A pergunta é delicada: a pressa de alguns pais em alfabetizar seus filhos cada vez mais cedo pode prejudicar o desenvolvimento das crianças? Algumas respostas podem ser encontradas nos dois artigos inéditos escritos por especialistas na área. A doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo (USP)
) resgata o papel social da educação e é cautelosa quanto ao assunto. "O esforço intelectual despendido pelas crianças precocemente alfabetizadas (...) pode comprometer os vínculos desse indivíduo com o passar dos anos de escolarização." Já a professora
, da escola Estilo de Aprender, em São Paulo, relembra as origens da educação e acredita que o processo de alfabetização deve ser uma parceria entre a família e a escola, sem perder de vista as necessidades individuais da criança. "O momento de leitura deve acontecer em paralelo à brincadeira", recomenda. Leia a íntegra a seguir.
Quando uma criança se torna leitora antes do esperado...
por Andrea Pires Magnanelli
Educação ao longo dos anos - O campo educacional passou por muitas transformações ao longo do século. Na Idade Média, o acesso à língua escrita era restrito ao clero, como bem mostra o filme O Nome da Rosa. Aquele que entrava na formação religiosa teria, então, acesso ao mundo das letras. Porém, com o surgimento da burguesia, com a urbanização e o desenvolvimento, essa classe social sentiu necessidade de ingressar no mundo letrado.
As escolas surgem para atender aos interesses dessa burguesia em expansão.
Cabe lembrar que o termo "escola" vem do período helenístico e significa "lazer, tempo livre". Importante também notar que as primeiras escolas brasileiras foram criadas pelos jesuítas com o objetivo de catequizar e "humanizar" os índios. A noção da "escola para todos" apareceu muito tardiamente, tanto nos países europeus, como no Brasil. Aqui, apenas no início do século 20, decorrente da industrialização no país. Nesse pequeno recorte, pode-se constatar como o fator econômico influencia as transformações ocorridas na educação e, conseqüentemente, também nas escolas. No Brasil, outra influência exercida sobre a educação ocorre a partir da década de 1960.
Com a ditadura militar, a predominância no ensino passa a ser o raciocínio técnico-científico. O currículo escolar começa a ser alterado, com base nessa concepção proveniente dos Estados Unidos. Outro campo também passa a exercer diversas e poderosas influências - a psicologia, como veremos a seguir. Nos últimos anos, a educação ganha a dimensão de bandeira política.
Um dos maiores problemas do Brasil na área educacional é o analfabetismo e o analfabetismo funcional. Este último diz respeito às pessoas que, apesar de decodificarem o código da escrita, não sabem interpretar o que lêem. Ou seja, essa pessoa é capaz de reconhecer as letras e, até mesmo, ler palavras, porém, na hora de ler um texto maior ou criar algo além de um simples bilhete, não consegue.
Embora decodifique as palavras escritas, foge-lhe a compreensão do sentido do que é escrito. As formas de alfabetizar - Diferentes correntes e formas de alfabetização existiram e continuam a ser introduzidas no sistema de ensino brasileiro. Entre as concepções de maior destaque estão o sistema fônico e o construtivismo. Uma disputa acirrada sobre qual delas tem maior eficácia permeia até hoje o campo educacional.
A década de 1970, com o crescimento do uso da concepção construtivista nas escolas, foi outro momento de transformação na educação brasileira. Professores começaram a estudar esse novo pensamento e passaram a aplicar seu método de aprendizagem nas escolas.
Paulo Freire foi importante na década anterior por propor um novo olhar para a alfabetização de adultos. Depois de alguns anos, o ensino público, que ainda fazia uso das cartilhas, sofreu uma grande mudança com a criação dos Parâmetros Curriculares Nacionais. Atualmente, a maior discussão é sobre a escolha do método ou concepção que será utilizado nas escolas públicas. No entanto, é de grande importância entender um pouco essas correntes.
Há mais de 50 anos, foi criado o método alfabético-silábico, conhecido como tradicional aqui no Brasil.
A autora da cartilha, a educadora Branca Alves de Lima, encontrou um meio para facilitar o aprendizado das letras e a conseqüente alfabetização das crianças.
A partir da associação de letras a imagens (G de gato, B de barriga...) a criança aprenderia a escrever as sílabas e, posteriormente, pequenas palavras.
