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Fotojornalismo

Os fotojornalistas ganham a vida registrando imagens que contam a história do presente, denunciam suas injustiças e flagram sua beleza

 

Em 1979 o Brasil pedia a volta dos exilados pela ditadura militar, que estava no poder desde 1964, e no dia 21 de agosto milhares de pessoas reuniram-se na Praça da Sé, em São Paulo, num ato pela causa. Em meio à multidão, um jovem fotógrafo flagrou uma pomba branca em cima de uma faixa de protesto. A foto, que abre esta matéria, ganhou o nome de Projeto da Anistia É Intocável e o Prêmio Esso daquele ano. “A gente sai de casa todo dia para mudar o mundo”, diz Jorge Araújo, autor da foto. Para os mais céticos, uma frase como essa só poderia sair da boca de um jovem sonhador e cheio de ilusões. Mas Araújo não é mais um principiante. São 52 anos de idade e 30 de uma carreira que o colocou como um dos melhores do fotojornalismo brasileiro. “Eu só mostro a verdade, nada além disso”, faz questão de esclarecer, para em seguida contar a história de um político que o acusou de ter manipulado uma fotografia. Na imagem, o homem aparecia pisoteando o material de propaganda eleitoral do concorrente. “Ele foi ao jornal dizer que tinha se desequilibrado por isso caiu em cima do papel. Não foi isso que aconteceu”, afirma. Se há um campo em que o ditado “uma imagem vale mais do que mil palavras” encontra eco, esse é o fotojornalismo. “É uma arma poderosíssima, por isso a ética tem de ir antes e acima de tudo”, diz Araújo. O resultado desse dia-a-dia intenso e, muitas vezes arriscado, pode ser conferido pelo público no Sesc Pompéia até 14 de agosto, onde está a mostra World Press Photo 2005 (Veja algumas das fotos ganhadoras e suas histórias ao longo das páginas seguintes).  Das mais belas imagens do esporte às piores tragédias ocorridas em 2004, está tudo lá.

 

 

Profissão-perigo

Os fatos não têm hora para acontecer tampouco níveis garantidos de segurança. Só que quem está por trás das lentes não é nenhum MacGyver – aquele do seriado dos anos 80 treinado para se safar das mais perigosas situações munido de apenas um grampo. Longe dos truques da TV, no fotojornalismo muitas vezes os apetrechos são, além da câmera fotográfica, apenas a cara e a coragem. Maurício Lima, fotógrafo da agência Agence France Presse que, aos 29 anos, já conquistou quatro prêmios internacionais, sabe o que é isso. Ele foi um dos únicos fotógrafos brasileiros no Iraque desde a invasão norte-americana em 2003. E em uma das vezes em que esteve lá, um míssil foi disparado em direção ao carro do Exército americano onde estava. “Por menos de um metro não nos atingiu”, conta Lima, testemunha ocular da situação do país invadido. “Está tudo um caos, as ruas não têm semáforos e se leva um dia inteiro para conseguir encher o tanque do carro, por um preço agora cinco vezes maior. Enquanto isso, as bases americanas têm acesso à internet, livraria, academia e até cinema e teatro”, relata.

 

 

Questão de sorte?

Sim e não. Uma boa foto depende muito de estar no lugar certo na hora certa. A sorte foi fundamental, por exemplo, no início da carreira de Sebastião Salgado, hoje um dos mais famosos fotógrafos do mundo. Em 1981, ele havia largado um bom emprego na Organização Internacional do Café, em Londres, para abraçar a paixão pela fotografia, que começou quase por acaso por volta de 1970, quando acabara de se mudar para Paris e sua mulher, Lelia comprou uma câmera. A primeira foto foi um retrato dela. Onze anos mais tarde, já contratado da agência Magnum, a imagem que o projetou internacionalmente foi um flagrante que ninguém mais conseguiu. Somente suas lentes registraram cada lance da tentativa de assassinato de Ronald Reagan, então presidente dos Estados Unidos. Fazia três dias que ele trabalhava para uma matéria de capa da revista do New York Times e por isso estava no hotel onde se encontrava Reagan. “Já o havia fotografado dentro do prédio e pressenti que ele ia sair, então, saí antes e esperei na porta. Fiz o Reagan entrando no automóvel e continuei fotografando. Quando aconteceu o atentado, fotografei”, contou ele em entrevista à revista Playboy. Para Salgado, ainda, a foto perfeita também revela o instinto do fotógrafo. “Há um patamar em que a técnica não é mais nada além de seus olhos e suas mãos. Então, a técnica não é o importante, e sim o instinto. Mesmo o fotojornalista tem de deixar seu instinto fluir, senão não consegue fotografar bem.”

