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Os novos palcos da cidade

Postado em 01/12/1999

A construção e a reforma de novas salas de espetáculos, equipadas com tecnologia de ponta e uma cômoda rede de serviços, ratificam a cidade como parada obrigatória no circuito internacional das artes.
E, em certos casos, impulsionam a revitalização urbana

Mesmo imersa em graves problemas, São Paulo floresce como uma metrópole cultural. Faz valer sua vocação de prover manifestações artísticas e de servir como um grande palco para o encontro do artista com o público.

A partir da pujança econômica obtida com as plantações de café e, depois, com as indústrias, a contar do fim do século passado, a cidade atualmente toma as rédeas da vanguarda e desenvolve uma infra-estrutura invejável, composta de teatros, salas de cinema e de concerto, além do entorno secundário (mas não menos importante) com uma bem implantada rede de hotéis e restaurantes.


É certo que, como um todo, esse complexo cultural sofreu oscilações de altos e baixos ao longo dos anos. Viveu períodos gloriosos e sucumbiu a derrocadas fatais. Migrou, junto com a população e com o investimento mais privado do que público, de região para região, acompanhando o curso nem sempre benéfico do dinheiro. Já esteve no Centro antigo, no Bixiga e nos shoppings. Hoje se multiplica, talvez, como nunca tenha acontecido antes: a infra-estrutura de equipamentos culturais cresce à medida que a própria cultura é reconhecida como business. Aliás, um dos negócios mais promissores do futuro próximo.
E o reflexo da importância da indústria do entretenimento está por toda parte. No Brasil, ela já é responsável por 1% do PIB, ou R$6,5 bilhões em números de 1997, segundo pesquisa realizada pelo Ministério da Cultura.

Um outro alento bem visível é a construção febril de novas salas de espetáculos espalhadas pelos quatro cantos da cidade. São empreendimentos erguidos para acolher públicos distintos, cada qual com sua personalidade, construídos sob as concepções arquitetônicas mais modernas disponíveis. Nos últimos dois anos, os investidores presentearam a cidade com pelo menos quatro obras de grande porte, além da reforma completa de outros pontos tradicionais paulistanos. Isso significa que o empresário passou a enxergar a produção cultural com os cifrões estampados na retina e não apenas com um impulso filantrópico. O dinheiro gera dinheiro e ajuda a incrementar a imagem institucional do investidor que pode se servir das leis de incentivo fiscal destinadas a subsidiar projetos culturais.

Esse processo empolgante confirma a condição de São Paulo na liderança das capitais latino-americanas no que concerne à oferta de bens culturais. A velha máxima da "capital do Mercosul" ganha impulso com o fluxo econômico atraído pela força das artes.

Do Popular ao Erudito

Exemplo cabal está nas recém-inauguradas Via Funchal e Credicard Hall. Juntas, elas podem receber mais de 14 mil pessoas, dependendo do evento. A primeira está localizada na Vila Olímpia, bairro relativamente novo e que conta com escritórios e bares para servir o grande contingente de classe média e alta que atende a região. O acesso fácil garante o ecletismo da casa, construída "com o que há de mais moderno", segundo Carol Civita, diretora artística do Via Funchal. "De acordo com o tipo de espetáculo, fazemos o arranjo das mesas. O local se adapta ao tamanho do show, que pode ser intimista, prevendo mil pessoas, ou um grande acontecimento que receba 7 mil, sem nunca demonstrar desconforto, nem para o público e nem para o artista", conclui.

Outra novidade nos novos empreendimentos é permitir a presença de um público diversificado, dependendo da atração. Não existe mais o conceito de espaço elitista ou popular. "Quem determina são os produtores", explica Carol. O Via Funchal, aproveitando a maleabilidade arquitetônica, já abriu as portas para entusiastas do forró, cobrando R$10,00 o ingresso, e recebeu também o Balé de Pequim para um público de maior poder aquisitivo. "Público existe e São Paulo tem carência de boas salas de show."

Prova de que a tese de Carol está correta foi a construção do Credicard Hall, suntuoso edifício erguido no centro empresarial, tido como a maior sala de espetáculos da América Latina. A casa, instalada em um dos endereços mais nobres e valorizados pela especulação imobiliária, foi inaugurada em noite controversa. Armou-se um espetáculo de gala para a audiência de Caetano Veloso e João Gilberto. Talvez um dos eventos sociais mais alardeados dos últimos tempos, com repercussão maciça na mídia. O fato, já batido, de um eventual (e posteriormente comprovado) contratempo acústico (leia mais sobre o fenômeno da acústica no box), a presença indesejável de eco, encobriu a magnitude da casa e de fatores relevantes que sua construção acarretou.


