Postado em 05/04/2010

Tendências da indústria cinematográfica
Não há dúvidas de que o cinema passa por mudanças significativas no Brasil. De acordo com a Ancine (Agência Nacional do Cinema), em 2009, por exemplo, foi registrado o maior público dos últimos cinco anos – aumento de 25,26% de espectadores e 32,93% de renda, com relação ao ano de 2008. Esse incremento se deve, em parte, ao sucesso das produções nacionais, que abocanharam 14,28% do público em 2009 – o melhor desempenho também em meia década. Para colaborar com uma análise acerca da posição da produção nacional diante desse cenário, a Revista E convidou a coordenadora do Centro de Análise do Cinema e do Audiovisual, Alessandra Meleiro, e o ex-cineclubista e exibidor Adhemar Oliveira

Bilheteria no cinema brasileiro
por Alessandra Meleiro
Pesquisa Datafolha sobre os hábitos socioculturais dos brasileiros, realizada em 2008, indicou que assistir a DVD em casa constitui-se a atividade de lazer predileta entre os entrevistados. A segunda atividade de maior apelo é assistir à TV aberta, enquanto o cinema ocupou o terceiro lugar.
A pesquisa considerou o contexto sociológico e as barreiras simbólicas que envolvem os hábitos de consumo audiovisual, além do peso das variáveis sociodemográficas, como nível de educação, profissão e local de residência. Os dados revelam que os hábitos de consumo audiovisual totalizam 40% da preferência por formas de entretenimento. A produção cinematográfica brasileira – e aqui não entramos na relevância cultural dos filmes realizados – acompanhou, de alguma forma, essa demanda: foram 30 filmes de longa-metragem produzidos no ano de 2003 e 84 em 2009.
Segundo dados da Ancine (Agência Nacional do Cinema), em 2009, do total de 587 filmes exibidos nas 2.278 salas de cinema do país, 174 foram produções nacionais. O público de 112 milhões de espectadores foi o maior público dos últimos cinco anos, com um crescimento de 25% em relação ao ano anterior.
Esse aumento foi motivado, em grande parte, pelo desempenho das produções nacionais. Em 2009, o público do cinema brasileiro foi de 16 milhões de espectadores, representando 15% do total, o melhor desempenho do cinema nacional nos últimos cinco anos.
Mas, que tipo de conteúdo o público brasileiro está buscando? Sucessos nacionais recentes como Se eu fosse você 2 – que se tornou rapidamente líder de bilheteria com mais de 6 milhões de espectadores, superando a marca recorde do filme Dois Filhos de Francisco, de 5 milhões –, Divã, A Mulher Invisível e Os Normais 2 demonstram a busca por um cinema mais “comercial”, menos “autoral”.
Ainda considerando o universo do audiovisual como um todo, o apelo das telenovelas junto ao público demonstra uma demanda real por conteúdo audiovisual nacional. Os números – e os títulos acima citados – confirmam que o gênero comédia representou os melhores resultados dos filmes brasileiros no mercado exibidor em 2009, ecoando o sucesso de público das comédias na década de 1940 e 1950, conhecidas como chanchadas, e das pornochanchadas da década de 1970.
Importante aspecto a observar é que as comédias de destaque nos últimos anos seguiram um padrão tecnoestético da emissora de TV brasileira que mais fortemente condicionou o olhar do telespectador, a Globo – através da maior coprodutora de filmes do país, a Globo Filmes. Com apenas dez anos de existência, a empresa contabiliza uma filmografia de aproximadamente 70 títulos: 18 encontram-se entre os filmes nacionais que alcançaram entre 500 mil e um milhão de espectadores e 23 superaram a marca de um milhão de espectadores.
A análise dessa tendência indica a necessidade de novas estratégias para a efetivação de uma produção cinematográfica mais diversificada, que possa atender a ?heterogeneidade do público. Identifica também que o estímulo à produção não é a única e mais importante questão do setor: deve-se considerar, no mesmo nível de importância, a posição estratégica da formação de público.
Mas haveria algum outro elemento que pudesse explicar o melhor desempenho do cinema brasileiro, como, por exemplo, o preço do ingresso? Sabe-se que uma das formas de democratização de acesso largamente conhecida é a redução do preço do ingresso, ou mesmo sua completa gratuidade – a exemplo do programa “Vá ao Cinema” da Secretaria de Cultura do Governo de São Paulo, que possibilita aos alunos da rede pública de ensino assistir a filmes brasileiros inéditos em suas cidades.
Estudo recentemente realizado por pesquisadores da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] responde essa questão e indica que há uma correlação entre a redução do preço do ingresso e o aumento do público. No entanto, essa correlação não se verifica quando se considera apenas o público dos filmes brasileiros. Os autores entendem que, nesse caso, a demanda estaria atrelada ao tipo de oferta, que depende por sua vez da qualidade do produto e do seu marketing.
Ou seja, a opção por blockbusters nacionais – filmes com lançamento igual ou superior a 70 cópias e/ou salas e com maior potencial de geração de receita – poderia levar à sustentabilidade econômica do setor, que passaria então a atrair investimento privado. Tal panorama viria complementar o atual sistema de financiamento via leis de incentivo e orientaria o setor em direção ao desenvolvimento econômico.
Inegável que os benefícios fiscais concedidos pelo Estado de fato possibilitaram a realização das grandes – e pequenas – produções, sendo que os recursos mais significativos partiram das próprias empresas estatais. Dito de outra forma, cinema no Brasil é sinônimo de dependência de apoio do Estado.
No entanto, as políticas públicas federais de apoio ao cinema aplicadas ao longo da história mostraram-se ineficazes: não trabalham adequadamente o elo da distribuição e não incentivam a convergência entre os diversos elos da cadeia audiovisual. Em resumo, não atingiram o principal objetivo, o desenvolvimento da indústria.
Ao analisar as políticas públicas federais de apoio à indústria cinematográfica brasileira ao longo da história, parece claro que houve ineficácia no apoio à distribuição, o que afetou negativamente a performance dos filmes brasileiros no mercado interno. O desafio de superar a ineficiência da distribuição dos filmes brasileiros no mercado interno contraria interesses políticos e econômicos das redes de televisão e salas de exibição brasileiras.
Além desses diversos desafios, torna-se fundamental a discussão sobre qual modelo de indústria cinematográfica está se buscando no Brasil, que engloba também reflexões e debates sobre os custos de produção do cinema no país.
Deve-se privilegiar o blockbuster de alto orçamento para atrair um grande público, no Brasil e exterior – seguindo a lógica do ‘menos e melhores filmes’, ainda que a produção não se pague na bilheteria – ou os recursos devem ser pulverizados entre filmes de baixo e médio orçamento, e utilizados para uma efetiva democratização do acesso ao fazer cinematográfico?
Essas e outras importantes tendências culturais e econômicas da indústria cinematográfica nacional foram abordadas, em profundidade, por diversos autores na coleção de livros A Indústria Cinematográfica e Audiovisual Brasileira, que tem lançamento previsto para o mês de maio e pretende encontrar caminhos que facilitem o debate e a busca de soluções dos problemas específicos do setor no Brasil – observando não apenas os fatores que entravam o seu desenvolvimento, mas, principalmente, a sua dinâmica geral e as suas contradições internas.
