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Entrevista
A vencedora do Prêmio Jabuti 2005 de melhor romance fala da companhia da escrita e dos elementos que compõem a ficção de qualidade
Nélida Piñon é jornalista, romancista, contista, professora e aluna atenta da vida. Carioca da Vila Isabel, a autora foi eleita em 27 de julho de 1989 para a cadeira número 30 da Academia Brasileira de Letras (ABL), na sucessão de Aurélio Buarque de Holanda. É a primeira mulher em 100 anos de existência da ABL a integrar a diretoria da entidade e a única a ocupar a presidência da chamada Casa de Machado de Assis, em 1996. Sua estréia na literatura foi com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961, que trata do tema do pecado, do perdão e da relação dos mortais com Deus por meio do diálogo entre a protagonista e seu anjo da guarda. Ao longo de mais de 35 anos de carreira, Nélida – cujo nome é um anagrama do nome do avô, Daniel – vê na capacidade de escrever a chance de se comunicar com vários tempos e lugares. Busca o pensamento universal tendo os pés cravados em suas raízes, que, por sua vez, são muitas: sua família é originária da Galícia (Espanha), a escritora é radicada no Brasil e o mundo a recepciona repetidas vezes para palestras, cursos e prêmios. Somente nos últimos anos, a escritora levou para casa os espanhóis Menéndez Pelayo, em 2003, e Príncipe de Astúrias, em 2005, além do festejado Jabuti de melhor romance por Vozes do Deserto (Record, 2004), também neste ano. Em conversa exclusiva com a Revista E, durante visita a São Paulo, Nélida Pinõn fala de reconhecimento, crítica, processo de criação e da arte de viver e escrever “sem rede de segurança”, como diz.
Você recebeu os prêmios Príncipe de Astúrias, na Espanha, e Jabuti neste ano. O que significam essas premiações para uma escritora como você?
O meu primeiro grande prêmio internacional, que me colocou na lista para reconhecimentos como esses, foi o Juan Rulfo [considerado um dos mais importantes da América Latina e do Caribe], em 1995. Depois disso, ganhei outros. Em 2003 foi o Menéndez Pelayo [concedido pela universidade espanhola de mesmo nome], que é um grande prêmio internacional também, e agora o Jabuti, no Brasil. A sensação que eu tenho é que são anos e anos de não-reconhecimento de uma longa carreira totalmente dedicada à literatura. É como se eu circulasse por grupos pequenos. Comecei a ser publicada no exterior já há muitos anos, mas não iria sair pela rua proclamando a minha biografia. Aqui no Brasil, nos últimos anos, está se percebendo a dimensão de meu trabalho internacional e, portanto, da minha produção. Em 1990 eu ganhei um concurso internacional e, entre 80 profissionais, me tornei catedrática de uma universidade norte-americana [Universidade de Miami]. É um trabalho muito lento, iniciado há muitos anos. Eu me preparei para a obra. Os prêmios são uma conclusão, um reconhecimento da sua existência. Eles enriquecem a sua biografia, ajudam muitíssimo a ganhar visibilidade. Mas creio que seja um reflexo das mulheres na sociedade de um modo geral. Ainda que sejam seres bonitos, há poucas mulheres nos cenários internacionais e nacionais. É como se elas fossem invisíveis. E com os prêmios você é enfocada. As pessoas olham e dizem: “Ela existe, ela tem uma obra”, e se jogam sobre ela.
Você foi a primeira mulher a ser presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL). Esse tipo de inserção é interessante até que ponto para o escritor?
Quando fui instada pelos acadêmicos Jorge Amado e Lígia Fagundes Telles sobre me candidatar à vaga do Aurélio Buarque de Holanda, eu não tinha pretensões em relação à ABL. Era uma hipótese que eu nunca tinha formulado para mim mesma. De repente, instada por eles, eu comecei a pensar que a academia iria me trazer uma coisa muito importante, que eu busco sempre, que é a memória brasileira. Sempre fui uma apaixonada por essa memória brasileira, talvez até pelo fato de ser filha de uma família de imigrantes. Tanto que, quando tomei posse na ABL, no meu discurso, comecei dizendo que sou brasileira recente – porque me acreditava recente no Brasil. E, por ser recente, tinha de acumular, aglutinar e roubar memórias. Quando cheguei de Lisboa e me inscrevi, não perguntei nada a Austregésilo de Athayde, presidente da ABL. Ele soube da minha visita, me chamou e disse assim: “Por que você quer a academia?”. Como se aquilo fosse um absurdo por eu ser uma mulher, na época a mais nova acadêmica, independente, cosmopolita, uma mulher que não tinha família – as outras tinham famílias e filhos. Eu não tinha nada disso, era uma mulher de idéias muito avançadas. Percebi o que significava aquela pergunta e respondi: “Presidente, eu queria dizer ao senhor que gostaria de ser admitida nesta casa. Vim em busca da memória brasileira, pedaços de memórias que me faltam. Se o senhor está pensando que eu vim atrás da glória, o senhor está muito equivocado. Glória, se eu quiser e merecer, eu vou conseguir na rua. As suas paredes não vão me dar”. Ganhei na primeira eleição. Ele ficou tão impressionado que depois dizia: “Você vai desempenhar um papel muito importante nesta casa”.
