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Ciência

Postado em 27/06/2008

Admirável mundo novo

O cientista norte-americano Eric Drexler desvenda o mundo das moléculas e aponta quais as futuras potências na área da nanotecnologia

 

Você já ouviu falar em nanotecnologia? Quem pensou que se trata de uma “tecnologia pequena” não passou muito longe da verdade. Essa ciência – que está associada a diversas áreas, como a medicina, a eletrônica, a computação, a física, a química, a biologia e a engenharia – caracteriza-se pela pesquisa e pela produção em escala nano, ou seja, escala atômica. Os princípios básicos são a construção de nanoestruturas e o uso de novos materiais com base em átomos – que alguns cientistas definem para os leigos como “os tijolos da natureza”. Um desses cientistas é Eric Drexler, engenheiro e nanotecnólogo norte-americano que esteve no Sesc Pinheiros, em 30 de maio, para explicar o complexo universo das nanopartículas. “Nós vivemos em um mundo feito de átomos e moléculas”, disse. “Feito de blocos de montar, de estruturas e de tecnologias, como a dos nossos próprios corpos.” Foi fazendo analogias entre as tecnologias criadas pelo homem e o funcionamento do corpo humano que Drexler apresentou a uma platéia formada por entendidos e curiosos os rumos da capacidade humana de criar e desenvolver novas formas de atuar no mundo. “As proteínas, por exemplo, são partículas de incríveis qualidades de engenharia e que podem ser fabricadas por um processo atômico”, exemplificou. “São os componentes da máquina molecular do nosso corpo. E isso não é criação humana, é a natureza que nos mostra.” Durante a palestra, o cientista falou sobre as futuras potências na área da nanotecnologia, sobre quais os possíveis riscos da nova ciência e contou um pouco da história da tecnologia. A seguir alguns trechos:

Vamos comparar duas revoluções:

Primeiro a Revolução Industrial – Houve um tempo em que tudo era feito diretamente pelas pessoas, pelas mãos humanas. Os ferreiros trabalhavam com seus martelos e davam forma ao metal. No entanto, ocorre que os ferreiros usavam suas ferramentas para fazer outras ferramentas, para o mesmo fim. Eles evoluíam à medida que conseguiam fazer ferramentas melhores, mais úteis, e que servissem para outros fins. Passo a passo essa tecnologia foi se tornando mais avançada, até que se chegou ao nível da fabricação de coisas por meio das máquinas, que já não mais usavam a força humana para funcionarem; elas se tornaram automatizadas. Hoje temos uma automação de ponta e uma grande precisão nos processos de fabricação. Se você olhar em volta, verá que tudo o que o cerca nessa sala, além das pessoas, foi feito por máquinas. E você verá que, finalmente, o modo como essas coisas foram fabricadas substituiu virtualmente todas as outras maneiras de fazer coisas.
A outra revolução é a digital, que começou com a computação analógica, com mecanismos analógicos de computação – vocês já devem ter ouvido falar daqueles computadores que ocupavam salas inteiras. Aí chegou a tecnologia digital e mudou o rumo das coisas – por exemplo: todas as empresas que fabricavam calculadoras portáteis foram à falência. Hoje o processamento de informação de forma digital substituiu virtualmente todas as outras maneiras. Tocar música? Digitalmente. Fazer vídeos e assistir a eles? Digitalmente. Computadores de laboratório? Claro, digitalmente. E assim por diante. 
Resumindo, a Revolução Industrial mudou a forma de processar matéria; a digital, de processar informação. O que procuramos, agora, para o futuro é uma revolução digital na maneira de processar matéria. Uma combinação dessas duas revoluções que possa resultar em algo muito diferente, uma nova maneira de fabricar coisas. Atualmente, a raça humana é muito ruim nisso. Quase tudo o que se tem pensado hoje não pode ser feito porque não conseguimos unir átomos e moléculas de formas mais complexas. Contudo, podemos ver o quão avançados e mais eficazes os sistemas de produção poderão ser. Só que, para isso, precisamos igualmente de sistemas de produção mais avançados e eficazes. Vamos comparar a tecnologia com uma árvore – e tudo o que você vê a sua volta são as folhas e frutos dessa árvore. As coisas são feitas por máquinas que, por sua vez, foram feitas por outras máquinas e assim sucessivamente. Se você olhar para trás, para o lugar de onde os produtos de hoje vieram, encontrará as facilidades e os produtos criados na década passada. E, atrás disso, há as facilidades e produtos criados na década anterior à passada. Cada momento histórico da produção trabalhando de olho no momento seguinte. Até que, quando você chega à raiz dessa árvore, você encontra o ferreiro e seu martelo.