Tecnicamente, o investimento de US$34 milhões utiliza tecnologia de última geração e, a exemplo do Via Funchal, a versatilidade do projeto possibilita a realização de uma infinidade de eventos: de megaproduções a shows intimistas. São quatro setores com capacidade para até 4,8 mil espectadores sentados e 7,5 mil em pé. A partir de um moderno programa de informática, as mesas e as 1.220 poltronas podem desaparecer em trinta minutos.

Tamanho empenho tecnológico visa exclusivamente ao conforto do público e dos artistas. Conforto, aliás, é uma das armas dos empreendedores na guerra contra as muitas opções caseiras, dentre elas TV a cabo e informática, frutos da mesma evolução tecnológica. Para convencer o cidadão a deixar seu lar auto-suficiente, o Credicard Hall oferece facilidades tentadoras, como a venda de ingressos por telefone ou em outros locais conveniados. Há ainda um estacionamento com 1.200 vagas, além de outros bolsões particulares próximos.

Vencido o trânsito, especialmente ruim naquela região devido à ausência de transporte coletivo, uma vez dentro da sala o espectador usufrui de outras benesses, como o tratamento paisagístico da entrada principal, portas e passagens planejadas de acordo com o conceito da acessibilidade universal, bares e restaurante com cardápio farto e variado e as facilidades providas por uma empresa que toma conta das crianças enquanto os pais estão se divertindo.


Vizinhança Bem Cuidada

A não ser João Gilberto, ninguém mais retocou a excelência tecnológica do Credicard Hall. Sua localização, porém, pode fazer concluir que ele foi um empreendimento realizado para atrair um público mais endinheirado. Afinal, a casa, erguida à beira da marginal Pinheiros, entre as pontes João Dias e Morumbi, privilegia o transporte individual e dificulta o acesso de quem não tem carro. Mas, o investimento foi particular e, dessa maneira, inquestionável. Seguiu-se a lógica da especulação imobiliária que, na maioria dos casos, guia o destino do dinheiro.

Existem outros empreendimentos que levam em conta o impacto que a construção ou restauração de um imóvel dotado de carga histórica causa no entorno e, por conseqüência, com reflexos no resto da cidade.

Uma rápida análise nos quarteirões circunvizinhos do recém-reformado Theatro São Pedro, localizado na rua Barra Funda, próximo à estação de metrô Marechal Deodoro, dá uma boa medida desse processo. Em 16 de janeiro de 1917, de propriedade do imigrante português Manoel Fernando Lopes, o teatro era inaugurado com a encenação das peças A Moreninha e O Escravo de Lúcifer, além das espetaculares performances do "menino cantor" de 7 anos, conhecido pela alcunha de "O Pequeno Caruso". Nos anos seguintes, o edifício de estilo art nouveau, pintado em tons salmão e revestido de cortinas vermelhas e verdes, em alusão à pátria do proprietário, passou a oferecer uma programação eclética. Sessões de cinema financiavam as apresentações das companhias estrangeiras, alternando operetas, dramas, comédias teatrais e concertos, além de manter em cartaz peças de companhias nacionais encenadas por nomes consagrados como Leopoldo Fróes, Dulcina de Moraes, Apolonia Pinto, Procópio Ferreira, entre outros.

Com o passar dos anos, o teatro não escapou da degradação que assolou a região central da cidade e passou a sofrer os efeitos do descaso, principalmente no início da década de 1960, quando a platéia tornou-se depósito de entulho.

Em 1973, várias reformas depois, o prédio foi sublocado para a Secretaria de Estado da Cultura como sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), sob regência do saudoso maestro Eleazar de Carvalho. Onze anos mais tarde, a proposta de tombamento foi acatada e iniciaram-se os estudos para uma ampla reforma que o reaproximaria de suas linhas originais. Hoje, após a reforma definitiva terminada ano passado, o Theatro São Pedro conta com 636 cômodas poltronas, tratamento acústico adequado e modernos equipamentos de som e de segurança. Os 3.800 metros quadrados são decorados com vitrais importados da França, lustres de cristal checo, veludos ingleses e madeiras nobres, que resgatam a atmosfera e a memória da comunidade paulista do começo do século.

