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Encontros
Força aplicada
por Alexandre Blass e Marcelo Semiatzh
A força move o corpo humano. E todos dependem dela para se locomover, praticar atividades físicas, competir e quebrar recordes – caso ela seja usada para o alto rendimento esportivo. Essa capacidade motora e suas implicações são o principal foco de pesquisa da dupla Alexandre Blass e Marcelo Semiatzh e o tema abordado por ambos durante conversa com o Conselho Editorial da Revista E.
Formado em Esporte pela Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFEUSP), e mestre em Esporte de Alto Rendimento pela Universidade do Porto, em Portugal, Alexandre sempre esteve focado no estudo do movimento humano e da metodologia do treino esportivo. Desde 1998, orienta individualmente praticantes de atividades físicas e atletas para aperfeiçoar suas capacidades motoras. “Teoricamente, os atletas de alto nível são modelos de saúde, mas mesmo eles sofrem muitas lesões”, diz. “Os atletas não são diferentes da gente.”
De volta ao Brasil, em 2005, o especialista começou a trocar experiências com Marcelo, formado em Fisioterapia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), na época cursando uma especialização em Reeducação Postural e no Estudo do Movimento.
Juntos começaram a estudar a interferência das aplicações de força, tendo como base pessoas comuns e atletas com patologias de origem músculoesquelética. “Obtivemos uma série de resultados nesse conceito de observação da força e de como ela é conduzida no corpo”, garante Marcelo.
A seguir trechos do bate-papo no qual falam sobre a ação da força no movimento humano.
Corpo achatado
O corpo está sujeito à constante ação de forças. A anatomia dele é organizada em relação à gravidade da Terra. E também em relação ao solo. Assim, quando nos apoiamos no solo, obtemos uma força que acelera o corpo em relação à massa da Terra. Desde que nascemos, estamos sob influência da força gravitacional, que achata o nosso corpo. Por isso, no processo evolutivo do homem, buscou-se uma elevação do esqueleto, da coluna e da cabeça. Saímos de uma posição quadrúpede – na qual eram utilizados os quatro membros para o deslocamento e apoio – para uma posição bípede.
Se eu ficar parado, portanto, o peso da minha cabeça vai achatar o tórax, que vai achatar a bacia e também as pernas. O achatamento vai ocorrer, sobretudo, conforme a qualidade do movimento da pessoa. E essa qualidade de movimento vai reagir ou não ao achatamento.
Temos de aceitar, no entanto, a complexidade de estar sobre dois pés. A retirada das mãos do solo possibilitou todo o desenvolvimento da parte cerebral, isso é um fato. Não dá para dizer que não estamos preparados para sermos bípedes. Mas não passamos por um processo de aprendizado para estarmos na posição em pé. E os estudos sobre o assunto são recentes. A faculdade de educação física, por exemplo, tem 35 anos. É tudo muito novo.
Músculo e esqueleto
A reação ao fluxo de forças é a base do nosso trabalho. Por meio da força dinâmica do corpo, busca-se compreender a interferência no gesto motor que nos envolve no dia a dia – mesmo para quem não pratica esporte. Ou seja, a questão é saber qual a incidência de força no gesto motor. Quanto nos sujeitamos a ela durante um dia ou no decorrer da vida.
E qual a qualidade de força a que está submetido o corpo. A partir daí, buscamos otimizar o fluxo de forças com o corpo parado e durante o movimento – de forma a preservar e respeitar os limites das estruturas do sistema músculoesquelético, pois a articulação tem uma capacidade limitada de realizar trabalho. Caso a força seja exagerada num gesto ou se repetirmos um gesto em que a força é sempre conduzida no mesmo ponto, podem surgir problemas.
Uma das adaptações é o aumento da massa óssea. No entanto, ela pode ser boa ou má com o tempo. O maior exemplo disso é o joanete, que representa um osso adaptado no pé por causa da incidência e do excesso de força constante ali. A pessoa se equilibra e anda com o peso naquele ponto. As adaptações ósseas podem surgir também em outras partes do corpo, como joelho, bacia e coluna.
Dessa maneira, quando uma pessoa já tem um processo adaptativo e vai trabalhar a força – na musculação, na aula de ginástica ou na ioga, por exemplo –, tem de haver critério para saber a qual força ela estará submetida. E qual a qualidade da força a ser utilizada naquele corpo.
Pressão nos ossos
Existe ainda interferência do corpo na manutenção da postura. Se deslocarmos o tórax para trás, por exemplo, precisaremos manter o equilíbrio para frente. Quem faz essa função é o pescoço e a cabeça, provocando um peso avassalador que desloca todo o tórax para baixo e forma a cifose [convexidade anormal da coluna]. A postura não é a causa, mas a ?consequência da passagem de força no corpo. Estamos vivendo três a quatro vezes mais do que vivíamos há 200 anos. Isso representa muita diferença a todos, pois a extensão da aplicação da força e da gravidade no corpo é maior.
Outro fator interessante é a adaptação óssea na terceira idade. O movimento do idoso baseia-se mais em apoio do que em propulsão. E a incidência do impacto no apoio desfavorece a formação das trabéculas [células dentro do osso que se cruzam, como uma espécie de teia], causando deformação na forma óssea. A qualidade da aplicação de força modifica a estrutura interna do osso e favorece o aparecimento da osteoporose ?[doença causada pela diminuição de massa óssea que atinge os ?ossos]. Isto é, a perda da capacidade de propulsão cria uma deformidade nos ossos.
Deve-se gastar energia de uma maneira saudável, pois o corpo sempre busca economias. A economia no indivíduo sedentário leva ao desuso da massa muscular na sustentação dos ossos, que acabam sendo sustentados por um excesso de pressão nas articulações. O peso é posto nos ligamentos e nos extremos dos ossos porque os músculos são desativados. Essa perda acentuada da massa muscular ocorre a partir dos quarenta anos, enquanto os hormônios caem.
Ficar forte
O aumento de massa muscular, porém, não garante melhor aplicação de força. Um corpo forte depende da organização corporal, que tenha uma correta distribuição das forças aplicadas e recebidas. É o conjunto de ações que garante essa qualidade.
A aplicação de força começa no sistema nervoso central. Sai dos nervos, passa pela medula espinhal até chegar às partes periféricas – os músculos. Consideramos esse funcionamento de integração dos sistemas nervoso e musculoesquelético como a boa aplicação.
A correta aplicação de força durante a repetição de movimentos desenvolve posturas mais adequadas a lidar com a gravidade e com o solo. Já a má organização motora no dia a dia e na prática esportiva cria tensão, desconforto, lesões, dor e provoca deformidades no corpo.
Sem uma boa resultante de forças, corremos risco de sentir desconforto e dor durante o aumento da intensidade de trabalho ou do treino. Porém, a partir do momento em que se compreendem as forças a que esse corpo está submetido, as lesões podem ser prevenidas.
É preciso analisar sempre a aplicação de força nesse corpo, e não só a qualidade do músculo nem o desenvolvimento muscular a ser trabalhado. O exercício tem de trabalhar a manutenção da postura e do equilíbrio. Se conseguirmos melhorar as transmissões de força parado em pé e em um padrão de marcha, desenvolveremos um corpo mais forte.
Os especialistas Alexandre Blass e Marcelo Semiatzh estiveram presentes na reunião do Conselho Editorial ?da Revista E em 19 de fevereiro