Perdas e danos

De fato, há algumas histórias curiosas sobre questões relacionadas à toxicidade ou danos causados por nanopartículas, nanofibras e coisas desse tipo. Alguns desses materiais possuem as mesmas substâncias dos materiais usados fora da nanotecnologia. Há algumas telas [como as de celular, por exemplo] que possuem nanopartículas de dióxido de titânio, e há telas, hoje, que possuem esse elemento em grandes quantidades. Nanotubos de carbono são como o grafite, que é uma substância familiar usada nos lápis, só que em maior número. As companhias que trabalham nessas áreas diriam que as nanopartículas e as nanofibras são maravilhosas, que elas são novas e têm um incrível potencial de trazer novos benefícios. E se você perguntar a elas se já que são novas e diferentes elas podem também apresentar propriedades danosas novas e diferentes, nesse ponto elas dirão: “Ah, não, mas é apenas grafite, é seguro”. Elas se baseiam num consenso com o qual o mercado concorda. E como concorda!
Mas essa é a típica discussão que envolve novos materiais e substâncias, e não é um assunto novo. Há aspectos específicos da regulamentação científica que são difíceis. Mas se olharmos para trás, para aquilo com que os profissionais estão lidando, os detalhes etc., trata-se apenas de outro caso de pessoas fazendo coisas novas, e essa coisa, esse material, possivelmente pode ter efeito tóxico. Mas os governos estão atuantes, recursos financeiros têm sido aplicados, as pessoas que regulamentam esse tipo de atividade estão alertas e os grupos ambientalistas estão prestando atenção. Imagino que as coisas serão tratadas de forma satisfatória.

Futuras potências

Eric Drexler, que apresentou palestra no Sesc Pinheiros, em 30 de maio

 

A questão da motivação e a da capacidade estão combinadas. A motivação para progredir em avanços em nanotecnologia é extremamente grande – há melhores materiais, melhor produção das fontes necessárias e por aí vai. Os três requisitos são: motivação, visão e liderança, e capacidade técnica e científica. E nós vemos grandes quantidades dessas características em lugares como os Estados Unidos, a Europa, a China e a Índia. Penso até que devemos citar a Índia em particular, porque ela sobressai no quesito visão e liderança. O doutor Abdul Kalam [11º presidente da Índia, de 2002 a 2007], que levou a Índia a lançar um míssil em seu programa de desenvolvimento espacial – ele foi o técnico responsável pela empreitada –, é um homem que ajudou a impulsionar o programa de desenvolvimento nuclear de seu país. Ele não era o primeiro-ministro da Índia, mas desempenhava uma posição muito significativa. Ele dizia repetidamente, em lindos discursos, que a nanotecnologia era o futuro da Índia. E quando falava sobre isso citava, especificamente, o seu livro sobre manufatura molecular, de 1992 [Nanosystems – Molecular Machinery, Manufacturing and Computation, sem tradução para o português], como uma das leituras que lhe despertava o interesse. Por isso, digo que esses países têm uma motivação e uma capacidade de avançar, especificamente nessa área. Espero que toda essa motivação se traduza em esforço. O progresso desses países será acelerado pelo avanço tecnológico.

 

 

“O que nós procuramos agora para o futuro é uma revolução digital na maneira de processar matéria. Uma combinação dessas duas revoluções [industrial e digital] que possa resultar em uma nova maneira de fabricar coisas”

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