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Teatro

Postado em 06/08/2007

REVISTA E - PORTAL SESCSPUntitled Document

 

EXERCÍCIO DA DESCONSTRUÇÃO

 

Medula de toda produção teatral, a dramaturgia atravessa o tempo dando a grupos e encenadores a deixa para criar novos estilos

 


Mais uma montagem teatral da obra do dramaturgo inglês William Shakespeare. O texto dessa vez é Hamlet, saga do atormentado príncipe dinamarquês que se vê diante da morte do pai e da suspeita sobre a mãe. Uma tragédia daquelas. Densa, soturna, perturbadora. Só que, no palco, o clima não se apóia em uma ambientação condizente com a Dinamarca de 1600 - ano em que se passa a história -, tampouco mostra elaboradas roupas de época e menos ainda diálogos seguindo o texto original. Onde está William Shakespeare? "A trama básica está presente, mas queremos aproximar a peça da nossa realidade", responde o ator e diretor Enrique Diaz, diretor de Ensaio.Hamlet, de 2004. "Nem sempre encontro nas montagens de Hamlet elementos que possam ser reveladores das questões do homem de hoje." Não se trata de uma versão moderna de Shakespeare, um Hamlet de jeans. Mais um estudo - um ensaio, daí o título - do que uma montagem, Ensaio.Hamlet representa um tipo de trabalho teatral que busca formas paralelas às da original para abordar o tema de uma peça - seja ela um clássico, seja um texto inédito. "Uma nova maneira de criar", como define o crítico de teatro Sebastião Milaré, que explica ainda a diferença entre adaptar uma obra e explorar sua dramaturgia: "Quando você adapta, você pega um gênero literário - um romance ou um conto - e passa para outro gênero, que é a peça teatral", explica Milaré. "Há casos também em que a própria peça teatral é adaptada, sofre um ajuste para o elenco que a vai montar, por exemplo. Já no caso da dramaturgia, o encenador trabalha os fundamentos da obra, ele entra na criação do poeta, se arma de um arsenal de conhecimento para poder trabalhar a raiz dessa dramaturgia, e transformá-la lá na raiz."
Quase sempre esse processo é fruto do diálogo com os atores. No entanto, há casos que deixam transparecer a mão do encenador. É assim no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), de Antunes Filho, no Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa, e nos espetáculos de Ulisses Cruz e Gerald Thomas, para citar alguns exemplos. "Em A Pedra do Reino, de Antunes (2007), por exemplo, foi feita a adaptação da obra literária de Ariano Suassuna", conta Milaré. "Mas além dela há todo um trabalho de dramaturgia que transforma, que consegue trazer o universo do Ariano para a cena em elementos muito simples, muito singelos. Isso é criação, é ir lá na fonte, beber com o poeta e transformar isso numa imagem cênica."

 

 

 

 

Processo colaborativo
Há formas de trabalho em que a dramaturgia surge da criação coletiva. Assim é com os paulistas Cia. Livre, Os Satyros e Teatro da Vertigem; com os cariocas Cia. dos Atores e Armazém de Teatro; com os paranaenses Cemitério de Automóveis e Ateliê de Criação Teatral (ACT); e com o paraibano Grupo Piolim. "Quando montamos Daqui a Duzentos Anos, optamos por desenvolver um trabalho com os contos de Anton Tchecov [dramaturgo russo] depois de mais de seis meses de pesquisa", conta o ator Luís Melo, coordenador do ACT, falando do espetáculo de 2004 encenado em São Paulo no Sesc Belenzinho. "Esse foi o formato por meio do qual iniciamos nosso exercício de dramaturgia. Ou seja, exercitamos os personagens e as situações dramáticas até conseguirmos atingir a simplicidade que queríamos para as cenas." A pesquisa também foi o caminho escolhido pela Cia. Livre para moldar a dramaturgia de Vem Vai - O Caminho dos Mortos, que ficou em cartaz até dia 27 de julho na unidade provisória Avenida Paulista. Assim como foi em Arena Conta Danton, peça que o grupo encenou no Teatro de Arena, em 2004, a dramaturgia de Vem Vai calca-se num processo colaborativo. "Antes de o Newton Moreno [que assina formalmente a dramaturgia] chegar, foram dez meses de pesquisas, estudos e deglutição de um vasto material que a gente tinha", conta a diretora Cibele Forjaz. O processo incluiu interpretações cênicas do que era estudado. "Nós fazíamos as cenas, mas não pensando em apresentá-las", conta Lúcia Romano, atriz do time dos "atores-criadores", designação dada aos integrantes do grupo no programa da peça. "Nós somos atores, era o nosso jeito de estudar", complementa Cibele.
A doutora em teatro pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Maria Lúcia Candeias afirma que "a riqueza" da dramaturgia garante seu lugar na base sustentadora de qualquer espetáculo. "Sou daquelas pessoas que acreditam que mesmo num teatro sem palavras há uma dramaturgia", afirma. "Uma dramaturgia moderna que às vezes gira em torno de um tema ou dois, mas que, de modo geral, tem sido apresentada no nosso teatro de várias formas." Entre os exemplos, Maria Lúcia destaca Arena Canta Danton, Ensaio.Hamlet e Gaivota - Tema para Um Conto Curto, também com direção de Enrique Diaz e criação da Cia. dos Atores, que esteve no Sesc Pinheiros até 15 de julho. "Reunir um time de atores e diretores vai ao encontro da proposta de colaboratividade do projeto", afirma Diaz sobre Gaivota. "São olhares diversos que contribuíram para uma releitura contemporânea de um texto-pilar da dramaturgia [A Gaivota, de Anton Tchecov]".

