Postado em 02/03/2010

Seja sempre o que quiser ser
por Marina Herrero
Há lugares que são propícios para pessoas semelhantes se encontrarem e se reunirem. Uma amiga considera que Trancoso (BA) é o “Quilombo das Negrovelhas”, ou seja, o quilombo das “ovelhas negras das famílias”, como diz a música da Rita Lee. Muitas pessoas que compartilhavam as mesmas ideias, que fugiam de uma sociedade que lhes impunha padrões para elas indesejáveis, por lá se agruparam.
Falei em quilombo como lugar que remete ao imaginário do Quilombo dos Palmares – às comunidades que lutaram para manter sua particular visão de mundo. Elas se relacionaram com as comunidades envolventes, compartilharam valores e aspectos peculiares de uma organização social que lhes conferiu a coesão necessária para resistir às investidas de outros segmentos.
Na cidade de São Paulo e em outras metrópoles não se fala muito de quilombo, mas de “tribos urbanas”: aquelas que se encontram na tentativa de afirmar sua identidade e ganhar aceitação. Vale ressaltar que as “ovelhas negras” de Trancoso desfrutam não somente de aceitação, como também dispõem de público para festejarem os seus feitos; lá, podem “ser o que quiserem ser”.
Achei instigante o uso da expressão quilombo, nesse sentido de lugar, em vez de tribo. No fim das contas, o termo “tribo” carrega consigo um sentido muito mais amplo, pois faz referência a formação social, território, descendência, língua e cultura. Nos tempos que correm, trata-se de um ressurgimento de valores ancestrais de identificação local onde a ordem se mantém às vezes sem um poder central.
As tribos urbanas se identificam por meio de elementos diversos, como relacionamentos, emoção, paixão, música, moda, visão política, tatuagens etc. Estão próximas do conceito de clãs e participam do reencantamento do mundo. São ao mesmo tempo modernas e efêmeras. Seus laços são conceituais; portanto, um indivíduo pode pertencer a várias e diferentes tribos, simultaneamente, compartilhando emoções e apropriando-se de signos.
Mas o que importa aqui não é o conceito das palavras, e sim a prática do viver junto.
Enchemos a boca com facilidade para falar sobre diversidade, às vezes com pouca responsabilidade sobre suas consequências quando valorizamos essa ideia. Acho que pouco se faz ainda para que a diversidade cultural seja reconhecida efetivamente como parte do exercício diário da nossa vida no mundo, que tem a ver com o nosso comportamento, com as nossas atitudes e formas de relacionamento.
Na prática, é preciso perguntar-se: com quais atos contribuímos para uma cultura da convivência do diverso? E com quais atos contribuímos para uma cultura da paz?
Como eixo importante de sua missão socioeducativa, o Sesc São Paulo vem realizando ações voltadas para a cultura da convivência do diverso em nossa sociedade, por intermédio de seminários, encontros e sensibilizações, criando oportunidades de nos confrontar com nossos preconceitos. São ações de valorização, de reconhecimento e respeito; às vezes intentam legitimar as diferenças ou afirmar as identidades para que cada indivíduo possa se expressar, sem, contudo, cair na rede de uma assimilação que anule qualquer dimensão das experiências constituintes – sociais e históricas, culturais e identitárias – desse indivíduo em questão.
Nas tribos urbanas há “rappers”, “straight edgers”, “pixadores”, “clubbers”, “surfistas”, “frequentadores de forró universitário”, “circuito black”, “playboys”, “pattys”, “muçulmanos”, “bolivianos”, “vegans”, “geeks”, “corinthianos”, “descolados”, “hippies”, “instrumentistas”, “frequentadores de raves”, “regueiros”, “grunges”, “góticos”, “emos”, “roqueiros” e muitos mais.
São Paulo, onde moro, é um prato cheio de diversidade. Eu mesma faço parte dela: imigrante, coreógrafa vinda da Argentina, ou seja... “das artes”. Fui recebida aqui de braços abertos faz quase 30 anos e o que acho mais importante dessa vida que me tocou viver é que sempre fui o que quis ser, com minha cultura e vivendo uma cultura alheia, emprestada dos brasileiros. É isso exatamente que as tribos urbanas reclamam: ser sempre o que quiserem ser, na paz... é claro.
Marina Herrero, coreógrafa, indigenista, é assistente da Gerência de Programas Socioeducativos do Sesc São Paulo