E como você vivencia o aspecto político de cargos como esse?
O que eu vivencio é a política humana, a política da carreira literária, da brasilidade, de sermos cidadãos. Você não está isento da política. Ela está em torno de você. A política da casa, das amizades. Eu vivo com isso, fui aprendendo, acumulando experiências. Sou uma grande observadora. Acho que a política, da forma que ela se apresenta, faz parte do convívio humano. O ser humano negocia o tempo todo, para ganhar e para perder. E ele faz opções que julga concordantes com a sua ética, e outras que ele julga mais importantes que a ética. Porque ele é um carreirista, disposto a jogar qualquer coisa em prol de seus benefícios pessoais. A vida cobra seleção, opção e definições o tempo todo. Os códigos éticos, de uma moral privada e coletiva, nos quais estamos inseridos, não têm um acabamento final. Você é o ser que vai modelar o seu código.
Você vive na fronteira entre o espanhol e o português na América Latina. Na sua opinião, por que o Brasil é um País tão diferente dos seus vizinhos em alguns aspectos e, em outros, mais arcaicos, eles se identificam tanto?
Você pode se atrever a considerar que temos origens parecidas. Somos produto de uma colonização. Eles, da espanhola; nós, da portuguesa. O espanhol era um colonizador que tinha pretensões duradouras. Já os portugueses eram muito plásticos, de construções frágeis. O português efetuou um processo de miscigenação muito mais intenso e rápido que o espanhol. E falamos línguas diferentes, isto é muito importante. Não se pode esquecer, no entanto, das sanções abertas na Península Ibérica. Por exemplo, Filipe II [rei da Espanha, de 1556 a 1598, e também de Portugal, como Filipe I, de 1580 a 1598] foi dono do Brasil. Só que ele não mexeu na organização portuguesa implantada aqui nem fez nenhum movimento no sentido de implantar o espanhol. O Brasil foi espanhol ao longo de uns 60 anos, tempo em que poderia ter feito algum movimento. Alguns dos primeiros evangelistas do Brasil são espanhóis.
Você acha que essa complexidade aparece na literatura brasileira?
Acho que sim. Todo autor tem seu nível de complexidade, uns mais intensos, outros menos. Uns se conciliam com a realidade de uma forma mais ingênua, outros sabem que ela cobra exegese. E que há ambigüidades no percurso existencial de nossa vida. Nós não sabemos explicar nossa própria história. Então a literatura tem de conviver com essa dificuldade de aprender todas as instâncias do real. O que é uma maravilha, porque a literatura não veio para explicar. Ninguém explica aquilo que não é explicável. A literatura indica sendas e caminhos. Com uma frase só pode-se entender alguma coisa que se custara a interpretar ao longo de anos. Uma frase pode projetar luz no seu entendimento das coisas. É extraordinário. Uma frase é redentora.
Depois das literaturas modernista e regionalista, você consegue identificar alguma coisa que possa unir a literatura brasileira?
Não acredito em fusões estéticas, canônicas. Sobretudo nos países que têm sua autonomia literária, é mais difícil que eles se submetam aos grupos. Hoje há uma realidade no Brasil de escritores sérios, trabalhadores e das mais diversas regiões, vivendo longe do eixo principal São Paulo–Rio de Janeiro. Esse fenômeno vai se acentuar. Hoje se faz a vida na própria cidade. Eu acho que o conceito de regionalismo precisava ser revisitado. Na verdade, regionalismo é uma literatura passada numa região, mas não pautada pelas normas geográficas de uma região. Porque o ser humano é predominante, ele é o epicentro. É imaginar que a tragédia grega é só grega. Ela é grega pela língua, mas o ser trágico da Grécia clássica pode ser transferido para qualquer região do mundo. Daí a perenidade dessa literatura. A história que não pode ser trasladada para um outro ponto geográfico é um texto deficiente, precário. A grande tragédia humana se ajustaria a qualquer água, a qualquer campo. Senão, é como se fosse uma fruta do local. Literatura não é fruta regional.
O que chama a sua atenção em comentários, críticas e interpretações de uma obra sua?