 

 

Sem verborragia
No caso do CPT, que Antunes Filho coordena no Sesc Consolação desde 1982, são marca registrada as versões particulares do encenador - como Medéia (2001), criada com base na tragédia grega homônima do dramaturgo grego Eurípedes, e a recente A Pedra do Reino -, mas a produção do núcleo também reserva espaço para novos nomes - como foi com Paulo Santoro, novato de cujo texto Antunes montou O Canto de Gregório, em 2004, e como tem sido com o projeto Prêt-à-Porter, no qual os atores são responsáveis por toda a dramaturgia da série de espetáculos que se encontra em sua oitava versão. "Houve uma época em que a gente pirou com os textos e escrevia coisas que nem cabiam na boca, palavras impossíveis", conta Emerson Danesi, ator do CPT que está em Prêt-à-Porter 8, em cartaz até 25 de agosto no Sesc Consolação. "Mas com o tempo a gente foi entendendo que para ter poesia e qualidade no texto não é necessário verborragia." Antunes Filho tem apreço por esse método de trabalhar. Não raro, o encenador afirma que sem Prêt-à-Porter não faria o teatro que faz hoje. "Eu não teria feito Medéia, por exemplo", diz. E arremata: "Eu quero que surja entre meus atores um dramaturgo no nível aproximado de Nelson Rodrigues".

 

 

Retorno aos mestres
No entanto, essa dramaturgia moderna não é exatamente nova. "Os valores dramatúrgicos são os mesmos de sempre", afirma Sebastião Milaré. "São coisas que estão mais ou menos convencionadas e que permanecem iguais. Agora, é claro que no andar da carruagem a própria dramaturgia vai se desenvolvendo, abrindo campos, novas maneiras de enfocar os velhos assuntos e tudo mais." O que pode servir como característica comum da produção atual é o que Maria Lúcia Candeias chama de uma "retomada das formas anteriores de criação". Um retorno a mestres como Beckett e Tchecov, mas não somente a seus textos, também a seus métodos de trabalho. "Tchecov, no século 19, resolveu focar em personagens que se caracterizavam mais por timidez e inação, e Beckett radicalizou muito mais a inação, já que nunca acreditou na comunicação verdadeira entre dois seres humanos, tampouco na própria utilidade das ações." Segundo a professora, a ancestralidade desse método passa ainda pela intelectualidade francesa da metade do século 20, mais especificamente pela figura do filósofo Jacques Derrida (1930-2004), que "exerceu influência na desconstrução das artes", outra característica dessa dramaturgia de investigação. "Não é à toa que pintores como Picasso tentaram fragmentar o real através em seus quadros", explica a especialista. "São essas as fontes dessa dramaturgia que teve sua primeira criação coletiva com Oh, Que Delícia de Guerra! (1966), de Joan Littlewood [diretora de teatro inglesa]. Sem falar nos grupos americanos como o Living Theater".
O crítico Sebastião Milaré conclui explicando que, na América Latina, o pioneirismo partiu da Colômbia. "A criação coletiva começou a ser mais sistematizada por Henrique Buenaventura e por Santiago Garcia - em dois grupos, o primeiro era o Teatro Experimental de Cali e o segundo era La Candelaria", conta. "Foi com eles que a criação coletiva passou a ser utilizada como um instrumento a mais para um grupo de teatro que quisesse trabalhar sua própria dramaturgia."

 

 

Ver Boxes:

Dramaturgia na tela
Outros palcos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Dramaturgia na tela

Projeto do SescTV e TV Cultura cria espaço de experimentação para o teleteatro

 

Iniciado no mês de julho, o projeto Direções - Um Novo Olhar na Teledramaturgia, série de teleteatros que tem orientação artística de Antunes Filho, foi criado com o intuito de renovar a linguagem dramatúrgica da TV. Para isso, reuniu conceituados encenadores de São Paulo, encarregados de unir as linguagens do teatro e da televisão em programas que, durante o mês de julho, foram ao ar aos sábados, às 23 horas, em ambos os canais. A grade de agosto marca o final da primeira fase do projeto que visa a testar o protótipo do programa. "Se a formação no país fosse melhor, aumentaria o nível de exigência", afirma o diretor Marco Antônio Braz, que adaptou Quando as Máquinas Param, de Plínio Marcos. "Daí a importância desse espaço livre para a experimentação, para o olhar agudo sobre a realidade de um Plínio Marcos, para uma outra formulação artística sem a padronização das novelas." O diretor André Garolli - que dirigiu e adaptou Pária, do dramaturgo sueco August Strindberg - enxerga o valor da teledramaturgia, mas lamenta também que ela tenha se restringido ao formato das telenovelas. "O que faltava era espaço para veicular peças [de teatro] na televisão", afirma. "É uma oportunidade única, pois não temos de nos preocupar com o retorno do Ibope." Confira horários e sinopses:

