Sesc SP

Matérias da edição

Postado em

Entrevista

“Acredito no caráter formativo da arte. E gostaria que a arte
literária continuasse preocupada com isso, preocupada em,
digamos, melhorar o leitor”

Walnice Nogueira Galvão

A professora fala sobre a importância de autores como Guimarães Rosa e Euclides da Cunha, analisa os rumos da literatura contemporânea e defende mais espaço para a crítica


Professora titular de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP), Walnice Nogueira Galvão é uma das críticas literárias de maior expressão em atividade no país. Especialista na obra de João Guimarães Rosa, ela discorreu em entrevista exclusiva à Revista E sobre o clássico do escritor, Grande Sertão: Veredas. Referência na literatura brasileira e lusófona, a obra lançada há mais de meio século foi objeto da tese de doutorado da escritora. Segundo ela, o livro a motivou a desenvolver um trabalho sobre uma de suas personagens: Diadorim, que rendeu o livro A Donzela Guerreira (Senac, 1998). “Diadorim é algo da ordem da neblina, como o autor mesmo diz, sempre misteriosa, enigmática”, explica. O mito também inspirou o novo projeto musical do Grupo Anima – Musica Mundana Humana et Instrumentalis: Donzela Guerreira – Encontro entre Anima e Animus, que será lançado pelo Selo Sesc no dia 11 de março, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação.

Munida de anos de experiência, Walnice não se furta de lançar o olhar crítico a outros bens culturais. Cinema, música, pintura, escultura ou grafite são manifestações sobre as quais é capaz de discorrer com desenvoltura – e a perspicácia que lhe é peculiar. “É o meu interesse pela arte e pela cultura, por tudo quanto é obra cultural”, sentencia. A seguir, trechos da conversa durante a qual a professora falou sobre a personagem inspiradora Diadorim, clássicos da literatura, e os rumos da crítica e da qualidade literária no Brasil e no mundo.

Por que Diadorim, personagem do livro Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, motivou-a a escrever A Donzela Guerreira? Como foi esse processo criativo?
Na verdade, fui levada a fazer esse trabalho porque, no doutorado sobre Guimarães Rosa, fiquei impressionadíssima com Diadorim. Quem lê o livro, logo percebe que não se trata de um personagem de romance realista. Riobaldo e os demais, sim. Mas Diadorim é algo da ordem da neblina, como o autor mesmo diz, sempre misteriosa, enigmática. O leitor não sabe que ela é mulher: sempre vestida de homem, somente no fim, quando morre, é que se descobre sua verdadeira natureza. Essa foi uma das coisas que me instigaram a fazer o trabalho. A outra vertente está ligada à vida real. O livro é dedicado a Iara Iavelberg [1944-1971, militante da luta armada no Brasil durante a ditadura militar], que era minha amiga e era uma donzela guerreira. Iara Iavelberg entrou na clandestinidade, disfarçou-se e foi lutar na guerrilha, onde foi morta. Era uma pessoa extremamente feminina: bonita, vaidosa e apaixonada. Afora ela, tive várias amigas e colegas de faculdade que optaram pela luta armada – afinal, eu era da Maria Antônia [refere-se à faculdade de filosofia da Universidade de São Paulo, USP, que se localizava na rua Maria Antônia, região central de São Paulo, sede do movimento estudantil na época do regime militar]. Mas, de todas, a que mais me impressionou, realmente, foi Iara Iavelberg. Então, houve razões histórico-literárias: o convívio com essas pessoas na vida real e o trabalho com Guimarães Rosa.

No caso de Guimarães Rosa, você diria que o livro seria uma espécie de homenagem medievalesca, algo presente no sertão brasileiro?
São sagas do sertão, e a donzela guerreira é uma delas. Não somente as pessoas do sertão sabem recitar o romance da donzela guerreira, mas os cantadores cantam a personagem. É algo que existe por lá, faz parte do substrato das sagas do sertão, de seu imaginário. E Guimarães Rosa, penso eu, pegou esse gancho.