As pessoas, quando analisam hoje a literatura, querem vê-la numa dimensão quase mítica. Tem ou não tem uma dimensão mítica? Uma dimensão narrativa, uma grandeza, uma capacidade de se exceder aos domínios do cotidiano, capacidade de dominar o tempo, de tratar o tempo como um elemento extraordinário, propulsor da própria arte de narrar? Como é que esse livro trabalha com a memória de seu país? A memória de seu país também é reconhecida pela memória de todos os tempos? No meu caso, ninguém até hoje me disse que a minha literatura é exótica. Mas também nunca me disseram que é uma literatura contrária aos grandes ditames estéticos. Somos seres universais. Nós não podemos ser brasileirinhos acanhados. Eu busco interpretar como se forjaram as civilizações humanas, seus grandes percalços, seus sobressaltos cruéis, suas grandes conquistas. Como o homem foi se organizando para poder pensar. Uma coisa que me fascina é a imaginação. Um brasileiro pode ter uma imaginação poderosa, mas, se ele não souber trabalhar isso, ela ficará limitada a uma imaginação folclórica, a uma árvore de 60 metros na Amazônia. É preciso que essa árvore tenha um significado simbólico, que o escritor se aproprie de toda essa dimensão poética da vida, da Terra e do universo. E o que ele vai fazer com todo esse material caótico, que é extraordinário? O caos faz parte de seu legado. Cada vez que você faz uma opção, não é só estética, é uma opção moral com a sua imaginação.
Depois de suas vivências internacionais – dado que costuma passar temporadas fora do Brasil –, suas referências continuam brasileiras na hora em que você escreve?
Qualquer cartografia, de qualquer indivíduo, é aparentemente majoritária, mas na verdade é fragmentada. Nunca se é fiel à mesma cartografia. A linha do meu horizonte é da Lagoa [Rodrigo de Freitas], do Leblon, de Ipanema, mas ela é sempre mutável. A imaginação é sôfrega quanto mais se acumulam os ingredientes que a enriquecem, quanto mais se metaboliza a sua prática. Eu acredito firmemente que as viagens – a real e a simbólica – formam parte da contingência humana. Em nenhum momento me afastei dos meus fundamentos. Sou uma mulher fundacional. Quando me proclamo brasileira, é porque sou essa dupla cultura. Todo brasileiro é um mestiço. E ai daquele que não é. Se ele rejeita isso, ele é uma abstração, falta-lhe carne, as quimeras utópicas deste continente. Em nenhum momento expulsei o que foi essencial acumular. Não sou de expulsar, sou de acumular. Sinto com os anos que sou cada vez mais atrevida. Não tenho medo de enfrentar uma metáfora. Uno pontos divergentes porque sei que posso harmonizá-los numa metáfora contundente. Acho que essa experiência fez de mim uma pessoa mais sensível, mais apta a ter uma mirada camaleônica.
Como é que se encaixa o Vozes do Deserto nesse seu projeto literário?
Sobretudo o que me motivou muito é que sou reflexiva em relação a meu próprio ofício. A arte de inventar e de narrar me interessa infinitamente e me deixa perplexa. Eu acho que o escritor se faz as perguntas “por que escrevo?”, “por que invento?” e “o que me habilita a narrar?” o tempo todo. São perguntas que nos perseguem. Venho me fazendo essas perguntas a vida inteira. Mas houve um momento em que eu queria fazer um romance no qual a imaginação e a fabulação fossem os grandes temas. E que eu não tivesse a proteção dos ensaios, que essa busca se diluísse na própria história e nos personagens. Era o ápice da fabulação. A imaginação é arqueológica, tem tantas capas que você não chega a exauri-la. É um romance que mostra ao leitor o que é pensar de forma imaginativa, o que é fabular a partir do nada, de poucos ingredientes, a partir da precariedade do ser humano. Aí eu tive o atrevimento – e temi que fosse ser um desastre, mas não dei a mínima – de ser a Scherezade, mostrar como é que funciona o coração e a cabeça dela. Tanto que no livro não se escuta a história que ela conta, isso não interessa. Eu quero é saber como é que ela junta os troços e os pedaços e vai armando as histórias para não morrer. Ela sabe que essas histórias pelas quais ela está apaixonada são produtos da oralidade humana.
Você é uma escritora consagrada, mas no Brasil é lida por um pequeno grupo. Qual é o seu sentimento perante esse fato?
