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Conta-se que no dia do nascimento de Lupicínio Rodrigues, em 16 de setembro de 1914, em Porto Alegre, chovia tanto que a parteira só alcançou a casa de barco. A chegada do quarto dos 21 filhos do casal Francisco e Abigail não virou música, mas os fatos protagonizados por ele ao longo da vida, esses sim, foram alçados a sucesso nacional. Os encontros e desencontros amorosos vividos pelo compositor gaúcho serviram de inspiração para boa parte de sua obra, cerca de 300 músicas. Segundo a historiadora Maria Izilda S. de Matos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), autora, com Fernando A. Faria, de Melodia e Sintonia em Lupicínio Rodrigues – O Feminino, o Masculino e suas Relações (Bertrand Brasil, 1999), o compositor costumava dizer que sofria muito nas mãos das mulheres por ser sentimental. “Ele dizia que teve muitas namoradas e cada uma que lhe tinha feito uma ‘sujeira’ deixara uma inspiração para compor algo. ‘As que me fizeram bem, eu logo esqueci. As que fizeram mal foram as que mais dinheiro me deram’, dizia ele.”

 

 

A noite é uma criança

Aos 14 anos, Lupicínio compôs sua primeira música, Carnaval, para um cordão chamado Prediletos. Nessa época o pai começou a notar a inclinação do garoto para a boemia. A saída para tirar o filho das mesas dos bares não podia ser mais extrema: das noitadas foi encarar a rígida disciplina do Exército, onde chegou por volta dos 15 anos de idade. O músico deixou as Forças Armadas em 1935 e o primeiro sucesso veio três anos depois, com Se Acaso Você Chegasse. Como nunca largou sua inclinação pela vida noturna, as músicas que escrevia eram muito populares nos redutos da boemia. “Conta-se que foi pelos marinheiros que a música chegou ao Rio de Janeiro, que passou a ser cantada sem que se soubesse sua verdadeira autoria”, afirma Maria Izilda. Foi assim que Cyro Monteiro, um dos maiores cantores da época, ouviu a canção e, mais tarde, já com a autorização de Lupicínio, a gravou.

 

Foi o início de uma série de sambas-canção que durante as décadas de 30, 40 e 50 fizeram enorme sucesso. Na época, a cadência mais lenta do ritmo estava em voga e se encaixava perfeitamente às letras rasgadas. “Ele vivia ali na fronteira com os países platinos [Argentina e Uruguai] e a influência não só do bolero, mas também dos dramas amorosos do tango era muito grande”, explica a historiadora. “Muitos artistas circulavam pela boemia de cidades como Buenos Aires e Mar del Plata e certamente trouxeram essa influência.” O grande estouro na carreira de Lupicínio acontece mesmo em 1951, quando Linda Batista, na época uma das mais famosas cantoras de rádio do Brasil, gravou Vingança.

 

 

Amor rasgado

Suas letras intensas, que traduzem as desilusões de forma dilacerada, inauguraram um novo gênero na música brasileira, o da dor-de-cotovelo. O termo se refere à clássica cena boêmia de alguém sentado no bar, cotovelos apoiados no balcão enquanto mexe a bebida no copo e chora o amor que perdeu. Segundo o produtor e jornalista Carlos Rennó, que participou do projeto Roteiro de um Boêmio, realizado em julho no Sesc Vila Mariana (veja boxe Ao mestre com carinho), o estilo dor-de-cotovelo se caracterizou por esse conjunto de canções marcadas por uma crueza sem paralelo na sua época – a partir dos anos 30. “Com uma qualidade poética invulgar, as peças de Lupi nos surpreendem com rasgos verbais inesperados, sensacionais; com metáforas e lances de imagens imprevisíveis na exploração do tema das relações amorosas”, afirma o jornalista. Como exemplo da genialidade dessa obra que não teve medo dos clichês das desilusões, Rennó cita a clássica Nervos de Aço, que teve uma de suas versões mais famosas gravadas por Paulinho da Viola e hoje faz parte da trilha sonora da novela América, da TV Globo, na voz do cantor Leonardo.

 

 

Tem futuro

Segundo conta o livro Melodia e Sintonia em Lupicínio Rodrigues ao ver o compositor cantar com o grupo Catão, em 1932, Noel Rosa – que na época não tinha mais que 20 anos, mas já vinha se consagrando como grande sambista – previu: “Esse menino é bom, esse menino vai longe”. Mais de três décadas após a morte do “menino bom”, seu extenso repertório é a prova de que foi realmente longe. As músicas de Lupicínio estão imortalizadas por intérpretes de diferentes gerações. Jamelão dedicou dois discos a ele, um de 1972 e outro de 1987. Elza Soares gravou, em 1960, Se Acaso Você Chegasse. Nos anos 70, Caetano Veloso cantou Felicidade, Gal Costa, Volta, e Paulinho da Viola, Nervos de Aço. Nos 80, Loucura fez sucesso na voz de Maria Bethânia, e Nunca na de Zizi Possi. A lista ainda segue com Arrigo Barnabé, Adriana Calcanhoto e outros. “Como qualquer clássico, a música de Lupicínio transcende sua época, tem a capacidade de continuar soando atual, décadas mais tarde”, diz o jornalista e pesquisador Carlos Calado. Como exemplo da contemporaneidade da obra do compositor, Calado cita a regravação de Judiaria, em 1995, por Arnaldo Antunes, que ganhou uma roupagem bem mais experimental. E não pára por aí. No ano passado sua obra chegou até mesmo à música eletrônica, com o lançamento do disco Loopcínio, lançado por Thedy Corrêa, ex-vocalista da banda Nenhum de Nós.

