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Entrevista
Zilda Arns

Postado em 01/12/1999


Dezembro, mês de Natal.. Mimos, presentes e cestas são distribuídos aos menos favorecidos. Mas o que acontece quando a solidariedade natalina esmorece? Bem, nesse caso, a dura realidade de carência se sobrepõe aos efeitos efêmeros da ajuda. Nesta entrevista, exclusiva à Revista E, a pediatra Zilda Arns, presidente da Pastoral da Criança, conta como faz para que o auxílio se perpetue além dos feriados.

Irmã de Dom Paulo Evaristo Arns, ela mostra como a instituição vem, há 16 anos, implantando uma rede de solidariedade que atua em 57% dos municípios brasileiros, exercendo um trabalho que passa longe do assistencialismo. Para cada ação, são computados, objetivamente, os resultados. "Não basta apenas dar", afirma. "É necessário capacitar, educar e conscientizar as comunidades para que as melhorias prevaleçam". Com a palavra, Zilda Arns.

O que a Pastoral da Criança faz e qual o seu trabalho na instituição?

A Pastoral da Criança é um trabalho desenvolvido em todo o Brasil. É ecumênico, suprapartidário e visa a formação de frentes de solidariedade em bolsões de pobreza e miséria. Um trabalho que tem objetivos específicos como a diminuição da mortalidade infantil, da desnutrição, da violência e a redução do analfabetismo entre jovens e adultos. Em suma, nós educamos ou capacitamos lideranças comunitárias que queiram se comprometer a trabalhar como voluntárias e partilhar com outras famílias aquilo que aprenderam. Nós multiplicamos o saber e democratizamos a informação. Conseguimos reduzir drasticamente a mortalidade infantil, a desnutrição e a violência.

O trabalho da Pastoral existe há 16 anos. Por que só agora ele eclodiu?

Nós começamos o trabalho com bóias-frias de Florestópolis, cidade paranaense com a mais alta taxa de mortalidade infantil do estado. Nos períodos de entressafra eles ficavam meses sem trabalho. Não podemos dizer que vamos diminuir a mortalidade infantil em determinado município. É preciso fazer com que a população acredite nesse trabalho. Existe um período de preparação de terreno, depois a seleção de lideranças, em seguida treinamento e acompanhamento do pessoal.

Como é a organização da Pastoral nos municípios atendidos?

Formávamos grupos pilotos em micro-regiões, visitávamos essas localidades e elas se multiplicaram pelas paróquias e comunidades. Após identificadas as lideranças, fazemos reuniões explicando as causas das mortes e como combatê-las. Iniciamos nosso trabalho com a gestante, fazendo o pré-natal, encaminhando para o parto, o aleitamento materno, a alimentação enriquecida, reidratação oral, a vacinação e a educação infantil.

Em quantos municípios atua a Pastoral? Como ela se sustenta?

Em 57% dos municípios. O trabalho é voluntário e, assim, os maiores gastos são com recursos humanos. Por outro lado, o voluntariado produz uma ação que não olha o tempo. Quando uma criança fica doente, não dá para seguir uma jornada de trabalho. É esse voluntariado que faz com que a Pastoral da Criança custe o mínimo. Nos últimos três meses, uma média de 80 centavos por criança/mês. Não adianta treinar as pessoas e depois largá-las. É preciso treinar, reciclar, acompanhar, reanimar. Pesquisas demonstram que a pessoa que tem amigos, mesmo sendo pobre, é mais saudável. Numa região carente, a migração é muito grande. As pessoas têm poucas raízes, poucos laços familiares, é como se a Pastoral da Criança substituísse uma família que foi perdida por causa da imigração.

Quantas crianças são atendidas?

Nossos 136 mil voluntários atendem 1,5 milhão de crianças de zero a seis anos. Além disso, atendemos cerca de 1 milhão de famílias, 60 mil gestantes e 35 mil alunos no curso de alfabetização de jovens adultos. E ainda contamos com o auxílio de 1.111 emissoras de rádio, que transmitem um programa sobre educação, saúde e cidadania. Temos um jornal com uma tiragem de 160 mil exemplares, que promove troca de experiências entre as comunidades. A luta contra a pobreza é muito brava.

Como a senhora mesma disse, a luta contra a pobreza é ferrenha. Como fazer para extingui-la?

A Pastoral atende um pouco menos de 9% das crianças brasileiras. Se houvesse uma Pastoral da Criança ecumênica, suprapartidária, comprometida com toda a sociedade, com certeza, em dez anos o Brasil seria outro. É necessário que mais pessoas se engajem no voluntariado.

Qual é a mística da Pastoral?

