Postado em 27/06/2008

O tabu e a verdade
por Fani Hisgail
O assunto é delicado, mas essencial, sobretudo, para pais e educadores: a pedofilia. Quais questões cercam esse ato abominado pela sociedade atual, mas que a acompanha desde antes da caracterização da infância, na Idade Média? Especialista no tema, a psicanalista Fani Hisgail, coordenadora do Centro de Estudos em Semiótica e Psicanálise da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, é autora de Pedofilia: Um Estudo Psicanalítico (Editora Iluminuras, 2007). No livro, a professora rompe esse tabu: “Eu precisava encontrar um jeito de poder falar disto sem ser atacada”, comenta. E propõe uma análise ampla acerca do abuso sexual, da pedofilia e a da pornografia infantil, mostrando também por que tais assuntos vêm recebendo cada vez mais atenção por parte da mídia e das autoridades.
No encontro que teve com o Conselho Editorial da Revista E, a pesquisadora falou, entre outros assuntos, sobre a origem do conceito de infância que conhecemos hoje. “A criança, anteriormente [antes da Idade Média] desprezada e negligenciada, passou a ter um valor afetivo para os adultos”, revelou. Também explicou a relação entre a pedagogia e a sexualidade infantil e esclareceu alguns pontos sobre o raciocínio e o perfil dos pedófilos. “Em muitos casos, esses adultos são íntimos ou pertencem à constelação familiar”, disse. “Inclusive, o que o ato pedófilo evoca é que a criança precisa saber ‘como são gostosas’ as sensações proporcionadas pelo toque de um [outro] adulto, já que o pai não faz isso com ela. Ou seja, o pedófilo põe em questão a função paterna (...).” A seguir, trechos da conversa.
Despreparo da sociedade
Na história das mentalidades, o primeiro sentimento de infância, segundo Philippe Áries, autor do livro História Social da Criança e da Família [Editora LTC, 1981], surgiu no interior da família na sociedade medieval. A criança, anteriormente desprezada e negligenciada, passou a ter um valor afetivo para os adultos, que temiam perdê-las por doenças. Documentos históricos comprovaram que, no fim do século 16 e começo do século 17, as brincadeiras e os gestos sexuais entre adultos e crianças pareciam perfeitamente naturais, diferentemente do sentimento moderno de infância, que salvaguarda os menores do erotismo do adulto.
Na década de 1970, o [editor] britânico John Stamford lançou o primeiro guia turístico para gays, Spartacus. Mais de 150 países receberam a tradução da obra, sendo que, mais tarde, descobriu-se que havia uma linguagem cifrada para os pedófilos, indicando como e onde encontrar crianças para a satisfação sexual de adultos. Com a pornografia infantil eletrônica, as denúncias de exploração sexual infantil passaram a constituir interesse da mídia e dos leitores. A sociedade tomou consciência dos perigos que a infância sofre atualmente, no que concerne às modalidades de encurtar e espremer as fases do desenvolvimento psicossexual infantil.
O mal-estar que o ato pedófilo produz na sociedade, na comunidade, na família e na escola revela em que medida os pais e os educadores se sentem despreparados para lidar com o fenômeno. A sexualidade humana revela-se como um enigma, e adultos e crianças vivenciam o florescer da libido (energia sexual), segundo o modo pelo qual a cultura representa o pudor e o obsceno das relações humanas. Na pedofilia, a criança é convocada a ser o objeto de desejo sexual do adulto, e, na pornografia, as imagens da nudez infantil associadas à expressão libidinosa do adulto demonstram ser esse um sintoma da cultura.
A pedofilia é classificada pela American Psychiatric Association como um transtorno da preferência sexual, envolvendo tanto o incesto como o abuso sexual infantil extrafamiliar. Do ponto de vista da psicanálise, a pedofilia é uma perversão sexual, de modo que o adulto toma a criança como objeto erótico.
Sexualidade infantil
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A psicanalista Fani Hisgail esteve presente na reunião de pauta do Conselho Editorial da Revista E em 20 de maio de 2008 |
“O mal-estar que o ato pedófilo produz na sociedade (...) revela em que medida os pais e os educadores se sentem despreparados para lidar com o fenômeno”