Essa aprendizagem se dá por "famílias": BA, BE, BI, BO, BU, por exemplo.
A junção das sílabas forma palavras e pequenos textos que acompanham cada etapa. Por exemplo, na família do B, "o boi baba"; ou do V, "Eva viu a uva".
Segundo pesquisadores, esse método difere do fônico, que pretende que as crianças associem grafemas [unidade de um sistema de escrita, que no sistema alfabético corresponde à letra] e fonemas [em uma língua natural, é a unidade sonora distintiva (mas sem significado próprio); por exemplo, os sons de /f/ e /v/, que permitem diferençar o significado das palavras faca e vaca] para se tornarem leitoras. Esse estudo é defendido por teóricos da França, Inglaterra e dos Estados Unidos.
Aqui no Brasil, Fernando Capovilla é o grande defensor da inserção desse método de alfabetização nas escolas brasileiras. Durante a década de 1970, a psicóloga e pesquisadora argentina Emilia Ferreiro realizou um estudo que revolucionou o modo de pensar a alfabetização até então.
Baseada nos estudos de Jean Piaget, de quem foi orientanda nos anos 60, criou, juntamente com outras pesquisadoras, a psicogênese da língua escrita. Seus estudos partem do pressuposto de que a criança, ao ingressar na escola, já traz consigo repertórios de escrita e de leitura. A criança passa por algumas hipóteses de escrita antes de se tornar um leitor convencional. A partir desses estudos, surgem professores que dirigem outro olhar à alfabetização. É importante ressaltar que os estudos realizados por Ferreiro não se tornaram um método. Não há o método construtivista. Há uma concepção construtivista em que o papel do professor é oferecer oportunidades de aprendizado e fornecer subsídios para que a criança avance nas suas hipóteses até se tornar uma leitora.
Não há o trabalho com cartilhas ou livros didáticos.
O professor cria o material conforme a demanda do seu grupo. Dessa forma, a alfabetização não ocorre apenas quando a criança tem idade para ser alfabetizada. A escrita invade o território da sala de aula, invade a escola. O professor precisa, então, fornecer diferentes gêneros textuais. Começa, assim, o trabalho com contos de fada, parlendas, músicas, fábulas e jornais. Em nossa experiência na escola Estilo de Aprender, o mundo escrito está presente em todas as salas de aulas, em todo o espaço escolar. Tanto os estudantes do grupo 1 (crianças de 1 ano a 2 anos), quanto os do 4º ano do ensino fundamental têm acesso aos diferentes gêneros textuais. Cada grupo terá seu foco de trabalho; por exemplo, nos grupos iniciais da educação infantil, o acesso às letras ocorre por meio das rodas de história (que acontecem diariamente), dos nomes dos estudantes que são encontrados pela sala, uma receita realizada pelo grupo que é afixada no mural...
Esse é um fato importante, já que muda a perspectiva de uma alfabetização formal que aconteceria apenas quando o estudante completa 6 ou 7 anos de idade.
A alfabetização é um processo que ocorre desde os primeiros anos e envolve algo mais que a decodificação dos símbolos. Algo que vai além da transformação do fonema em um grafema. Para isso, é importante o estudante ter acesso, tanto na escola, quanto em casa, a diferentes gêneros textuais.
Largue o livro e vá brincar! Será? - Para cada grupo, existem objetivos a ser alcançados ao final de um ano. No grupo 4 (crianças de 4 anos), inicia-se a introdução das primeiras letras. É também nesse momento que o estudante aprende a escrever o nome formalmente (mesmo que isso se dê inicialmente por cópias), aprende as letras do alfabeto, diferencia seu nome dos nomes dos outros colegas.
A partir do grupo 5 (crianças de 5 anos), existe maior exigência para a aproximação da escrita infantil com a escrita convencional. Não é obrigatório que o estudante entre alfabetizado no ensino fundamental, mas as intervenções do professor visam a uma reflexão da escrita realizada pelo próprio estudante.
O professor provoca, instiga esse estudante.
Porém, o que fazer quando algo escapa do planejamento feito inicialmente pelo professor? O que fazer quando o estudante, que deveria aprender a escrever o nome e a reconhecer algumas letras, torna-se um leitor?
O professor é pego de surpresa e podem surgir várias dúvidas entre os familiares dessa criança: adiantar o grupo, incentivar o brincar, incentivar a leitura, será que ficará afastado dos colegas...
