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Espaço de suspensão

O diretor Antônio Araújo fala do surgimento do Teatro da Vertigem e da tensão ocasionada pela escolha de lugares inusitados para as apresentações do grupo


Quando chegou a São Paulo, em 1981, o mineiro Antônio Carlos de Araújo Silva apenas “brincava” de teatro. Os primeiros passos a sério ocorreram ao fazer cursos, como os de mímica. O estudo, do qual participou na época, era oferecido pelo Sesc Pompeia e conduzido pela professora Denise Stoklos – dramaturga, encenadora e atriz. “Antes disso, não tinha coragem de me lançar ao teatro”, disse o diretor do Teatro da Vertigem, à reportagem da Revista E. “Mesmo quando fazia a faculdade não tinha certeza do que pretendia nessa área.”

Após se formar em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Antônio Araújo – como viria a ser conhecido – não tinha mais dúvida: queria mesmo ser diretor. Em 1992, com amigos e ex-alunos advindos da ECA, formaria o Teatro da Vertigem – criado com base nas experimentações da Mecânica Clássica [análise do movimento, das variações de energia e das forças].

antonio araujo
O Paraíso Perdido foi inaugural para
o grupo, diz o diretor

Desde o surgimento, a companhia tem realizado trabalhos significativos. Destaca-se a famosa Trilogia Bíblica, que compreende Paraíso Perdido (1992),  Livro de Jó (1995) e Apocalipse 1,11 (2000), cujas apresentações foram feitas em locais nada convencionais: igrejas, hospitais e presídio. A estreia de Paraíso Perdido, por exemplo, realizada no interior da Igreja de Santa Ifigênia, centro de São Paulo, suscitou a oposição de religiosos conservadores. “A experiência foi marcante ao grupo”, contou Araújo. Há quase duas décadas como diretor do grupo, Antônio fala desse e de outros fatos importantes que marcaram a história do Vertigem. A seguir, trechos do depoimento.

Planos e incertezas

Comecei no teatro muito cedo e por brincadeira. Venho de uma cidade muita pequena [Araguari-MG]. Não tinha curso de teatro lá. E, por isso, só comecei a fazer teatro de verdade aos 15 anos, em São Paulo. Um dos meus primeiros cursos, aliás, foi o de mímica no Sesc Pompeia, com a Denise Stoklos. Participei ainda de outros cursos livres, como dança, também lecionado no Sesc. E foi durante esse período que criei coragem de prestar uma faculdade de teatro, que estava em segundo plano, embora já tivesse o interesse. Fui cursar a ECA, em 1984, mas não tinha certeza do que ia fazer entre as opções: ator, diretor, professor, dramaturgo, crítico ou cenógrafo.

Em seis anos, concluí duas habilitações em Teatro: Teoria e Direção. No final do curso de Teoria, por exemplo, tive aula com o dramaturgo José Abreu, com quem trabalhei. Fazia muitas coisas na área, mas não sabia ainda o que me chamava atenção no teatro.

A primeira direção que fiz não chegou a me dar estalo. Não disse: “É isso!”.

Gostava de estudar e também de atuar porque as experiências com o Abreu foram superbacanas. Mas tem coisa que a gente gosta e não tem um quê. A virada para mim ocorreu na minha segunda direção – ainda como estudante –, chamada de Oberösterreich [Áustria do Norte], de Franz Xaver Kroetz. Quando terminou a montagem, decidi que direção seria minha escolha. A decisão também teve a ver com maturidade, já que a questão da direção se tornou evidente. E comecei a investir nisso. Concluí meu curso de direção e mantive minhas energias e foco nessa área.

Teatro e mecânica

Quando saí da faculdade, questionava como seria minha carreira de diretor. O vislumbre do futuro me trouxe uma crise. Ela serviu de estímulo a convidar algumas pessoas conhecidas da faculdade para fazer um grupo de estudos sobre teatro. Dessa forma, o Vertigem surgiu como um grupo de estudo e não como um de teatro. A gente estudava, por exemplo, o movimento expressivo do ator a partir de elementos da mecânica clássica. Estudávamos quatro ou cinco horas por dia, líamos um material de física nada fácil. E depois a gente praticava e tentava colocar aquilo tudo no corpo. Isso nos despertou a vontade de desenvolver um trabalho. Nesse grupo inicial, estavam Daniela Nefussi, Johana Albuquerque, Lúcia Romano e Vanderlei Bernardino. O Sergio Carvalho [atual diretor do grupo Latão], que cursava pós-graduação em Teoria, também estava presente. Ele coordenava a parte teórica dos estudos e, posteriormente, a dramaturgia.

