Postado em 02/03/2010
Ah!
por Nelson de Oliveira

Rubens estava doente.
Sim, definitivamente doente.
Primeiro: calafrios, febre alta, dor de cabeça, dor de garganta.
Depois: tosse seca, náuseas, vômitos, mal-estar e dores abdominais, além de, é claro, um brilho estranho no olhar.
Muito estranho mesmo. Seus olhos pareciam em brasa.
No início ninguém deu a mínima para o fato.
Ninguém mesmo.
Nem Ana Maria.
Mas isso já estava se transformando numa coisa incômoda.
Rubens saltitava pela sala como um balão de gás, tocando no lustre, no topo da estante, quebrando vasos e enfeites.
Por que, meu Deus? Por quê?, gritava Ana Maria, irritada, sem saber o que fazer.
Vez ou outra parava de rir e começava a chorar convulsivamente.
Chama o médico, pelo amor de Deus!, gritava.
Estava tão inchado que parecia que iria estourar ao menor toque.
Chama o mééé-dico!
Quicava de um canto para o outro, esbarrando em tudo: na quina da mesa de centro, no vaso de begônias, no abajur. Tais encontrões provocavam-lhe uma dor azeda, chatinha.
De repente os calafrios, a febre alta, a dor de cabeça e de garganta desapareceram.
Parou de tossir, não sentia mais náuseas, não vomitava mais, o mal-estar e as dores abdominais também sumiram. Tudo voltou ao que era antes, menos o estranho fulgor nos olhos.
Então seu corpo começou a brilhar como uma lâmpada de duzentos watts.
Uma verdadeira bola de luz.
Não se viam mais rosto, nem pernas, nem braços. Não se via mais nada em parte alguma que pudesse lembrar, mesmo que de leve, um ser humano.
O que é isso, Jesus?
Apenas um clarão gargalhante, em lágrimas, aos berros:
O méééééé…
Ana Maria ainda tentou fugir, ela realmente tentou fugir, mas a porta estava trancada e a chave não estava à mão. Maldita fechadura!
Rubens, ou o que antes havia sido o homem chamado Rubens, no seu ziguezague enlouquecido pelos quatro cantos da sala, sem querer esbarrou no braço da mulher.
Maldita fechadura.
Em pouco tempo Ana Maria também começou a inchar e a saltitar pela sala.
Calafrios, febre alta, dor de cabeça, dor de garganta. Tosse seca, náuseas, vômitos, mal-estar e dores abdominais, além de, é claro, um brilho estranho no olhar.
Estava contaminada.
De uma hora pra outra a casa toda se viu tomada por duas bolas de luz, espalhando sombras pelas paredes, tostando tudo em que encostavam.
Não havia mais riso nem choro. Não havia mais pedidos de socorro.
Quicavam, e a cada novo salto uma mancha de carvão ficava carimbada no assoalho, no sofá, no tapete, nas paredes e onde quer que tocassem.
O médico surgiu nesse instante, todo descabelado, pondo os bofes pra fora. Surgiu como um paraquedista, alheio a tudo, e logo também foi contaminado.
Que beleza! Três lâmpadas incandescentes no maior pingue-pongue, tostando as paredes.
Não eram mais humanas essas figuras. Não, de jeito nenhum, pois ardiam como ardem tão-só as labaredas mágicas dos contos de fada. Todavia, fossem lá o que fossem, um sentimento delicioso e profundo aos poucos ia tomando conta de suas entranhas, afogando-os em prazer e felicidade.
Ah, sim, uma felicidade extrema, indizível!
Devagar transformavam-se em entidades celestiais, prenhes de alegria. Por isso riam tanto.
Riam, porém agora no mais absoluto silêncio. Os três ao mesmo tempo, de fato. Afinal, todo silêncio é uníssono.
Depois de incinerar todos os objetos da sala, conseguiram abrir um buraco na parede frontal e ganhar o alpendre.
Au, au, au. Preso por uma corrente a um toco enterrado no jardim, Roque latia.
Tocado pela força sutil das bolhas incandescentes, em pouco tempo deixou de sentir náuseas e, ai, ai, ai, au, au, au, também começou a flutuar e a brilhar.
