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Cultura em Movimento

O Brasil é uma terra de território vasto e de grande diversidade cultural. Aqui, espalhados em mais de 8 milhões de quilômetros quadrados, convivem manifestações como o cordel, a música erudita, o samba, o teatro contemporâneo, danças regionais, entre outros representantes do mundo rural e urbano. Diante de tal realidade, torna-se imperativo que essa produção possa se deslocar pelo país – até para que os cidadãos conheçam melhor suas origens. Ao menos é isso que pensa o especialista em políticas culturais Leonardo Brant, autor, entre outros livros, de Diversidade Cultural (Escrituras, 2005). “A gente tem a impressão de que o Brasil tem uma produção cultural centralizada no eixo Rio-SP, mas o que existe na verdade é uma feroz concentração do financiamento nesse eixo. Por isso, e também pela conseqüente concentração dos meios de comunicação nesses centros, é que temos uma visão distorcida da nossa produção cultural.”
Com base em uma proposta de democratização do acesso à cultura, o Sesc São Paulo, com suas unidades espalhadas por diversos pontos da capital e do interior, promove, no âmbito estadual, a circulação de projetos. Segundo Rosana Cunha, responsável pela Gerência de Ação Cultural (Geac) do Sesc São Paulo, essa política de itinerância não é recente no Sesc. “E não só levamos manifestações artísticas das capitais para o interior, como fazemos o processo contrário também, de trazê-las do interior para cá”, esclarece. O assessor da Geac, Sérgio Pinto, cita alguns exemplos na área da música: “Temos os músicos ligados ao Conservatório Musical de Tatuí, a Orquestra Sinfônica de Santos e a de São Bernardo.” Entre os grandes eventos itinerantes do Sesc, destacam-se a Mostra Sesc de Artes, a Itinerância Videobrasil – uma das mais recentes – e a estréia da Osesp Itinerante – iniciativa que, segundo Rosana, representa “o maior projeto de circulação de música erudita” já feito pelo Sesc (veja boxe Música na estrada).




Espetáculos e artistas que compuseram a Mostra Sesc de Artes - Circulações, em 2007: 16 roteiros e 78 cidade do interior do estado percorridas
Formação de público
Com o tema Circulações, a Mostra Sesc de Artes do ano passado foi uma tentativa da instituição de oferecer ao público a oportunidade de vivenciar experiências artísticas por meio da obra pronta, e também no âmbito da concepção e do processo. Além da temporada na capital, a mostra percorreu 78 cidades do interior, litoral e Grande São Paulo. Foram 16 roteiros com teatro, música, dança, cinema, literatura, shows, espetáculos, performances e oficinas. Edições anteriores do projeto – com formatos diferentes – também já “ganharam” o interior.
O evento Lorca na Rua, realizado em 1998, surge nessa trajetória como um dos mais emblemáticos. Foram três comboios que saíram do marco zero da Praça da Sé rumo a 75 cidades do interior de São Paulo, percorrendo 6 mil quilômetros para homenagear o centenário do escritor e poeta espanhol Federico Garcia Lorca. As trupes ambulantes apresentaram peças baseadas nas obras e na própria figura do poeta. Nas carrocerias, instalações, adereços e quase 300 artistas e técnicos envolvidos no projeto. A arte chegou até cidades como Bady Bassit, de pouco mais de 10 mil habitantes.
Segundo Flávia Garcia Rosa, diretora da editora da Universidade Federal da Bahia e doutoranda na área de cultura e sociedade, um trabalho itinerante é muito louvável. “Essa prática de disponibilizar conteúdos democratiza o conhecimento e funciona como formadora de cidadãos.” Para Flávia, o “gosto” pela arte só se forma quando há acesso às obras. “Ir à escola e aprender a ler é essencial, mas ser cidadão é muito mais do que isso”, esclarece. “E muitas vezes a mensagem levada através de uma produção musical, teatral ou literária atinge mais profundamente o indivíduo do que uma mensagem dada de maneira formal.”
Leonardo Brant vai além na discussão e relaciona uma “oferta cultural restrita” à baixa produção artística. “Quanto menos referencial se tem, menor é a capacidade do artista de processar, de criar, de dialogar”, declara. “E menor também é a capacidade do cidadão de se formar como pessoa, de conquistar autonomia, de se desenvolver.” Segundo o especialista, a ampliação da oferta de bens culturais aos diversos públicos só traz vantagens. “O nosso artista não tem muita fonte de receita, e fica muito difícil viver da arte. Se há um sistema mais aquecido, todo mundo tem a ganhar: o artista, o investidor, o público.”
Uma vez que a itinerância pressupõe o contato das obras com pessoas de diferentes formações culturais, pode-se pensar que o conceito não se aplique a determinados projetos artísticos, por exemplo, os considerados mais herméticos. Essa não é a visão do Sesc. Para Rosana Cunha, é importante fazer circular a arte consolidada, mas também o que há de mais novo e desafiador. “Partimos do pressuposto de que todos são capazes de entender, absorver e ser estimulados pela arte, cada um à sua maneira, independentemente da formação. Por isso, não fazemos uma adaptação ao público, tentamos levar um pouco de tudo para promover a reflexão”, conclui.


