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Literatura

Postado em 14/03/2007

REVISTA E - PORTAL SESCSP

 

 

 

A poeta paulista Orides Fontela, apesar de uma vida pessoal conturbada, sobressaiu no mundo da literatura com uma poesia original, aguda e concisa

 

 

Os que acreditam que as poetas podem apresentar certa inclinação ao romantismo em sua produção se surpreenderiam ao deparar com a obra de Orides Fontela. Sua lírica não só ignora o amor, mas também foge do viés sentimental. Essa foi sua postura na obra e na vida. "Orides não suportava 'nhenhenhéns'", explica Ana Salomão, prima da autora morta em 1998, vítima da tuberculose. "Ela tinha pavor de coisas que eram 'muito femininas e muito bobinhas', como ela mesma dizia." Para o jornalista e também poeta Donizete Galvão, além de evitar deliberadamente essa temática, Orides empreendia uma busca incessante pela originalidade. "Eu a conheci em uma leitura que ela fez na extinta livraria Duas Cidades [na região central da cidade] em 1996", diz Galvão. "Fiquei surpreso porque ela lia os poemas de maneira bastante enfática e sem nenhum sentimentalismo." O jornalista diz ainda que depois que ambos começaram a manter contato, a poeta passou a lhe mostrar trabalhos. "Percebi que ela tinha uma preocupação muito grande em ser original, ela dizia sempre: 'Não copiei isso de ninguém'", afirma o jornalista.
Apesar de recorrer a símbolos comumente presentes nos trabalhos de outros poetas - como as flores, especialmente a rosa e os pássaros -, a poesia da autora mostra-se singular ao oferecer ao leitor, segundo dizem especialistas como Davi Arrigucci Jr., crítico e professor de literatura da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), um universo denso e rico nas possibilidades de leitura. "Ela tinha a capacidade de enxergar nas coisas concretas a dimensão que elas comportam no plano abstrato", analisa Arrigucci. "Trabalhava com tópicos da tradição moderna, mas estendia isso a variações inusitadas, o que dá força e singularidade a sua poética. Por exemplo: ela pega uma rosa, uma ponte ou um pássaro e explora isso com alto grau de penetração, dando uma visão renovada a esses tópicos." Ainda segundo o crítico, outra característica fundamental da obra oridiana é a concisão. "Há poemas de duas ou três linhas. Isso desde seu primeiro livro, Transposição (1969), cuja organização eu ajudei Orides a fazer. A concisão era total. Basta ler os poemas Rebeca ou Poema II", explica.
Para Arrigucci, Orides abolia de sua poesia tudo o que considerava desnecessário, abrindo espaços para um silêncio que "rodeava a palavra", segundo o professor. "E a palavra é feita também de silêncio. Essas duas formas [palavra e silêncio] estão lado a lado em sua poesia. Exemplo disso é Esfinge [do livro Rosácea]." O modo fragmentado com que Orides distribuía os versos na página mostra uma proximidade do movimento concretista, surgido em 1950, que rejeitava a abstração lírica em nome da racionalidade e primava por uma indistinção entre a forma e o conteúdo. "Há vários poemas da Orides que jogam com a divisão das palavras, com a disposição delas no espaço da página. Tudo isso demonstra a importância que tinha a visualidade, que tinha o espaço na página branca", afirma o crítico.

 

CARTA AO MESTRE
Orides Fontela tinha um árduo trabalho de lapidação de suas poesias. Um esforço que a colocava na mesma trincheira daqueles que, segundo escreveu certa vez o poeta Carlos Drummond de Andrade, se lançavam à "luta vã" contra as palavras. "Orides encarava a linguagem como uma luta. Assim como o mestre dela, Drummond", garante Arrigucci. "A presença desse poeta na poesia da Orides está na própria consciência da linguagem, na própria concepção da lírica como trabalho difícil." A poeta chegou a homenagear o mestre em alguns de seus trabalhos, como em CDA (imitado), do livro Rosácea, de 1986. O poeta mineiro ainda se fez presente em outra passagem da vida de Orides, quando, por volta dos 20 anos, ela escreveu uma carta ao mestre. "A Orides gostava muito do Drummond", revela Ana Salomão. "Uma vez ela mandou uma carta a ele com um poema chamado Partilha [também no livro Rosácea]. Ele respondeu que via nesse poema a marca de uma 'personalidade'. Ele respondeu muito bem, foi uma coisa muito positiva."
Um senso crítico aguçado, e muitas vezes até áspero, era uma de suas características. Certa vez, em uma entrevista concedida ao jornal paulistano Página Central, em julho de 1997 - uma de suas últimas antes de morrer -, afirmou que a situação da literatura da época era "bem ruinzinha". Disse ainda que preferia mesmo "os velhos, Drummond, Cabral e Bandeira". Os citados João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, além de Drummond, também marcaram seu trabalho. "No Manuel Bandeira ela aprendeu as palavras contadas, a precisão, a só dizer o essencial", explica Arrigucci. "O Bandeira foi o mestre absoluto da palavra essencial, e a Orides é uma poeta da palavra essencial. Já o João Cabral de Melo Neto influenciou sua obra com sua plasticidade verbal, com as grandes imagens que, de repente, redimem tanta secura e tanta dificuldade. Como todo poeta agudo e de consciência artesanal muito forte, ela aprendeu um pouco com tudo."

