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Festival Internacional de Teatro de Rio Preto apresenta trabalhos que dialogam com literatura, poesia e filosofia


Tudo começou em 1969, com a realização do 1º Festival Nacional de Teatro Amador de São José do Rio Preto. O tempo para organizar o evento era curto, o dinheiro idem, mas a vontade era grande. E foi ela que manteve a iniciativa de pé mesmo com os vários altos e baixos que marcaram sua trajetória (veja quadro Herói da resistência). Quase 20 anos depois, a história é outra. Não que a organização nade em dinheiro, mas hoje o festival possui lugar cativo na agenda cultural da cidade que o abriga, do estado, do país e também do mundo.

Desde 2001, a empreitada passou a se chamar Festival Internacional de Teatro (FIT) de Rio Preto, a ser realizado este mês, de 9 a 19.

Profissional não só no conteúdo, mas também na forma, o FIT tem várias finalidades: entre elas, mostrar que o eixo cultural brasileiro não precisa ser SP-Rio, colocar em contato a produção e as companhias de diferentes locais do Brasil, ajudar a incluir o país numa agenda internacional e propor reflexões sobre o exercício do teatro.

“Realizar um festival é criar um território propício à discussão do surgimento de tendências e investigações de linguagens”, comenta Jorge Vermelho, um dos curadores e diretor do evento. Ele informa ainda que realizar festivais desse tipo em cidades do interior é “a grande tendência de países europeus, onde pequenas cidades tornam-se centros reunidores desses projetos”.


À esquerda, Carmen Fúnebre, da Polônia; à direita, O Céu 5 Minutos Antes da Tempestade

Curadoria

A linha curatorial desta edição – o “tema”, por assim dizer, que irá permear as apresentações – focou-se na palavra TEXTura – com essa grafia mesmo. Segundo a professora Silvia Fernandes da Silva Telesi, teórica, crítica e ensaísta especializada em teatro, o conceito busca “ampliar a noção de texto”. Para isso, a programação (disponível no Em Cartaz desta edição) inclui processos colaborativos de criação (feitos por grupos de teatro), espetáculos acontecendo em diversos espaços da cidade e trabalhos que dialogam com literatura, poesia e até filosofia. “No teatro contemporâneo, o diálogo entre essas diversas manifestações artísticas e práticas culturais é bastante intenso”, explica a professora. “E seu resultado cênico pode ser considerado uma espécie de textura, ou seja, um tecido teatral formado de materiais pouco usuais, como o espaço urbano, a reflexão filosófica ou a pesquisa antropológica.”

O diretor do FIT explica também que o objetivo da curadoria é propor um conceito como “fonte inspiradora” para a programação, mas que, em momento algum, a intenção é limitar a verve criadora dos artistas. “A curadoria é responsável por definir o perfil do festival e criar sua programação, assistindo a trabalhos e realizando convites a essas produções”, garante. “O pensamento curatorial deverá estar expresso em todas as etapas do festival, para que tenhamos unidade na concepção e, conseqüentemente, na realização.”

Parceria

As Três Velhas

O Sesc São Paulo é responsável pela realização do FIT, juntamente à prefeitura do município, por meio da unidade São José do Rio Preto. “O festival representa a política geral de ação do Sesc quando privilegia a diversidade, a troca de informações e o intercâmbio de idéias entre artistas nacionais e estrangeiros, público, pesquisadores e crítica teatral”, afirma Flavia Carvalho, assistente para a área de teatro da Gerência de Ação Cultural (Geac) e também curadora do FIT. “O Sesc São Paulo desenvolve uma reconhecida, permanente e diversificada ação no campo do teatro, e o festival corresponde a essa ação quando se torna um ambiente favorável à pesquisa e à discussão, tratando o teatro como um elemento transformador.” Ainda sobre o potencial educativo do teatro, e da arte em geral, Flávia informa que a instituição tem especial interesse em difundi-lo e apoiá-lo. “A contribuição do FIT ao teatro brasileiro se dá de várias formas, possibilitando ao público o exercício estético e de reflexão, incentivando a formação e a manutenção de platéias e se configurando como um pólo de disseminação do teatro no Brasil.” O gerente da unidade São José do Rio Preto, José Roberto Ramos, ressalta que para o Sesc é importante que seja realizado um festival desse porte em uma unidade do interior. Para ele, o grande benefício dessa ação é a chamada democratização da cultura. “O Sesc São Paulo empreende ações que buscam a abertura de novos fluxos e sentidos culturais, além daqueles já estabelecidos”, diz. “É nessa direção que somos parceiros na realização do Festival Internacional de Teatro em São José do Rio Preto, evento que se firma como um canal para pulverizar e intensificar nosso trabalho permanente de busca pela pluralidade e abertura de questionamentos.”


Herói da resistência
Ao longo de quase 20 anos, o hoje chamado Festival Internacional de Teatro passou por poucas e boas

1969 – Surge o 1º Festival Nacional de Teatro Amador de São José do Rio Preto.
1972 – A prefeitura assume a organização do festival, que acontece no teatro municipal ainda inacabado.
1982 – O festival volta a ser realizado depois de um hiato de dez anos, novamente no teatro municipal, já pronto.
1996 – O evento deixa de ser realizado unicamente no teatro municipal e passa a ocupar outros espaços da cidade (ruas, praças e outros espaços cênicos), como acontece hoje.
1998 – São criadas a mostra competitiva para espaços não convencionais, a mostra paralela e a mostra não competitiva para espetáculos de rua.
2000 – A prefeitura deixa a organização por falta de verba. Com isso, a comissão organizadora se mobiliza para levantar recursos. O festival é realizado num formato menor e apenas nas dependências do teatro municipal.
2001 – O festival torna-se internacional.