Cenas de vídeo que circulam pelo estado por meio da itinerância Videobrasil, que leva para unidades do Sesc no interior o melhor da produção audiovisual do Brasil e do mundo
Embora seja coerente que a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) não se limite a tocar apenas na capital, nem sempre o coerente é o possível. Por isso, é fato digno de nota, e de comemoração, a parceria firmada entre a Fundação Osesp e o Sesc São Paulo, cujo resultado será a inédita turnê Osesp Itinerante, pelo interior do estado. Entre os dias 2 e 20 de julho deste ano, a orquestra percorrerá 12 cidades com atividades musicais gratuitas, num total de 130 eventos – com destaque, claro, para os concertos. As localidades a receber a ilustre visita são São José dos Campos, Taubaté, Sorocaba, Itapetininga, Bauru, Marília, Piracicaba, Limeira, São Carlos, Araraquara, São José do Rio Preto e Catanduva. “Serão mais de 140 pessoas percorrendo cerca de 2 mil quilômetros”, revela Rosana Cunha, responsável pela Gerência de Ação Cultural (Geac) do Sesc.
O maestro e diretor artístico da Osesp, John Neschling, comemora a boa nova explicando o quão difícil é tirar a orquestra de “casa”. “É a primeira vez que conseguimos fazer isso, porque a orquestra é uma instituição muito complicada de viajar: muita gente, instrumentos caros e pesados, ônibus, lugar para tocar, idas e vindas, almoços, montagem de palco, acústica, técnicos de som, equipamento, caixas, microfones, roupas... É uma operação de guerra.” Neschling garante que uma turnê pelo interior do estado é ainda mais complicada do que uma turnê internacional.
O programa para cada cidade prevê a realização de uma palestra, logo na chegada, intitulada Reflexões sobre o Estudo de Música, Mercado de Trabalho e Empreendimentos Culturais, a ser proferida pelo próprio maestro para estudantes de música e gestores culturais da região. Em seguida, entre apresentações ao ar livre e concertos de música de câmara e coral, serão oferecidas oficinas, ministradas pelos músicos da Osesp e voltadas para o público da área, e cursos de apreciação musical, esses a cargo de professores especializados e abertos a todos os interessados. “As inscrições estão praticamente esgotadas”, afirma Sérgio Seabra, técnico do Sesc responsável pela organização da primeira parada, em São José dos Campos. A programação foi toda idealizada por Neschling, que pensou especialmente num público que não está acostumado a ouvir a orquestra ao vivo. Por isso, a Osesp Itinerante levará um repertório mais “leve”, mas com grandes – e importantes – obras brasileiras e internacionais, como o Bolero de Ravel. “É muito importante tocar no interior para essas pessoas que também pagam os seus impostos; a orquestra é delas também”, afirma o maestro. “Todos os concertos são de graça, então há uma democratização real do nosso trabalho como uma forma de prestar contas para esse público do que eles estão investindo em nós.” O diretor artístico finaliza mostrando-se entusiasmado por “entrar em contato com a população local”. “Vou falar sobre os instrumentos, sobre a profissão de músico, o mercado musical no Brasil, vamos tocar em praça pública para milhares de pessoas. É um experimento novo, que está muito ligado ao nosso coração, e esperamos poder repetir a dose anualmente.”