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Mais que a melhor vista do Rio

Colônia de pescadores de Jurujuba, em Niterói / Foto: J.L.Bulcão/Pulsar Imagens
Colônia de pescadores de Jurujuba, em Niterói / Foto: J.L.Bulcão/Pulsar Imagens

Por: FRANCISCO LUIZ NOEL

Quem sobe ao mirante do Parque da Cidade de Niterói, no Morro da Viração, bairro de São Francisco, entende o motivo de os cariocas afirmarem, mesmo que em tom de brincadeira, que a melhor vista do Rio de Janeiro está do outro lado da Baía de Guanabara. A 270 metros de altura, a visão descortina ao sul a região niteroiense à beira do Oceano Atlântico e abarca, a oeste, as terras com frente para as águas da baía, de onde emerge o Pão de Açúcar, tendo ao fundo o Cristo Redentor e o espetáculo das montanhas que emolduram a capital fluminense. Nem o morador mais bairrista de Niterói pode negar que a panorâmica, familiar aos adeptos do voo livre e outros frequentadores do mirante, é hors concours.

Pilhérias à parte, o fato é que Niterói é muito mais que um ponto privilegiado de onde se veem as belezas naturais e as feitas com a mão do homem da outra margem da baía. A cidade ocupa posição de realce em âmbito estadual no quesito qualidade de vida, ainda que o posto não livre os niteroienses dos efeitos colaterais da urbanização. Seus 496 mil habitantes, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), assim como todos os aglomerados urbanos de porte do país, amargam problemas relacionados com congestionamento de trânsito, habitação precária em favelas e, mais recentemente, desemprego.

Além de primeira do ranking no estado e a sétima colocada no país na classificação dos melhores no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), calculado para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pela Fundação João Pinheiro, Niterói é, definitivamente, um lugar agradável para se viver. De acordo com o Atlas do Desenvolvimento Humano, de 2013, a cidade detém, numa escala de 0 a 1, o IDHM de 0,837, pouco abaixo do índice de 0,862 da primeira colocada, São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. O quesito renda alavancou a média final dos niteroienses, tópico em que aparecem em segundo lugar, atrás somente dos moradores da cidade paulista.

A renda per capita em Niterói é de R$ 2 mil, tendo crescido à média anual de 3,24% em três décadas, segundo os números do IDHM. A proporção de niteroienses pobres, com renda domiciliar per capita abaixo de um terço do salário mínimo, caiu de 12% para 3,3% entre 1991 e 2010. As diferenças econômico-sociais têm expressão geográfica: 30 das 75 favelas estão na zona norte, como o Morro do Bumba, no bairro do Cubango, onde um deslizamento matou 48 pessoas em 2010. Na região, 39,4% dos domicílios têm renda de até um mínimo, enquanto nos bairros praianos 37,8% das moradias usufruem de renda acima de cinco salários.

Mais de 30% da população ocupada de Niterói trabalha no Rio e em outros municípios, contabiliza o diagnóstico que lastreia a revisão do plano diretor, tomando por base o Censo 2010. No mercado local de trabalho, em 2013, os 193,9 mil empregos estavam distribuídos por uma gama de atividades liderada pelos condomínios prediais (10,1 mil ocupações), ensino universitário (9,4 mil) e indústria naval (8,7 mil). Neste setor, movido pela demanda da Petrobras, 2015 fechou no vermelho, com milhares de demissões e promessa de mais cortes.

Estaleiros às moscas

“Perdemos 6 mil postos de trabalho em um ano”, queixa-se o presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico dos Municípios de Niterói e Itaboraí, Edson Carlos Rocha, lembrando que em 2014 os estaleiros locais empregavam 12 mil operários. O setor, que fabrica grandes e médios navios e plataformas de petróleo, encerra um ciclo de pedidos e não tem encomendas, já que a queda do preço mundial do petróleo fez a Petrobras comprimir seu plano de investimentos. “Nenhum estaleiro tem obra nova para fazer. Se continuar nessa toada, teremos muito mais desempregados em 2016”, adverte o sindicalista.