A parceria entre escola e família é fundamental nesse momento. O papel do professor estará além daquele planejado no currículo. O professor precisará de jogo de cintura ao realizar aulas em que esse estudante não comece a se sentir sem desafios. Quando um professor pensa em uma lição ou uma atividade, deve imaginar algo que não seja fácil ou difícil demais.
Quando um estudante começa a ler e a escrever com antecedência, em relação a seu grupo, o professor deve lembrar de criar possibilidades em que esse estudante não se sinta deslocado por realizar algumas lições diferenciadas. Nesse momento, é providencial a parceria escola/família.
Muitas vezes, há o pensamento: ele está lendo, e agora? A leitura irá substituir os momentos de brincadeira, tanto em casa quanto na escola? A brincadeira deve sempre ocorrer. Tornar-se uma criança leitora de forma alguma substitui a brincadeira, independentemente da idade.
É importante que a alfabetização não seja imposta pelos familiares. Acesso aos livros e à cultura da escrita/leitura é de grande importância para a formação de um bom leitor. Um leitor que, além de decifrar o código da escrita, possa entender a idéia do autor e criar idéias a partir dela. Concordar, discordar, duvidar.
O momento de leitura deve acontecer em paralelo à brincadeira. Professores e familiares devem incentivar as brincadeiras e jogos. Fazer parte desses momentos. Não haver troca de brinquedos por livros, mas uma parceria.
O professor cria um território em que esse estudante pode sentir atravessamentos, sensações, idéias, experimentações, ilusões, escutas com a pele, fantasias, escrituras, leituras, desenhos, pinturas, invasões, choques, diferenças, divergências, linguagens conhecidas e estrangeiras, suspeitas, desencontros, impossibilidades, um tempo de ler, mas também um de brincar, correr, jogar, fantasiar...
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Andrea Pires Magnanelli é professora da Escola de Educação Infantil Estilo de Aprender, em São Paulo
Em cena: alfabetização precoce
por Glória Maria Cordovani
Sabemos que o assunto educação é o tendão de Aquiles no conjunto de problemas graves que emperram planos de desenvolvimento, controle da violência, erradicação da pobreza, em meio a tantos outros que afetam a melhoria da qualidade de vida no Brasil. É profundamente desanimador acompanhar nossos atrasos, quando comparamos nossos dados com os de outros países, por vezes mais pobres, que lutam para oferecer qualidade de vida escolar às suas crianças. Nos últimos 50 anos, por força de um desmonte do sistema educacional, agravado pela concentração de moradias nos grandes centros urbanos, aumentou significativamente nosso contingente carente de escolarização de qualidade. Nossos governantes exibiram diferentes planos de alfabetização, inclusão e avanço escolar, em meio a certa desordem na organização das prioridades do setor, de maneira que a escola pública se tornou refém de encenações intimidadas por um espetáculo de explosão educacional que permaneceu e se mantém no ensaio.
Melhor dizendo: o Brasil ficou devendo um projeto consistente de recuperação, que pudesse reverter o cenário de ignorância e analfabetismo.
Com relativa freqüência, o noticiário nos dá informações a respeito de educadores obstinados que se dedicam à difícil tarefa de reduzir o mapa do fracasso das nossas escolas, apesar dos baixos salários, do escasso estímulo cultural e da pobreza da capacitação profissional que recebe. Em decorrência disso, uma lista conhecida de dificuldades, que têm sido objeto de teses universitárias e de pesquisas de entidades responsáveis, comprova a certeza de que dependemos do esforço conjunto e da boa vontade de todos os comprometidos com a educação, para criar condições de nos encaminhar de maneira otimista em direção à promoção universal da educação básica, conforme estabelece a Constituição Federal.
Muitos de nós pagaríamos impostos com satisfação, caso tivéssemos escolas de qualidade por todos os cantos do país! Não poderíamos comentar o assunto "escola" sem tocar no aspecto que, neste momento, chama a atenção dos meios de comunicação, dado o interesse de pais e educadores.
Tem sido grande a procura e defesa dos que apostam no estímulo à alfabetização precoce das crianças. Isto quer dizer que uma criança pode aprender a ler muito antes dos 6 e meio ou 7 anos de idade.
