estão começando a trabalhar como coreógrafos a oportunidade de apresentar suas pesquisas e adaptou pontos históricos da cidade em espaços que abrigassem as apresentações e aproximassem o público de uma maneira informal. "Dessacralizamos o espaço do teatro como o único viável para a dança. A arquitetura urbana fez parte dos cenários. Mostramos que outros espaços podem ser palcos. Incorporamos os espaços históricos e públicos, conseguindo aproximar o povo da dança", explica Eliza Americano, gerente adjunta da unidade de Santos. Para conseguir essa aproximação, os espetáculos eram apresentados em horários estratégicos de grande fluxo de pedestres, como na hora do almoço ou no final do expediente.
Orientada por valores que apresentaram o corpo como portador de linguagens muito mais amplas do que simples movimentos, a Bienal possibilitou que mentes livres e corpos libertos tivessem pleno exercício de príncipios fundamentais de uma sociedade, que constituem também as condições fundamentais para uma vivência democrática e uma cidadania completa.
A expressão do Corpo
Fundado em 1975, em Belo Horizonte, o Grupo Corpo é considerado uma das melhores companhias de dança do mundo. Depois de se apresentar por países de todos os continentes, a companhia mineira inaugurou em irrepreensível estilo a 1ª Bienal Sesc de Dança. "Iniciativas como essa são de um louvor inestimável. A organização foi muito bem feita e o mais interessante foi o caráter de Mostra e não de uma competição. Arte não tem que competir. Cada um tem que encontrar sua forma própria de se expresssar", analisa Rodrigo Pederneiras, coreógrafo do grupo que já encontrou sua maneira de fazer do corpo um emissário das mais diferentes manifestações culturais.
Para a Bienal, Rodrigo trouxe os espetáculos Sete ou Oito Peças Para um Ballet e Parabelo. Buscando elementos em diferentes universos, o Grupo Corpo passou com suavidade do minimalismo da trilha sonora de Philip Glass (composta especialmente para a coreografia) para a exuberância do xaxado e do baião.