 

A ARTE DE RECORTAR AS PALAVRAS
Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu no dia 21 de abril de 1940, em São João da Boa Vista, no interior paulista, também terra natal da prima Ana Salomão e do crítico Davi Arrigucci Jr. Ana, um pouco mais velha que a prima poeta, conta que não era próxima de Orides na infância, mas já ouvia falar de suas "peripécias" mesmo antes de conviver com ela. "Na infância, não tive contato com ela. Ela estudava no colégio estadual e eu no colégio de freiras, mas minha irmã estudou na mesma escola que a Orides. A bibliotecária dessa escola contava que começou a perceber que algumas palavras dos livros estavam sendo cortadas. Depois de investigar, descobriu que era a Orides que recortava", diz Ana. "Ela fazia isso quando aparecia a palavra homem com um sentido de englobar tanto o homem quanto a mulher. Para esses casos, Orides achava que tinha de ser escrito 'ser humano'".
A poeta, que chegou a ser professora numa pré-escola da cidade, publicou seus primeiros poemas em dois pequenos jornais locais. Seu talento, no entanto, não demorou muito para encantar o crítico conterrâneo e ganhar destaque em um dos maiores jornais do país, O Estado de S.Paulo, no final da década de 60. "Percebi a qualidade de sua poesia através de um poema chamado Elegia I", lembra Arrigucci. "Então trouxe esse poema para São Paulo, o que intensificou sua consciência da diferença de classes. "Uma vez ofereci um figo a Orides, e ela o comeu com casca e tudo, sem lavar", conta a prima. "Então eu disse a ela que era bom lavar porque havia micróbios. Aí ela respondeu que 'micróbio era uma invenção burguesa', e que, se realmente tivesse micróbio, 'o azar seria dele'."
Entre os problemas enfrentados por Orides Fontela ao longo da vida, além da falta de dinheiro da qual reclamava com freqüência, o alcoolismo e o comportamento por vezes rude aumentaram o isolamento que pautou seus últimos anos. "Ela tinha essa coisa meio autodestrutiva, às vezes destruía até os laços afetivos", afirma o jornalista Donizete Galvão. "O que Orides tinha de caótico e de desorganizado na vida pessoal, tinha de clareza e refinamento em sua obra." Apesar da personalidade arredia, a poeta chegou a conviver com um bom número de figuras importantes da intelectualidade brasileira, como o crítico literário Antonio Candido e a filósofa Marilena Chauí, que reconheceram o valor de sua poesia de imediato. Por esse motivo, publicou seis livros em vida: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo (1988) e Teia (1996). Em decorrência da tuberculose, Orides Fontela morreu em novembro de 1998 em um sanatório de Campos do Jordão, região montanhosa no estado de São Paulo. "Fracasso em tudo, menos na literatura", afirmou na entrevista ao Página Central, em 1997. "Nesse campo eu consegui alguma coisa. A vida é muito estranha. Dá a impressão de que eu vim ao mundo só para fazer uns versinhos."

 

 

 

 

Ver boxe:

O que diz o silêncio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que diz o silêncio
Vida e obra da poeta Orides Fontela ganham destaque com nova edição
de seus poemas e com evento realizado pelo Sesc Santo André até abril

 

Escolhida como o melhor livro de poesia de 2006 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), a compilação Poesia Reunida (Cosac Naify), além de abrigar poemas lançados pela autora entre 1969 e 1996 em uma bem cuidada edição, contribuiu para trazer à tona o trabalho de uma poeta ainda pouco conhecida do grande público. O reconhecimento da APCA chamou a atenção da equipe de programação da unidade Santo André, que concebeu o evento A Poesia do Silêncio, em cartaz na unidade de 15 de março a 1º de abril. Composto de intervenções e instalações artísticas, espetáculo teatral e um encontro que refletirá sobre o trabalho de Orides, o projeto tem como principal objetivo lançar luz sobre a obra da poeta. "Pensamos nesse projeto tendo como mote a premiação do livro lançado pela Cosac Naify", explica Adolfo Mazzarini Filho, técnico da unidade do Sesc Santo André. "A intenção é tornar mais conhecida a obra e a pessoa da poeta."
Uma das oportunidades de entrar em contato com a obra de Orides será por meio do monólogo Aqui Aconteço, com a atriz Suia Legaspe (foto) e direção de Ary França. O espetáculo aborda o universo pessoal e literário da poeta tendo como base 47 de seus poemas, incluindo material ainda inédito. O próprio nome da peça é baseado nos versos que encerram a epígrafe do primeiro livro de Orides, Transposição (1969). A atriz conta que chegou a ficar ansiosa para saber se a autora aprovaria o resultado de seu trabalho. "Embora a Orides já tivesse morrido quando comecei a trabalhar, pensava se ela iria entrar no meio do espetáculo e parar tudo", conta Suia. "Um dia o Donizete Galvão, que era muito amigo dela, foi ver o espetáculo e me contou que os versos que encerram a peça são os mesmos que ele colocou no túmulo da Orides, 'o poeta é luz e se apaga', retirados do poema Anjo. Fiquei emocionada, às vezes surgem algumas coincidências que me fazem acreditar que estou agradando a autora."
Confira a programação completa no Em Cartaz desta edição.

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