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Dinâmica de trabalho
 
Professora Titular e chefe do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia, e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Selma Lancman sempre se interessou pelas relações entre saúde coletiva e saúde mental. Tanto que se aprofundou na área e focou a loucura como objeto de estudo. Isso antes mesmo de a questão se tornar uma política pública no país. “Era a época em que o movimento pelo fim dos hospitais psiquiátricos [oficialmente conhecido no final dos anos de 1970 como luta antimanicomial] estava chegando ao Brasil”, lembrou durante encontro organizado pelo Conselho Editorial da Revista E.

Depois de anos de pesquisa e da conclusão do doutorado, a professora resolveu dedicar-se a uma nova temática. “Em 1995, estava um pouco cansada do assunto ‘loucos e hospitais psiquiátricos’”, desabafa. “Comecei a me interessar pelas relações entre dois temas: saúde mental e trabalho.” Desde então, somam-se 15 anos de dedicação, além de um pós-doutorado na França e outro no Canadá sobre o assunto. “Estudo situações de trabalho que possam envolver a saúde mental do trabalhador”, sintetizou.Na conversa, a especialista falou também sobre as pesquisas no campo da saúde mental do trabalhador e as patologias relacionadas ao trabalho. A seguir, trechos.

selma
A terapeuta ocupacional Selma Lancman esteve presente
na reunião do Conselho Editorial da Revista E
em 14 de janeiro de 2010.

Ponto de partida
O foco de minha pesquisa não são as doenças mentais e o trabalho. Minha principal linha de pesquisa são as situações?de trabalho e o impacto delas na saúde mental dos trabalhadores. Organizei um livro sobre o tema, cujo título é Da Psicopatologia à Psicodinâmica do Trabalho [Fiocruz, 2008], em parceria com o professor Laerte Sznelwar, do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. A obra foi escrita por Christophe Dejours, o principal autor na área. Ele criou a teoria chamada psicodinâmica do trabalho. A ideia central é criar um espaço público de discussão com os trabalhadores. E, a partir daí, entender como se dá a relação entre trabalho e saúde mental e desencadear ações transformadoras das situações de trabalho.

O grupo de pesquisa de que faço parte em São Paulo é vinculado ao Laboratoire de Psychologie du Travail et D´Action do Conservatoire National des Arts et Metiers na França. Há outra equipe vinculada ao Institut de Psychodynamique du Travail du Québec, no Canadá, também voltado a essa área. Nesse momento, estamos trabalhando na consolidação da Associação Internacional de Psicopatologia e Psicodinâmica do Trabalho. Também estamos organizando, para abril, o primeiro congresso internacional de psicodinâmica do trabalho a ser realizado fora da França. Esse encontro será em São Paulo, o que é um fato inédito.


Relações identificadas

Há quatro ou cinco anos, fizemos uma pesquisa com funcionários da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), inicialmente voltada para o desgaste psíquico dos trabalhadores. Quando começamos, percebemos que os trabalhadores ficavam expostos à violência no trabalho. Exerciam sua atividade em regiões de risco, como a da Santa Ifigênia [Centro de São Paulo]. E entravam em atrito com os usuários da zona azul e com outras pessoas, ?como os camelôs, que usavam indevidamente os cartões de estacionamento. Quando o usuário era surpreendido com uma multa, muitas vezes ele agredia verbal ou mesmo fisicamente os trabalhadores. Quando agredidos, os funcionários tendiam a ser responsabilizados pela empresa e pelos próprios colegas. A agressão sofrida era entendida como inabilidade em lidar com as situações de conflito.

Em outra pesquisa, financiada pelo Ministério da Saúde, estudamos o processo de trabalho dos agentes comunitários – da equipe do programa Saúde da Família. O fato de ficarem diariamente em locais onde o contato com a violência, a miséria e a penúria era permanente gerava impacto na saúde mental desses trabalhadores. Essas questões fizeram surgir, no ano passado, a ideia de estudar o impacto da violência entre trabalhadores na linha de frente de serviços que lidam com a violência. Fizemos essa pesquisa no pronto-socorro do Hospital das Clínicas. Encontramos situações de conflito verbal e agressões que nem sempre eram caracterizadas na dinâmica do pronto-socorro como situações de violência no trabalho.



Tempos modernos

Nas décadas de 1950, 1960, começou um movimento na França intitulado psicopatologia do trabalho. Tentava-se fazer inicialmente uma relação de causa e efeito: determinadas características do processo de trabalho gerando determinadas consequências na saúde mental dos trabalhadores. Essa proposta seguia o modelo da saúde ocupacional, que partia de parâmetros objetivos, como aumento de casos de perda auditiva relacionados ao barulho em ambientes de trabalho, detectável em testes admissionais e periódicos.

Na área da saúde mental, partiu-se do mesmo raciocínio. No entanto, as particularidades dos transtornos e do sofrimento psíquicos tornam o nexo causal mais complexo. Por exemplo, é muito difícil caracterizar o início e o fim das doenças mentais por meio de exames objetivos. A outra questão é qual é o limite entre as psicopatologias ligadas ao trabalho e o sofrimento acentuado de trabalhadores. Outro dificultador é que um mesmo constrangimento no trabalho provoca diferentes ?reações nos trabalhadores a depender de características e história pessoais.

Em geral, os transtornos psíquicos relacionados ao trabalho não se referem aos chamados transtornos mentais severos e persistentes, como as psicoses e esquizofrenias. Trata-se de transtornos leves e moderados, com destaque para a depressão e estresse pós-traumático.



Perfil de trabalhador

Atualmente, os transtornos psíquicos são a terceira causa de afastamento do trabalho entre segurados do INSS [Instituto Nacional do Seguro Social]. A primeira é o LER/Dort [siglas para Lesões por Esforços Repetitivos e Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho], a segunda são as causas externas, que incluem acidentes de trabalho, intoxicações e outras lesões.

Outro ponto, quando se fala em saúde mental, é a hiperatividade no trabalho, ocasionada pelas exigências da profissão. Para alguns trabalhadores não há muita opção. Mas nem todo mundo tem o perfil para colocar terno e gravata e passar dez horas dentro de um escritório. No entanto, considero o trabalho um constituidor psíquico para o indivíduo adulto. Ou seja, pelo trabalho, o indivíduo desenvolve a inteligência e a identidade, por exemplo.

O problema é que com o fim da estabilidade no emprego e da linearidade das carreiras, que eram um estabilizador psíquico, a realidade dos trabalhadores está mudando. Hoje, a flexibilidade é constante. Assim como um computador, amanhã o profissional já está ultrapassado. Isso cria uma instabilidade psíquica. Talvez os mais jovens já estejam em formação ou mais preparados para entrar no trabalho de acordo com essa nova configuração. Para as gerações mais antigas, porém, isso gera outro impacto.



“Hoje, a flexibilidade é constante. Assim como um computador, amanhã o profissional já está ultrapassado. Isso cria uma instabilidade psíquica”