E sobre esse componente, digamos, da sensualidade, da mulher bonita disfarçada de homem, essa coisa ambígua. Como você lê isso?
Penso que isso enriquece muito o livro porque leva a ambiguidade para dentro daquele universo. Riobaldo é um jagunço macho, como todos eles são – porque ali é um mundo de machos –, que se apaixona por Diadorim. Durante o livro todo, acredita que está apaixonado por outro homem. Riobaldo fica perturbadíssimo e cheio de problemas por causa disso. Ele não sabe que Diadorim é mulher. Guimarães Rosa lida com isso com muita habilidade e torna extremamente complexo tudo que se passa no livro. Riobaldo sabe que é um homem de mulheres, e está apaixonado por um homem. Isso causa uma tremenda confusão, o que é ótimo: enriquece muito o teor da obra.

Quais seriam outras donzelas guerreiras na literatura brasileira?
Há outras, mas a mais desenvolvida é Diadorim. As outras são, digamos assim, mais embrionárias, mesmo em sua obra. Num dos contos de Corpo de Baile (livro de novelas de Guimarães Rosa), há uma personagem chamada Joana Xaviel, que, numa festa do sertão, canta um pedaço do romance da donzela guerreira: e o escritor coloca os versos no livro. Esse é um exemplo dessa presença embrionária. Mas há romances brasileiros em que existe uma espécie de idílio entre uma filha órfã e o pai. Luzia-Homem [romance do escritor brasileiro Domingos Olímpio] é outro caso: ela é uma mulher vestida de homem e que faz trabalho de homem na construção de estradas, carregando pedras na cabeça. Tanto que o apelido dela, e título do romance, é Luzia-Homem. Ela também é uma donzela guerreira.

Destacar esse aspecto do romance de Guimarães Rosa não é comum nos estudos brasileiros, concorda?
Eu inventei a donzela guerreira [risos]. E na medida em que fui procurando outras delas na literatura brasileira, nas literaturas estrangeiras, na história – porque há muitas donzelas guerreiras históricas – ela foi ficando cada vez mais, digamos, real. Hoje todo mundo fala nas donzelas guerreiras. Mas de fato é uma invenção.

No seu trabalho de ensaísta há um componente de criação. Não ficcional, mas algo de criatividade a partir da interpretação e construção de cenários. Isso é um projeto seu como autora de livros?
Acredito que não. Apenas procuro escrever da maneira mais rigorosa possível. Aprendi com Antonio Candido [crítico literário] que é assim que se trabalha, com o maior rigor. Mas na hora de escrever tenho por objetivo a maior clareza possível. Não gosto de esconder o que penso, escrevendo difícil ou nebuloso.

E o aspecto de escritor dentro do seu trabalho, você acredita que ele aparece por conta do cuidado com a linguagem ou pela subjetividade da interpretação de um livro?
A partir de certo ponto pode surgir essa subjetividade, mas inicialmente de jeito nenhum. No meu caso, que escrevo sobre literatura, existe a obrigação de fazer aquilo que o New Criticism [crítica nova, em tradução literal] inglês e o norte-americano chamam de close reading. Isto é, uma leitura cerrada ou “grudada” no texto. Não podemos interpretar sem antes ter passado por esse minucioso crivo filológico [a filologia é uma ciência que estuda uma língua, uma literatura, uma cultura ou uma civilização sob uma visão histórica, a partir de documentos escritos]. Os franceses têm, por exemplo, uma forma mais primária chamada explication de texte. Já os alemães teorizaram sobre o “círculo hermenêutico”, que implica essa preocupação de não desrespeitar o texto. Depois que você tiver se apossado do texto – com muito respeito e cuidado –, aí você pode alçar voos.

Vamos a esse momento, quando se pode alçar voos. Por exemplo, vê-se a presença constante de uma visão poética sobre essa personagem em A Donzela Guerreira. Isso é a visão de ficcionista, não?
O que pode pesar nisso é a minha frequentação dos ficcionistas. Estou acostumada a ler alta literatura e por isso tenho um critério de qualidade. Se leio sempre Guimarães Rosa, Proust etc., vou saber o que é boa escrita, vou ter um parâmetro. Não estou dizendo que escrevo como eles, nem de longe: não escrevo ficção, escrevo ensaio. Mas tenho uma vida inteira de trato com grande literatura, grande romance, grande poesia. Esse trato afina o gosto e deve afinar a pena também [risos].