A do voluntariado. É preciso que se valorize a pessoa. A promoção humana, pessoal. A pessoa precisa crescer. Não basta aprender apenas o conhecimento científico. Em segundo lugar, a pessoa precisa sentir-se numa rede na qual ela não está sozinha. Isso é solidariedade. Além disso, ter uma referência no evangelho de Jesus Cristo. Quando ensinamos o aleitamento é claro que usamos técnicas, mas ao mesmo tempo, há muitas frases bíblicas que incentivam o amamentar.

De que maneira uma instituição voluntária, que realiza um trabalho social, evita cair no assistencialismo?

A Pastoral da Criança, desde sua primeira experiência, foi baseada cientificamente e não no assistencialismo. Sempre foi um trabalho de promoção. Desde o início, já tínhamos os objetivos definidos da participação comunitária como principal ator. E para cada ação contabilizamos os resultados. A pessoa tem de ser o agente de sua própria transformação e da transformação de sua família. A pessoa tem de ser educada e promovida para ela ser seu próprio motor. Isso não é muito fácil. No Brasil, se faz muito assistencialismo. No Natal, no Dia da Criança se dá presentes. É muito bom, as pessoas ficam contentes, mas melhor seria proporcionar um bom nível de vida para que os próprios pais pudessem fazer isso pelos filhos. A Pastoral da Criança trabalha em duas áreas muito bem definidas: uma delas é o tecido social. Por isso, atuamos com a família. E a própria família sozinha não vai melhorar se nós não atuarmos junto à comunidade: a educação infantil, a saúde, uma cultura de paz e uma educação para a convivência fraterna. É muito difícil consertar um tecido social estragado. É muito melhor prevenir do que remediar. É aí que está a segunda área de atuação da Pastoral: fazer com que o governo lembre-se do cuidado com as crianças. Elas devem ser prioridade absoluta.

As atitudes de solidariedade promovidas apenas em época de Natal podem ser consideradas prejudiciais?

Não. Eu creio que para uma criança um brinquedo é sempre uma alegria. Mas isso não basta. É preciso ajudar a criança nos cuidados como a saúde e a educação. Eu acredito que no próximo século a soma de esforços vai se tornar um instrumento mais poderoso para erradicar a pobreza e a fome. A verdadeira cidadania tem direitos e deveres. Agora, sobre esses programas assistencialistas do governo, eu particularmente tenho muitas ressalvas. Se em determinada comunidade apenas forem distribuídas cestas básicas, sem outra ação, em três ou quatro anos, a família continuará pobre como estava e, às vezes, até mais pobre.

A senhora dá esmolas?

Não. Antigamente eu dava esmola por pena. Hoje, sou absolutamente contra a esmola ou a distribuição de comida na rua. Às vezes, a auto-estima torna-se tão baixa que quem a recebe não procura melhorar de vida. Você pode dar comida todos os dias que todos os dias aparecerão outros famintos. Cria-se uma dependência sem fim e não há governo no mundo que tenha dinheiro para isso. As crianças se acostumam com a esmola. Ganham mais na rua do que se tivessem um emprego. É preciso manter a criança na escola e vigiá-la. Mas é necessário que escola, por sua vez, seja interessante: com áreas de esporte e lazer.

O que fazer quando essas crianças completam seis anos e deixam de ser atendidas pela Pastoral?

Até os seis anos, temos o total controle das crianças. Mas nenhuma comunidade as abandona depois dos seis anos. Com sete anos, a criança já tem escola, já conta com uma outra estrutura que pode ajudá-la. Nós fazemos com que as mães mandem as crianças para a escola para que elas continuem a ser cuidadas.

Qual o relacionamento da Pastoral com a classe dirigente?

A cada eleição, nos reunimos com os candidatos e apresentamo-lhes nossas diretrizes para a cidadania e tomamos nota das promessas. Por onde passo, eu sempre repito: da mesma reunião devem participar as secretarias da saúde, da educação, do desenvolvimento socioeconômico, empresários e igrejas. Cada um cuida de uma parte. Não existe um problema isolado e sim um conjunto de problemas que devem ser sanados. Eu creio que, além disso, deve haver capacitação de gestores de desenvolvimento social. Muitas vezes, o gestor não sabe fazer, ele precisa de alguém que o oriente. O nosso trabalho, por exemplo, é realizado por voluntários, mas tem bases técnicas científicas. Assim deveria ser a gerência das prefeituras. Muitas vezes a primeira-dama quer agradar mas não sabe como. Começa a distribuir cestas, faz isso e aquilo, gasta um dinheirão e não obtém resultado. Todo o trabalho precisa de um roteiro definido, uma participação comunitária. Nos programas do governo, esse tipo de participação está fadada à morte. Isso sem mencionar que quando muda o prefeito, muda também o programa. A fase do amadorismo já passou. O próximo século é o dos profissionais.

O que a senhora sente quando o governo corta verbas sociais logo após a Pastoral ter implementado um programa solidário?

Agredida.

A senhora se sente traída?

