A
poeta paulista Orides Fontela, apesar de uma vida pessoal conturbada,
sobressaiu no mundo da literatura com uma poesia original, aguda e concisa
Os que acreditam
que as poetas podem apresentar certa inclinação ao romantismo
em sua produção se surpreenderiam ao deparar com a obra
de Orides Fontela. Sua lírica não só ignora o amor,
mas também foge do viés sentimental. Essa foi sua postura
na obra e na vida. "Orides não suportava 'nhenhenhéns'",
explica Ana Salomão, prima da autora morta em 1998, vítima
da tuberculose. "Ela tinha pavor de coisas que eram 'muito femininas
e muito bobinhas', como ela mesma dizia." Para o jornalista e também
poeta Donizete Galvão, além de evitar deliberadamente
essa temática, Orides empreendia uma busca incessante pela originalidade.
"Eu a conheci em uma leitura que ela fez na extinta livraria Duas
Cidades [na região central da cidade] em 1996", diz Galvão.
"Fiquei surpreso porque ela lia os poemas de maneira bastante enfática
e sem nenhum sentimentalismo." O jornalista diz ainda que depois
que ambos começaram a manter contato, a poeta passou a lhe mostrar
trabalhos. "Percebi que ela tinha uma preocupação
muito grande em ser original, ela dizia sempre: 'Não copiei isso
de ninguém'", afirma o jornalista.
Apesar de recorrer a símbolos comumente presentes nos trabalhos
de outros poetas - como as flores, especialmente a rosa e os pássaros
-, a poesia da autora mostra-se singular ao oferecer ao leitor, segundo
dizem especialistas como Davi Arrigucci Jr., crítico e professor
de literatura da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
(FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), um universo denso
e rico nas possibilidades de leitura. "Ela tinha a capacidade de
enxergar nas coisas concretas a dimensão que elas comportam no
plano abstrato", analisa Arrigucci. "Trabalhava com tópicos
da tradição moderna, mas estendia isso a variações
inusitadas, o que dá força e singularidade a sua poética.
Por exemplo: ela pega uma rosa, uma ponte ou um pássaro e explora
isso com alto grau de penetração, dando uma visão
renovada a esses tópicos." Ainda segundo o crítico,
outra característica fundamental da obra oridiana é a
concisão. "Há poemas de duas ou três linhas.
Isso desde seu primeiro livro, Transposição (1969), cuja
organização eu ajudei Orides a fazer. A concisão
era total. Basta ler os poemas Rebeca ou Poema II", explica.
Para Arrigucci, Orides abolia de sua poesia tudo o que considerava desnecessário,
abrindo espaços para um silêncio que "rodeava a palavra",
segundo o professor. "E a palavra é feita também
de silêncio. Essas duas formas [palavra e silêncio] estão
lado a lado em sua poesia. Exemplo disso é Esfinge [do livro
Rosácea]." O modo fragmentado com que Orides distribuía
os versos na página mostra uma proximidade do movimento concretista,
surgido em 1950, que rejeitava a abstração lírica
em nome da racionalidade e primava por uma indistinção
entre a forma e o conteúdo. "Há vários poemas
da Orides que jogam com a divisão das palavras, com a disposição
delas no espaço da página. Tudo isso demonstra a importância
que tinha a visualidade, que tinha o espaço na página
branca", afirma o crítico.
CARTA
AO MESTRE
Orides Fontela tinha um árduo trabalho de lapidação
de suas poesias. Um esforço que a colocava na mesma trincheira
daqueles que, segundo escreveu certa vez o poeta Carlos Drummond de
Andrade, se lançavam à "luta vã" contra
as palavras. "Orides encarava a linguagem como uma luta. Assim
como o mestre dela, Drummond", garante Arrigucci. "A presença
desse poeta na poesia da Orides está na própria consciência
da linguagem, na própria concepção da lírica
como trabalho difícil." A poeta chegou a homenagear o mestre
em alguns de seus trabalhos, como em CDA (imitado), do livro Rosácea,
de 1986. O poeta mineiro ainda se fez presente em outra passagem da
vida de Orides, quando, por volta dos 20 anos, ela escreveu uma carta
ao mestre. "A Orides gostava muito do Drummond", revela Ana
Salomão. "Uma vez ela mandou uma carta a ele com um poema
chamado Partilha [também no livro Rosácea]. Ele respondeu
que via nesse poema a marca de uma 'personalidade'. Ele respondeu muito
bem, foi uma coisa muito positiva."
Um senso crítico aguçado, e muitas vezes até áspero,
era uma de suas características. Certa vez, em uma entrevista
concedida ao jornal paulistano Página Central, em julho de 1997
- uma de suas últimas antes de morrer -, afirmou que a situação
da literatura da época era "bem ruinzinha". Disse ainda
que preferia mesmo "os velhos, Drummond, Cabral e Bandeira".
Os citados João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, além
de Drummond, também marcaram seu trabalho. "No Manuel Bandeira
ela aprendeu as palavras contadas, a precisão, a só dizer
o essencial", explica Arrigucci. "O Bandeira foi o mestre
absoluto da palavra essencial, e a Orides é uma poeta da palavra
essencial. Já o João Cabral de Melo Neto influenciou sua
obra com sua plasticidade verbal, com as grandes imagens que, de repente,
redimem tanta secura e tanta dificuldade. Como todo poeta agudo e de
consciência artesanal muito forte, ela aprendeu um pouco com tudo."
