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Marcelo Bressanin
Ilustração: Marcos Garuti
Já é de senso comum a afirmação de que as primeiras formas complexas de vida surgiram em ambientes aquáticos. E, por mais diversificados que possam ter sido os rastros deixados no percurso entre aqueles primeiros seres e o início da experiência humana na Terra, é igualmente, ou ainda mais, aceita a noção de que as primeiras grandes civilizações se organizaram em torno de reservas de água, ali desenvolvendo os primeiros códigos sociais dos quais temos notícias.
De certa maneira, aquela migração para a terra firme se reitera simbolicamente no nascimento de cada um de nós: do líquido ventre materno para o convívio social, repetimos a trajetória ambiental de nossos ancestrais mais distantes.
Talvez aí, nessa mudança tão arcaica preservada em nossa memória orgânica, possamos buscar alguma explicação para o fascínio humano diante do mar.
Presentes nas mitologias e religiões mais antigas, retratadas por tantos artistas e recitadas provavelmente em todas as línguas, as aventuras dos homens frente aos horizontes marítimos são universal e imemoriavelmente repetidas. E, no caso específico do universo cultural estabelecido em torno do Mar Mediterrâneo, tal processo é particularmente mais intenso.
De fato, ao longo dos meses de convívio com os amigos envolvidos na preparação da Mostra Sesc de Artes 2005, pudemos navegar entre incontáveis referências que acabaram por constituir nosso diário de bordo. Dos fenícios aos ibéricos, de Ulisses a Dom Quixote, do touro de Minos ao boi-bumbá, dos percursos nômades que se perdem rapidamente nos territórios desérticos às navegações de conquista ufanicamente cantadas, dos infernos de Dante aos porões negreiros, do perfume das especiarias e incensos orientais à brisa de todos os portos americanos, da biblioteca de Alexandria à internet, enfim, foram tantas as derivas, os encontros, as trocas, tantos os reconhecimentos e as rupturas, que aos poucos passamos a ver as cartas de navegação mediterrâneas de forma muito peculiar, como se fossem as linhas gravadas nas palmas de nossas mãos.
Toda essa familiaridade, contudo, muito mais do que esclarecer a atração do mar, faz pensar no Mediterrâneo como uma metáfora da experiência do homem em sociedade.
Como sugere a obra de Fernand Braudel, o Mediterrâneo traz em si todos os tempos da vida social: na espuma breve de suas ondas, podemos imaginar o movimento fugaz das ações cotidianas, que desaparecem rapidamente no curso da história; já em suas profundezas, o mar esconde os componentes mais persistentes e menos perceptíveis em nossa ação, dos quais muitas vezes nem sequer tomamos consciência; por fim, entre a superfície agitada e as águas imóveis, circulam correntes poderosas, tradições e revoluções igualmente potentes, que disputam o controle sobre o destino das embarcações.
Mais ou menos correta, mas certamente muito poética, essa imagem do Mediterrâneo, mar metáfora, possivelmente emergirá entre os tantos espetáculos que percorrerão o cotidiano do Sesc São Paulo e de seus freqüentadores durante a Mostra Sesc de Artes em 2005.
Não de maneira uniforme, mas particular, nem homogeneamente, e sim buscando ressaltar identidades, diálogos e conflitos. Sem mitos fundadores, sem nortes absolutos ou faróis infalíveis, mas como um mar de escolhas, para aqueles a quem interessa os riscos próprios do navegar ou a vertigem de buscar a si mesmos nos reflexos nem sempre calmos sobre a água.