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Em Pauta
A princípio, elas parecem antagônicas. De um lado, as novas e sofisticadas tecnologias e seus aparatos incríveis. Do outro, a cultura popular e sua espontaneidade, que brota, tão peculiarmente, em todo canto do mundo. É possível a convivência entre as duas ou é questão de tempo para que as tradições sejam engolidas pela sedutora modernidade? Em artigos exclusivos, o ator Sérgio Mamberti, atual secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, e o escritor e pesquisador de cultura popular Braulio Tavares mostram que, sim, a convivência não só é possível como já existe e gera frutos.
O mel do melhor do futuro - por Sérgio Mamberti
A proteção e a promoção da diversidade dos conteúdos e expressões culturais são elementos estratégicos de construção da ordem democrática e estão entre os deveres básicos dos governos e Estados nacionais. Cada sociedade, grupo social ou indivíduo tem um conjunto de expressões singulares que refletem um modo de viver próprio e um sistema de valores, através dos quais se constroem as diversas identidades. Elas, por sua vez, podem se reconhecer e se respeitar por meio do diálogo e dos intercâmbios.
Ao longo da história, a exclusão dos segmentos populares das políticas públicas de nosso País, bem como a segregação social e racial, têm sido fatores determinantes na desvalorização de sua produção cultural. Daí a urgência na discussão e construção de uma política nacional envolvendo os interessados – sociedade civil e gestores estatais – a partir de um amplo debate por todo o País, que deve levar em conta os contextos locais de decisão. Garantir as condições de criar, difundir e fruir as expressões das culturas populares, bem como o acesso à educação e formação de qualidade que respeite a nossa diversidade cultural, são direitos e elementos fundamentais para um projeto de desenvolvimento nacional.
A partir de uma proposta apresentada pelo Fórum Permanente das Culturas Populares de São Paulo e pelo Fórum das Culturas Populares, Indígenas e Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro, o ministro Gilberto Gil e o secretário-executivo Juca Ferreira e a Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural criaram um grupo de trabalho que atuou na coordenação do I Seminário Nacional de Políticas Públicas para as Culturas Populares, realizado em fevereiro de 2005.
A proteção e a valorização das manifestações tradicionais das nossas culturas populares, assumidas como política de Estado no documento final desse seminário, vêm ao encontro de todos os esforços resultantes das discussões nacionais e internacionais, preconizadas pelos encontros da Unesco desde os anos 80 em prol da diversidade cultural, culminando com uma longa espera e aguardadas aspirações de amplos segmentos que nunca tinham tido acesso às políticas públicas de cultura.
As festividades religiosas, brincadeiras e folguedos que povoam as ruas e as praças de nosso Brasil, através de séculos de preciosa elaboração, vêm enriquecendo e preservando seus valores e características originais, constituindo-se no fértil leito do caudaloso rio da cultura brasileira, em suas múltiplas expressões.
Ao contrário do que se poderia pensar, embora corram o risco de descaracterizar-se diante da avassaladora homogeneização determinada pela lógica de mercado e imposta pela globalização, essas expressões têm mostrado um insuspeitado fôlego de preservação nesse diálogo constante com as inovações tecnológicas da contemporaneidade.
A indústria cultural na área audiovisual e fonográfica, o universo digital na velocidade da internet conectando-se planetariamente e outras tecnologias contribuíram para o surgimento de novas culturas urbanas, em que elas têm papel determinante nas suas identidades, permitindo maior circulação da produção cultural e da informação.
O hip-hop, o rock’n’roll e o reggae nas suas variadas expressões, o próprio cinema e as linguagens televisivas, apesar de ter esse vigor da modernidade, esse caráter multinacional, também se alimentam nas raízes tradicionais para determinar suas especificidades, a partir de cada região deste nosso Brasil continental. As novelas de rádio, oriundas dos folhetins do século 19, influenciam até hoje as telenovelas brasileiras, que se projetam com grande sucesso nacional e internacionalmente.
A simples introdução da guitarra elétrica por Gil e Caetano na música popular brasileira no final dos anos 60 causou uma polêmica que se constituiu em magnífico exemplo dos processos híbridos que determinam essa relação entre cultura e tecnologia. Chegou-se a duvidar dos traços nacionais dessa opção inovadora por tratar-se de recursos musicais alienígenas, resultantes das imposições do mercado fonográfico contra a nossa MPB. O tempo mostrou que esse sincretismo, além de ampliar os horizontes da nossa produção musical, só trouxe benefícios para o processo criativo dos músicos brasileiros.