Como referencial urbano, a intervenção no São Pedro alcançou o propósito principal: a revigoração da área. Como empreendimento cultural oferece ao público mais uma grata opção de lazer. É, enfim, um edifício que cumpre importantes funções sociais. "Estamos muito bem relacionados com a população que vive nas redondezas. O edifício vizinho pintou a fachada com as cores do São Pedro e o calçamento dos quarteirões próximos foi reformado", explica Fernando Calvoso, diretor artístico do teatro. Para seduzir o morador vizinho, a administração recorre a uma estratégia prosaica: instalou à porta do prédio um cartaz à moda antiga com dísticos que anunciam as próximas atrações.

Além disso, Fernando conta que o posto de gasolina defronte permanece aberto até mais tarde e dois estacionamentos foram abertos e, aproveitando o movimento extra, foi inaugurado o Café Teatro que serve os aficionados antes e depois dos espetáculos.

Após "perder" a Osesp para a Sala São Paulo, o Theatro São Pedro diversificou sua programação para atrair um público cada vez mais eclético. Na realidade, explora no limite a vocação que o projeto arquitetônico lhe permite. "Música, dança e artes cênicas cabem muito bem no nosso palco", garante o diretor artístico. Aproveitando a característica multifuncional, muitos grupos e orquestras solicitam o teatro, que fica com 10% da bilheteria. "Já tivemos desde Vânia Bastos até a Orquestra de Santo André. Na verdade, o São Pedro veio ocupar o espaço para que conjuntos toquem música de câmara ou para que orquestras sem sede se apresentem", complementa.

Fernando só lamenta a divulgação insuficiente e relata que os recursos são parcos. "Às vezes", diz, "os grupos cedem os materiais necessários para a performance ou mesmo doam algum móvel para nós". Embora trabalhe com certa carência financeira, o Theatro São Pedro tornou-se um espaço alternativo para artistas iniciantes mostrarem seus trabalhos. É uma vocação que não cabe a outras salas, que atuam apenas com profissionais consagrados. "A cidade conta com diversos locais que atendem públicos e gostos diferenciados", segundo observa José Roberto Fáguas, diretor do Teatro Alfa, inaugurado em abril de 1998. Foram gastos R$17 milhões para construir duas salas: uma com capacidade para 1.200 espectadores e outra para 200 pessoas. A exemplo do Credicard Hall, o Alfa está localizado próximo ao centro empresarial, inserido em um complexo de serviços que funciona 24 horas diárias.

De acordo com José Roberto, a casa está aberta a shows populares e óperas e, na sala menor, peças de teatro. Para atrair o público, foi desenvolvido um sistema de assinaturas pelo qual os freqüentadores podem assistir Wynston Marsalis, Grupo Corpo, Nelson Freire e Raul Cortez, pagando entre R$510,00 a R$750,00 por um pacote com doze espetáculos. Com a inauguração do Alfa, as cinco sociedades promotoras de eventos eruditos - Cultura Artística, Mozarteum, Patronos do Teatro Municipal, A Hebraica e Instituto Alfa de Cultura - somaram 5.440 carnês vendidos até julho deste ano. O número tende a crescer, pois a Sala São Paulo, no lançamento da temporada de 2000, no começo de novembro, anunciou seu próprio programa de assinaturas.


Sala São Paulo

Construída em um ano e meio, as obras que adaptaram a antiga estação Júlio Prestes em uma moderna sala de concertos consumiram R$44 milhões. A reforma suscitou uma questão de ordem pública: valeu a pena gastar tanto dinheiro? A classe musical evidentemente faz coro. Do ponto de vista estrutural, a inauguração da sala coloca a cidade no roteiro das grandes produções, a exemplo da Filarmônica de Viena, regida pelo célebre maestro Lorin Maazel, que se apresentou em outubro.

Membros da orquestra austríaca rasgaram elogios para a acústica, beleza e conforto do espaço construído em madeira própria para melhor circulação do som, com teto retrátil, que se adapta conforme a característica da performance. Numa análise um pouco mais fria, o maestro Walter Lourenção disse que a manifestação estrangeira foi um pouco exagerada, fruto da benevolência dos nossos ilustres hóspedes. A ressalva de Lourenção implica dizer que a qualidade de som pode ser acurada com o tempo. Diz-se que o ponto ideal da sonoridade será atingido em cinco anos.

