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Musicalização Infantil

Entre instrumentos, músicas e atividades lúdicas, crianças e adolescentes desenvolvem aptidões e tornam-se receptivos às mais diversas melodias
Cinco anos, apenas. Era a idade de Johann Chrysostom Wolfgang Amadeus Mozart (1756 - 1791) quando começou a compor. O talento precoce do compositor, pianista e violinista austríaco fez dele um dos maiores nomes da música clássica de todos os tempos. Mas fatores socioculturais também contribuíram para o desenvolvimento do gênio. Mozart – como seria aclamado – nasceu em uma família musical. O pai, Leopold, também era músico e pôde estimular o pequeno aprendiz. A genialidade de Amadeus é uma exceção, claro. No entanto, os benefícios do contato com a educação musical na infância são notados em crianças e adolescentes, em vários aspectos da vida.
Justamente por isso é importante que instituições utilizem a musicalização como método de educação humana e técnica. “A música socializa e ajuda no desenvolvimento motor, na percepção sonora e espacial. E cumpre ainda uma função social de comunicar-se e levar cultura a outras pessoas”, aponta a professora do curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Ilza Zenker Leme Joly.
Essa necessidade levou à sanção da Lei nº 11.769, que prevê a obrigatoriedade da música na grade curricular das escolas brasileiras (as instituições de ensino têm até três anos, a partir da publicação da Lei, em 18 de agosto de 2008, para se adequarem). “É maravilhoso que se tenha direito de estudar e conhecer música”, avalia Ilza. “Há muito a fazer, mas já foi um avanço.”
Sala mágica
Desde 2001, o programa Descubra a Orquestra na Sala São Paulo – mantido pela Coordenadoria de Programas Educacionais da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) – oferece diversas ações educativo-musicais nesse sentido. Além de capacitar professores da rede estadual, privada e de entidades filantrópicas (fundações, associações, entidades e instituições contemplados por certos tipos de incentivos fiscais), a Osesp organiza gincanas e atividades musicais para alunos de todo o estado.
Pelos programas, milhares de estudantes do ensino fundamental ao ensino médio conhecem a Sala São Paulo, no centro de São Paulo. Durante a visita, eles recebem palestras acerca da história desse patrimônio localizado no prédio da Estação Julio Prestes (construído em 1938) – parte da antiga Estrada de Ferro Sorocabana – e têm contato com o universo da música orquestral. “Só a vinda à Sala já é algo mágico”, diz o maestro Antônio Carlos Neves, que coordena os programas educacionais da Osesp.
A estrutura do local favorece o aprendizado e, assim, os alunos tornam-se receptivos aos gêneros de todo o mundo: da música de Tchaikovsky, à de Ravel, passando por Villa-Lobos e Camargo Guarnieri, entre outros. “As crianças ficam encantadas”, diz o maestro.
O mais fascinante para os alunos, porém, são os espetáculos didáticos. A cada apresentação ministram-se aulas sobre a música executada, a origem dos instrumentos, a posição dos instrumentistas na orquestra e outras curiosidades. “Trabalhamos com transferência de conhecimento. Fazemos relações e analogias para as crianças se sentirem à vontade ao ouvir música”, explica o coordenador.
Para tanto, a Osesp aposta no lúdico, oferecendo aos participantes dos programas educacionais cadernos didáticos ilustrados da Turma da Mônica e Turma da Mônica Jovem. “Os personagens dos quadrinhos têm a linguagem da garotada e a aproximam dos temas abordados na Sala São Paulo”, garante o maestro.
Outro programa de muito interesse, a Osesp Itinerante – correalizado pelo Sesc São Paulo –, promove apresentações em diversas cidades, em grande parte em unidades do Sesc, e permite que jovens e adultos apreciem uma programação de espetáculos musicais – com início em março e término em dezembro (veja programação no Em Cartaz).
“Há três anos somos parceiros da osesp Itinerante”, comenta o assistente técnico para a área musical da Gerência da Ação Cultural (Geac), Sérgio Pinto. “As oficinas desenvolvidas neste projeto são voltados para alunos mais avançados, mas seus concertos tem o papel de despertar no público leigo um interesse pela música.”
Silêncio e som
Desenvolver o ser humano por intermédio da música também é a missão da Teca Oficina de Música. Há 25 anos, a instituição mantida por Maria Teresa Alencar de Brito, a Teca, atende aos alunos com base nas ideias de Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005) – compositor alemão, naturalizado brasileiro, que se dedicou à educação musical.
No Primeiras Notas, do Sesc Santos, o repertório musical é enriquecido durante as atividades
Na escola, situada no bairro de Pinheiros, os alunos passam por diversas atividades a partir dos três anos de idade. A etapa inicial consiste em ouvir e aprender a fazer música em grupo. “O importante nesta fase é a socialização”, alerta Teca.
Sem informações técnicas, as crianças exploram o pandeiro, o reco-reco e o piano como se tirassem dos instrumentos verdadeiras obras-primas. O tecnicismo está em segundo plano na Oficina. “Não impomos regras. Os alunos lidam com o tempo deles e fazem espontaneamente o jogo de relação entre o silêncio e o som”, informa a educadora.
