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Inéditos

Postado em 05/04/2010




O Espectro de Ray Milland

por Silvio Fiorani


Um pequeno mistério. Acho que é mistério, sei lá. O fato é que, um dia destes, mexendo nas minhas coisas, dei com o álbum de retratos que pertenceu à minha mãe, e nele pude rever com a devida atenção uma foto dos anos cinquenta. Foi meu irmão mais velho quem bateu a chapa (era assim que se falava, vocês se lembram?).



Lá estou eu, olhando a câmera, da altura dos meus sete anos, olhando, por assim dizer, a eternidade que se estenderia (que se estende, que se estenderá) para além daquela foto, não tendo noção ainda de que ela dividiria, no instante preciso daquele clique, daquele ruidozinho insignificante, mas instigante, mágico; dividiria, como acontece com toda foto, dividiria o tempo em duas partes distintas e opostas: o infinito passado e o infinito futuro.



Um breve momento, brevíssimo, compreendido, assim como a vida, entre duas eternidades (a que não vivemos e a que não viveremos) para as quais estamos igualmente mortos, e as quais julgamos diferentemente, privilegiando sempre a que haverá de vir (lamentando não poder vivê-la),? assim como, ao sermos fotografados, privilegiamos o futuro, procuramos nos projetar dentro dele, dando a ele instrumentos de recordações.



Lá estou eu sem saber ainda que aquilo que a fotografia estava fixando poderia um dia ser repetido mil vezes em folhas de papel brilhante, sem que se repetisse uma única vez existencialmente (ah, a magia da fotografia); lá estou eu imerso na tremenda complexidade da infância, sem ter prestado ainda qualquer atenção, portanto, às coisas óbvias ou aparentemente óbvias que muito mais tarde me assoberbariam, me tomariam tanto tempo; lá estou eu diante do grande mistério da fotografia, ao qual se acrescentam sempre outros pequeninos mistérios estáticos, magicamente estáticos.



E ali estou num momento em que não havia tido que clamar uma única vez pelo Cordeiro de Deus, porque a minha vida era então uma página quase em branco. Não sei se por acaso ou não (até hoje não posso saber), logo ao lado, naquela esquina, havia, amarrada a um poste, uma tabuleta daquelas em que os cinemas do interior anunciavam os filmes do dia, feita de folha-de-Flandres, flandre, como se dizia, coberta de negro, com letras brancas de alvaiade, fixando de pronto um outro momento preciso e mágico que ocorreria horas depois e que se perderia por muito tempo em minha memória, na memória de outras pessoas, como tantos outros momentos assim: HOJE ÀS VINTE HORAS.



Logo abaixo vinha a mensagem que se originara em um lugar tão distante, tão diferente, havia tanto tempo, e que ali adquiria a condição de um fenômeno local, um fenômeno que simulava a vida, que repetia (ah, a magia do cinema) a realidade concreta vivida por um grupo de atores, técnicos, trabalhadores de toda a espécie, um diretor, espécie de Deus provisório, que anos antes haviam criado aquela história de desencontros que ali se ?anunciava: A FLOR DO LODO.



Era este o filme: A FLOR DO LODO, com Ray Milland. Se acreditarmos que nada acontece por acaso, como muitos acreditam, que há sempre um roteiro prévio para tudo, e que há também um Deus permanente e implacável; se pensarmos assim, é de se imaginar a intuição poderosa que teria levado o meu irmão mais velho a escolher aquele local para aquela foto. Intuição, sim, porque estou certo de que ele não tinha mesmo consciência de que com aquele gesto estava capturando o momento em que várias correntes do tempo se cruzaram: A FLOR DO LODO.



A mensagem ganha hoje, finalmente – porque estou aqui e agora escrevendo (ah, a magia da literatura) –,? a condição de um código, de uma senha que certamente me fornecerá a chave para muitos mistérios pessoais; que é por isso talvez que insista, que tantos insistam em escrever tanto. Porque aquela esquina já foi modificada, é praticamente outra, e a folha-de-Flandres, como tudo o mais, já foi consumida pelo desgaste a que todas as coisas, tudo, todos são submetidos incessantemente, mas a foto eu ainda a tenho comigo, e nela ainda posso ler HOJE ÀS VINTE HORAS – A FLOR DO LODO – com Ray Milland, e ver que há mais mistérios ali contidos além do que podia (pode) supor minha imaginação.



Porque era um domingo, porque muita gente havia passado por aquela esquina aquele dia, sem cogitar se aquele lugar era um lugar especial, porque nunca se pensava ou se devia pensar numa coisa dessas, não vinha jamais ao caso; porque, de resto, aquele não era mesmo um lugar especial. Era uma esquina. Porque ali estava passando uma pessoa, ao fundo, naquele preciso momento, saindo da foto, já com um pé fora dela. E porque, também, logo à direita, meio recuada, encostada ao batente de uma porta, havia uma outra pessoa, à qual foi dado ser testemunha daquele aparentemente prosaico ato de fotografar. Prosaico, assim foi porque assim lhe deve ter parecido.



Ou não. Porque, hoje, quando posso rever com mais cuidado aquela fotografia, com uma percepção possivelmente um pouco mais elaborada, pelo menos mais atenta que aquela que eu possuía lá do outro lado, da eternidade que se estendia para além daquela foto (o seu passado), que se havia estendido, estava se estendendo; hoje, portanto, quando posso afinal rever de uma outra maneira aquela fotografia, chego a achar que aquele homem ali parado guarda uma desconcertante semelhança com um ator chamado Ray Milland.




Desconcertante porque nem me atrevo a pensar nas infindáveis ilações que disso eu poderia tirar; nem me atrevo tampouco a pensar no possível significado para mim desse fato, dessa terrível e inquietante coincidência.



Silvio Fiorani é autor, entre outros livros, de Investigacão sobre Ariel (A Girafa, 2005)


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