Sesc SP

Matérias da edição

Postado em

Entrevista
Emir Sader

Do ciclo das entrevistas publicadas na revista E que precederam o 5º Congresso Mundial de Lazer, a ser realizado entre 26 e 30 de outubro no Sesc Vila Mariana, o cientista político Emir Sader é o mais incisivo. Os dois últimos entrevistados, o geógrafo Milton Santos, em julho, e o diretor do MAC-USP (Museu de Arte Contemporânea), Teixeira Coelho, em setembro, mostravam-se mais otimistas quanto a possibilidade de se democratizar o tempo livre e tornar seu proveito eficaz e condizente com sua característica primeira: o crescimento individual.

Emir Sader tem se mostrado um crítico algoz da política governamental. Critica desde o modelo econômico adotado até o desdém oficial por causas sociais. Na entrevista a seguir, o cientista político identifica a subversão do valor do trabalho - elemento cultural genuinamente humano para mero instrumento de sobrevivência e acúmulo de capital. Além disso, Emir Sader descrê na democracia cultural e enxerga na apropriação tecnológica um fator de abismo social.

Tendo como base o painel Trabalho/Desemprego e Tempo Livre a ser realizado no 5º Congresso Mundial de Lazer, como o senhor analisa o tempo livre diante do quadro de recessão e crise econômica?

Tempo livre é coisa de rico ou de desempregado, com destinos totalmente diferentes para cada um deles. Uma das grandes vantagens de ser rico é ter tempo, é dispor do tempo para si. Para o pobre, o tempo livre é sinônimo de desmoralização, de desemprego, de que a sociedade (capitalista) lhe diz que ele não vale nada, que não precisa dele, que até lhe pagará algo para que não trabalhe. O homem se diferencia dos animais por várias coisas, mas, antes de tudo, pela capacidade de produzir sua própria subsistência, por sua capacidade de trabalhar. O homem é o ser que transforma seu meio ao mesmo tempo que produz sua subsistência. Por isso, é o único ser que tem história. Os animais vivem, de geração em geração, da mesma forma. O que muda no seu mundo é aquilo que o homem mudou. Um exemplo: o poste na vida do cachorro.

O trabalho é a capacidade do homem de transformar o mundo. Ele pode fazê-lo de maneira consciente a partir de um projeto determinado, seja construindo uma usina de energia ou fazendo uma escultura. No entanto, se perguntarmos aos homens o que eles desejariam fazer, a maioria esmagadora diria - dormir, comer, fazer sexo, não fazer nada. Ninguém, ou quase ninguém, mencionaria trabalhar. Isto é, o homem prefere hoje fazer aquilo que os outros animais têm em comum com ele - comer, dormir, fazer sexo etc. - no lugar de valorizar sua particularidade - o trabalho -, aquilo que faz dele um ser diferente dos demais. Porque na nossa sociedade, o homem não é dono do seu trabalho. Não é ele quem decide o quem vai produzir, de que forma vai produzir, para quem vai produzir, a que preço etc. Seu trabalho é utilizado por uma ínfima minoria - que, dispondo de capital, pode explorar o trabalho dos que só tem essa capacidade para sobreviver.

O trabalho, de instrumento de transformação do mundo, tornou-se meio de sobrevivência e meio de acumulação de riqueza como resultado da exploração do trabalho alheio por uma minoria detentora de capital. Tornou-se alienado. Alienar é entregar o que é seu para um outro. Eu alieno bens quando os vendo a alguém. O trabalho alienado é aquele em que alguns trabalham para os outros, na propriedade de outros, conforme decisão de outros, propiciando que outros acumulem riqueza e apenas garanta uma parca sobrevivência daqueles que o realizam. Em lugar de ser instrumento de emancipação humana, tornou-se instrumento de alienação. Por isso, os homens não gostam de trabalhar. Além de que, ganhando pouco, fazendo algo que não partiu de si mesmo, tendo muitas horas diárias de trabalho, tratam de tornar esse homem em um ser mecânico, sem interesse, trabalhando para sobreviver. Sua vida, aquilo que lhe interessa, está em outro lugar.

Dentro desse conceito, os governos teriam consciência da importância de investir no tempo livre para que as pessoas possam dispô-lo de maneira mais satisfatória?

Os governos, em geral, não se preocupam com isso. Quem financia os governos tem seus próprios meios de lazer. Os outros só contam eleitoralmente e, por isso, são preteridos pelos governos. Quanto mais avança a tecnologia criada pelos homens, mais deveria avançar o bem-estar comum. Hoje, a humanidade tem a possibilidade de alimentar, dar cultura, educação, habitação, lazer a todos. Mas as riquezas estão mais concentradas do que nunca. O hemisfério norte concentra 85% da riqueza mundial, ou seja está nas mãos de 20% da humanidade, enquanto no sul 15% da riqueza está mal distribuída entre 80% da população mundial. A África vive pior que há duas décadas. Para a maioria da humanidade, então, tempo livre é condenação ao desemprego, às filas de espera nas portas de empresas e o retorno desmoralizado para casa à noite. Lazer ainda é privilégio da minoria em nossa sociedade.

Existe ainda o pensamento que marginaliza a importância da cultura e do tempo livre para o desenvolvimento da pessoa, além do preconceito social diante do "ócio", valorizando apenas o trabalho compulsivo?