Trabalhar de forma autônoma e compartilhada sempre foi a gênese da companhia. Acho, inclusive, que a divisão mais coletiva do trabalho passa hoje por um elemento importante da cena contemporânea no mundo.

Templo sagrado

Além da física clássica, a questão acerca do sagrado – fé, ateísmo, religião, Deus e diabo – no mundo contemporâneo se tornou interesse unânime do grupo. É curioso que, após seis meses, esse tema de trabalho substituiu naturalmente o da física de Newton [Isaac Newton, 1643-1727, cientista inglês]. A partir daí, decidimos fazer uma peça. Não existia ainda o Teatro da Vertigem. Tínhamos apenas a vontade de organizar elementos e montar um espetáculo.

Num estágio avançado de estudos, chegamos a um questionamento sobre a perda da dimensão do sagrado na contemporaneidade. A questão ia dos fundamentalistas até as religiões que matavam o próprio sentimento de sagrado. E, num movimento contrário, falávamos dessa perda da natureza divina e ao mesmo tempo convidávamos o público a um lugar sagrado. Para tanto, procuramos um templo que pudesse receber o espetáculo. Fomos a diversas instituições religiosas e nenhuma concordou com a ideia.

Mas, por intermédio de Dom Paulo Evaristo Arns [arcebispo emérito de São Paulo], o grupo conseguiu um aval para se apresentar dentro de uma igreja católica. O arcebispo escreveu uma carta à Cúria Metropolitana de São Paulo [órgão administrativo da igreja] nos autorizando. O local do espetáculo foi a igreja da Santa Ifigênia, onde o padre Paulo Homero Gozzi nos recebeu muito bem. A duas semanas do espetáculo, o grupo mal tinha nome – chamava Grupo de Estudo da Física Clássica. Não podíamos estrear com um nome desses. Por isso, fizemos uma votação para definir outro melhor. A Luciene Guedes [atriz] trouxe o nome Vertigem, que recebeu mais votos.

Interferência na cidade

O Paraíso Perdido foi inaugural para o grupo. Ocorreu por meio de um processo colaborativo. Antes de apresentá-lo na igreja, fizemos uma prévia ao padre Paulo Homero. Ele gostou porque se tratava de uma peça cheia de poesia, lírica e sem nada ofensivo ou provocativo à fé.

Dois dias depois do espetáculo, porém, recebemos telefonemas, cartas anônimas de pessoas contra a peça na igreja. Na estreia teve um grupo de fanáticos religiosos que entrou no templo e impediu o espetáculo. Isso só foi piorando. Os bispos cogitaram cancelar a apresentação, enquanto a classe artística e intelectual se mobilizava para reverter tal situação. Conseguimos autorização para continuar a encenar após fazermos uma apresentação à Cúria, na qual estiveram presentes bispos, padres, freiras e teólogos. O fanatismo religioso fez nos sentirmos na Idade Média. Mas ninguém imaginou que teria tamanha repercussão e reação. Essa experiência, no entanto, causou uma discussão importante: qual o lugar do teatro na cidade de São Paulo? Isso virou uma questão debatida na mídia, pela qual as pessoas se pronunciavam contra ou a favor.

Essa situação marcou o grupo a ponto de os próximos trabalhos serem no hospital, no presídio, no Rio Tietê. A gente cobriu esse diálogo – o teatro dentro da cidade e a interferência dele na cidade –, pelo qual passamos a nos interessar até hoje. Talvez um dia isso mude, porém essa tensão do lugar do teatro na cidade permanece conservada no Teatro da Vertigem.



“Trabalhar de forma autônoma e compartilhada sempre foi a gênese da companhia. Acho, inclusive, que a divisão mais coletiva do trabalho passa hoje por um elemento importante da cena contemporânea no mundo”