Não adianta eu simplesmente me revoltar . É preciso analisar as causas e fazer com que isso não aconteça mais. Eu estive no interior do Piauí e vi diversos poços artesianos inacabados e ouvi os técnicos dizendo que por mais sete mil reais seria possível concluí-los. Enquanto isso, a população gasta horas para ir buscar água suja, de jegue, em outro lugar. Isso não é admissível. Porém, as pessoas carentes começam a valorizar o que é permanente. Na hora de votar, o eleitor pode escolher aquele que sabe que investe em saneamento básico e escola e não aquele que dá um par de sapatos antes das eleições. É essa mudança de mentalidade que deve ser construída.

Algumas instituições usam como estratégia de angariação de recursos fatos chocantes ou mesmo informações distorcidas ou provenientes de fontes pouco confiáveis. Como a senhora vê essa situação?

Muitas vezes algumas instituições exageram um pouco por quererem ganhar fundos. É por isso que a Pastoral da Criança toma muito cuidado com as informações que são veiculadas. Ninguém aumenta, nem diminui. Nós repassamos o que vem das comunidades.

A senhora sente vontade política para resolver a situação da pobreza?

Geralmente a gente vê que a oposição quer ser contra o governo. Mas, por exemplo, há um mês, quando houve aquele esforço muito forte para que o Sistema Único de Saúde (SUS) tivesse uma fonte certa de financiamento, nós vimos todos os partidos juntos. Isso foi muito bonito. Quando líderes de diversos partidos políticos ficam conscientes, aprovam coisas boas. Mas, às vezes, existem lideranças que são negativas. Pessoas que querem destruir algo só para agredir o seu concorrente nas próximas eleições.

Como a senhora acompanhou as rebeliões na Febem?

Acompanhei repetindo o que sempre digo: isso não é caminho para ninguém. Não há Mário Covas e nem qualquer outro governo que dê conta disso. Não adianta a oposição colocar a culpa no governador do estado. Nenhum outro governador poderia fazer diferente. O que uma criança que se tornou um marginal perdeu? Sua família. Ninguém no mundo vive sem referência, sem um amigo, sem um lugar para ficar.

Não haveria qualquer atitude a ser tomada antes?

Não. A solução está em pequenos lares que recebam no máximo dez menores. Caso contrário, não há solução. Os menores agressivos agem dessa forma porque foram agredidos já no primeiro ano de vida. As pesquisas da Organização Mundial de Saúde (OMS) comprovam que crianças maltratadas nesse período da vida apresentam tendência à violência e criminalidade. Jovens assim são realmente pessoas difíceis de serem reintegradas à sociedade. Colocá-los juntos em uma Febem é tornar um pequeno ladrão num criminoso. É como uma escola de bandidagem. Eu creio que o sistema judiciário deve mudar. Deve haver políticas públicas de prevenção, promoção, cura e reabilitação.

A senhora é a favor da redução da idade penal?

Eu creio que a maioridade penal aos 18 anos leva a muitos abusos de adultos contra os adolescentes. Se o adolescente com 16 anos pode votar é porque ele tem condições de tomar decisões. É uma questão polêmica, deve ser muito bem estudada.

Ultimamente, a violência alcançou índices muito altos. Na sua opinião, por que ela aumentou tanto?

Eu creio que a desestruturação familiar é o grande motivo da violência. O segundo é a migração para as grandes cidades, sem que haja nenhum profissionalismo no processo de acolhimento do migrante. A pessoa encosta-se no casebre de um parente, não tem nada o que fazer e não sabe fazer nada, ou seja, não tem emprego. Aí vem um traficante e oferece uma quantia qualquer em troca de um serviço e a pessoa vê que não há outra alternativa.

Como amenizar o ódio das vítimas e convencê-las de que o problema é estrutural?

Eu sempre digo que não basta encaminhar o agressor para a polícia. É preciso ir até as causas dos problemas. É muito mais racional encaminhar o pai que bebe para os Alcoólatras Anônimos que simplesmente expulsá-lo de casa. É o que procuramos fazer na Pastoral da Criança. Às vítimas, devemos apresentar as causas que levam à violência, ou seja, mostrar que a criança maltratada é um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento. A própria sociedade deve exigir que as crianças sejam prioridade.

Como fazer para participar da Pastoral da Criança?

Nós temos colaboradores das mais diversas profissões, até mesmo donas de casa e pessoas aposentadas. Em primeiro lugar, procurar na sua comunidade se há Pastoral na região e se informar do que pode ser feito. Mas qualquer profissional precisa conhecer a mística da Pastoral, conhecer os materiais, para falar a mesma linguagem, aí o povo entende melhor. Numa comunidade pode haver, por exemplo, um posto de gasolina que pode oferecer dez litros por mês para que os coordenadores possam rodar entre as comunidades. O dono da padaria pode ajudar com farinha de trigo. Cada um partilha o que melhor sabe fazer. Como disse Paulo apóstolo, "cada um com seu dom".

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