O projeto original fez da Sala São Paulo a sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Essa medida demandava equalizar as qualidades da Osesp e da Sala em um mesmo diapasão, ou seja, incrementar a qualidade do grupo a partir de uma reformulação completa no elenco. A tarefa ficou a cargo do maestro John Neschling, que há dois anos promoveu uma revolução completa: aumentou substancialmente os salários e renovou grande parte dos músicos. "Hoje ela é a melhor orquestra do Brasil", afirma.


"É imprescindível para uma orquestra possuir uma sede", explica Cláudia Camargo Toni, diretora- executiva da Sala São Paulo e da Osesp. Essa já seria uma boa justificativa para o vultoso investimento. "Em cinqüenta anos, a orquestra nunca teve um lugar próprio para ensaiar e tocar. Através de uma sede própria, está apta a construir sua identidade e pode encontrar seu justo equilíbrio." É apenas por meio de exercícios constantes que os músicos e o ambiente moldam o entrosamento perfeito: no final, o conjunto e o edifício formam um único ente.
Por outro lado, a Osesp deve ser considerada um patrimônio dos paulistas. Afinal, é mantida com dinheiro de impostos e funciona como um espelho do estado. Por isso, para apresentar seus dotes cobra preços bem acessíveis, algumas vezes inferiores a uma entrada de cinema (R$10,00, R$15,00 e R$20,00). E justamente por contar com esse caráter público existe a perspectiva de burilar o ouvido da audiência leiga para apreciar espetáculos eruditos com mais acuidade. "Música clássica, ao contrário de uma canção popular, não é uma coisa fácil de se ouvir", explica Cláudia. "Como um romance de Joyce ou um quadro de Picasso, a linguagem mais sofisticada de uma partitura erudita demanda devoção e esforço para ser entendida. Porém, em contrapartida, o prazer oferecido quando se desvenda uma composição clássica é muito maior. Sem demagogia, a popularização de concertos eruditos depende de um esforço para levar alunos da rede pública em ensaios didáticos. Paralelamente, estamos desenvolvendo alguns projetos cujo objetivo é preparar ouvintes."

Com a inauguração da Sala São Paulo, a cidade ganha um palco definitivo, paragem obrigatória das principais turnês mundiais. O único empecilho à fruição dos acordes estrangeiros está no salgadíssimo custo dos ingressos: para a Filarmônica de Viena, o aficionado dispensou até R$1.500 por ingresso. "Tenho algumas restrições às sociedades promotoras de concerto, pois quando apenas bancam orquestras internacionais deixam de patrocinar eventos brasileiros", pondera Cláudia.


Cinqüenta e um anos de História

A exemplo do que ocorreu com a vizinhança do Theatro São Pedro, a Sala São Paulo pretende tornar-se um foco revigorante no coração de uma região muito deteriorada. Apesar de muito recente, já é possível observar, principalmente em dias de espetáculos, que o entorno ganhou ares mais agradáveis e perspectivas muito alvissareiras, mesmo que ainda veladas.

Segundo o arquiteto Carlos Lemos, a reconversão da antiga garagem de trem em sala de concerto foi muito bem-sucedida. "Quando o edifício original perde sua função primeira, é possível encontrar nova utilidade para o local. Às vezes, a transformação não é precisa, mas no caso da Sala São Paulo, o resultado ficou excelente."

A interferência urbanística realizada no local faz parte de um plano maior que abrange outras regiões da cidade. Depois do Centro, o Bixiga é um belo exemplo. A região possui um grande complexo de teatros que contabilizam cerca de vinte salas concentradas em cerca de 500 metros quadrados. Em outros tempos, tamanha abundância já garantiu ao bairro a alcunha de "Broadway Brasileira". Nas últimas duas décadas, o Bixiga caiu em um processo de degradação extrema: a violência aumentou e espantou os freqüentadores habituais. Mesmo os teatros conheceram um decréscimo de público.

Inconformados com a conjuntura lastimável, os comerciantes e proprietários de restaurantes e teatros se uniram em iniciativas que debelassem a penúria. Foram praticamente inúteis. Sem o apoio do poder público, as ações não vingaram.