O movimento Mangue Beat, a rabeca eletrificada de Mestre Salu, o delirante aparato sonoro do Cordel do Fogo Encantado, o talento inusitado de Carlinhos Brown, os terreiros eletrônicos de forró e de pagode, da música sertaneja reafirmam o vigor dessas novas linguagens em constante mutação.
O hip-hop e o funk transcendem a esfera musical e constituem-se em complexas expressões culturais que abrangem a dança de rua, o grafite, solidariedade social, posicionamento político e comportamento, com uma poética desconcertante de qualidade insuspeitada, apesar das polêmicas geradas pela ousadia das propostas.
Na internet, o “bloguês” transformou-se rapidamente em uma linguagem sintética e lacônica, segundo muitos, uma ameaça ao vernáculo. Mas não podemos negar sua originalidade e eficácia na comunicação, principalmente entre os mais jovens.
Como diz o ministro Gilberto Gil, “tem medo da invenção quem não confia na força das brincadeiras brasileiras. Quem acha que só no congelador elas estarão preservadas. Como não tenho medo de ser brasileiro, pois tudo o que eu fizer será sempre brasileiro, confio totalmente na capacidade das culturas populares brasileiras de lidar com o novo, com o desconhecido, com as informações internacionais – e saírem fortalecidas desse contato. Em resumo, novas e velhas tradições, signos locais e globais, linguagens de todos os cantos são bem-vindas ao curto-circuito antropológico. Não nos perderemos por isso. Como escrevi certa vez numa canção, o povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe. Muitas vezes esteve nisso que não se sabe – e não no que está estabelecido e cristalizado – o mel do melhor do futuro”.
Sérgio Mamberti é ator e secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura
Memória oral e novas tecnologias - por Braulio Tavares
A história da cultura popular é muitas vezes a história da improvisação de tecnologias rústicas, ou o reaproveitamento de tecnologias obsoletas, para satisfazer uma necessidade de expressão. Não tendo meios de acesso às tecnologias mais caras, o povo é levado a improvisar, inventar, adaptar.
Um exemplo conhecido é o da rabeca. Artesãos sem grandes recursos técnicos tentaram copiar o violino, e o resultado foi um instrumento diferente, com sonoridade própria, cuja riqueza de timbres começa a ser mais explorada nos últimos anos na música popular brasileira. Há também o caso da viola caipira (do interior do Sudeste e Centro-Oeste) e da viola nordestina, instrumentos para os quais se desenvolveu uma variada família de lutheries artesanais que em muitos casos conseguem, à força de experiências sucessivas, intuição, observação, tentativas e erros, resultados notáveis na fabricação de instrumentos.
Já um exemplo de apropriação de tecnologias obsoletas se dá no caso da literatura de cordel. Até a década de 1890, grupos de poetas nordestinos cultivavam a tradição de compor versos de acordo com os modelos da poesia barroca ibérica (décimas [poema ou estrofe de dez versos], motes [estrofe, anteposta a um poema, contendo o motivo que será desenvolvido pela composição] e glosas [composição poética em que cada estrofe desenvolve a idéia contida em cada verso de um mote] etc.). Esses poemas eram passados adiante através de cópias manuscritas. Por volta de 1895, em Recife, Leandro Gomes de Barros começou a imprimir seus primeiros folhetos poéticos, imitando os folhetos europeus dos séculos 18 e 19, e utilizando para isso máquinas de composição manual (em que o texto é composto pegando-se letra por letra, como se fossem minúsculos carimbos) que começavam a tornar-se obsoletas na indústria gráfica da época. Essas máquinas estavam sendo substituídas pelos modernos linotipos, cujo uso se disseminou rapidamente. As máquinas antigas caíram de preço e ficaram acessíveis aos poetas, tornando possível a impressão de folhetos aos milhares e milhões. Ainda hoje, quando o computador já começa a ser usado para compor e imprimir folhetos, essas máquinas são usadas pelos poetas populares.
No que diz respeito à moderna revolução da tecnologia digital (computador, CD e CD-ROM, internet etc.), enormes possibilidades se colocam para a cultura popular. Um dos aspectos mais interessantes dessas novas tecnologias é a rapidez com que evoluem e se tornam simultaneamente mais cheias de recursos e mais baratas. Ainda estão ao alcance apenas de uma minoria, mas o ritmo com que o seu alcance se amplia é notável. E devemos lembrar que o próprio livro só é acessível a uma pequena parte da população.