Você vem de uma escola inaugurada por Antonio Candido, e aprofundou essa escola. Como vê a atual crítica acadêmica?
Observa-se frequentemente que a crítica literária se encastelou na universidade. Mas não foram os universitários que disseram: “Vamos fechar as portas para o resto do mundo”. O que aconteceu foi que as portas do resto do mundo foram sendo progressivamente fechadas para os críticos. A imprensa acabou com o lugar da crítica literária nos jornais e revistas. Foi um processo que levou 30, 40 anos, mas já está concluído. O que temos hoje são press releases [textos enviados aos veículos de imprensa e que divulgam o lançamento de um livro, CD, filme, exposição ou de qualquer outro bem cultural]. Até eu me engano com eles de vez em quando e penso: “Preciso comprar esse livro”. Mas não correspondem à verdade, é pura propaganda. Enfim, a própria evolução do jornalismo foi expulsando a crítica literária de suas páginas para dar espaço à notícia candente, à comunicação imediata. Quando se trabalha com jornais do século 19, como eu fiz, e que noticiavam a guerra de Canudos, verifica-se que havia seções em francês em todos eles. Era outro mundo, que em 100 anos foi acabando.

 

“Tomara que um dia possamos ler Os Sertões e dizer: ‘Olha como era o Brasil antigamente’. Encaro com otimismo essa possibilidade”



Você diria que desde Clarice Lispector a literatura brasileira não conseguiu mais alcançar o mesmo nível?
Nesse assunto, não entro de jeito nenhum. Mas posso fazer alguns comentários. A evolução da literatura de ficção no mundo todo, nesses últimos 30, 40 anos, fez o valor do entretenimento sobrepujar o valor do conhecimento e o valor estético. A literatura, portanto, deixou de ser instrumento de aprendizagem e de beleza para ficar apenas como diversão, como acontece com o cinema. Só que parece que o cinema já está em recuperação, mas a literatura ainda não. Não é um caso perdido, nunca é. Mas estamos nesse estágio no mundo inteiro.

Mas quando pegamos Clarice vemos que existe um demônio lá dentro, em Guimarães a mesma coisa... Hoje parece que só há beleza.
Beleza é como Clarice e Guimarães Rosa escrevem. Aquilo é valor estético, que evidentemente era colocado em primeiro lugar. Pegue uma lista atual de romances internacionais. Se todos aqueles escritores produzem um livro a cada dois anos, é claro que eles não estão preocupados com qualidade. Não dá. Basta lembrar a lentidão com a qual Guimarães Rosa ou Clarice Lispector trabalhavam. Não dá para fazer obras-primas a cada dois anos. E a vazão atual da literatura é essa: a cada dois anos, um livro. Às vezes até menos. O que escapou foi a poesia, porque não interessa ao mercado. Mas ela é boa porque não se consegue vendê-la, talvez para desgosto dos poetas, que não percebem a sorte que têm.

É por isso que não se tem uma filosofia, uma ética, como no caso dos livros da Clarice ou do Guimarães?
Essas coisas não servem para entretenimento. Acredito no caráter formativo da arte. E gostaria que a arte literária continuasse preocupada com isso, preocupada em, digamos, melhorar o leitor. Não digo escrever para um círculo restrito, porque aí todo mundo é cúmplice. Vivo citando a frase de Oswald de Andrade: “Um dia a massa comerá do biscoito fino que eu fabrico.” Não se deve piorar o biscoito só porque ele vai para a massa. É preciso ter um objetivo formativo para o seu leitor, para o contemplador da sua pintura, para o ouvido da pessoa que ouve a sua música.