O caso mais dramático foi a demissão de 3,5 mil trabalhadores no antigo Estaleiro Mauá, no bairro da Ponta d’Areia, em frente ao pedágio da Ponte Rio-Niterói. Primeiro do país, aberto, em 1846, por Irineu Evangelista de Sousa, barão e, depois, visconde de Mauá, o lugar estava arrendado ao Estaleiro Eisa Petro Um, que deixou de tocar a construção de três petroleiros e teve o contrato rescindido pela Petrobras Transporte (Transpetro) em julho passado. A dívida do Eisa com os demitidos supera R$ 75 milhões, estima Rocha. “A maioria dos demitidos está vivendo com o auxílio-desemprego, que está terminando, e muitos estão fazendo bicos para sobreviver”, lamenta-se.

Em contrapartida, a Universidade Federal Fluminense (UFF) assumiu o papel de proa na vida niteroiense. Criada pelo presidente Juscelino Kubitschek, a instituição foi aberta em 1960 com a missão de alavancar a atividade econômica do antigo estado do Rio de Janeiro e formar uma elite nativa. No dia a dia da UFF exercitam-se 7,9 mil servidores e 39,3 mil alunos de 124 cursos espalhados por várias unidades, no centro da cidade e em bairros. Além de por si só turbinar a economia, a UFF ainda mantém o Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP), o maior da cidade, um cinema (Cine Arte UFF) e a Orquestra Sinfônica Nacional.

Niterói tem como marco histórico a oficialização, em 22 de novembro de 1573, de um aldeamento dos índios temiminó, que haviam ajudado Portugal a expulsar os franceses da Baía de Guanabara. Como prêmio pela vitória, simbolizada pela fundação da cidade do Rio de Janeiro, oito anos antes, o chefe temiminó Arariboia ganhou o direito de habitar com sua tribo as terras do outro lado da baía, concedidas pela Coroa portuguesa sob a forma de sesmaria. Em São Lourenço dos Índios, como a aldeia foi batizada, os indígenas voltavam à região, de onde haviam sido proscritos anos antes pelos rivais tamoios, aliados de primeira hora dos franceses.

O bom trato com as autoridades rendeu a Arariboia não só o posto de capitão-mor da aldeia, mas também o nome de Martim Afonso, em homenagem ao nobre e militar português Martim Afonso de Sousa, o título de cavaleiro da Ordem de Cristo, a propriedade de casas no Rio e uma pensão da Coroa. Sua morte, em 1587, foi seguida pelo declínio da povoação, mas a imagem de chefe corajoso, leal e habilidoso resistiu. Em 1973, nos 400 anos de Niterói, o índio fundador da cidade passou a ser lembrado em estátua de corpo inteiro, seminu, em frente à Estação das Barcas. O monumento a Arariboia, na praça homônima, tornou-se ponto recorrente de encontro para moradores e visitantes.

Daqueles tempos Niterói preserva relíquias como a Igreja de São Lourenço dos Índios, refeita em 1729 no lugar da capela frequentada pelos temiminós, no atual bairro com o nome do santo. Outro patrimônio associado à formação da cidade é a Fortaleza de Santa Cruz da Barra, mantida pelo exército no bairro de Jurujuba, no local da fortificação original, construída pelos franceses, tomada pelos portugueses em 1567 e transformada na principal defesa da Baía de Guanabara na Colônia e no Império. Além de Santa Cruz, atração turística concorrida, Niterói conserva os fortes de Barão do Rio Branco, Imbuí, Gragoatá, Pico e São Luiz.

O passado das terras niteroienses é lembrado também no Museu de Arqueologia de Itaipu, do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). O estabelecimento ocupa o antigo Recolhimento de Santa Teresa, aberto em 1764 para o internato de mulheres instaladas por pais e maridos. O museu possui quase mil peças confeccionadas por grupos indígenas que habitaram a região antes de 1500, com datações de até 7 mil anos antes de Cristo. O acervo inclui ossos humanos, restos de cerâmica e utensílios de pedra, além de blocos testemunhais de um sambaqui encontrado no bairro oceânico de Camboinhas.

Velha capital

Niterói era, no Império, a Vila Real de Praia Grande, com a maior faixa de areia da Baía de Guanabara. Um de seus frequentadores, nos anos 1810, foi dom João VI, que se hospedava num palacete em São Domingos, extremo sul da praia. Desmembrada do Rio em 1819, Praia Grande ganhou plano de arruamento, passou a atrair moradores da Corte e, rebatizada com o nome atual, foi elevada ao status de cidade e capital da província do Rio de Janeiro em 1835, quando teve início a ligação por barcas a vapor com a Cidade Maravilhosa. Em 1841, cinco anos antes de Mauá abrir seu estaleiro, outro plano urbanístico levou à ocupação de Icaraí, ao sul da orla abrigada na baía.

