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Teatro

Postado em 28/02/2008

REVISTA E - MARÇO 2008


• Fernanda Montenegro e Elísio de Albuquerque na primeira montagem de A Moratória, 1955


Um dos principais dramaturgos brasileiros de todos os tempos, Jorge Andrade é homenageado com a remontagem de seu clássico A Moratória




O dramaturgo Jorge Andrade
Mal sabia a atriz Cacilda Becker que, ao ser procurada por um jovem apaixonado por teatro - após uma sessão da peça O Anjo da Pedra, do norte-americano Tennessee Williams, encenada no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em 1951 -, ela seria responsável pelo surgimento de um dos mais consagrados dramaturgos brasileiros da história.

Seguindo os conselhos dados pela atriz, Aluísio Jorge Andrade Franco, mais conhecido como Jorge Andrade, matriculou-se na Escola de Arte Dramática (EAD), em São Paulo.

Dessa forma, iniciou a carreira, dedicada à elaboração de peças e novelas que retrataram de forma pioneira as transformações vividas pela sociedade brasileira dos anos 30 aos 70 - período em que a economia brasileira sofreu a transição entre o ciclo da agricultura cafeeira e o surgimento da indústria, até chegar à formação dos grandes centros urbanos.

"A dramaturgia de Jorge Andrade é a mais séria e profunda meditação que se fez sobre a história do Brasil em nosso teatro", escreveu o crítico Sábato Magaldi em texto que faz parte do CD-ROM Brasil em Foco (1998/1999), lançado pelo Ministério das Relações Exteriores.

Nascido no dia 21 de maio de 1922, na cidade paulista de Barretos, Andrade é o primogênito de Ignácio Lima Franco e Albertina Andrade Franco, filhos de importantes fazendeiros da região, e descende da família Junqueira, uma das maiores proprietárias de terras do estado na época. Durante a infância, foi criado em meio à prosperidade econômica de seus pais, cuja fortuna vinha do cultivo e da venda de café.

Nesse cenário, era comum que os filhos aprendessem a lida no campo para, mais tarde, assumirem os negócios dos pais. No entanto, o jovem Andrade era diferente dos outros rapazes bem-nascidos - para desgosto de Ignácio, com quem teve conflitos posteriormente relatados em algumas de suas peças, como A Moratória (1964), Rasto Atrás (1966) e O Sumidouro (1969).

"O esporte preferido da garotada [com quem o dramaturgo convivia quando criança] era laçar bezerros", relata o crítico e jornalista Delmiro Gonçalves no prefácio do livro-coletânea de textos de Andrade, Marta, a Árvore e o Relógio (Editora Perspectiva, 1970).
  Estréia de sucesso

Ainda nos tempos de calouro da EAD, Andrade escreveu a peça O Faqueiro de Prata (1951). No mesmo ano, veio O Telescópio (1951), com a qual ganhou o Prêmio Fábio Prado, destinado a autores iniciantes. Mas foi a partir de A Moratória (1954), encenada pela primeira vez no dia 6 de maio de 1955 no Teatro Maria Della Costa, em São Paulo, que ganhou fama e respeito [veja boxe Obra-prima revisitada, sobre a remontagem da peça]. O espetáculo narra os conflitos surgidos na família de Joaquim, um fazendeiro de café do interior paulista que perde suas propriedades em razão de dívidas contraídas com a crise no setor e deposita sua esperança de reconquistá-las em uma moratória a ser decretada pelo governo de Getúlio Vargas.

No texto está presente o cerne da obra de Andrade: a visão realista de um período importante da sociedade brasileira, intercalada com lembranças da vida em Barretos. "Joaquim é o processamento poético de uma forte imagem de sua infância, quando viu o avô perder as terras", explica Luiz Humberto Martins Arantes, professor da Universidade Federal de Uberlândia e autor da tese Teatro da Memória: História e Ficção na Dramaturgia de Jorge Andrade. "Nesse sentido, o dramaturgo cria uma amálgama de memória e história, de maneira que, quando lemos suas peças, acessamos não só a história de fatos e personagens políticos, mas somos colocados diante dos dramas 'privados', diante de sentimentos que não localizamos nos livros de história."

Em virtude do sucesso da montagem, Andrade ganhou, em 1956, uma bolsa do governo norte-americano para estudar teatro nos Estados Unidos. No mesmo ano, casou-se com Helena de Almeida Prado, com quem teve Gonçalo, Camila e Blandina. De volta ao Brasil, prosseguiu com sua atividade de autor, escrevendo alguns de seus trabalhos mais conhecidos, como Pedreira das Almas (1958) e Os Ossos do Barão (1963), considerada por muitos sua obra-prima. Paralelamente, trabalhou como professor em ginásios vocacionais de Barretos e São Paulo e, nos anos 60, na Universidade de São Paulo (USP).


  Mudanças na carreira

O golpe de 1964, que marcou o início da ditadura militar, trouxe muitos problemas para a classe teatral. Não foi diferente com Jorge Andrade, embora ele não tivesse fortes conexões com a militância política. Em cartaz no TBC no início desse período, Vereda da Salvação (1964) recebeu duras críticas e fracassou entre o público por denunciar as mazelas da população rural, tema "inadequado" para a época.