Hoje, a realidade do bairro dá sinais de vida mais próspera. E em grande parte graças aos esforços do empresário Marcos Tidemann Duarte, que assumiu em 1997 a administração do Teatro Brasileiro de Comédia, o glorioso TBC, com 51 anos de vida. Ao tomar as rédeas do teatro, o empresário logo empreendeu uma reforma no valor de R$4 milhões, terminada em agosto último. "Foi uma satisfação e um grande desafio. Recuperando o TBC, recupera-se a história da cidade. Por outro lado, enxergo a cultura com olhos empresariais. Ao assumir o TBC, espero retorno financeiro a médio prazo. Não foi uma atitude filantrópica, mas é claro que gosto muito de teatro."

Unir o útil e o agradável como fez Marcos Duarte é prova inconteste de que cultura e dinheiro podem caminhar juntos. Aliás, essa é uma máxima apregoada pelo administrador. "Os empresários têm intenção de investir nas artes, mas há carência de bons produtos. Quanto mais se investir, mais e melhores serão os espetáculos, formando um ciclo vicioso."

Sua idéia de investimento é mais ousada: nas quatro salas e no bar que compõem o TBC, ele pretende montar um verdadeiro centro cultural e um ponto de encontro de artistas. Há um espaço destinado a um Núcleo Jovem, com sete atores permanentemente contratados que desenvolvem um trabalho experimental, uma sala destinada a shows musicais e, a principal delas, que recebe montagens consagradas. "Trabalhamos ainda com o S.O.S. Criança. Duas vezes por semana, eles trazem vinte crianças para ensaiar aqui."

Como não poderia deixar de ser, a reabertura desse palco tradicional já trouxe bons ventos à região. A perspectiva de uma ação conjunta resolveu alguns problemas básicos. Por meio da operação Segurança no Teatro, a polícia militar desloca uma viatura e dois policiais para rondar os arredores das casas antes, durante e depois dos espetáculos. Além desse programa, está sendo desenvolvida uma carta geral de intenções entre comerciantes e Secretaria do Estado da Cultural em prol da revigoração do Bixiga, a começar pelo provimento das mais comezinhas particularidades estruturais, como a colocação de luzes nos postes, uniformização no preço dos estacionamentos e incremento da segurança. "É preciso incentivar as pessoas a sair de casa. Resgatar esse hábito saudável", afirma o empresário.

Em São Paulo, não faltam opções.

Bravo, Anchieta

O palco de todos os artistas está de volta. Após extensa reforma, em 18 de novembro, o Teatro Sesc Anchieta reabriu suas portas ao público em geral para receber a montagem Fragmentos Troianos, baseada na obra de Eurípedes. A peça, sob direção de Antunes Filho, é encenada pelos atores formados no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), do Sesc Consolação.

Estruturalmente, mexeu-se pouco. Mais visíveis são as interferências no foyer, que recebeu carpetes nas paredes e um sistema de ar-condicionado. Além disso, suas dependências foram totalmente adaptadas à presença de pessoas portadoras de deficiência e com dificuldade de movimentação, além de assentos especiais para obesos. De resto, o tradicional Anchieta está lá: confortável, seguro e carregado de belas histórias.

Da ousadia do projeto original, que pretendia (como conseguiu) harmonizar, em um só edifício, um complexo esportivo e um teatro, passando por sua localização alternativa e o trabalho original desenvolvido pelo CPT, o Anchieta surgiu já como um dos teatros mais importantes de São Paulo.

Quando foi inaugurado, em 1967, integrado no Sesc Consolação, havia dúvida se uma sala fora do bairro do Bixiga poderia atrair o público. A aposta foi ganha. Sua localização, próxima das faculdades do Mackenzie e da USP, na Maria Antônia, tornou-se uma das maiores aliadas do novo teatro. Mesmo em meio às agitações políticas das décadas de 1960 e 1970, momento em que estudantes e a classe artística se indispunham veementemente contra o governo instituído, a sala manteve-se um sucesso garantido de público.

A concepção inicial pretendia criar uma grande sala de espetáculos e não um simples "salão nobre" ou um teatro improvisado à maneira da maioria que funcionava na cidade: o projeto ambicioso firmava as bases do teatro mais moderno de São Paulo. Foram convidados Aldo Calvo, para realizar a parte técnica, e o paisagista Burle Marx, para desenhar o pano de boca do palco, uma obra de vanguarda, colorida e revolucionária, evocando a paisagem tropical brasileira.