A cidade viveu dias de destruição e pânico em 1893, bombardeada por navios tomados por opositores ao presidente Floriano Peixoto, na Revolta da Armada. Deflagrada em setembro, a rebelião conflagrou a baía e somente foi debelada pela República nascente em março do ano seguinte, deixando no chão prédios do centro e de alguns bairros e a desorganização da economia local. O conflito atiçou disputas entre facções políticas e resultou na transferência da capital fluminense para a serrana e segura Petrópolis. Niterói retomaria a condição de principal cidade da província apenas em 1903, para ingressar numa fase de grandes transformações urbanas.

Como centro político-administrativo do antigo Estado do Rio, Niterói consolidou o perfil citadino mirando-se no exemplo da capital da República. As obras do início do século 20 incluíram o saneamento básico de sua área central e diversos bairros, e o aterramento de glebas à beira da Baía de Guanabara. Chegaram ao mesmo tempo a eletricidade e os bondes elétricos, e grandes prédios públicos começavam a sair do chão. Em 1942, de frente para a Estação das Barcas, a cidade ganhou sua principal via – a Avenida Amaral Peixoto. Genro de Getúlio Vargas e ex-interventor federal no governo fluminense, Peixoto seria o mais forte cacique político do estado até os anos 1970.

Com 20 metros de largura e um quilômetro de extensão, rasgada à custa da demolição de mais de 200 imóveis e ladeada por calçadas sob galerias de edifícios, a Amaral Peixoto foi o grande ícone da cidade na competição em modernidade com a capital federal, no outro lado da baía. Com seus prédios públicos, concentrados na Praça da República, no extremo interior da avenida, e um burburinho urbano em que desfilavam altos burocratas, capitalistas, magistrados, políticos de projeção e potentados com raízes rurais, Niterói cresceu provinciana e ao mesmo tempo cosmopolita, a meio caminho da vida do interior e do glamour carioca.

A realização do sonho da universidade própria, nos primórdios dos anos 1960, teve como contraponto dois acontecimentos que ainda assombram a memória dos niteroienses mais velhos. Em fevereiro, um acidente com helicóptero em Petrópolis levou à morte o governador Roberto Silveira, líder carismático em ascensão e venerado entre os niteroienses e outros fluminenses, que dariam seu nome a ruas, praças e avenidas de norte a sul do estado. E, em dezembro, outra tragédia: o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, armado no centro da cidade, que matou 503 pessoas e deixou feridas outras centenas, no maior sinistro do gênero na história brasileira.

A grande virada rumo à Niterói do presente deu-se na década de 1970, impulsionada pelo impacto de dois fatos que marcariam a vida da cidade. O primeiro, em março de 1974, foi a abertura da Ponte Presidente Costa e Silva, que o batismo popular consagraria com a denominação Rio-Niterói e que entraria para a história como emblema do Brasil Grande propagandeado pela ditadura militar. Em contrapartida, um ano depois, a cidade perdeu a condição de capital do estado, posto transferido para a outra margem da baía com a fusão dos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, que cedera o status de Distrito Federal a Brasília, em 1960.

Prêmio de consolação

Monumento da engenharia nacional que concretizou um anseio antigo, a ponte foi muito mais do que um prêmio de consolação pelo rebaixamento político-administrativo do município. Passado o esvaziamento econômico dos primeiros anos, Niterói tornou-se uma espécie de extensão do Rio. Com 13,3 quilômetros, por onde passam atualmente mais de 250 mil veículos por dia, a ponte valorizou a cidade, estimulou a migração de cariocas e fez deslanchar o mercado imobiliário. A área central e a tradicional Icaraí expandiram-se, bairros com frente para a baía cresceram e a fronteira urbana avançou na direção da região oceânica e, a leste, da região administrativa de Pendotiba.