A despeito dos elogios dos críticos, a peça acabou sendo retirada de cartaz em pouco tempo, mas seguiu carreira no cinema, com a adaptação feita por Anselmo Duarte em 1965. Já as montagens de Senhora na Boca do Lixo (1966) e Milagre na Cela (1977) foram proibidas pela censura. Desgostoso com as dificuldades, deixou de escrever para o teatro. Voltou em 1966, produzindo Rasto Atrás, que venceu o Concurso do Serviço Nacional de Teatro.

À esquerda,os atores Ruth de Souza, Stênio Garcia, Cleyde Yáconis e Raul Cortez em Vereda da Salvação, de 1964, com direção de Antunes Filho
Dois anos depois, lançou A Receita e, em 1969, finalizou As Confrarias e O Sumidouro. No início dos anos 70, ganhou o Prêmio Molière por Marta, a Árvore e o Relógio, que reúne dez de suas principais peças e comentários de ensaístas como Antonio Candido e Anatol Rosenfeld.

Outras obras suas do período, como O Mundo Composto (1972), A Zebra (1978) e A Loba (1978), nunca foram encenadas profissionalmente. Enquanto ficou afastado da cena teatral, o escritor deu aulas e enveredou pelo jornalismo, realizando colaborações para as revistas Realidade e Visão - e, a partir de 1979, escreveu para o jornal Folha de S.Paulo. "Seu trabalho consistia em fazer entrevistas diferentes, aplicando seus dotes de dramaturgo para penetrar na alma humana e descobrir seus segredos", conta a professora Catarina Sant'Anna, da Universidade Federal da Bahia e autora de Metalinguagem e Teatro - a Obra de Jorge Andrade (EDUFMT, 1997).

"No romance autobiográfico Labirinto [Editora Paz e Terra, 1978], pode-se ver uma série dessas reportagens." Nessa fase, ocorreu uma reviravolta na carreira de Andrade, devido ao convite para dedicar-se a outra mídia, que considerava tão importante quanto o teatro: a televisão.

A produção tornou-se um enorme sucesso, sendo aclamada como um dos pontos altos da teledramaturgia brasileira. Até a década seguinte, Andrade escreveu várias outras tramas para a televisão, como Gaivotas (1979), da Tupi, e Ninho da Serpente (1982), da Bandeirantes. Nenhuma, porém, foi mais polêmica do que O Grito, exibida na Rede Globo em 1975.

Ambientada em São Paulo, a história fracassou entre a audiência, que a considerou "difícil", e causou protestos por mostrar a cidade de forma incomodamente realista. Ao longo de sua trajetória na televisão, o escritor acumulou mágoas e cansaço, acalentando em seus últimos anos de vida o sonho de abandoná-la para regressar a Barretos, onde trabalharia unicamente como professor e escritor de teatro. Suas aspirações, no entanto, não se concretizaram. No dia 13 de março de 1984, enquanto trabalhava na novela Sabor de Mel, da TV Bandeirantes, Andrade faleceu no Instituto do Coração, em São Paulo, aos 61 anos de idade, vítima de um edema pulmonar.•


Obra-prima revisitada

A saga da família rural chefiada por Joaquim está de volta aos palcos paulistanos. Depois da versão original - encenada no Teatro Maria Della Costa, em 1955, e que teve direção de Gianni Ratto e uma então desconhecida atriz carioca, Fernanda Montenegro, no terceiro trabalho em São Paulo - e uma montagem menos conhecida em 1976, com o próprio dramaturgo no elenco, é a vez de o Grupo Tapa (foto) mostrar sua leitura do grande clássico de Andrade.

O espetáculo foi apresentado no Sesc Santo André nos dias 16 e 17 de fevereiro, e seguiu para o Teatro Sesc Anchieta, na unidade Consolação, onde fica de 22 de fevereiro até 16 de março. Segundo o diretor da peça, Eduardo Tolentino de Araújo, o Tapa não pensou duas vezes antes de topar o desafio de colocar novamente em cartaz a peça. "A Moratória é um dos clássicos do teatro brasileiro moderno", afirma. "Além disso, seu autor precisa ser redescoberto, pois hoje há pouquíssimas montagens de suas obras."

Nessa nova roupagem, o grupo realizou algumas modificações em relação à versão original.

A idéia, segundo Tolentino, foi atualizar a estrutura do espetáculo, sem, claro, alterar a idéia original. "Há mudanças de abordagens, cenas e cortes que talvez não pudessem ser feitos na época", explica. "Estamos levando em conta a ação do tempo sobre a peça."

A leitura do Tapa para A Moratória traz Zecarlos Machado no papel de Joaquim e Lu Carion como a esposa do fazendeiro, Helena. Os filhos, Marcelo e Lucília, são interpretados respectivamente por Augusto Zacchi e Larissa Prado. O advogado Olímpio, noivo de Lucília, é vivido por Rodolfo Freitas, e Deborah Scavone encarna Elvira, irmã do protagonista. 


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