Apesar de todos os esforços, o primeiro espetáculo do Anchieta não foi uma peça teatral. Um concerto de piano a cargo da célebre Guiomar Novaes inaugurou o novo palco. Na ocasião, os 359 lugares foram tomados para a audição de trechos de Gluck, Shumann, Villa-Lobos e Choppin. Hoje, são 337 lugares.

Após a apresentação de Guiomar, ainda em 1967, o Teatro Anchieta sediou o Seminário de Literatura Brasileira e Cinema. Já no ano seguinte, foi realizada a Homenagem a Federico García Lorca, um espetáculo audiovisual. Em maio, o público assistiu o show infantil de mímica Carlitos Vai ao Cinema, com Ricardo Bandeira, e a apresentação da pré-estréia de Capitu, filme de Paulo César Sarraceni, cujo roteiro coube a Paulo Emílio Salles, e os diálogos, a Lygia Fagundes Telles. Lotação esgotada.

Se a peça inaugural foi A Mulher de Todos Nós, o primeiro grande sucesso foi a montagem A Moreninha, escrita em 1944 por Miroel Silveira e estrelada por Marília Pêra e Perry Salles, com direção de Osmar Rodrigues Cruz. O espetáculo, em sua excepcional carreira, consolidou a imagem do Anchieta como "ponto de teatro" e criou condições para formar e ampliar o público teatral, além de semear a concepção de projetos muito importantes nos anos vindouros, como o A Escola Vai ao Teatro e a instauração do CPT, cujo objetivo fundamental é a pesquisa de novas linguagens e formação de quadros técnicos para o teatro.

O novo palco da Vila


Entre as novas salas capazes de receber expressões cênicas diferenciadas, destaca-se o já concorrido teatro do Sesc Vila Mariana.

Provido de recursos técnicos atualizados, oferece 485 lugares, distribuídos entre a platéia e o balcão. O palco tem 14,40m de boca-de-cena, 10,65m de profundidade, 6.70m de altura e 20m de urdimento. Sua localização é também privilegiada, situando-se a poucas quadras do metrô Ana Rosa.



As Leis do Som

Quando se constrói um teatro ou uma sala de espetáculo, uma das providências mais importantes é prever a acústica, ou seja, em definição leiga, a capacidade de escutar o som com clareza em todas as poltronas. Mas determinar uma acústica adequada é tarefa árdua. Depende de fatores científicos, é evidente, mas o ouvido burilado dos grandes maestros escuta nuanças que as leis da física penam para explicar.

"Até meados deste século, a qualidade do som das salas de concerto era alcançada empiricamente. Na tentativa e erro", explica João Gualberto de Azevedo Baring, pesquisador do laboratório de acústica do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, o IPT. "Depois foram desenvolvidas técnicas que determinam cientificamente a possibilidade para uma boa acústica."

Dentre esses fatores, encontram-se o desempenho acústico dos materiais que compõem o ambiente. Madeira, panos e alguns sintéticos confeccionados com esse objetivo absorvem bem o som. "Quanto menor a absorção de sons, maior será a reverberação", explica o especialista. "Numa sala vazia ou em uma catedral, o tempo de reverberação é grande, o que implica a sobreposição dos sons." Esse é o motivo pelo qual as catedrais se prestam para concertos de órgão ou canto gregoriano, de cadência lenta, que utilizam esse recurso na execução musical. Quando o órgão emite notas subseqüentes, elas reverberam longamente nas paredes do edifício e se misturam, compondo um novo acorde. "Já para um discurso ou uma palestra, uma catedral é um péssimo local, uma vez que as sílabas mais fortes sobrepõem-se às mais fracas, causando confusão na mensagem."

Portanto, uma sala de concerto ou um teatro devem ser projetados de acordo com uma função determinada. A Sala São Paulo tem vocação concertística e sinfônica mais adaptada do que para uma apresentação de ópera. Já o Anchieta foi construído de acordo com a acústica exigida pelos diálogos rápidos, curtos e multitonais próprios de uma peça de teatro.

Mas mesmo dispondo de instrumentos tecnológicos que mensuram previamente o projeto acústico mais adequado, muitas vezes o resultado não é satisfatório. De acordo com o professor João Gualberto, para que se aprovasse a acústica do Avery Fischer Hall, em Nova Iorque, foram consumidos US$30 milhões em duas reformas frustradas pelo perfeccionismo de ouvidos bem dotados.


 

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