Antes da ponte, a rotina da ligação Rio-Niterói estava restrita às barcas, que também conduziam automóveis. O serviço, que não gozava de boa fama, era alvo de protestos como o ocorrido em 1959, quando seis pessoas morreram e cem saíram feridas. Revoltados com os atrasos, passageiros incendiaram a antiga Estação Cantareira, no bairro de São Domingos, as embarcações atracadas e imóveis dos proprietários. Na época, o compositor Gordurinha celebrizou, no Mambo da Cantareira, a agrura dos niteroienses: “Só vendo como é que dói / só mesmo vendo como é que dói / trabalhar em Madureira, viajar na Cantareira / e morar em Niterói”.

A arrancada niteroiense depois da abertura da ponte daria um salto nos anos 1990, graças a uma série de intervenções públicas associadas a uma bem-sucedida estratégia de marketing. A prefeitura urbanizou favelas, criou um programa de medicina de família e fez obras de modernização urbana, elevando os indicadores econômico-sociais. Foi então que Niterói, que preserva áreas verdes como o Parque da Cidade em 38,6% do território municipal, tornou-se sinônimo de qualidade de vida.

Estampa dessa nova cidade é o Museu de Arte Contemporânea (MAC), uma das criações de Oscar Niemeyer para a ex-capital. Nenhum outro lugar no mundo, à exceção de Brasília, exibe tantas construções projetadas pelo arquiteto – um conjunto que se estende da orla do centro à da zona sul, conhecido como Caminho Niemeyer. O MAC, inaugurado em 1996 na Praia de Boa Viagem, é o grande destaque. Com forma de disco voador, o museu guarda uma das mais notáveis coleções de arte brasileira do século 20 pertencentes ao colecionador José Sattamini. Fechado em fevereiro passado para obras de manutenção, o MAC não tinha data para reabertura até o término desta edição. O Caminho Niemeyer foi concebido pelo arquiteto após a edificação do museu, a pedido da municipalidade. Ao MAC somam-se atualmente, ao longo de 11 quilômetros, várias outras obras arquitetadas por Niemeyer, entre elas o Centro de Cinema Petrobras, a Estação Hidroviária de Charitas (na estação atracam catamarãs que ligam a cidade ao Rio), a Fundação Oscar Niemeyer e o Teatro Popular. Outros prédios e instalações permanecem no papel, quase duas décadas depois da apresentação do projeto. A próxima obra a ficar pronta é a da Catedral Católica, iniciada em 2014 pela Arquidiocese de Niterói, com recursos procedentes de doações de fiéis e de empresas.

Os niteroienses entraram em 2016 de olho numa empreitada que promete reforçar a integração dos bairros atlânticos ao restante da cidade. Sonho antigo, o transporte rápido está virando realidade com a construção de uma via expressa de 9,3 quilômetros, orçada em R$ 311 milhões. Batizada de TransOcêanica, a estrada terá 2 túneis e ligará o bairro oceânico do Engenho do Mato a Charitas. Com entrega prevista para 2017, incluídas 13 estações em 11 bairros, a via terá pista de automóveis, ciclovia e corredor do sistema BHLS (sigla em inglês para ônibus com alto nível de serviço), também conhecido por “metrobus”, que atenderá 80 mil passageiros por dia.

“A região oceânica gera quatro vezes mais viagens de automóveis do que o resto de Niterói. Não dá mais para pensar em desenvolvê-la sem um sistema estrutural de transporte coletivo”, diz a secretária municipal de Urbanismo e Mobilidade, Verena Andreatta. Na cidade, os carros de passeio respondem por 39% dos deslocamentos – quase o dobro da Região Metropolitana. Em consequência, haja congestionamentos, agravados pela existência de pontos de estrangulamento do tráfego em percursos como o que vai do centro à região oceânica, onde vivem 70 mil pessoas.

O poder público calcula que o tempo da viagem de ponta a ponta do trajeto cairá de 60 para 25 minutos, como parte do plano que inclui a integração futura do BHLS a um veículo leve sobre trilhos (VLT) entre Charitas e o centro. Outro projeto na mesa é a remodelação da área central, habitada por 30 mil pessoas. Atrás de recursos, o prefeito local, Rodrigo Neves, esteve em outubro de 2015 no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington. Os oposicionistas reclamam da elevação do endividamento municipal, mas a prefeitura, que ajustou despesas nos últimos anos, assegura que os empréstimos são compatíveis com a receita, estimada em R$ 2,3 bilhões em 2015.