Roque, por sua vez, tocou no senhor Aristides, 62 anos, que saía da padaria, contaminando-o no ato. O senhor Aristides, por sua vez, tocou em Carlota, 17, seu Valdir, 55, Luís Antônio, 14, e dona Josefina, 43, que aguardavam o ônibus no ponto em frente à padaria. Todos passaram a se tocar entre si e a tocar as demais pessoas na rua: dona Josefina contaminou o senhor Moacir, 37, e dona Reinalda, 51. Luís Antônio entrou num jardim de infância e contaminou as professoras Carla, Paula e Antônia, 18, 19 e 21, respectivamente, e o faxineiro Austregésilo, 49. Seu Valdir contaminou todos os funcionários e clientes de um posto de gasolina. Carlota contaminou o senhor Valdofrido, 38, dono de uma banca de jornal, o senhor Laércio, 42, taxista, e dona Margarida, 35, dona de casa.
Que alegria!
Uma multidão de bolonas, saltitantes como pipocas, passou a saltitar pela rua, ora descendo, ora subindo, contaminando todos em que encostavam.
Sim, dezenas de grandes bolhas de sabão, lépidas e evanescentes, espalhadas pela rua, queimando árvores, postes, automóveis e gente desavisada.
Um ônibus que ia pra São Paulo freou abruptamente na saída da rodoviária. Confusão, pânico. Todos os passageiros fecharam o mais rápido possível as janelas e cortinas.
Ó esperança vã!
Uma das bolas — a mais pequenina delas — conseguiu, depois de bater com insistência na carcaça de metal, entrar sorrateiramente pelo tubo de descarga da privada.
Foi um deus-nos-acuda.

O veículo, de qualquer maneira, seguiu viagem e não se falou mais nisso.
Seis horas mais tarde, no Rio de Janeiro, um ônibus cheio de paulistanos luminosos passaria a ser, logo na chegada, a sensação da primeira página de todos os jornais.
Em Brasília, balões fosforescentes foram vistos sobre a praça dos Três Poderes. O presidente convocou, no meio da noite, as forças armadas.
Em Salvador, fecharam o Pelourinho. Pouco depois, um enxame de bolhas voadoras tomou conta de toda a Cidade Baixa, espantando turistas, taxistas e batuqueiros. Oxalá, Xangô, Oxossi. Um horror!
Enquanto isso um voo sem escalas partia do aeroporto Dois de Julho direto pra Nova York.
Rapaz, qual não foi a surpresa dos nova-iorquinos ao ver desembarcar, em plena Manhattan, um bando de fogos de artifício!
O Central Park se viu rapidamente invadido. Uma balbúrdia dos diabos. Gente pra lá e pra cá. As árvores ardiam, tomadas por uma coloração fantasmagórica.
Em Londres, o palácio de Buckingham ficou em polvorosa. A rainha, a rainha! Deus salve a rainha!
Minha tia Gertrudes, uma londrina de 66 anos, nem se deu conta do que a atingiu, pouco antes de começar a flutuar diante da tevê ainda ligada, pouco antes de perder a consciência e se converter num grande dente-de-leão amarelo e quente, pouco antes de sair pela janela, aos risos.
Pobre tia Gertrudes. Nunca a esquecerei. Meu primeiro autorama foi-me dado por ela numa belíssima noite de Natal. Nevava? Nevava.
Milhares de japoneses saíram do metrô de Tóquio completamente ensandecidos.
Milhões de chineses, no que antes havia sido a China, milhões de indianos, no que antes havia sido a Índia, encheram os céus da Ásia com um brilho incomum, transcendental.
Como que formada por novos bárbaros, rumava para o norte essa nuvem exótica, esotérica, deslizando poucos metros acima dos picos caucasianos, em direção a Moscou. Rumava ao sabor dos ventos e das tempestades, sobrevoando cidades, planícies e montanhas russas, espalhando faíscas e corre-corres.
Chamemos, por conveniência, essas esferas fumegantes de flutuadores. Apenas isso: flutuadores.
Nuvens de flutuadores foram vistas sobre os Andes e sobre a Amazônia. Outro tanto deles havia sido detectado por radar sobre o mar de Lazarev, na Antártida, e sobre o deserto de Gobi. Isso durante semanas!
O que estariam fazendo nesses locais tão ermos? Que impensáveis quefazeres levariam seres tão voláteis aos recônditos do planeta?
Estariam eles ocupando alguma posição tática preestabelecida, sideral, que os poria em acordo com o diagrama celeste desenhado pelas doze constelações do zodíaco,?posição esta de ataque, de conquista, vaticinada há séculos pelos profetas e escribas do antigo Egito?
Ou estariam apenas seguindo, sem rumo definido, preguiçosamente, o movimento da brisa mais próxima?
Nelson de Oliveira é autor, entre outros livros, do romance A Maldição do Macho (Record, 2002)