 

 

Cava fonte

O fotógrafo João Wainer cismou que queria entrar para a profissão aos 16 anos, quando ouviu pela primeira vez um disco do grupo paulistano de rap Racionais MC’s. “Era muito diferente de tudo que eu conhecia e pus na cabeça que queria fotografar aquilo”, conta, referindo-se à dura realidade da periferia que as músicas do grupo narram. Há dez anos ele fotografa para o jornal Folha de S.Paulo, para o qual já cobriu diversas matérias das páginas policiais. “Não dá para ficar esperando uma boa história cair no seu colo. Tem de cavar fonte e esse é um relacionamento de pura confiança. Não existe espaço para vacilar, bancar o herói, forçar uma situação ou levar câmera escondida”, conta ele. Wainer desenvolveu por quatro anos um trabalho fotográfico dentro do presídio do Carandiru, em São Paulo, desativado em 2002. Foi nessa época que conheceu muitas das lideranças que atuavam entre os presos lá dentro. Uma das condições para ter passe livre no presídio foi que ele não divulgasse as imagens que havia conseguido em nenhum veículo da grande imprensa, somente no livro que estava produzindo. “Ou eu cumpria a minha parte no acordo ou o negócio ficaria feio para o meu lado. Foram essas credenciais que facilitaram algum tempo depois que eu conseguisse subir para fotografar os morros cariocas em matérias do jornal”, diz ele.

 

Outra prova de que uma boa foto pode começar bem antes de o fotógrafo estar no lugar certo na hora certa, é a imagem conseguida pelo argentino Juan Medina, da agência Reuters e um dos premiados da World Press Photo 2005, que flagrou o naufrágio de um barco com 36 imigrantes africanos na costa da Espanha. Juan vive na ilha de Fuerteventura, região espanhola mais próxima do continente africano. Há seis anos ele testemunha dia após dia o êxodo de pessoas que tentam chegar à Europa entrando pela ilha onde mora. Quando conseguiu a foto, na noite de 12 de novembro de 2004, Medina estava a bordo de um barco de patrulha do serviço marítimo, que fazia a ronda na região. “Milhares de pessoas se vêem obrigadas a atravessar 100 quilômetros de mar bravo que separam o Saara das Ilhas Canárias. Nesse caminho, muitos perdem a vida, famílias são destroçadas e sonhos se quebram. Só há dor”, diz.

 

 

Oscar da fotografia

Há cinco décadas a fundação holandesa World Press Photo (www.worldpressphoto.com) reúne todo ano um júri internacional para eleger as melhores fotos da imprensa mundial. O resultado dessa eleição é uma grande exposição itinerante, que pode ser vista em 80 países. Até 14 de agosto, todas essas imagens – 200 – estão na mostra World Press Photo 2005, em cartaz no Sesc Pompéia. O projeto, que no Brasil foi uma parceria do Sesc São Paulo com a Editora Desiderata, acontece sob a condição de que todas as imagens sejam exibidas sem censura.

(Foto: Jorge Araújo/Folha de S. Paulo/Divulgação/Arquivo Prêmio Esso de Jornalismo)

 

 

As Dores do Mundo

Era 26 de dezembro e um dos piores desastres naturais ocorridos nas últimas décadas atingiu oito países asiáticos. O tsunami deixou mais de 300 mil mortos e milhões de desabrigados. Em meio ao caos, o indiano Arko Datta, em 28 de dezembro, em Tamil Nadu, na Índia, capturou o desespero de uma mulher ao ver um parente morto no desastre.

(Foto: Arko Datta/Reuters/Divulgação/World Press Photo)

 

 

Barbárie Terrorista

Em 1º de setembro do ano passado um grupo de terroristas chechenos invadiu uma escola na pequena cidade de Beslen, na província da Ossetia do Norte, na Rússia. Eles prenderam cerca de 1.200 pessoas no ginásio da escola com algumas bombas para impedir um ataque surpresa da polícia. Depois de dois dias de negociações as bombas dentro da escola foram detonadas matando cerca de 340 reféns, metade deles crianças. O fotógrafo russo Yuri Kozyrev registrou os vários momentos do seqüestro.

(Foto: Yuri Kozyrev/Time Magazine/Divulgação/World Press Photo)

 

 

Miséria Haitiana

Nesta foto, feita em fevereiro de 2004, o israelense Shaul Schwarz flagrou uma criança haitiana roubando um pedaço de carne em um centro comercial de Porto Príncipe, no Haiti. Na última semana de fevereiro, saqueadores fizeram um ataque repentino a lojas e agências humanitárias de onde roubaram toneladas de comida. A ação dos rebeldes jogou a cidade no caos completo, gerando ondas de saques e seqüestros. “O que mais me chocou quando estive lá foi o tamanho da pobreza e o fato de uma vida valer tão pouco”, diz Shaul.

(Foto: Shaul Schwarz/Corbis/Divulgação/World Press Photo)

 

 

Poder do Fogo

O acaso levou o fotógrafo José Francisco Diório, do jornal O Estado de S.Paulo, à favela do Buraco Quente, em São Paulo, em 30 de agosto de 2004. Diorio voltou de férias um dia antes do previsto e, uma vez na redação, resolveu pegar uma pauta num local próximo à favela, zona sul de São Paulo. Feita a imagem encomendada, ele percebeu que muita fumaça saía do aglomerado de barracos. Correu para lá e conseguiu o registro que o colocou entre os escolhidos. “Eu só queria que essa foto tivesse mudado alguma coisa na situação daquelas pessoas, que perderam quase tudo e não conseguiram um lugar melhor para morar”, diz o fotógrafo.

(Foto: J. F. Diorio/O Estado de São Paulo/Divulgação/World Press Photo)