A
ARTE DE RECORTAR AS PALAVRAS
Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu no dia 21 de abril de 1940,
em São João da Boa Vista, no interior paulista, também
terra natal da prima Ana Salomão e do crítico Davi Arrigucci
Jr. Ana, um pouco mais velha que a prima poeta, conta que não
era próxima de Orides na infância, mas já ouvia
falar de suas "peripécias" mesmo antes de conviver
com ela. "Na infância, não tive contato com ela. Ela
estudava no colégio estadual e eu no colégio de freiras,
mas minha irmã estudou na mesma escola que a Orides. A bibliotecária
dessa escola contava que começou a perceber que algumas palavras
dos livros estavam sendo cortadas. Depois de investigar, descobriu que
era a Orides que recortava", diz Ana. "Ela fazia isso quando
aparecia a palavra homem com um sentido de englobar tanto o homem quanto
a mulher. Para esses casos, Orides achava que tinha de ser escrito 'ser
humano'".
A poeta, que chegou a ser professora numa pré-escola da cidade,
publicou seus primeiros poemas em dois pequenos jornais locais. Seu
talento, no entanto, não demorou muito para encantar o crítico
conterrâneo e ganhar destaque em um dos maiores jornais do país,
O Estado de S.Paulo, no final da década de 60. "Percebi
a qualidade de sua poesia através de um poema chamado Elegia
I", lembra Arrigucci. "Então trouxe esse poema para
São Paulo, o que intensificou sua consciência da diferença
de classes. "Uma vez ofereci um figo a Orides, e ela o comeu com
casca e tudo, sem lavar", conta a prima. "Então eu
disse a ela que era bom lavar porque havia micróbios. Aí
ela respondeu que 'micróbio era uma invenção burguesa',
e que, se realmente tivesse micróbio, 'o azar seria dele'."
Entre
os problemas enfrentados por Orides Fontela ao longo da vida, além
da falta de dinheiro da qual reclamava com freqüência, o
alcoolismo e o comportamento por vezes rude aumentaram o isolamento
que pautou seus últimos anos. "Ela tinha essa coisa meio
autodestrutiva, às vezes destruía até os laços
afetivos", afirma o jornalista Donizete Galvão. "O
que Orides tinha de caótico e de desorganizado na vida pessoal,
tinha de clareza e refinamento em sua obra." Apesar da personalidade
arredia, a poeta chegou a conviver com um bom número de figuras
importantes da intelectualidade brasileira, como o crítico literário
Antonio Candido e a filósofa Marilena Chauí, que reconheceram
o valor de sua poesia de imediato. Por esse motivo, publicou seis livros
em vida: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983),
Rosácea (1986), Trevo (1988) e Teia (1996). Em decorrência
da tuberculose, Orides Fontela morreu em novembro de 1998 em um sanatório
de Campos do Jordão, região montanhosa no estado de São
Paulo. "Fracasso em tudo, menos na literatura", afirmou na
entrevista ao Página Central, em 1997. "Nesse campo eu consegui
alguma coisa. A vida é muito estranha. Dá a impressão
de que eu vim ao mundo só para fazer uns versinhos."
Ver boxe:
O
que diz o silêncio
O
que diz o silêncio
Vida e obra da poeta Orides Fontela ganham destaque com
nova edição
de seus poemas e com evento realizado pelo Sesc Santo André
até abril
Escolhida
como o melhor livro de poesia de 2006 pela Associação
Paulista de Críticos de Arte (APCA), a compilação
Poesia Reunida (Cosac Naify), além de abrigar poemas
lançados pela autora entre 1969 e 1996 em uma bem cuidada
edição, contribuiu para trazer à tona o
trabalho de uma poeta ainda pouco conhecida do grande público.
O reconhecimento da APCA chamou a atenção da equipe
de programação da unidade Santo André,
que concebeu o evento A Poesia do Silêncio, em cartaz
na unidade de 15 de março a 1º de abril. Composto
de intervenções e instalações artísticas,
espetáculo teatral e um encontro que refletirá
sobre o trabalho de Orides, o projeto tem como principal objetivo
lançar luz sobre a obra da poeta. "Pensamos nesse
projeto tendo como mote a premiação do livro lançado
pela Cosac Naify", explica Adolfo Mazzarini Filho, técnico
da unidade do Sesc Santo André. "A intenção
é tornar mais conhecida a obra e a pessoa da poeta."
Uma das oportunidades de entrar em contato com a obra de Orides
será por meio do monólogo Aqui Aconteço,
com a atriz Suia Legaspe (foto) e direção de Ary
França. O espetáculo aborda o universo pessoal
e literário da poeta tendo como base 47 de seus poemas,
incluindo material ainda inédito. O próprio nome
da peça é baseado nos versos que encerram a epígrafe
do primeiro livro de Orides, Transposição (1969).
A atriz conta que chegou a ficar ansiosa para saber se a autora
aprovaria o resultado de seu trabalho. "Embora a Orides
já tivesse morrido quando comecei a trabalhar, pensava
se ela iria entrar no meio do espetáculo e parar tudo",
conta Suia. "Um dia o Donizete Galvão, que era muito
amigo dela, foi ver o espetáculo e me contou que os versos
que encerram a peça são os mesmos que ele colocou
no túmulo da Orides, 'o poeta é luz e se apaga',
retirados do poema Anjo. Fiquei emocionada, às vezes
surgem algumas coincidências que me fazem acreditar que
estou agradando a autora."
Confira a programação completa no Em Cartaz desta
edição.
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