A perspectiva mais entusiasmante trazida pelas novas tecnologias digitais com relação à cultura popular é a preservação da memória oral. Grande parte do saber popular é de características tipicamente orais, e há uma perda notável quando se reduz esse saber a um depoimento, um texto, um relato escrito. A gravação audiovisual de hoje é relativamente muito mais acessível do que era décadas atrás, e torna possível a criação de bancos de imagens e vozes que preservem a cultura oral, transportando-a através do tempo e do espaço. A gravação digital é mais barata, e tem equipamento mais simples de manejar do que as câmeras de filmar em celulóide e os pesados gravadores de fitas de rolo que foram o equipamento tradicional dos documentaristas cinematográficos.
Uma objeção possível é que mesmo assim esses equipamentos são caros demais para os cidadãos comuns. A objeção vale se aplicada a indivíduos; mas entidades que trabalham com cultura popular podem muito bem arcar com os custos de uma câmera e de material de gravação e reprodução.
Preservação da memória oral significa muitas coisas. Entrevistas e depoimentos de anciãos, de mestres, de pioneiros. Registro de atividades em processo de desaparecimento: danças, brincadeiras, folguedos, habilidades manuais, rituais religiosos, trabalhos coletivos. Acompanhamento periódico das transformações que acontecem ao longo dos anos num ambiente: uma rua, um bairro, uma fazenda, uma floresta.
Organismos públicos e privados mantêm serviços de preservação da memória coletiva: Museu da Imagem e do Som, Museu da Pessoa etc. Hoje, grande parte das entidades populares tem condições de fazer o mesmo, preservando a memória de uma comunidade específica que provavelmente nunca viria a despertar o interesse dos órgãos oficiais.
Um provérbio africano diz: “Cada ancião que morre é uma biblioteca que se incendeia”. Incêndios assim ocorrem todo dia entre nós. Sem alarde, com pouco ou nenhum registro por parte da imprensa, perdemos o tempo inteiro pessoas com 70 ou 80 anos de idade, pessoas que nasceram num Brasil tão diferente deste nosso que mal conseguimos imaginá-lo. Pessoas com diferentes maneiras de enxergar a vida, com memórias e exemplos de pais e avós que viveram numa época ainda mais inatingível para nós. São compositores de escolas de samba, são artesãos, mães-de-santo, artistas de circo, instrumentistas, poetas, contadores de histórias – repositórios de um saber secular do qual poderiam ter sido salvas pelo menos meia dúzia de horas de imagem, de voz, de lições. Quanto não pagaríamos, hoje, por uma hora de som e imagem com o Cego AderaldoAderaldo [Aderaldo Ferreira de Araújo, 1878-1967, repentista cearense, percorreu o Nordeste e ficou famoso com seus desafios, sendo hoje considerado um dos mais importantes autores da literatura de cordel], com Tia Ciata [Hilária Batista de Almeida, 1854-1924, mãe-de-santo, quituteira, e festeira baiana que viveu no Rio de Janeiro, contemporânea de Donga e Pixinguinha, famosa na comunidade negra carioca pelo apoio que deu ao choro e principalmente ao samba, numa época em que o ritmo era considerado coisa de marginais e os sambistas eram perseguidos], com Noel Rosa, com Mestre Vitalino [Vitalino Pereira da Silva, 1909 –1963, um dos mais importantes ceramistas, ou bonequeiros, a retratar personagens do Nordeste brasileiro], e tantos outros?
E a cultura popular não é formada apenas por artistas, ou por pessoas que conseguiram obter reconhecimento da cultura oficial ou dos meios de comunicação. Para ela, têm igual importância os líderes comunitários: a velha professora que formou sucessivas gerações, o médico que cuidou de uma comunidade inteira, o dono do jornalzinho do interior que recorda cada fato e cada data, o morador antigo que viu um subúrbio inteiro erguer-se a sua volta.
As novas tecnologias nos trazem, entre tantas outras possibilidades, a de garantir, no universo da cultura popular, uma sobrevida para essa memória oral que é um dos seus elementos mais importantes. “Bibliotecas” inteiras desaparecem a cada ano, a cada mês, a cada semana. Seria uma pena (pior: seria um crime) assistirmos a isso de braços cruzados.