 

 

Ao mestre com carinho - Homenagem a Lupicínio Rodrigues reuniu gerações para celebrar a obra do compositor da boemia com shows, exposição e debates

Ninguém retratou a vida boêmia com versos mais singelos, sensíveis e de maior carga passional do que Lupicínio Rodrigues. Traições, solidão, vingança – título de uma de suas canções mais famosas – eram os principais temas de seus românticos sambas-canção. Mas não os únicos: escreveu também sambas carnavalescos, de malandragem e exaltação, músicas regionais e até o hino do Grêmio Futebol Clube, tradicional time gaúcho. Toda a riqueza da vida e obra do compositor pôde ser conferida em julho no projeto Roteiro de um Boêmio, realizado no Sesc Vila Mariana, com shows, debates e uma exposição de desenhos do chargista Jaguar. “Ele era o brasileiro mais brasileiro de todos”, afirma o cantor Cauby Peixoto, um dos convidados do evento. “Expressava a forma como o brasileiro sabe amar. Muita gente rotula de música de dor-de-cotovelo, mas o brasileiro é assim mesmo: quente, o sangue das veias ferve quando ele ama, ele fica desgraçado mesmo.” O cantor, um dos que mais gravaram músicas de Lupicínio, se apresentou ao lado de Carlos Fernando e Paula Lima num dos espetáculos que mostraram a atualidade do repertório deixado pelo mestre. “Interpretar músicas de Lupicínio é antes de mais nada desafiador”, comenta Paula Lima. “A responsabilidade é maior, a curiosidade fica aguçada e a vontade de acertar no repertório e agradar é grande.” Em outro show do projeto, foi a vez de Arrigo Barnabé, Virgínia Rosa e ninguém menos que Jamelão se juntarem no palco para celebrar a música do compositor. “O que eu acho muito interessante na obra dele é que ela fica na fronteira entre o kitsch e o bom gosto”, diz Arrigo Barnabé.

 

Já a exposição do chargista Jaguar deu um toque diferenciado ao evento (veja boxe Muitos Amores). Quinze músicas de Lupicínio foram selecionadas pelo jornalista e produtor Carlos Rennó e “transformadas” em desenhos. “Escolhi algumas que são as principais na obra dele”, explica o jornalista. “Ou por serem as mais conhecidas ou por se destacar por sua qualidade. Além disso, as histórias relacionadas a elas foram outro fator importante.”

 

 

Muitos amores - As mulheres e as histórias por trás da inspiração de Lupicínio Rodrigues*

 

Nunca

“Nunca

Nem que o mundo caia sobre mim

Nem se Deus mandar, nem mesmo assim

As pazes contigo eu farei”

 

Canção motivada por Carioca. A moça vinha fazendo tentativas de reconquistá-lo com “promessas vãs”, segundo Lupi. Nunca foi a resposta dele às propostas dela. A referência a Deus ocorre na letra porque ela levara um retrato dele para um pai-de-santo fazer um trabalho para que ficassem juntos novamente.

 

 

 

 

Nervos de Aço

“Você sabe o que é ter um amor, meu senhor,

Ter loucura por uma mulher

E depois encontrar esse amor, meu senhor,

Nos braços de um outro qualquer”

 

Inspirada pela mulata Iná, a primeira namorada e a primeira noiva de Lupi, que a conheceu em Santa Maria, nos tempos do Exército. Durou seis anos o namoro, que a família dela acabou porque Lupi não queria deixar a boemia. Tempos mais tarde, ele a reviu, já casada, de braços dados com o marido; a forte dor-de-cotovelo que sentiu originou a canção. “Tudo o que eu canto é verdade. A minha vida”, revelou ele, certa vez, ao poeta Augusto de Campos.

 

 

Se Acaso Você Chegasse

“Se acaso você chegasse

No meu chatô e encontrasse

Aquela mulher que você gostou

Será que tinha coragem

De trocar nossa amizade

Por ela que já lhe abandonou”

 

Lupi estava de caso com a ex-namorada de um amigo de nome Heitor. O compositor nunca viria a contar a história direito, mas, ao que parece, a tinha roubado dele. Não sabendo como lhe contar o que tinha feito, acabou fazendo-o por meio do samba – em que sugeriu que eles não brigassem. De fato, continuaram amigos.

 

* Textos de Carlos Rennó