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Ficção Inédita
por Daniel Galera
O banheiro do posto de gasolina estava ocupado e ele se encostou na parede para esperar. O colega frentista estava completando o tanque de um Honda Civic prata. Enquanto aguardava sua vez, ficou espiando de canto para ver se não chegava nenhum novo cliente, represando pacientemente o conteúdo da bexiga. A porta do banheiro foi aberta com força e do interior do cubículo encardido saiu uma mulher linda. Tinha cerca de 30 anos, cabelos presos em um rabo-de-cavalo, usava um vestido de verão estampado de flores em tons claros, e olhou rapidamente nos olhos dele ao passar, um instante suficiente para ele notar um resto de lágrimas na cavidade de seus olhos. Entrou no banheiro e nunca mais teria pensado naquela mulher, mas quando levantou a tampa da privada notou um papel amassado boiando entre as paredes de porcelana, com filetes de água ainda escorrendo das bordas do vaso e o barulho da caixa de descarga sendo reabastecida. O papel encharcado deixava transparecer alguma anotação feita com caneta azul. Abriu o zíper, mas permaneceu imóvel por alguns segundos, pensando se devia ou não fazer aquilo. Fez. Enfiou a mão dentro da água e pegou o papel amolecido. Era uma folha pautada de caderno, e nela havia apenas um número de telefone. Não era daquelas letras redondas típicas de mulher, mas ainda assim uma caligrafia feminina, elegante e expansiva. Saiu do banheiro, mas a mulher não estava mais no posto. O colega informou que a moça do vestido estampado era a motorista do Honda Civic, estava sozinha no carro e tinha retornado à avenida havia poucos segundos. Ele esqueceu de mijar e ficou observando o trânsito. Queria ter alcançado a mulher antes de ela ir embora, perguntar a razão do choro, saber se podia ajudar de alguma forma. Concluiu em seguida que a idéia era ridícula. Não dava para simplesmente puxar conversa com uma mulher daquelas. De qualquer maneira, que se dane, ela já foi. Mesmo assim, tomou o cuidado de transcrever o número borrado do papel para o verso de um cartão de uma borracharia que estava em sua carteira. Durante o resto daquele dia, entre o abastecimento de dezenas de tanques e checagens de água e óleo no motor, pensou diversas vezes em ir até o orelhão do posto e discar o número, só por curiosidade. Recuava rapidamente do telefone logo depois de cogitar essa possibilidade, constrangido pela idéia. Voltou para casa no final do turno, à meia-noite. Os pais e a irmã sempre estavam dormindo quando ele chegava em casa, e já estavam sempre na rua cuidando de suas vidas quando ele acordava no meio da manhã. Gostava daquelas horinhas em que tinha a casa só para ele, preparava um macarrão com salsichas ou requentava a janta da noite anterior quando havia restos, olhava uns desenhos na televisão e prestava algumas homenagens a pôsteres de Playboys antigas. Dulce Neves, Vanusa Spindler, Mara Maravilha. Gostava de fotografias de mulheres molhadas ou salpicadas de areia da praia. Mas naquela manhã se sentiu abandonado e triste. Não almoçou e saiu mais cedo de casa para trabalhar. Desceu do ônibus correndo, como se estivesse atrasado para algum encontro, embora ninguém o esperasse no posto. Foi até o orelhão, sacou o cartão da borracharia e discou o número anotado no verso. Depois de oito toques, atenderam. Uma oficina de conserto de gaitas. Perguntaram o que ele queria, ele disse que tinha uma gaita estragada, precisava conserto. Certificou-se de que atendiam no sábado e anotou o endereço. Era na Zona Sul, portanto seria necessário atravessar toda a cidade. Não possuía gaita nenhuma, não tinha nem certeza de saber o que era uma gaita, será que eles consertavam aquelas gaitinhas de boca ou as gaitas grandes, de sanfona, o nome correto talvez fosse acordeão, mas não tinha certeza. Não importava. Se conversasse com o pessoal da oficina, talvez pudesse obter uma informação que ajudasse a encontrar a mulher do Civic. Levantou o mais cedo que pôde no sábado e pegou dois ônibus até a Zona Sul. A manhã era fria e ensolarada. O Rio Guaíba estava crespo e metálico, e o ônibus viajava sem pressa e sem passageiros, somente ele sentado no banco do fundo, na janela direita. O cobrador nunca tinha ouvido falar do nome daquela rua, mas ele seguiu as indicações genéricas que lhe haviam passado por telefone e desceu no trecho final do calçadão de Ipanema. Deu muitas voltas a pé, mas não conseguiu encontrar o endereço. Se aproximou de uma turma de skatistas que saltavam sobre uma rampa de compensado e pediu direções. Ao escutar o nome da rua e o número, um garoto negro disse: “Ah, a clínica? É por ali, segue duas quadras e depois vira à esquerda”. “Não é uma oficina de conserto de gaitas?”, perguntou ele, e todos os garotos riram bastante. Ele também riu. O choro, o papel amassado jogado na privada, o desejo inexplicável de consolar a moça do banheiro. Agora tudo fazia um pouco mais de sentido. Caminhou até o endereço, penetrando em ruas densamente arborizadas. Avistou um lagarto cruzando veloz o calçamento irregular de paralelepípedos e sumindo na vegetação rasteira de um terreno com uma placa de venda da imobiliária. Parou diante de uma casa muito antiga, de arquitetura neoclássica, branca, parcialmente coberta de trepadeiras e cercada de mato alto. Observou através da grade durante alguns minutos, mas não tocou a campainha. O silêncio profundo parecia mais uma evidência de que o conserto realizado no interior daquela casa era proibido. Deu meia-volta e voltou para casa.
Um ano e dois meses depois, no feriado de Dia da Mães, ao enfiar a mangueira na boca do tanque de um Honda Civic prata, reconheceu a mulher do vestido estampado sentada no banco do passageiro. Excitado, deixou a mangueira fazendo seu serviço sozinha e foi buscar uma rosa dentro do balde que o proprietário do posto havia deixado entre as bombas de combustível no início da tarde, instruindo os frentistas a presentear com uma flor todas as clientes que fossem mães. Aproximou-se da janela e disse: “Com licença, senhora, feliz Dia das Mães, a senhora já é mamãe?” A mulher tirou os óculos escuros para olhar para ele. Ela enfiou os dedos embaixo das coxas, abriu um sorriso contido e ficou com a boca entreaberta por um instante. No banco do motorista, um homem de terno, com queixo de bundinha, remexia na carteira com impaciência. Ela disse: “Não, ainda não”. Ele disse: “Tá, mas então aceita a rosa por ser bonita como tu é”. O homem de terno desviou a atenção da carteira para lançar um olhar de desaprovação, mas ele não estava ligando. Estava feliz, sentia-se dono de algo muito especial. Algo que o homem de terno não conhecia. A mulher pegou a rosa e o encarou como se tentasse reconhecê-lo e não conseguisse. Ele lavou os vidros do carro, recebeu o pagamento em dinheiro e observou o Honda Civic cavar seu espaço de volta para dentro do engarrafamento, saboreando a sensação de fechar uma porta secreta do mundo.