Isso está mudando. Foram vendidos uns 70 mil exemplares de República dos Sonhos no Brasil. E A Casa da Paixão teve várias edições. Vozes do Deserto já está na terceira edição. Então fica difícil de explicar. Eu não tenho de explicar isso. Quando aflorei na literatura brasileira, houve uma tendência de dizerem que eu era uma pessoa de elite, hermética. Isso me desagradava muito, mas sempre soube que era uma questão de tempo. E sempre fiz um grande acordo com o tempo. Se vendia menos, e daí? Só me aborreceria se isso me falhasse o ato de criar e eu tivesse mágoas. Não sou mulher de ressentimentos. Sou mulher de lutas e batalhas, de metamorfose, em mim há muitas mariposas e cada uma tem uma veste. Mas eu sempre dominei meu ofício. Aquilo era uma maneira de me incompatibilizar com o público, de me silenciar. O sistema literário não é dos mais justos. O fundamental é que o escritor dê provas de sua consistência literária e que aperfeiçoe as artimanhas de seu ofício. Sei que tenho uma obra e nunca renunciei a ela por conta das dificuldades. Sem falar também que eu sou filha dessa ditadura terrível. Os jovens não têm noção do grave silêncio que pairava sobre os escritores. E, além do mais, eu era mulher. Entre um grande romance de mulher e um de um homem, o homem – na expressão de gênero – vai ler o do homem. Ele ainda não está interessado na estética e no saber da mulher. Os mais jovens agora estão melhorando um pouco, mas os mais velhos não estão nem aí. Isso me prejudicou muito. Eu não era uma autora que fazia uma literatura inocente. Minha literatura não podia ser tratada como uma produção sentimental. Por anos sofri com esse preconceito.
Como funciona esse acordo com o tempo? Como se lida com a vaidade, com a ansiedade, com o próprio ego?
É a sabedoria. Não tenho ansiedade. Você tem de educar o ego – a parte mais mesquinha do ser humano –, polir a alma. Nada de essas dificuldades tolherem minha alegria de viver, a minha paixão pela literatura, a minha vocação para o amor. Eu sempre fui muito amada. O que eu queria, a vida ia me dando. Pôr meus pés na realidade, não me iludir de pensar que ela era simples. Eu tinha de adentrar por ela. Nada me foi negado. Por não estar na lista dos mais vendidos, não deixei de ser amada e de amar. Não deixei de viajar pelo mundo, de rir – também faço parte desse decálogo do ridículo. Fui fazendo essa grande aliança com o tempo. Mas eu tinha certeza de que o meu trabalho era muito sério e de que, além de ser uma mulher risonha, eu era uma mulher muito séria, intelectualmente falando. Eu dizia que se não fosse reconhecida em vida na medida desejada, ou na medida que os livros mereceriam, não tinha a menor importância. O que não quero é renunciar ao prazer de viver e de me humanizar. Sempre fui muito preocupada com minha alma. E não fiz a minha carreira passando por cima de ninguém. Absolutamente. Isso não existe na minha obra, na minha vida. Eu poderia ter ido para o exterior, mas também não quis renunciar ao Brasil.
E como é a questão da idade para você? Como é o seu horizonte, não só em relação à morte, mas ao aproveitamento do tempo útil?
Penso muito nisso tudo. Às vezes, acho que eu estou me excedendo, é muito trabalho. Sempre me prometo que vou cortar certas coisas, mas muitas vezes são coisas muito importantes, como o coroamento da minha carreira. Por exemplo, estes dois últimos meses foram impressionantes, puro coroamento. Mas para o ano que vem eu já recusei muita coisa. Tenho de tomar mais cuidado. Há um material de trabalho enorme na minha casa, mas, ao mesmo tempo, estou me dando cada vez mais certos prazeres, como ir a festivais internacionais de música. Sou uma mulher que amo a minha casa, sou apaixonada pelo mundo da casa, que para mim é um território da liberdade e da fantasia. Já penso muito na morte e tenho de me organizar. Não há um dia em que não pense nisso. Mas também não posso permitir que a idéia da finitude humana que me persegue – como a todos nós – me impeça de pensar, de escrever e de ter projetos. A morte que tome a iniciativa, não sou eu que vou me antecipar. Não vou dar para ela. Penso em minha relação com Deus, que é muito tranqüila. Sempre tive um sentimento religioso e não canônico, institucionalizado. Eu não tenho medo de viver.
Nessa esfera afetiva, o que é esse universo seu, são apenas escritores?
São, sobretudo, as pessoas que eu amo e os grandes amigos. Tenho certos amigos que são da minha alma. Amigo meu não tem de ser grande escritor, de modo algum. Quando eu elejo um amigo é porque aquele amigo aquece meu coração, meu espírito.
As pessoas que escrevem sobre Oswald de Andrade dizem que ele tinha amigos que eram quase mendigos e eles trocavam idéias, ficavam conversando.
Converso muito na rua quando tenho chance. Como apareço muito em televisão, acabo sendo muito apontada na rua. Confesso que conversar com garçons, por exemplo, pode me trazer informações preciosas. Entro num carro e converso com o motorista, quero saber como é o cotidiano dele, gosto de saber de tudo. Só não faço perguntas íntimas – nem gosto que me façam.