Teca explica que a qualidade musical do aluno, além da preferência por determinado instrumento, surge naturalmente com o tempo. Mas “antes de a cabeça ir mais longe que as mãos”, a capacidade humana é exercitada musicalmente. “A música trabalha o corpo e a mente ao mesmo tempo”, destaca a musicista. “Com ela, existe o gesto do tocar, do fazer, do escutar, do pensar, do relacionar, da intuição, da percepção, da memória e da expressão.”
Tanta dedicação da Oficina de Música só poderia render frutos, como o livro e CD Quantas Músicas Tem a Música? – Ou Algo Estranho no Museu! (Peirópolis, 2009). A obra foi lançada no Sesc Pinheiros e mostra o resultado criativo dos alunos, que apresentam diversas sonoridades e gêneros musicais.
Letras e notas
Quanto mais cedo a educação musical começar, melhor será a percepção de mundo da criança. Por isso, garantir acesso a esta arte tem sido um esforço do Sesc Santos. A unidade mantém dois projetos interligados: Primeiras Notas e Musicando. Destinados a alunos de 6 a 17 anos, eles buscam sensibilizar os indivíduos para a música.
Um dos focos dos programas está em ajudar no desenvolvimento rítmico. O canto coral, os jogos de improvisação e a percussão auxiliam nesta formação.
“Assim como aprendemos as letras e com elas formamos a linguagem, com a música também aprendemos as notas – que viram o som, formam melodias, harmonias e os ritmos”, teoriza a Instrutora de Atividades da unidade Renata Cabral Silva. “Durante esse processo de criar e fazer música, a capacidade cognitiva se desenvolve significativamente.”
Para Sérgio Pinto, a prioridade com o trabalho de musicalização é estimular?as aptidões musicais da criança. “Instrumentalizamos o aluno, enriquecendo seu repertório musical e ensinando a técnica básica de um instrumento”, enfatiza o músico e produtor. “O mais importante, porém, é conduzi-lo a um desenvolvimento pessoal harmonioso e estimular a percepção auditiva, a coordenação motora e sua afinação vocal.”
Outra proposta nessa linha é realizada pela Santa Marcelina Organização Social de Cultura, que mantém dois programas paralelos: o Guri e a Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp) – Tom Jobim. Ambos oferecem alternativas de capacitação para crianças e adultos pela música. “Não tornamos todo aluno um profissional. Mas oferecemos possibilidade para sê-lo, ao mesmo tempo em que se desenvolve”, esclarece o diretor dos programas da instituição, Paulo Zuben.
Ao todo, o Guri atende a 7 mil alunos em parceria com os CEUs (Centros Educacionais Unificados) na região metropolitana e no interior, e mais 1.800 estudantes frequentam a Escola Tom Jobim, ambos com acesso gratuito. Segundo Zuben, os matriculados recebem aulas de canto, alfabetização musical, participam de atividades com instrumentos e estudam leitura e teoria musical. “É uma vivência na prática que exige várias aptidões. Por isso, naturalmente, a criança se aperfeiçoa”, completa.
Eu, instrumento
Atividades de iniciação musical do Sesc aliam conhecimento teórico e prático
No CEM, as crianças aprendem a técnica aliada à iniciação prática
No Centro Experimental de Música (CEM) do Sesc, as atividades têm sido constantes e disponibilizam uma iniciação musical.
Por meio do Centro das unidades Consolação e Vila Mariana, alunos de 7 a 12 anos são orientados pela pedagogia do alemão e musicista Carl Orff (1895-1982), cujo aprendizado mostra que a música está neles próprios. E não apenas nos instrumentos. “Por isso, o coral é uma das estratégias para educá-los”, lembra a Instrutora de Música Vocal Sheila Souza, da unidade Consolação. “A voz é um instrumento natural do corpo. Com ela, alunos têm parâmetros musicais e interagem socialmente.”
Os conceitos do CEM são transmitidos pelos cursos de voz, cordas, metais, madeiras, percussão (foto), bateria, teoria e rítmica. Aliado a isso, o Sesc Consolação, por exemplo, dispõe ainda do Instrumental Orff – inspirado no educador alemão. Munido de instrumentos de metais e madeiras, como xilofones e metalofones.
Já os instrumentos de orquestra adaptada reforçam o aprendizado.
Com eles, crianças fazem experimentos no violino, violoncelo e em um set completo de instrumentos em miniaturas. “O CEM baseia-se no ensino coletivo onde os alunos aprendem a técnica aliada à iniciação teórica e prática”, comenta Sérgio Pinto, da Gerência da Ação Cultural (Geac).
As atividades desembocaram na criação do manual Canto, Canção, Cantoria, editado pelo Sesc. O material – concebido outrora para auxiliar os cursos Como Montar um Coral Infantil, Compondo para Coral Infantil e Coral Infantil – é direcionado a pessoas que querem trabalhar com esse tipo de grupo e necessitam de uma orientação. “A carência de material dessa natureza no mercado fez com que as suas edições se esgotassem rapidamente”, lembra a Instrutora de Voz e Coral do Sesc Vila Mariana, Gisele Cruz, que escreveu o material. “Em função dessa demanda, ele deve ser reeditado”. ::