Voltando um pouco à questão da crítica... Percebe-se que há a ausência da crítica de um escritor a um colega. Na maior parte das vezes o que se tem são elogios. Essa camaradagem é um traço brasileiro?
É algo mais corporativo do que brasileiro, e também acontece no mundo inteiro. Mas a crítica perde espaço cada vez mais. Onde você vai publicar uma coisa séria? Ninguém quer. Os jornais, aliás, têm diminuído gradativamente a medida para os artigos, e sei disso porque gosto de escrever para jornais e revistas. Há dez anos eram dez mil caracteres, agora está em sete ou então em cinco, quase a metade. E continua diminuindo. Não sei, na verdade, se não acabarão sumindo as poucas oportunidades que existem. Porque toda hora é um suplemento literário que fecha, uma revista literária que sai de circulação.

Você não vê a internet como uma alternativa de espaço?
Sem dúvida, mas é outro tipo de reflexão. A internet não é muito propícia para isso. Talvez haja algumas características do livro que ainda não passaram para a internet, como o fato de poder ler e reler. Não é que você não possa fazer isso na internet, mas não é um hábito. A internet é para passar à frente.

Por conta da velocidade?
Sim. A aceleração de tudo é um fenômeno geral da segunda metade do século 20, e agora do século 21. Acelera a vida e acelera também o tempo da comunicação, da leitura. É só ver como os contos estão cada vez menores, há uns que são pílulas hoje em dia. Os romances também foram diminuindo. Ninguém mais escreve um romance de 600 páginas como Grande Sertão: Veredas. Eu adoro livros grandes, o meu predileto é Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, que tem sete volumes.

Será que a visão de tempo está tão fragmentada que você não consegue se aprofundar nas coisas?
Está fragmentada, sem dúvida, mas está acelerada também. Tudo tem que ser muito rápido. A comunicação agora é instantânea e universal. O mundo inteiro está conectado no mesmo segundo. E a aceleração do tempo traz a diminuição do tamanho da coisa escrita. Até chegar no Twitter [rede social e servidor de microblogs], que é um misto de telegrama e estenografia, pois se escreve com abreviaturas.

E você trabalhou com literatura epistolar... Que eram aquelas coisas cheias de detalhes, que tinha um tempo para chegar até o destino...
Antes disso ainda tinha o rascunho, que depois era passado a limpo, porque era falta de educação mandar um texto borrado ou rasurado. No tempo de Euclides da Cunha existia um caderno especial para isso, chamado borrador, que era um volume grande, de capa preta cartonada e folhas pautadas. E era nele que as pessoas faziam o rascunho das cartas. Depois você passava a limpo para enviá-la, mas ficava com o original no borrador. Porque, caso contrário, como não havia xerox para copiar nem computador para registrar, você mandaria a carta e esqueceria o que tinha escrito. Ficava tudo documentado e não se perdia porque estava preservado no mesmo livrão.

“A comunicação agora é instantânea para o
mundo todo. (...) E a aceleração do tempo
traz a diminuição do tamanho da coisa escrita.
Vai encolhendo, até chegar no Twitter”



Nesse seu trabalho, você aborda a carta como um gênero literário. Quais são as características da literatura epistolar brasileira?
A carta não é diferente no Brasil. Agora, o que nós temos – e outros países podem ter o seu – é o privilégio de ter Mário de Andrade, que escreveu, por baixo, dez mil cartas ao longo da vida. Sendo oito mil as passivas, conforme catalogadas pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). Não é todo país que tem um correspondente literário desse porte: uma pessoa que escreveu dez mil cartas e recebeu oito mil. Isso é uma coisa absolutamente extraordinária.

Isso é um monumento histórico, não?
Sem dúvida. O epistolário nos permite analisar o pensamento da época, a evolução da literatura. Mário era um crítico literário, uma pessoa séria que não enviava cartas para dizer: “Oi, tudo bem?”. Ele analisava os poemas que lhe mandavam, aconselhava, analisava as pinturas, os problemas estéticos que as pessoas lhe submetiam. Parece mentira, mas ele escrevia cartas todas as noites. Por isso, teve um papel extraordinário na evolução da cultura brasileira. Dava uma mão forte para todos os que lhe escreviam. Levava todos a sério. E fora do Brasil temos uma enorme variedade de tons e de relevância: temos Flaubert, que discutia literatura a fundo em sua correspondência, e os 21 volumes das cartas de Proust, marcadas pela frivolidade.