Não se costuma "falar" em contracultura, ou deixá-la como sobremesa, porque pegaria mal. Mas os governos, ao fazer das Secretarias de Cultura um resíduo, na prática, assumem esse discurso, por mais diplomas que se tenha.

O empresariado tem consciência de que é necessário oferecer aos funcionários tempo livre e uma forma de preenchê-lo convenientemente?

Parece-me que, como regra geral, não. Caso contrário, não seriam consideradas como exceções as instituições empresariais que o fazem.

Supondo que fosse garantido o básico para uma sobrevivência digna, as alternativas de lazer oferecidas são adequadas?

Hoje em dia, tempo livre tem um duplo significado na nossa sociedade. Significa lazer para quem trabalha e tem recursos e significa desemprego para os que não têm a sobrevivência garantida. Para se ter idéia como as palavras têm conotação social distinta, vale o exemplo de um cineasta chileno vivendo em Cuba. Ele fez um filme perguntando o significado de certas palavras a jovens cubanos e deu-se conta, por exemplo, de que eles não tinham idéia do significado de palavras "desemprego", "mendigo" etc. Dentre estas, estava uma expressão muito utilizada antes da vitória da revolução em 1959: "tempo morto". Era o tempo da entresafra, em que a maioria da população do campo ficava sem trabalho. Com o Estado passando a garantir o direito ao emprego, não só desapareceu a expressão, como "lazer" passou a ser uma palavra corriqueira entre eles. Lazer é coisa de rico. Pobre diverte-se como pode. Falar de lazer seria falar de uma gama de alternativas que só existem para quem tem dinheiro.

Supondo que houvesse a garantia do básico, haveria a necessidade de ensinar as pessoas a usar o tempo livre?

Antes de tudo, deveria se permitir que as pessoas tenham tempo livre. Depois, dar-lhes uma gama de alternativas - ler, fazer esporte, conversar, não fazer nada, dormir, ir ao cinema, ao teatro etc. Hoje, uma sociedade justa seria uma sociedade de trabalho em que todos tivessem assegurados o direito ao trabalho e vivessem dele, com ninguém explorando o trabalho alheio. Aí sim o lazer seria um direito de todos. A maior luta pela democracia, hoje, é a luta para que todos trabalhem menos e garanta trabalho para mais gente. Como dizem as centrais sindicas européias: "Que todos trabalhem menos, para que todos trabalhem". Isto é, diminuição da jornada de trabalho e incorporação de todos ao trabalho. Uma reivindicação justa, porque a tecnologia foi inventada com a criatividade e a experiência dos trabalhadores, manuais e intelectuais. Ela pertence à humanidade e não pode ser apropriada por quem tem dinheiro para despedir aqueles que necessitam do trabalho para sobreviver. Os avanços tecnológicos da humanidade são obra de todos e devem ser usufruídos por todos, mais até pelos que se sacrificam mais.

Como fazer para melhorar a qualidade das opções de lazer praticamente restritas aos programas televisivos e informações sensacionalistas?

Socializar os recursos com as entidades populares, dirigidas democraticamente e controladas pela população.

A questão do tempo livre e do lazer na atualidade já foi muito discutida por Edgard Morin e Theodor Adorno. Morin afirma que o homem de hoje dispõe de um tempo livre maior devido a uma série de fatores, como o avanço da tecnologia e a mudança nas relações de trabalho. Já Adorno afirma que o homem moderno inserido na lógica capitalista não desfruta de um tempo verdadeiramente livre. Qual a sua opinião?

É falso afirmar que a grande maioria da humanidade disponha hoje de mais tempo livre. A jornada semanal do trabalhadores norte-americanos é de 50 horas, estendendo ao Primeiro Mundo o mecanismo da superexploração dos trabalhadores.

A cultura e, conseqüentemente, a educação não têm o devido apoio do Estado e dos empresários. Não seria paradoxo, já que hoje se exige uma reciclagem de conhecimentos? O que poderia ser feito para contornar a carência de mão-de-obra gabaritada ao mesmo tempo em que diminui o emprego?

A educação universal gratuita como direito de todos. Uma democracia supõe, entre outras condições, a mesma educação acessível a todos.

Como o tempo livre auxiliaria a reciclagem de conhecimentos?

Por meio de um ensino mais interessante.

O geógrafo Milton Santos disse, em entrevista recente, que a utilização do tempo livre seria uma alternativa efetiva na criação de novos empregos. O senhor concorda?

Somente uma mudança no modelo de sociedade que permita que "todos trabalhem menos, para que todos trabalhem" é que pode garantir esse objetivo.

O senhor acredita que as elites que comandam o país, política e economicamente, vêm demonstrando falta de tato ou egoísmo ao lidar com a educação e cultura?

Falta de tato, egoísmo e o fato de (re)eleição de pessoas que estão montadas no cavalo doido - de que não podem e nem querem descer - da estabilidade monetária baseada na desregulamentação da economia e na especulação financeira.

É errado optar por privilegiar fatores econômicos, relegando questões de cunho social e democrático?É falso, é o chamado "economicamente correto", que norteia o governo atual, que não fala do país, da sociedade, da cultura, mas somente dos índices conjunturas das finanças do país.