Se um pai procurar escola infantil para seu filho e assuntar a respeito, certamente colherá respostas positivas: o discurso de quem oferece o serviço especializado atenderá à demanda: "Sim, nós temos profissionais habilitados a acompanhar e motivar seu filho..."
Não temos dúvida de que o tema é fenômeno recorrente na escola privada, tendo em vista o acúmulo de estímulos dados por babás e familiares a seus pequenos, como se a predisposição à alfabetização pudesse ser um privilégio a mais dos bem-nascidos.
Bem sabemos os riscos: em condições favoráveis, a criança bem motivada corresponderá à risca ao desejo de imitar o adulto que a estimula a ler e, se possível, a escrever. Imaginemos a repetição a que estará sujeita para apresentar resultados satisfatórios, num tempo em que deveria privilegiar as brincadeiras para ampliar seu campo imaginário, antes de mais nada! Cada criança demanda sérios cuidados de observação para que seu processo de inserção no mundo das palavras seja respeitado. Por vezes, a criança demora a familiarizar-se com a estrutura da vida escolar. O tempo é grande companheiro a favor do desenvolvimento da socialização nos primeiros anos da criança, aspecto mais importante do que oferecer a ela um curriculum com certificações de conquistas e troféus que possam adestrá-la a viver um esquema discutível de formação antecipada. Os estudos apontam exatamente o oposto do esperado: o esforço intelectual despendido pelas crianças precocemente alfabetizadas, por meio de estímulos positivos e aplausos familiares na infância, pode comprometer os vínculos desse indivíduo, com o passar dos anos de escolarização, em grande parte das crianças submetidas a esse processo.
A verdade é que na juventude, e mesmo na vida adulta, parcela significativa desse contingente conheceu prejuízos como o déficit de atenção ou perda de motivação com o cansaço da vida escolar.
Com o número de filhos reduzido e o tempo de brinquedo gradativamente encurtado é preocupante. Pensemos o número de pequenos em atividades isoladas, ocupados com joguinhos de computador ou assistindo à TV. Nossas crianças convivem pouco com outras crianças e mesmo com a família, daí a expectativa elevada com as possibilidades do que a escola poderá oferecer para que possam ser tratados como pequenos adultos bem-sucedidos! Nossa opinião é de que essa escolha contém mais prejuízos do que benefícios.
As circunstâncias de escolarização e alfabetização devem decorrer de condições especialmente planejadas, considerando-se as complexidades envolvidas com o crescimento corporal, físico, psíquico, emocional, comportamental, social e cognitivo, em conjunto com a evolução da condição de motricidade grossa e fina, bem como das competências de representação mental. Tudo isso somado... não pode ser transformado num pacote de pretensões de adultos ansiosos, ávidos por despejar suas expectativas em seres indefesos, inocentes. É preciso pensar com seriedade no crescimento saudável de cada uma das crianças. Caberá aos profissionais competentemente preparados para esse exercício delicado, diário, a responsabilidade pelo acompanhamento e estimulação adequados ao processo de amadurecimento, e eventual início da fase de alfabetização.
É possível verificar o grau de satisfação e, por que não dizer, de felicidade que muitos indivíduos vivenciam, quando realizam escolhas ou desenvolvem adequadamente com competência e bom desempenho seus conhecimentos, aptidões e tendências para as atividades de estudo e de trabalho, na vida adulta. A maioria conheceu as letras aos 7; grande parte, aos 8 anos de idade! Afinal, desde remotas eras da escola peripatética [em que se ensina andando ou passeando, como era o costume do filósofo grego Aristóteles], superar ignorâncias, aprender e adquirir conhecimento por meio do contato com outras pessoas, de preferência com prazer, certamente favorecerá a criação de indivíduos dispostos a enfrentar, com naturalidade, os desafios que se apresentarem.
Chamava-se paidéia a educação plena do homem com amplo desenvolvimento das faculdades físicas e mentais, que lhe permitiam harmoniosa e profunda compreensão da cultura grega. O grande educador Paulo Freire, preocupado com a nossa paidéia, contava que foi alfabetizado tardiamente, na adolescência. Costumava valorizar esse retardo, considerando a importância de ter aprendido a experimentar, saborear e compreender o mundo... muito antes de ter-se iniciado na aquisição da leitura e escrita.
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Glória Maria Cordovani é Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo e leciona na Escola Vera Cruz, em São Paulo