Isso caminha no sentido oposto do Twitter de hoje, não?
É um desastre para quem gosta de cartas e gosta das versões prévias. Como eu, que pesquiso muito o que o escritor escreveu antes de chegar ao texto definitivo. Hoje não há mais versões provisórias. Mas isso deu origem a uma nova ciência: a Crítica Genética – que apareceu quando os escritores deixaram de fazer rascunhos, de produzir versões, por causa do computador. Essa ciência nasceu na França e na Alemanha, e atualmente está disseminada ao redor do planeta. E o estudo das cartas também se desenvolveu enormemente graças à mesma motivação. Quer dizer, quando rascunhos e cartas se obsoletizaram e desapareceram, todo mundo botou a mão na cabeça e percebeu a preciosidade daquilo que estava se perdendo.

Você se disse otimista a respeito da volta da qualidade na literatura. Baseado em que está esse otimismo?
Tudo muda muito na história da literatura. Quem estuda esse universo vê isso. Muda conforme as épocas, os gostos, e é impossível prever que rumo tomará. Não existe uma linha descendente de catástrofes, como pode parecer à primeira vista. Pensar que a literatura está piorando e então vai acabar é absurdo.

Então, o que você acha do que dizem sobre o fim do romance?
O romance é a expressão da sociedade burguesa; enquanto uma não acabar, o outro também não acaba. Não há perigo. Antes da sociedade burguesa não existia o romance, que é uma de suas grandes criações. Os gêneros literários nascem e morrem tanto quanto as formações sociais: são históricos.

Há muitas pessoas se voltando para grandes autores, como Euclides da Cunha. Para o leitor contemporâneo que está em busca de ideias, o que Os Sertões transmite?
Além de ser grande literatura, no sentido de que é algo extremamente bem escrito, transmite também a paixão pela justiça que ele tinha. O maior problema do Brasil ainda é a desigualdade, que finalmente está sendo enfrentada. Reconheço que se tem batalhado contra ela nos últimos anos, mas ainda é nosso maior problema. É disso que Euclides trata. Ele botou o dedo na grande ferida brasileira. Tomara que um dia possamos ler Os Sertões e dizer: “Olha como era o Brasil antigamente”. Encaro com otimismo essa possibilidade.

É possível traçar uma linha entre Euclides da Cunha e Guimarães Rosa?
Claro. Guimarães Rosa leu Euclides. É impossível uma pessoa escrever sobre o sertão sem ter lido Euclides. Mas são dois sertões diferentes. O sertão sobre o qual Euclides escreve, o sertão do Nordeste, da caatinga, não é o sertão mineiro dos campos gerais de Guimarães Rosa. Mas eles se justapõem, por assim dizer.

Por que um livro como Os Sertões, escrito no início do século passado, suscita uma homenagem como a feita pelo peruano Mario Vargas Llosa em A Guerra do Fim do Mundo, escrito em 1981 (a Alfaguara Brasil tem uma edição de 2008)?
Não penso que tenha sido uma homenagem. Ele [Vargas Llosa] pegou Os Sertões, uma obra de arte, um monumento, uma coisa complexíssima, e transformou num best-seller, tirando toda essa complexidade, tornando uma coisa banal, e vendeu montanhas. O imperdoável é que ele tenha colocado Euclides, enquanto personagem de seu livro, como um jornalista míope e que perde os óculos na guerra. Isso é demais! É fácil proceder a uma análise psicanalítica: penso que ele tinha tanta inveja de Os Sertões que diminuiu o autor, tornando-o simbolicamente um míope sem óculos.

Você tem escrito sobre cinema, música. Uma pensadora como você, vinda da literatura, enxerga esses universos se complementando?
Tudo é cultura. É o meu interesse pela arte e pela cultura, por tudo quanto é obra cultural. Tenho interesse por cinema, pela música popular e erudita, frequento exposições de pintura, escultura, grafite.




“Estou acostumada a ler alta literatura. Então, tenho um critério de qualidade. Se leio sempre Guimarães Rosa, Proust etc., vou saber o que é boa escrita e ter um parâmetro”