 

 

 

Pária, de August Strindberg
Adaptação e direção: Eduardo Tolentino de Araújo
Sinopse: num diálogo sem interrupções, dois homens revelam um passado de crimes que ficaram impunes e confrontam a sua conduta num duelo intelectual.
Quando: dia 4, às 23 horas, no SescTV

 

 

 

 

 

Quando as Máquinas Param, de Plínio Marcos
Adaptação e direção: Marco Antônio Braz
Sinopse: cinco quadros representam cinco dias na vida do casal Zé e Nina, um desempregado e uma dona de casa que tentam sobreviver na dura realidade econômica e social na qual estão inseridos.
Quando: dia 5, às 21 horas, na TV Cultura, e dia 11, às 23 horas, no SescTV

 

 

 

 

 

Zona de Guerra, de Eugene O'Neill
Adaptação e direção: André Garolli
Sinopse: um jovem se emprega num cargueiro inglês que contrabandeia munição durante a Primeira Guerra Mundial. A partir de uma desconfiança gerada por uma caixa preta em poder do rapaz, a tripulação suspeita que ele seja um espião a serviço dos alemães.
Quando: dia 12, às 21 horas, na TV Cultura, e dia 18, às 23 horas, no SescTV

 

 

 

 

 

Homeless, de Noemi Marinho
Adaptação: Noemi Marinho
Direção: Francisco Medeiros
Sinopse: por meio de personagens que representam tipos - como o velho, o jovem e o travesti -, o texto fala de como a classe média "expulsa do paraíso" tem de lidar com a realidade das ruas da cidade.
Quando: dia 19, às 21 horas, na TV Cultura, e dia 25, às 23 horas, no SescTV

 

 

 

 

 

Serviço:
O SescTV pode ser sintonizado pelos canais 211 da DirectTV; 3 da Sky; 10 da TecSat; e 92 da NET Digital. Para maiores informações consulte o site www.sesctv.org.br

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Outros palcos

Grupos e encenadores que formaram a rede teatral da segunda metade do século 20

 

Anos 60 - Experimentalismo na dramaturgia e resistência política são duas das principais marcas do teatro produzido no Brasil na era pós-Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), este um ícone do teatro tradicional no Brasil. Grupos como o Teatro de Arena e o Teatro Oficina são grandes exemplos. "As coisas do Arena, por exemplo, vão resultar em todo o trabalho do Augusto Boal e em obras como Arena Canta Zumbi [musical escrito por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal em 1965]", esclarece o crítico Sebastião Milaré. "Já o Zé Celso, do Oficina, fez o Rei da Vela [a partir de peça homônima de Oswald de Andrade], e depois todo o trabalho sobre Brecht [Bertolt Brecht, dramaturgo alemão]. Tudo era uma belíssima experimentação."

 

 

 

Anos 70 - Atuante no Rio de Janeiro desde 1974, o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone chegou a São Paulo em 1978, com o espetáculo Trate-me Leão - síntese da cena da época. "Os 'asdrúbals' mostravam um trabalho sobre o cotidiano da geração que completava 20 anos na década de 70", escreve a doutora em teatro pela Universidade de São Paulo (USP) Silvia Fernandes em Grupos Teatrais - Anos 70 (Editora da Unicamp, 2000). "Invadiam a cena com temática, personagens e modo de representar que definiam novas colocações diante de questões como política, sexo, drogas, prazer e teatro."

 

 

 

Anos 80 - Tido como um dos grupos que prepararam o terreno para o pessoal da década de 90, o Mambembe surgiu como uma luz no fim de um túnel cheio de jovens criadores "muito perdidos", de acordo com o crítico Sebastião Milaré. Além do Mambembe, outro importante núcleo teatral marcou a cena da época, o Grupo Pau Brasil, de Antunes Filho, que, depois de se tornar Grupo de Teatro Macunaíma - por conta do sucesso do espetáculo homônimo apresentado em 1978 (foto) -, se instala em 1982 no Sesc Consolação. É criado então o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), do Sesc São Paulo.

 

 

 

Anos 90 - Dos muitos grupos surgidos durante a década de 90, dois conquistaram lugar cativo na cena do teatro contemporâneo. Um deles é o Teatro da Vertigem, com suas apresentações em espaços não convencionais, como hospitais, igrejas e presídios. "Eles deram característica à pesquisa de transformar o próprio espaço em um personagem", afirma o crítico Sebastião Milaré. O outro, Os Satyros, que usam a própria localização, a Praça Roosevelt, na região central de São Paulo, como fermento em sua dramaturgia. Exemplo é Transsex (2004), primeira parte da Trilogia da Praça Roosevelt, que trata do cotidiano dos moradores transexuais da praça (foto).

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